POEMA ALGUM: QUANDO A POESIA SE FAZ VIDA E HISTÓRIA
Poema Algum, primeiro livro solo de Carlos Eduardo Carneiro, é mais que uma estreia literária: é um gesto histórico. Em meio à dispersão formal e ao intimismo despolitizado que marcam parte da literatura brasileira contemporânea, a obra reafirma a poesia como trabalho, como consciência e como compromisso com o tempo presente.
A poética de Poema Algum distingue-se pelo rigor formal aliado à linguagem popular, pela recusa da autoajuda e da superficialidade, e pela coragem de tratar, sem eufemismos, do cotidiano do povo brasileiro, da exploração de classe, do imperialismo, do trabalho, da cidade, da natureza e da revolução. Cada poema é “tijolo exato”: construído com consciência de forma e de conteúdo.
O livro é ilustrado e colorido com desenhos de sua filha, falecida em 2023, aos 11 anos. A obra traz ainda uma seção final com poemas da pequena comunista que nos deixou, ampliando sua força sensível e atravessando todo o conjunto como memória viva, ternura e horizonte. A homenagem não se encerra no intimismo subjetivista: transforma a dor em elaboração estética e afirmação da vida.
Num país marcado pela violência social e pela decadência cultural, a obra recoloca a literatura no centro da disputa simbólica. Sensível sem ser conciliadora, humana sem ser neutra, Poema Algum reafirma que poesia deve ser beleza — e também tomada de posição.
Carlos Eduardo Carneiro (1982), militante socialista desde os anos 90, hoje é alfabetizador em Campinas-SP. Tem poemas e textos teóricos publicados em coletâneas, revistas e jornais. Realizou saraus, aulas públicas e palestras. Para mais informações: pelo e-mail prof.ducarneiro@gmail.com ou perfil nas redes sociais @carneiro.du
ABRAÇOS D`ÁGUA
Quando aparenta tranquilo,
se agita o que não está à vista,
seja oceano, rio giganteou o mundo capitalista.
1.
Repleto abraçar do oceano,
longos braços continentais
abraçam homens e baleia
sem correntezas abissais.
Água abraça por completo
navios e submarinos;
em alto mar sem piedade
aviões que caem repentinos.
O abraço d’água é completo:
nem mesmo a luz da estrela
que abraça nosso planeta
toca locais que a água chega.
D’água é o abraço por completo
d’oceano em volta da rede
d’um pesqueiro que, automático,
abraça e sufoca os peixes.
2.
Camarada Yuri Gagarin,
primeiro homem espacial,
confirmou que Deus não existe
e co-versou com João Cabral:
Águas que pairam pesadas,
há quilômetros do chão,
fazem do planeta Terra
azulada luz-balão.
Volumosas correntezas
sobrevoam nossas cabeça
sem atmosféricas camadas
que abraçam todo o planeta.
Correntes do gira mundo
de colossais enxurradas,
precipitam-se violenta
se arrastam carros e casas.
3.
A água não se deixa reter,
sempre tem a gota d’água.
Assim o corpo humano,
que é setenta por cento água.
Gota que transborda o corpo.
Tempestade num corpo d’água.
Corpo meio cheio, meio vazio…
corpo que sozinho é nada.
Corpo coletivo, povo
na rua, qual inundação:
braços que tomam dos ricos – abraço revolução.
O abraço da tromba d’água
que abraça, que mata e lava
é sempre abraço completo,
como todo abraço d’água.
Liga Comunista Brasileira – LCB
24 de fevereiro de 2026