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STÁLIN: Um Breve Registro Biográfico 1879-1917 Parte 1

74 Anos Sem o Camarada Stálin

  1. O Enigma do Nascimento

Na pequena cidade de Gori, entre os gélidos dias de 6 a 21 de dezembro de 1878 ou 1879, nasceu um menino de origem camponesa, que trazia consigo nos olhos a dureza da vida camponesa sob o czarismo, sistema definido por Engels como “o baluarte da reação europeia”[1]. O jovem foi batizado com o nome de Ióssif Vissarionovich Djugashvili, filho de uma família pobre da província de Tiflis Governorate — terra onde o pão era escasso, o trabalho pesado e o poder eram distantes, vestidos com o uniforme dos funcionários do czar, o imperador de um vasto território semifeudal.

Durante muitos anos, nos livros impressos pelo Estado soviético e nas comemorações que reuniam operários na Rússia já revolucionária, soldados e estudantes nas praças das cidades, repetia-se uma data para o nascimento do homem de aço (Significado da palavra Stálin): 21 de dezembro de 1879. Era o dia consagrado como o nascimento de Ióssif para fins comemorativos. Assim, aparecia nos calendários do novo poder, adotado depois que o velho mundo do czar fora derrubado pela força organizada das massas liderados pelos bolcheviques. A título de exemplo, vejamos a biografia oficial editada pelo instituto MARX, ENGELS, LÊNIN e STÁLIN de Moscou:

JOSEF STALIN (DJUGASHVILI) nasceu em 21 de dezembro de 1879, na cidade de Gori, província de Tíflis. Seu pai, Vissarion Djugashvili, era um georgiano de origem camponesa da aldeia de Didi-Lilo, na mesma província; trabalhou como sapateiro autônomo e, posteriormente, como operário na Fábrica de Calçados Adelkhanov, em Tíflis. Sua mãe, Ekaterina, era filha de um camponês servo chamado Geladze, da aldeia de Gambareuli[2].

Mas, os registros gerais divergem e a não se chega a um consenso quanto a esta questão, os velhos livros da igreja, aqueles volumes pesados nas paróquias do Cáucaso, registravam uma data distinta. Nos registros amarelados da pequena Gori aparece a data: 6 de dezembro de 1878. Ali, com tinta escura e caligrafia firme, um sacerdote registrou o nascimento de uma criança do povo que, anos depois, ecoaria em fábricas, quartéis e assembleias, tornando-se uma figura central e indissociável da história mundial.

“Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, mais tarde Stálin, nasceu em Gori, Geórgia, uma área cristã antiga e estabelecida na região da Transcaucásia do antigo Império Russo, em 6 de dezembro de 1878 e foi batizado onze dias depois. Este fato simples não era amplamente conhecido até bem recentemente. De acordo com as biografias oficiais soviéticas, sua data de nascimento era 9 (21 de acordo com o Novo Calendário adotado após a Revolução Russa de 1917) de dezembro de 1879. (…) Qual era o propósito desta desinformação? Stálin é conhecido por ter oferecido diferentes datas de nascimento em diferentes ocasiões. Talvez ele quisesse apresentar-se como mais jovem do que era: 1879 tê-lo-ia feito…[3]

“A família de três pessoas alugou uma pequena casa de madeira e tijolo, com um único cômodo, de um artesão ossétio. Localizava-se no bairro russo de Góri, perto dos quartéis das tropas imperiais, cujos calçados Bessó fazia. De apenas oito metros quadrados, a estrutura tinha uma mesa e quatro bancos, uma cama de tábua, um samovar, um baú e uma lâmpada de querosene. Roupas e outros pertences eram colocados em prateleiras abertas. Mas tinha um porão, onde se chegava por uma escada em caracol, e era ali que Bessó guardava suas ferramentas e abriu sua oficina, e ali Keké fez um berçário para Sossó. Em outras palavras, a vida de Stálin começou em um porão. [4]

“Cercada de montanhas… que se tornaria conhecida no século XX graças a um robusto caucasiano ali nascido em 6 de dezembro de 1878 e batizado no dia 17 do mesmo mês (no início de sua carreira de revolucionário profissional, ele mudará a data de nascimento, declarando 21 de dezembro de 1879 à polícia).”[5].

Tal divergência nos registros e datas não nasceram aleatoriamente. No duro, árduo e sangrento período em que jovens revolucionários viveram entre tipografias clandestinas, encontros secretos e perseguições policiais do regime czarista, a própria identidade podia se tornar uma arma de combate contra o movimento revolucionário ou a favor. Mudar um ano, confundir um registro, parecer mais jovem diante dos olhos da polícia — tudo isso fazia parte da dura disciplina da vida conspirativa que alimentava o movimento revolucionário.

Naquela época os czares perseguiam os militantes como se caça animais. Estudantes, operários e agitadores eram presos, deportados ou empurrados para o exílio frio da Sibéria. Nesse meio, proteger a própria trajetória, e a própria identidade, era essencialmente proteger o trabalho coletivo — as reuniões, as panfletagens, a organização paciente da classe trabalhadora, os jornais etc.

Deste modo difícil e sombrio, até mesmo a data de nascimento carregava o peso da luta. A identidade civil estava longe de ser apenas uma linha em um registro, como o é normalmente. A identidade era parte de um pequeno reflexo da guerra encarniçada que se travava nas sombras e no silêncio entre o velho império e aqueles que preparavam, com paciência e disciplina, o despertar das massas e o surgimento de um novo poder. Vejamos como a própria força policial czarista classificava o futuro Stálin:

O futuro Stálin, então com 27 anos, era assim descrito em um relatório da polícia tsarista (1o de maio de 1904):

Djugachvíli, Ióssif Vissariónovitch: [estatuto legal de] camponês da aldeia de Didi Liló, condado de Tíflis, província de Tíflis; nascido em 1881 de fé ortodoxa, frequentou a escola religiosa de Góri e o seminário teológico de Tíflis; solteiro. Pai, Vissarion, paradeiro desconhecido. Mãe, Ekaterina, residente na cidade de Góri, província de Tíflis. […] Descrição: altura, 2 archins, 4,5 verchki [cerca de 1,65 metro), compleição média; tem a aparência de uma pessoa comum.119

Embora sua data de nascimento (1878) e altura (1,68 metro) não tenham sido corretamente registradas, essa “pessoa comum”, exatamente por causa de suas atividades políticas, foi liberada do serviço militar — e como resultado pôde se posicionar bem no meio do levante de 1905. [6]

O historiador J. Arch Getty observa que a infância de Stálin aparece nas fontes quase como um “espaço em branco”. Segundo ele, tudo o que pode ser afirmado com relativa segurança sobre os pais e os primeiros anos do menino ocupa pouco mais que um parágrafo nos registros disponíveis.

Stalin governou a maior nação do planeta durante um quarto do século XX, sendo, talvez, a figura central de sua era. No entanto, praticamente nada sabemos sobre ele. Sua infância é uma lacuna; as informações concretas sobre seus pais não preenchem sequer um parágrafo. Sua adolescência é igualmente obscura, assim como o início de sua carreira política. Apenas testemunhos ocasionais — inevitavelmente distorcidos ou roteirizados conforme conveniências políticas — lançam alguma luz sobre sua juventude. Seus escritos iniciais pouco revelam, e a primeira impressão mais nítida que se tem dele surge apenas em 1917. Mesmo assim, suas ideias, planos, diálogos e até seu papel como protagonista histórico são mal conhecidos e geram debates acalorados.

Sabemos muito pouco também sobre a vida pessoal de Stalin. Nenhum de seus confidentes trouxe a público, posteriormente, relatos realmente reveladores; as memórias de sua filha, Svetlana, e de seu subordinado, Khrushchev, são o que temos de mais próximo de um testemunho pessoal e, embora digam muito, oferecem apenas recortes episódicos sobre o líder. Relatos de outros cidadãos soviéticos que lidaram com Stalin consistem, da mesma forma, em impressões específicas e reuniões breves. Alguns deles descrevem um administrador de mente aberta e inteligente, que valorizava o conselho de especialistas.[7]

O mais surpreendente é que até Robert Conquest — um historiador famoso por ser o maior rival acadêmico de Arch Getty e um dos principais defensores da ideia de que o regime de Stalin era o auge do controle totalitário — concorda com essa dificuldade encontrar fontes sobre a infância de Stálin. Ele afirma que sabemos muito pouco sobre a vida de Stalin por dois motivos: primeiro, porque faltam documentos oficiais da época; segundo, porque muitos depoimentos só foram colhidos décadas depois, quando as lembranças reais já estavam misturadas com “lendas”, “conveniências políticas” e “invenções posteriores”.

Não sabemos, de fato e com segurança, muita coisa sobre a infância e a juventude de Stalin. Isso se deve, em parte, à escassez de informações e, em parte, ao fato de que os informantes frequentemente se contradizem ou apresentam visões difíceis de conciliar. Grande parte desses relatos foi recordada 40, 50 ou 60 anos depois, por pessoas que tinham motivos, conscientes ou não, para distorcer os fatos. No caso de Stalin, o fundamental parece ser não aceitar como fatos o que são apenas probabilidades; onde os relatos forem incompatíveis, deve-se deixá-los falar por si mesmos ou adotar uma perspectiva explicando o porquê da escolha. [8]

Sua trajetória inicial nas organizações social-democratas no Cáucaso ainda é um tema muito obscuro. A linha trotskista, de que ele seria alguém sem importância ou inativo, é claramente exagerada. […] Stalin esteve envolvido na organização de assaltos a bancos no Cáucaso, embora nunca tenha participado diretamente deles.[9]

Também o pesquisador Francis Randall chama atenção para esse silêncio. Segundo ele, praticamente não existem relatos de testemunhas oculares sobre os primeiros anos do menino. O que chegou até nós não são descrições detalhadas do cotidiano, mas fragmentos — lembranças tardias, anotações dispersas, reconstruções feitas muito tempo depois dos acontecimentos: “As memórias existentes sobre a juventude de Stalin — sejam escritas por apoiadores sob seu olhar vigilante ou por inimigos no exílio — são todas parciais e carecem de relatos de testemunhas oculares sobre seus primeiros anos de vida”[10].

De acordo com essa narrativa, quando os historiadores voltam seus olhos para a vida de Vladimir Lenin, encontram diante de si um vasto campo de documentos, cartas, relatórios e manuscritos. É como abrir os portões de um grande arquivo onde cada folha de papel guarda o rastro de uma batalha política, de uma linha escrita à luz fraca de uma lamparina enquanto a revolução ainda amadurecia nas entranhas do velho império. Mas quando procuram reconstruir, com a mesma nitidez, o caminho de Joseph Stalin, o terreno torna-se mais áspero e irregular. Muitos dos rastros que poderiam iluminar sua trajetória desapareceram. Não existe um arquivo comparável ao de Lenin. E dificilmente existirá no futuro. Uma parte significativa dos documentos que pertenciam a Stalin foi destruída deliberadamente após sua morte, eliminada por aqueles que herdaram o poder político nos anos seguintes. Papéis desapareceram, cadernos foram queimados, fragmentos inteiros de seu arquivo pessoal deixaram de existir. Assim relatam os historiadores Roy Medvedev e Zhores Medvedev em sua obra The Unknown Stalin. Segundo eles, uma parte considerável do material documental foi destruída por herdeiros políticos do período posterior, criando lacunas profundas na possibilidade de reconstrução histórica. Segundo os irmãos Medvedev:

A vida e a atividade de Lenin podem ser estudadas de forma abrangente, mas, no caso de Stalin, a situação é, infelizmente, bem diferente. Não existe um arquivo comparável, nem será possível recriar um no futuro, já que uma parte significativa dos documentos de Stalin foi deliberadamente destruída por seus herdeiros políticos, incluindo uma grande quantidade de papéis e parte considerável de seu arquivo pessoal. [11] (…)

Restam aproximadamente 300 arquivos restritos no fundo [coleção] de Stalin. Como nunca foi elaborada uma lista, é impossível determinar seu conteúdo. Isso levou vários historiadores a supor que existam documentos cruciais escondidos ali. No entanto, consideramos isso improvável e tendemos a acreditar que não há nada de grande relevância nessa última coleção fechada aos historiadores. (Afinal, nem Radzinsky nem Volkogonov, que tiveram acesso, encontraram algo de maior interesse). Talvez o que restou interesse apenas a militantes de esquerda.[12]

Ao afirmarem que arquivos restritos provavelmente não contêm nada de “maior interesse” por causa de consultas anteriores e por estarem, talvez, restritos a um viés político específico, os autores escorregam em pontos fundamentais. O erro mais evidente é tratar a importância de um documento como uma qualidade absoluta e inerente ao papel, quando, na verdade, a relevância é objetiva e contextual, embora também tenha dimensão subjetiva.

Muitos historiadores, como Radzinsky (que é mais voltado para o relato dramático/biográfico), buscam o “furo” histórico, o documento que muda a narrativa principal ou revela uma ordem secreta.

O que um biógrafo político de 1990 considerava “irrelevante” (como registros administrativos, listas de compras, minutas de reuniões burocráticas) pode ser uma mina de ouro para um historiador da Nova História ou da História Social de 2026. A relevância muda conforme as perguntas que fazemos ao arquivo.

A ideia de que o conteúdo “talvez interesse apenas a militantes de esquerda” é um ruído metodológico, uma parcialidade disfarçada de imparcialidade. Quando uma narrativa favorece os interesses das classes dominantes, o consenso se torna quase inabalável, mesmo diante de provas materiais[13]. Ao classificar o possível valor dos documentos pelo público que os consumiria, os Medvedev saem do papel de historiadores e assumem o papel de juízes de relevância baseados em espectro político. Se um arquivo contém informações cruciais sobre a estrutura de poder, ele é relevante para qualquer estudioso do fenômeno soviético, independentemente de sua inclinação política. No entanto, tudo indica que o material se vira contra o consenso político de direita e talvez sirva para defender Stálin. Sugerir que o valor está limitado a uma “bolha” ideológica é, paradoxalmente, uma tentativa de esvaziar a importância científica do material.

O argumento de que “como Radzinsky e Volkogonov não encontraram nada, logo não há nada de importante” é um raciocínio circular perigoso. A competência de um historiador é limitada pelo seu tempo, seu foco de pesquisa e sua capacidade de interpretação. O fato de dois pesquisadores renomados não terem extraído “algo de maior interesse” diz tanto sobre as perguntas que eles fizeram ao arquivo quanto sobre o arquivo em si.

A pesquisa histórica é um processo acumulativo. Um historiador do futuro pode encontrar, nessas mesmas 300 pastas, padrões que escaparam aos primeiros consultores, especialmente se cruzarem esses dados com novos arquivos que foram abertos ou desclassificados posteriormente. O erro dos Medvedev não está na constatação de que o arquivo está esvaziado (isso é um fato histórico documentado), mas na presunção de que o que restou é inútil. Essa é uma postura de “fechamento”: ela desencoraja novos pesquisadores a buscarem o material, baseando-se na autoridade de quem veio antes. A história não é uma busca por uma verdade final que, se não encontrada, torna o resto “lixo”; é um processo contínuo de reinterpretação e se motivado de revisão. Como diz o ditado no meio acadêmico: o arquivo é mudo, mas ele responde conforme as perguntas que fazemos.

Como visto acima, algo ainda permanece guardado. Nos fundos documentais associados a Stalin, restariam cerca de trezentos arquivos classificados como restritos. Eles existem como gavetas fechadas dentro de um grande armário da história soviética. No entanto, como nunca foi elaborada uma lista detalhada de seu conteúdo, ninguém pode afirmar com precisão o que realmente se encontra ali. Essa situação alimentou a imaginação de muitos pesquisadores. Pode-se acreditar que, escondidos nesses arquivos, estariam documentos decisivos — peças capazes de revelar segredos políticos ou episódios desconhecidos da história soviética.

Assim, a história documental de Stalin aparece como um campo parcialmente devastado — um terreno onde muitos vestígios foram apagados pelo tempo e pelas disputas políticas posteriores. Ainda assim, mesmo entre lacunas e fragmentos, permanece a tarefa dos historiadores: reconstruir, peça por peça, a trajetória de um dos protagonistas centrais da grande transformação social que abalou o velho mundo do czar e abriu caminho para a experiência histórica da União Soviética.

Noutros relatórios secos da polícia do império, escritos com tinta fria e linguagem burocrática, o jovem revolucionário aparecia reduzido a poucas linhas. Um desses registros, citado pelo historiador Yves Delbars em The Real Stalin, anotava simplesmente: “Joseph Djugachvili. 23 anos. Nascido em Gori. Ex-aluno do seminário de Tiflis. Expulso por comportamento indisciplinado. [Nota de rodapé]: não se sabe de qual fonte Lavrov obteve essa informação incorreta”[14]. Trotsky repetia o mesmo relato quase que com as mesmas palavras[15]. Assim o velho regime procurava descrever os jovens que começavam a romper com sua ordem. Para os funcionários do czar, a rebeldia contra a disciplina clerical e estatal era apenas “indisciplina”. Mas, por trás dessas palavras burocráticas já se escondia outra realidade: nas salas abafadas do seminário, entre livros proibidos e discussões sussurradas, muitos jovens começavam a questionar o mundo velho — o mundo da fome camponesa, das fábricas sufocantes e do poder absoluto do império.

Décadas depois, quando o menino de Gori já havia atravessado as tempestades da história, sua mãe recordaria um filho muito diferente daquele retrato policial. O jornalista e biógrafo Isaac Don Levine registrou suas palavras no livro Stalin. “Sossó sempre foi um bom menino”, disse ela em 1930. “Nunca precisei castigá-lo. Ele estudava muito, estava sempre lendo ou conversando, tentando descobrir as coisas… Soso era meu único filho. É claro que eu o estimava. Acima de tudo no mundo…”[16] Para aquela mãe que lavava roupas e costurava para sobreviver, ele era mais do que um filho — era a esperança viva de que um dos filhos do povo pudesse se erguer e ser alguém acima da miséria e compreender o mundo que esmagava os trabalhadores do império, alguém de educação e erudição sobre o mundo.

Além disso, havia pouco nos escritos sobre Stalin que transmitisse uma impressão vívida de sua personalidade. Assim, a biografia de 1938 narrava os detalhes mais superficiais da primeira metade de sua vida antes de passar a catalogar suas ações no âmbito das políticas públicas. Dava-se pouca atenção à família, à escola e à sua cidade natal. Relatos de sua carreira nos comitês bolcheviques clandestinos antes da Grande Guerra eram desencorajados; mesmo sua atuação na Revolução de Outubro, na Guerra Civil, na NEP e nos Planos Quinquenais mal era abordada na biografia ou no Breve Curso.

Ele coibia qualquer tentativa histórica ou literária de explicar como chegou a pensar o que pensava ou fazer o que fez. Em vez disso, empenhou-se para que escritores, pintores e cineastas o apresentassem como a personificação do partido, em vez de um ator histórico verossímil. Apesar da onipresença da mídia estatal, permitia-se que pouquíssima coisa de domínio público falasse sobre sua ascendência, educação, crenças, comportamento ou cálculos. […] A explicação mais plausível é que Stalin ainda acreditava que a austeridade era o que melhor se adaptava ao ambiente cultural da Rússia e à sensibilidade do movimento comunista mundial. Até 6 de maio de 1941, ele recusou-se resolutamente a tornar-se Presidente do Sovnarkom, apesar de este ter sido o cargo de Lenin. Nem mesmo se deixou tentar pela criação do cargo de Presidente para si no Politburo. Stalin também não era chefe de estado; essa posição continuou sendo ocupada por Kalinin. [17]

A crítica central que se pode tecer a esse conjunto de citações — especialmente aos irmãos Medvedev e a Robert Service — reside na postura metodológica de “descarte antecipado” de fontes oficiais e arquivos remanescentes.

Há uma tendência nessas citações de invalidar a versão oficial por ser “fruto do aparato de poder”. Embora seja correto tratar fontes estatais de qualquer estadista com cautela (a heurística de fontes), o erro está em assumir que, por ser oficial, o dado é necessariamente falso ou irrelevante. Isso, em maior ou menor proporção, inviabiliza a narrativa histórica e, em alguns casos, como no de Stálin, silencia ainda mais a escassez própria da história de líder cuja história foi marcada por tragédias familiares, sem parentes praticamente, com um pai ausente que pudessem depor sobre sua infância com maior riqueza de detalhes.

Historiadores muitas vezes aceitam memórias de inimigos no exílio (como as de Trotsky) ou relatos orais tardios (citados por Conquest) com menos rigor do que os registros burocráticos internos, que não foram escritos para o público, mas para o funcionamento do próprio Estado.

Os Medvedev afirmam que “não será possível recriar um arquivo no futuro”. Essa é uma afirmação perigosa. A historiografia russa pós-1991 provou que, mesmo quando papéis pessoais são destruídos, a burocracia cruzada permite reconstruir trajetórias.

Ainda que o ‘Arquivo de Stálin’ tenha sido limpo, isso não explica por que os arquivos dos ministérios, da polícia secreta (NKVD/KGB) e das secretarias regionais ainda guardam cópias e registros dos impactos de suas decisões. Negar a utilidade do que restou é ignorar que a história se constrói também por meio daquilo que o poder tentou esconder.

Robert Service sugere que Stalin não assumia cargos formais ou não divulgava sua vida privada por acreditar que a “austeridade” era melhor para a cultura russa. Essa visão pode ser interpretada como uma forma de psicologismo. Ao focar na “crença” de Stalin na austeridade, o historiador pode estar negligenciando uma estratégia política deliberada de poder de bastidor e a construção de uma imagem (o “Pai dos Povos”), que é muito mais eficiente do que a transparência administrativa. Ademais, ignorar a importância de Stálin como símbolo de virtude é desconsiderar a essência de sua trajetória: a história do camponês que recebeu uma terra arcaica e a forjou como a maior potência do mundo. Negar esse legado é, em última análise, furtar do povo a própria esperança de uma vida digna. Stálin era apenas um símbolo e reflexo do povo soviético, o ícone de que um povo atrasado pode sem qualquer ajuda forjar a maior potência do mundo. Sendo assim, vamos a hipótese mais materialista:

Há mistérios muito mais densos no hiato dessas contradições cronológicas do que permite supor a visão dos prezados escribas da história. Existe uma verdade muito mais profunda no desencontro das datas do que a historiografia pretende, em sua frieza, admitir ou desvelar.

É claro que isso não ocorre sem nenhuma razão: a discrepância cronológica na biografia de Stalin se mostra ainda mais controversa quando se revela que o próprio Stálin em um documento oficial de Moscou assinalou uma data diferente daquela oficialmente comemorada. O documento em questão seria o questionário da agência ROSTA, que se transformaria futuramente na agência TASS, preenchido por volta de 1920, traz a indicação manuscrita do próprio líder pelo dia 6 de dezembro de 1878 — data corroborada pelos registros paroquiais de sua cidade natal, Gori —, a historiografia oficial consolidada a partir de 1929 operou uma dupla alteração, fixando o nascimento em 21 de dezembro de 1879. Essa mudança não apenas ignorou a conversão correta entre os calendários juliano e gregoriano, que situaria o aniversário em 18 de dezembro de 1878, como também deslocou o ano de nascimento em uma “mudança” biográfica. Ao estabelecer uma nova data de nascimento para o “Homem de Aço”, isso ocorreu sem uma razão aparente, permitindo que celebrações, como seu cinquentenário ocorressem em 1929.

Uma das curiosidades sobre a trajetória de Stalin diz respeito à sua data de nascimento. De acordo com os registros paroquiais, ele teria nascido em 6 de dezembro de 1878 (seguindo o calendário juliano, ou “estilo antigo”). Curiosamente, foi este o ano que o próprio Stalin indicou em um questionário da agência ROSTA. Contudo, sua data de nascimento oficial e pública passou a ser 21 de dezembro de 1879 (pelo calendário gregoriano, ou “estilo novo”) — data que serviu de mote para as celebrações extravagantes de seus 50 anos em 1929, seguidas pelos seus aniversários de 60 e 70 anos em 1939 e 1949, respectivamente.

Embora o motivo dessa discrepância permaneça um mistério, em outubro de 1921, Stalin preencheu um formulário de registro do Partido indicando 1879 como o ano de seu nascimento. Um resumo biográfico elaborado por sua equipe em dezembro de 1922 reafirmou essa data, assim como a linha de abertura de uma breve biografia escrita por Ivan P. Tovstukha — documentos que Stalin certamente teria lido e aprovado[18].

O questionário da ROSTA sintetiza sua trajetória: a origem humilde, a formação religiosa interrompida, a experiência sistemática com prisões e exílios sob o regime czarista e sua ascensão editorial e política no Partido Bolchevique. Mais do que um simples currículo, o documento funciona como uma peça de legitimação histórica, consolidando sua identidade como um militante fiel que operou predominantemente dentro do território russo, em contraste com outros líderes que passaram longos períodos no exílio europeu. Vejamos:

  • Nome: Josef Vissarionovitch Stalin (Djugashvili)

  • Ano e Local de Nascimento: 1878, Gori (Província de Tíflis)

  • Origens: Pai era operário (sapateiro), falecido em 1909; mãe, costureira, ainda viva.

  • Escolaridade: Expulso da sexta (última) série do Seminário Ortodoxo de Tíflis em 1899.

  • Há quanto tempo atua no movimento revolucionário? Desde 1897.

  • Há quanto tempo é membro do POSDR [Partido Operário Social-Democrata Russo] e da facção bolchevique? Filiado ao POSDR em 1898 e à facção bolchevique em 1903 (quando de sua formação). Em 1898, membro do comitê do partido em Tíflis; em 1903, membro do comitê regional do Cáucaso; em 1912, membro do Comitê Central do Partido Bolchevique.

  • Já foi membro de algum outro partido revolucionário? Não. Antes de 1898, era simpatizante do POSDR.

  • Penalidades sofridas sob o czarismo (prisão, exílio, expatriação): Preso sete vezes, exilado seis vezes (Irkutsk, Narym, Turukhansk, etc.), fugiu do exílio em cinco ocasiões, cumpriu sete anos de prisão, viveu na clandestinidade na Rússia até 1917 (permaneceu em São Petersburgo; não viveu no exterior, mas visitou Londres, Berlim, Estocolmo e Cracóvia em missões do partido).

  • Quais cargos oficiais ocupou na Rússia Soviética? Comissário do Povo para a Inspeção de Operários e Camponeses e Comissário do Povo para as Nacionalidades; membro do Conselho do Trabalho e Defesa e do Conselho Revolucionário Militar da República; membro do Comitê Executivo Central de Toda a Rússia.

  • Atividades Literárias (livros, panfletos, artigos principais). Quais jornais e periódicos editou? * Panfletos: (1) Sobre os Bolcheviques (em georgiano), 1904; (2) Anarquismo ou Socialismo? (em georgiano), 1906; (3) O Marxismo e a Questão Nacional (em russo), 1913.[19]

Diante da polêmica entre os registros paroquiais e as declarações oficiais do governo soviético — somada à discrepância da ROSTA em relação à comemoração de 21 de dezembro de 1879 —, surge a questão: os documentos destruídos elucidariam tal ambiguidade cronológica? É provável. E quanto a Stálin, ele mentiu? Seria inverossímil que alguém, ao pretender forjar um dado biográfico, deixasse rastros tão evidentes. Embora tal detalhe não mude a avaliação de sua obra no socialismo — sendo até periférico diante de seus feitos —, a questão alimenta especulações como as de Kuromiya, que sugere que Stalin alterou a data para superar rivais. Tampouco deve-se descartar a hipótese de que tais interpretações sobre os registros civis do império russo visam dar a impressão de que Stalin, tendo uma vida tortuosa e miserável, não tivesse o direito de ressignificar sua vida, tais interpretações são tão ruins quanto o não reconhecimento de que documentos plantados foram forjados. Ao preencher o questionário da ROSTA, Stálin ainda não ocupava o posto de principal liderança do movimento comunista mundial. Naquele momento, não havia razões para que ele projetasse a própria trajetória como um símbolo — cenário que se transformou drasticamente após o afastamento de Lênin e sua subsequente ascensão. É provável, inclusive, que se Lênin não tivesse sido vitimado pela doença, ele próprio exaltaria Stálin, por sua origem social distinta daquela dos demais quadros do Partido, embora isso fosse algo que o próprio Stálin não considerasse o principal.

A data de 21 de dezembro tem um significado especial na trajetória de Stálin, pois o ajuda a reconhecer que rompeu esse silenciamento geral dos camponeses de forma monumental: ao migrar da obscuridade de Gori para o centro do poder no Kremlin, ele não apenas resgata sua história, mas a reconstrói sob a ótica revolucionária. O vácuo biográfico da sua infância é preenchido pela exaltação do camponês pobre que, munido da ideologia, realiza feitos grandiosos. Assim, o estudo de suas origens exige uma ‘escavação’ necessária para separar o camponês real, fadado ao esquecimento, do mito político — primeiro memorizado e, posteriormente, injustamente, demonizado. Para um revolucionário da estatura de Stálin, o indivíduo é secundário ao processo histórico, portanto, o dia individual de seu nascimento importa menos do que o significado geral de seus méritos. Outra questão importante de se lembrar é, a data oficial de 1879 foi estabelecida para servir ao coletivo — para criar um marco de unidade para o Partido e o Estado (o jubileu de 1929). Defender Koba aqui é dizer que ele “emprestou” sua biografia à política, transformando sua vida em uma ferramenta pedagógica para as massas.

Stalin criou muito sobre sua vida: seu aniversário oficial foi em 21 de dezembro de 1879, mais de um ano depois, uma data simbólica. Ele geralmente mantinha a data de 6 de dezembro de 1878 até uma entrevista em 1920 para um jornal sueco. Em 1925, ele ordenou a seu secretário Tovstukha que formalizasse a data de 1879. Existem várias explicações, incluindo seu desejo de se reinventar. Muito provavelmente, ele mudou a data posteriormente para evitar o alistamento militar a primeira vez. Quanto à casa onde nasceu, trata-se da choupana que hoje se ergue solitária no Boulevard Stalin, em Gori, cercada pelo templo grego construído na década de 1930 pelo vice-rei caucasiano de Stalin e, posteriormente, chefe da polícia secreta, Lavrenti Beria, ao lado do Museu Stalin, com sua arquitetura que lembra uma catedral. Os Djugashvili não viveram lá por muito tempo. [20]

Ao entrar na clandestinidade, Stalin também evitou o alistamento militar em 1901. Em sua última prisão, em 1913, ele disse à polícia que havia sido “dispensado do alistamento por motivos familiares em 1901”. O policial de Gori, Davrichewy, ajudou a fornecer a documentação que lhe permitiu escapar do serviço militar, de acordo com as memórias de seu filho, possivelmente citando os problemas familiares de Stalin e alterando sua data de nascimento para 21 de dezembro de 1879. Stalin não foi incomodado pelo alistamento até 1916. [21]

Os dados de três historiadores: Montefiore, Stephen e Guruli revelam que, para Stalin, a biografia nunca foi um destino estático. De acordo com Guruli, a mudança na data de nascimento de Stalin — de 1878 para 1879 — não foi um erro, mas uma estratégia para evitar a convocação pelo exército nos anos de 1900 e 1901 e a morte certa na guerra russo-japonesa. A tese consta em Ioseb Stalini: Materiais para uma Biografia, 1878–1907, onde o autor explora como o futuro líder manipulava registros para burlar as autoridades czaristas.[22]

Na encruzilhada da reinvenção, ele não escolheu o acaso, mas a estratégia. Adotou a data que já havia sido seu escudo contra o serviço militar imperial e o fez ficar vivo diante da guerra, transformando uma tática de fuga em um mito de origem. Parecia poético escolher a mesma data que, outrora, o salvava das fileiras do exército czarista. Se aquele dia o salvara do jugo da autocracia, serviria agora como alicerce para reconstruir sua lenda. Ele já não era o jovem provinciano perdido nos confins do império. Tornara-se o exemplo vivo de quão longe o filho de um sapateiro e de uma camponesa poderia chegar se estivesse armado com as ideias certas. Stalin não apenas percorria um caminho; ele ensinava ao mundo que a origem humilde não era um destino, mas um ponto de partida para quem dominasse a teoria da revolução. O que antes fora um artifício para enganar o Czar tornou-se o batismo de sua nova reputação. Para Stalin, 21 de dezembro não era apenas um aniversário; era a celebração do homem que dobrou o destino à sua própria vontade e mostrou onde os oprimidos em luta podem chegar. A data transbordava de simbolismo: era o dia em que o homem vencia a autocracia. Mais do que um nascimento físico, era o renascimento de seu nome e a fundação de sua lenda.

O provinciano dera lugar ao símbolo. Ele encarnava a prova de que o sangue camponês e o ofício de sapateiro não impediam a ascensão, desde que munidos da disciplina ideológica necessária. Mais do que um líder, ele era a lição prática de que as ideias certas podiam transformar um homem comum em um gigante histórico e um dos sujeitos históricos da revolução. O conceito de “verdade biográfica” era elástico nas periferias do Império Russo. Stalin cresceu em um ambiente onde documentos oficiais eram vistos como instrumentos de vigilância estatal, e não como fatos históricos. À precariedade administrativa da região somava-se o costume da época: Yakov, o primogênito de Stalin, é o caso emblemático dessa negligência. Batizado com atraso e registrado somente anos mais tarde, seu caso ilustra perfeitamente como a burocracia falha alimentava o mistério em torno das datas de nascimento daquelas gerações.

Nessa época, Krasin emprestou seu dispositivo infernal mais avançado aos terroristas Maximalistas-SR, que o usaram para explodir a casa do brilhante Primeiro-Ministro do Czar, Stolypin. Muitos morreram no incêndio, mas Stolypin sobreviveu.

Mais tarde, Maxim Litvinov tornou-se Comissário do Povo para Assuntos Exteriores de Stalin durante a década de 1930.

Conhecido como Yasha pela família, ele foi batizado meses depois e registrado anos mais tarde — daí as confusões sobre seu nascimento. O nome provavelmente era uma homenagem ao protetor de Stalin, Yakov “Koba” Egnatashvili. [23]

Vencer a vigilância estatal exigia mais do que coragem; exigia o apagamento da própria identidade. Stalin operava em um labirinto de pseudônimos, adotando dezenas de faces — de “Ivanovich” a “Petrov” — para confundir os agentes da Okhrana. Nessa guerra de bastidores, cada nova identidade falsa era um golpe desferido contra o controle rígido dos Gendarmes e a tentativa do Império de catalogar seus inimigos.

Stálin encontrou então um novo cúmplice: Stepan Shaumian, o herdeiro culto de um próspero negociante armênio. Shaumian transitava com desenvoltura pela elite do Cáucaso; era preceptor dos filhos de Mantashev — o maior magnata do petróleo local — e logo se casaria com a filha de um alto executivo do setor.

“Alto, robusto e de uma beleza marcante, com sua face pálida e olhos azuis-claros”, Shaumian foi peça-chave na “solução” do problema Vedenev: o chefe ferroviário estava em seu gabinete quando uma pistola, apontada pela janela, disparou um tiro certeiro em seu coração.

Ninguém foi capturado. Contudo, aquele disparo inaugurou uma era em que — conforme pregava o amplamente lido Catecismo Revolucionário do niilista Nechaev — “todo sentimento afetuoso por família, amizade, amor, gratidão e até mesmo a honra, deve ser esmagado pela paixão exclusiva pelo trabalho revolucionário”. Esse código amoral — ou melhor, a ausência total de códigos — era definido por ambos os lados como konspiratsia: o “mundo à parte” retratado com maestria por Dostoiévski em Os Demônios.

Sem compreender a konspiratsia, é impossível compreender a própria União Soviética: Stálin jamais abandonou esse universo. A konspiratsia tornou-se o espírito regente do Estado soviético e a própria estrutura da mente de Stálin. A partir de então, ele passou a carregar habitualmente uma pistola no cinto. Policiais secretos e terroristas revolucionários converteram-se em combatentes profissionais no duelo pelo destino do Império Russo. [24] (…)

O mentor da conspiração, o chefe da Okhrana de Moscou, Zubatov, desenvolveu um novo sistema de vigilância. Detetives eram empregados, mas suas verdadeiras ferramentas eram os agentes externos — os “espiões”, ou “agentes internos”, na linguagem revolucionária — que seguiam figuras como Stalin. A tática mais eficaz da Okhrana era a provocação — as provocações de seus “agentes internos”. O policial secreto deveria tratar seu agente provocador como “uma mulher amada com quem você teve um relacionamento ilícito”, explicava Zubatov. “Cuide dela como se fosse a menina dos seus olhos. Um movimento descuidado e você a desonra… Nunca revele o nome do seu informante a ninguém, nem mesmo ao seu diretor. Esqueça o nome dele e lembre-se apenas do pseudônimo.” Os riscos eram altos: o provocador de um lado era o traidor do outro, que enfrentava a morte. [25]

Somado a isso, Simon Sebag Montefiore sublinha o abismo temporal causado pelo calendário Juliano. Por estar treze dias atrasado em relação ao Gregoriano utilizado no Ocidente, esse sistema injetava uma instabilidade crônica em cada registro. Na Rússia de então, o tempo parecia descompassado, e as datas, longe de serem marcos fixos, tornavam-se sombras incertas em um mapa burocrático confuso.

As datas seguem o Calendário Juliano (Estilo Antigo), vigente na Rússia, que se encontrava treze dias atrasado em relação ao Calendário Gregoriano (Estilo Novo) utilizado no Ocidente. Ao descrever eventos ocorridos no exterior, ambas as datas são fornecidas. O governo soviético adotou o calendário de Estilo Novo à meia-noite de 31 de janeiro de 1918, declarando o dia seguinte como 14 de fevereiro. [26]

O historiador Ronald Grigor Suny ratifica a tese de um vácuo documental e de uma desorganização administrativa sistêmica na Geórgia após a intervenção russa. Essa análise é pertinente na questão colocada por Montefiore etc. Esse cenário corrobora a visão de que os registros civis e paroquiais eram precários e pouco representativos da verdade, quando não inexistentes, para vasta parcela da população. Portanto, é temerário privilegiar os documentos eclesiásticos sem um exame crítico do contexto histórico. Os registros da Igreja, embora valiosos, exigem uma pequena cautela: a hipótese de que Stalin estaria meramente retificando um erro prévio de assento não pode ser sumariamente descartada, ainda que careça de maior probabilidade devido ao próprio questionário da Rosta anteriormente explorado e até dos registros escolares de Stálin[27]. No entanto, é importante compreender essa fragilidade histórica na adminitração documental russo-georgeana, é preciso detalhar as falhas estruturais da época, como a Ausência de Registros Escritos Confiáveis, Suny afirma explicitamente que, durante o domínio russo, a “ausência de registros escritos confiáveis” tornava o esforço para estabelecer o status social um processo de anos de petições humilhantes. Isso exemplifica como a identidade civil, de modo geral, tendia a ser condenada à irrelevância para aqueles povos. Portanto, a alteração de datas ou nomes por parte de Stálin não era um mero desvio individual, mas algo condizente com as tradições da Geórgia que repudiavam da nobreza ao campo a necessidade burocrática da imposição do Czarismo russo. Tal comportamento refletia o profundo antagonismo à administração czarista e a resistência a uma burocracia que, além de estranha, agia como um entrave à autodeterminação. Isso indica que a burocracia imperial não encontrou um sistema de registro civil ou eclesiástico organizado ao assumir o controle, mas algo mais local e simplificado.

Ainda mais decisiva para a consolidação de uma corporação nobiliárquica unificada foi a emancipação da pequena nobreza vassala na Geórgia Oriental, em 1837. Os aznauri foram desobrigados de seus deveres para com os príncipes, mas viram-se compelidos a provar a titularidade de suas terras; aqueles que falharam nessa tarefa perderam suas propriedades para os antigos senhores, sendo rebaixados à condição de camponeses do Estado. Uma década depois, o vice-rei Vorontsov concedeu liberdade semelhante à pequena nobreza da Geórgia Ocidental.

Um ukaz (édito) de 25 de fevereiro de 1827 já havia declarado que todos os nobres georgianos, estivessem ou não a serviço do Estado, gozavam de privilégios e status equivalentes aos da nobreza russa. No entanto, restava o impasse: quais reivindicações de nobreza seriam validadas pelas autoridades russas? O ônus da prova recaiu inteiramente sobre os georgianos. Diante da escassez de registros escritos confiáveis, a luta para consolidar o status social exigiu anos de petições humilhantes, empurrando muitos nobres para a falsificação de documentos. Como parte do esforço para converter a aristocracia georgiana em dvoriane russos, a administração ordenou a criação de assembleias de nobres nas províncias de Tiflis (antiga Tbilisi) e Kutaisi. A nobreza de Tiflis formou tal assembleia, a contragosto, em 1819; seus primos em Kutaisi seguiram o exemplo em 1830. A essas assembleias coube a tarefa de definir quem pertencia à nobreza — um processo que levou mais de trinta anos para ser concluído e que, nesse ínterim, gerou profunda inseguraça pessoal[28].

A escassez de registros sobre a nobreza georgiana reflete uma tradição de relações interpessoais diretas. A confiança no reconhecimento presencial pelo monarca tornava o documento escrito supérfluo, estabelecendo um padrão de informalidade administrativa que se estendia aos demais estratos sociais.

O ponto crucial foi a resolução do prolongado processo de legitimação da nobreza na Geórgia. Antes da gestão de Vorontsov em Tiflis, um decreto imperial estabelecera um critério rigoroso: o testemunho de quarenta e oito nobres para validar qualquer linhagem ou documento. A escassez de provas documentais era um obstáculo histórico, dado que os monarcas georgianos mantinham laços pessoais, e não burocráticos, com sua aristocracia. Somava-se a isso a recorrente suspeita de fraude, utilizada por muitos para evitar o pagamento de impostos. Dmitri Kipiani interveio junto à administração caucásica, argumentando que o ukaz de 1844 violava o tratado de 1783. Ele propôs simplificar o processo: bastaria comprovar a descendência das famílias listadas originalmente por Erekle II, com a validação feita por uma comissão nobiliárquica. Com a anuência do vice-rei, iniciou-se um período de investigações que durou dez anos. O desfecho ocorreu em 1859, quando 30.000 indivíduos foram oficialmente reconhecidos como nobres e inscritos no Livro da Genealogia (Rodoslovnaia kniga).”[29]

A inexistência de uma base de dados confiável sobre o campo georgiano tornava a cobrança de impostos um exercício de imprecisão. Como aponta Suny, essa “pobreza de dados” derivava da falha crônica nos registros civis; sem os Livros Métricos para catalogar a demografia básica, qualquer avaliação econômica tornava-se impossível.

A política ambivalente das autoridades russas para com a elite georgiana — que, ao mesmo tempo, afastava os nobres de seus cargos tradicionais e tentava atrair elementos leais para o serviço estatal — não ofereceu qualquer contrapartida ao campesinato. Para os administradores czaristas, o fortalecimento do Estado exigia que a ordem social georgiana fosse integrada ao sistema russo da forma mais absoluta possível. Além disso, os interesses imperiais convergiam para o fortalecimento do poder nobiliárquico sobre os camponeses escravizados. Os nobres ganharam novos poderes judiciais sobre seus servos, além do apoio estatal para a cobrança de tributos e a captura de fugitivos.

Simultaneamente, o poder do Estado russo foi mobilizado para restringir o deslocamento camponês e garantir a mão de obra agrícola da nobreza. Quando a fome de 1808 forçou os camponeses da Imerícia a buscar trabalho em Tiflis, o General Gudovich ordenou o bloqueio desses movimentos. A repetição dessa ordem em 1812, 1830 e 1840 revela que tais decretos pouco contiveram o fluxo de georgianos ocidentais rumo às cidades mais prósperas do leste. Na década de 1830, quase todos os trabalhadores assalariados nas cidades da Geórgia Oriental eram imerícios; em 1840, a polícia passou a remover à força aqueles que não possuíam permissão por escrito para migrar — um exemplo gráfico de como as autoridades usavam os meios ao seu alcance para manter a força de trabalho exigida pelos proprietários nobres.

Sob a égide czarista, a insegurança do antigo reino Bagrátida foi substituída pela militarização do campo, por um aparato governamental burocrático e por uma exploração mais eficaz da servidão. O domínio russo também impôs a monetarização: sempre que possível, os oficiais buscavam recolher impostos em espécie, e não em produtos, o que para muitos camponeses era uma afronta aos costumes. Entre 1843 e 1845, o governo determinou que todos os pagamentos dos camponeses do Estado fossem feitos em dinheiro. Apesar dos protestos vigorosos, o decreto foi mantido. Em uma economia rural que permaneceria não monetária até bem a segunda metade do século, tais exigências criaram um ressentimento latente, prestes a explodir.”[30]

 Entre o monarca e sua nobreza na Georgia, a palavra empenhada valia mais que o documento, e as concessões de títulos perdiam-se no éter da memória oral, deixando os registros oficiais reduzidos a um silêncio escasso. Essa desatenção com a burocracia, contudo, não era um privilégio das altas esferas, mas um traço que tingia toda a vida social. Quando o Império Russo estendeu seus braços sobre o Cáucaso, exigindo provas documentais para sustentar privilégios ou arrancar impostos, o que encontrou foi um povo forçado a improvisar sua própria história. Onde o documento faltava, a necessidade ditava a pena: a falsificação tornou-se uma ferramenta de resistência e sobrevivência, transformando cada certidão em um objeto de profunda suspeição. Nas entranhas do campo georgiano, essa “pobreza de dados” — como bem aponta Suny — era a neblina que cegava o fisco. Sem os Livros Métricos para registrar quem nascia e quem morria sob o sol do Cáucaso, a produtividade da terra tornava-se um enigma insolúvel para o cobrador de impostos. Contudo, se para o Estado a ausência de registros era um caos, para o camponês ela se tornava uma fresta de luz. Em 1836, quando o governo czarista exigiu que os senhores provassem, no papel, a posse de seus servos, o feitiço da burocracia virou-se contra o mestre. No vácuo dos registros inexistentes, o homem do campo encontrou o caminho dos tribunais; sem o papel que o acorrentasse à terra como propriedade alheia, ele reivindicava sua condição de homem livre, fazendo da desordem administrativa o seu passaporte para a dignidade.

Ao final, o cenário descrito por Suny é o de uma sociedade que navegava em águas turvas, onde a verdade oficial era uma ficção em constante disputa. Nobres inventavam antepassados para manter o brilho de suas linhagens, enquanto camponeses exploravam o silêncio dos arquivos para quebrar suas correntes. Era um ambiente de incertezas e fraudes, sim, mas também um espaço onde a vida real, pulsante e indomada, recusava-se a ser contida nas linhas estreitas de um registro sistemático que nunca chegou a existir plenamente.

“Embora a presença russa tenha fortalecido o controle do nobre georgiano sobre seus servos, ela também alterou aspectos da relação tradicional entre senhor e camponês de formas que muitos aristocratas consideravam irritantes. No século XVIII, a servidão georgiana permitia que camponeses se ‘voluntariassem’ para o cativeiro, prática que os russos extinguiram em 1821. Ao mesmo tempo, os nobres foram proibidos de escravizar homens livres, um costume até então comum.

Contudo, nada foi tão perturbador quanto a exigência de 1836: os proprietários de servos agora precisavam apresentar provas documentais de que seus camponeses eram, de fato, sua propriedade. Na ausência de tais registros, o servo poderia iniciar um processo para reivindicar sua liberdade. Muitos camponeses abastados peticionaram às autoridades para melhorar seu status, buscando tornar-se homens livres ou transferir-se para a tutela do Estado. A lei também passou a permitir que os servos comprassem sua própria alforria. Assim, o nobre georgiano viu-se diante de uma burocracia estrangeira que, simultaneamente, exigia que ele provasse sua própria nobreza e a posse de seus servos. O domínio russo regularizou seu status e o tornou membro da camada mais privilegiada da sociedade georgiana, mas, em troca, exigiu que ele se tornasse o servo de um novo senhor.”[31]

Havia, é certo, mais regularidade nos anos em que Stálin nasceu do que no despertar do século XIX, mas Suny nos revela que essa ordem era apenas uma casca fina. Sob a superfície dos arquivos oficiais, o sistema de registros ainda era assolado por falhas críticas. O historiador é incisivo: os dados sobre o povo e o suor do campo — a população e sua produtividade — eram de uma pobreza desoladora. Sem saber quem plantava ou quanto se colhia, o fisco tateava no escuro; qualquer tentativa de impor uma tributação justa tornava-se uma impossibilidade absoluta, um delírio administrativo diante de uma realidade rural que se recusava a ser traduzida em números.

Essa distância entre o governo e a vida pulsante das aldeias manifestava-se, sobretudo, na linguagem. Os documentos de emancipação, que deveriam carregar a promessa de uma nova era, foram redigidos em um georgiano “livresco”, erudito e distante, que pouco dizia ao homem calejado pelo arado. Para o camponês, aquelas letras eram estrangeiras em sua própria terra. O resultado foi um abismo de desconfiança: diante dos registros de partilha de terra, os chamados ustavnye gramoty, muitos hesitavam em deixar sua marca. Entre o medo de uma nova armadilha senhorial e a incompreensão do texto, o povo preferia o silêncio, mergulhando o campo georgiano em um denso e prolongado ambiente de incerteza social.

O campesinato georgiano não assimilou, em um primeiro momento, as implicações da nova reforma. A tradução da Polozhenie para um georgiano puramente literário falhou em traduzir os meandros técnicos da legislação para a linguagem do povo. Em meio a esse vácuo de compreensão, a ideia de uma libertação absoluta ganhou força, muitas vezes estimulada por ‘agitadores’. O resultado foi uma onda de desobediência civil: camponeses negavam-se a quitar dívidas e a realizar a begara (trabalho forçado) para os latifundiários. No primeiro ano após a implementação, as autoridades de Tiflis registraram cerca de duas mil denúncias de proprietários contra camponeses sob o regime de ‘obrigação temporária’ que se rebelavam contra os encargos tradicionais. [32]

O russo era a língua obrigatória para todos os negócios de Estado desde 1840. Em 1879, a resistência ao russo era tal que a vasta maioria dos georgianos rurais (mais de 90%) e mesmo muitos na capital Tiflis não dominavam a língua oficial da administração o que dificultava a execução geral de todos os registros.

Quanto ao bilinguismo, as nacionalidades muçulmanas apresentavam altos índices de desconhecimento do russo, mas o caso dos georgianos era emblemático: a grande maioria não possuía fluência no idioma imperial. Segundo o censo de 1970 e os cálculos de Brian Silver, 91,4% dos georgianos rurais e 63% dos urbanos não falavam russo fluentemente. Mesmo na capital, Tbilisi, 56,4% da população local não dominava o idioma — um percentual superior ao de qualquer outra nacionalidade titular em suas respectivas capitais, com a única exceção dos armênios em Erevan (63,1%). Tais números demonstram que os georgianos mostravam pouca tendência à assimilação; pelo contrário, havia uma clara resistência ao aprendizado do russo. Em 1979, impressionantes 99,5% dos georgianos residentes na Geórgia consideravam o georgiano sua língua nativa, e apenas 26,7% da etnia possuía fluência em russo.

Além das transformações demográficas e da nacionalização política, o país viveu um renascimento cultural — em essência, a continuidade do despertar iniciado na virada do século. A antiga intelectualidade que permaneceu no país após 1921 somou-se a uma nova elite educada sob o sistema soviético. As artes e o mercado editorial, apoiados pelo Estado, nutriram uma criatividade em expansão, ainda que restrita aos moldes do realismo socialista. O marco mais significativo, contudo, foi a fundação da primeira universidade georgiana da história (sob os mencheviques, em 1919), permitindo que a pesquisa científica fosse, finalmente, conduzida em língua georgiana.”[33]

No ano em que Stálin nasceu, a administração russa tentava impor um controle documental rigoroso (passaportes internos, livros de heráldica e cartas de partilha camponesas), mas enfrentava um vácuo de dados confiáveis e uma profunda barreira linguística, resultando em um sistema onde os registros eram frequentemente precários e a realidade da população rural era mal mapeada pelo governo imperial e o reflexo disso na população era o claro desdém com os registros e com a documentação de identificação civil.

Diante do exposto, a fonte oficial representa a vitória do homem político sobre o homem biológico. Para o projeto soviético, o indivíduo “Djugashvili” morre simbolicamente, como a carta da morte no tarot, para que o “Stálin” possa nascer como um símbolo de unidade. Aceitar a data oficial é reconhecer que, na lógica revolucionária, a verdade histórica não reside na merda possibilidade biologia de uma choupana em Gori, mas na utilidade pedagógica da trajetória de um líder que personifica a ascensão das massas. Ignorar a fonte oficial sob o pretexto de “correção técnica” é um anacronismo que ignora a própria natureza do poder soviético. A oficialização de 1879 é, em si, um documento histórico de uma vontade política. Ela marca o momento em que a biografia deixa de pertencer ao indivíduo e passa a pertencer ao coletivo, servindo como um marco de coesão para o Partido e para o Estado.

Portanto, a insistência na data oficial de 21 de dezembro de 1879 transcende a precisão cronológica para atingir a esfera do símbolo. Negar essa data em favor dos registros paroquiais seria ignorar o processo de ressignificação histórica que permitiu ao revolucionário despojar-se das correntes do registro czarista. A fonte oficial não ‘erra’ o dia do nascimento; ela ‘anuncia’ o nascimento de um novo tempo. Ao validar 1879, o Estado Soviético não apenas corrigia um passado de obscuridade camponesa, mas consagrava a ideia de que o revolucionário tem o direito — e o dever — de reconstruir sua própria história como uma ferramenta de libertação e unidade nacional. Defender a validade histórica dessa data é, em última análise, reconhecer que na dialética entre o homem e a estrutura, Stálin escolheu a data que simbolizava não o seu início biológico, mas a sua emancipação política.

1.1. Do Primeiro Sopro a Primeira Luta

Os pais de Stálin, Ekaterina (Keke) Gueladze e Vissarion (Bessó) Djugashvili, eram originários de famílias de servos pobres e analfabetos; Bessó era sapateiro e, por um período, chegou a possuir sua própria oficina, qualificando-se como “explorador”. Iosif, apelidado de Sosso, era o quarto filho do casal, sendo que os três primeiros faleceram ainda na infância. A família vivia em um alojamento modesto em Gori, com apenas dois cômodos e uma oficina no porão, tipicamente pobre para a Rússia daquela época. Após o fracasso dos negócios do pai e o seu alcoolismo, a mãe foi forçada a trabalhar como lavadeira ou costureira, dedicando-se intensamente ao filho, embora a infância de Iosif fosse marcada por relatos de que o pai bebia e o espancava com frequência, contribuindo para o endurecimento de seu caráter.

“Ekaterina deu à luz três crianças nos anos de 1875 a 1878. Todas três morreram logo após o nascimento. Ekaterina mal tinha vinte anos quando em 21 de dezembro de 1879 deu à luz um quarto filho. Pelo capricho da sorte esta criança cresceria e se tornaria um menino saudável, vigoroso e teimoso. No batismo recebeu o nome de Joseph; e assim o padre Grego Ortodoxo local, que agia como registrador, gravou o aparecimento neste mundo de Joseph Vissarionovich Djugashvili, mais tarde a se tornar famoso sob o nome de Joseph Stalin.[34]

“Sua mãe, Ekaterina, foi a pessoa mais influente na sua infância. […] Desde que seu marido começou a gastar em beber o que ganhava ou não pôde ganhar o suficiente para mantê-los, ela teve que «trabalhar dia e noite para poder sobreviver»[35].

“Os pais, Yekaterina e Vissarion Djugashvili, eram camponeses pobres que mais tarde passaram a morar em Gori, sempre carentes de recursos. Dos três filhos, Mikhail e Georgii faleceram antes de atingir um ano de idade, restando apenas Iosef, ou Soso, como era chamado. (…) Segundo I. Iremashvili, um menchevique georgiano que conheceu a família, o pai de Stalin, o sapateiro, bebia demais e espancava mulher e filho com frequência.”. “Stálin foi um dos raros dirigentes bolcheviques de origens modestas. Toda a sua vida, esforçou-se por escrever e falar de forma compreensível para os trabalhadores simples.”O camponês Vissarion tornou-se sapateiro. Ele prosperou por um tempo, chegando a possuir sua própria oficina e a contratar trabalhadores, qualificando-se assim como um ‘explorador’, como Stálin disse mais tarde.”[36]

Os primeiros anos de vida de Ióssif — entre 1878 e 1880 — transcorreram sob a sombra constante da doença e da morte, como acontecia com milhões de filhos do povo no vasto Império Russo. “Em dezembro de 1878, com quatro anos de casamento, quando Keké tinha por volta de vinte anos e Bessó estava com 28, o casal teve um filho, Ióssif (em georgiano, Iósseb) — o futuro Stálin.25 Na verdade, Ióssif era o terceiro filho de Bessó e Keké, que pela tradição georgiana e ortodoxa oriental era visto como um dom especial de Deus”[37]. Naquele tempo, ainda mais do que na atualidade, nascer pobre significava lutar desde o primeiro suspiro. As casas eram frias, o pão era duro e escasso, e o inverno parecia entrar pelas frestas das paredes como um inimigo silencioso. Na pequena Gori, o menino era frágil. Seu corpo, ainda pequeno, parecia dobrar-se diante das febres e das enfermidades que percorriam as ruas como um vento cruel. As mães da cidade conheciam bem esse medo. Sabiam que cada criança que nascia era também uma batalha contra o destino imposto pela pobreza. Muitas vezes o choro de um recém-nascido se apagava antes mesmo que o tempo tivesse permitido ao menino aprender a andar pelos caminhos de terra da aldeia.

Entre 1880 e 1883 uma vida de constantes mudanças foi a sina do futuro Stálin.

Keké e o pequeno Sossó começaram uma existência errante, mudando de casa pelo menos nove vezes durante a década seguinte. E esse não foi o único infortúnio do menino. No mesmo ano em que seu pai foi embora, ele contraiu varíola durante uma epidemia que devastou muitas famílias de Góri. Três dos seis filhos de seu vizinho Egnatachvíli pereceram. Keké apelou para uma curandeira. Sossó sobreviveu às febres. Mas seu rosto ficou para sempre cheio de cicatrizes, e ele ganhou o apelido de “Bexiguento” (Tchopura). Foi provavelmente por volta dessa época (1884), com seis anos de idade, que o cotovelo e o ombro esquerdo de Sossó começaram a se desenvolver de maneira anormal, reduzindo o uso de seu braço esquerdo. [38]

Entre os três e os oito anos de idade — aproximadamente entre 1881 e 1886 — a infância de Sossó foi atravessada por uma tormenta silenciosa que se espalhava por todo o Cáucaso sob o domínio do império. Não era apenas a história de uma família; era o próprio mundo antigo se quebrando, pedra por pedra, diante do avanço impiedoso do capital. Na pequena Gori, as oficinas artesanais ainda respiravam o ritmo lento do trabalho manual. Ali, seu pai, Bessó, era sapateiro. O couro rangia sob a faca, o martelo batia no prego, e o cheiro pesado das solas curtidas enchia o pequeno ateliê. Era um trabalho duro, mas era seu — um ofício aprendido com as próprias mãos, herança de um tempo em que o artesão ainda comandava o próprio banco de trabalho. Mas esse mundo estava morrendo.

Aos poucos, nas cidades maiores do Cáucaso, surgiam fábricas que engoliam os velhos ofícios como um moinho de ferro. O artesão independente começava a desaparecer, esmagado pela produção em massa e pelo poder dos comerciantes e industriais. Aquilo que antes era um trabalho próprio transformava-se em dependência. O mestre virava operário. O dono da ferramenta virava servo da máquina. Foi assim que Bessó, vencido pela pobreza crescente e pelas dívidas, abandonou o pequeno ofício e partiu para Tbilisi, onde procurou emprego na fábrica de curtumes de Adelkhánov. Lá, o couro não era trabalhado por um homem livre, mas por fileiras de operários exaustos que mergulhavam as mãos em tanques de cal e produtos corrosivos. O cheiro forte queimava os pulmões. As jornadas eram longas. O salário, curto.

Aquilo que acontecia com aquela família não era um acidente isolado. Já havia sido explicado pelos pensadores do movimento operário europeu. Friedrich Engels descrevera esse processo como a agonia das antigas formas de produção diante da penetração do capital. O artesanato, com sua autonomia limitada, era destruído pela indústria que concentrava máquinas, riqueza e poder nas mãos de poucos. Ao mesmo tempo, nas planícies e aldeias do império, outra crise avançava. Karl Marx, ao estudar as estatísticas da Rússia na década de 1880, havia observado como a estrutura camponesa começava a rachar sob pressões profundas: colheitas incertas, impostos pesados, terras insuficientes. As aldeias expulsavam seus próprios filhos. E esses filhos, sem-terra nem trabalho estável, eram empurrados para as cidades que cresciam rapidamente. Assim se formava um novo mundo urbano — miserável, barulhento, cheio de fumaça e de homens e mulheres arrancados de suas antigas vidas.

Foi nesse contexto que, em 1883, quando Sossó tinha apenas cinco anos, o lar se desfez. Seu pai abandonou a casa em Gori e partiu definitivamente para Tíflis, arrastado pela ruína econômica e pelo alcoolismo que muitas vezes acompanhava a derrota dos trabalhadores esmagados por esse novo sistema. Para o menino, aquilo significou silêncio e ausência. Para a história social do Cáucaso, significava algo maior: a ruptura de milhares de famílias sob a pressão das transformações econômicas do império. A infância de Sossó, portanto, não se desenrolava em um mundo estável. Ela acontecia no interior de um processo histórico turbulento — o nascimento doloroso de uma nova sociedade, em que camponeses se tornavam operários, artesãos eram proletarizados e as massas começavam, ainda sem plena consciência, a formar a força que um dia levantaria sua própria bandeira na luta contra a velha ordem.

Em 1883, Keké e o pequeno Sossó começaram uma existência errante, mudando de casa pelo menos nove vezes durante a década seguinte. E esse não foi o único infortúnio do menino. No mesmo ano em que seu pai foi embora, ele contraiu varíola durante uma epidemia que devastou muitas famílias de Góri. Três dos seis filhos de seu vizinho Egnatachvíli pereceram. Keké apelou para uma curandeira. Sossó sobreviveu às febres. Mas seu rosto ficou para sempre cheio de cicatrizes, e ele ganhou o apelido de “Bexiguento” (Tchopura). [39]

O ano de 1883 caiu sobre o povo do Cáucaso como um inverno de doença. Nas ruas estreitas de Gori, onde os trabalhadores lutavam diariamente por um pedaço de pão, a varíola caminhava de casa em casa como um inimigo invisível. Muitas crianças do povo não sobreviveram àquele cerco silencioso da doença. Mas o pequeno Ióssif resistiu. Quando o menino atravessou aquela febre devastadora e permaneceu vivo, sua mãe, Keké, passou a vê-lo como alguém arrancado da própria morte. Mulher pobre, acostumada ao trabalho duro e às privações que esmagavam os filhos dos camponeses e artesãos, ela concentrou nele todas as suas esperanças. Para ela, proteger aquele menino não era apenas amor materno — era uma luta obstinada contra o destino imposto às famílias pobres do império.

Assim, Ióssif tornou-se o centro de seus esforços. Enquanto o velho mundo empurrava o povo para a fome e para a servidão do trabalho mal pago, Keké sonhava em ver o filho escapar da vida de miséria que cercava tantos meninos de sua geração. Mas o destino ainda não havia terminado de testar a resistência daquele corpo frágil. Em 1884, quando tinha apenas seis anos, Ióssif sofreu um novo golpe. Nas ruas de terra da cidade, uma pequena carruagem — um faetonte — o atingiu. O acidente deixou marcas profundas. O braço esquerdo nunca mais recuperaria plenamente sua força. A ferida infeccionou, e o que os médicos de então chamavam de “envenenamento do sangue” espalhou-se pelo corpo, deixando sequelas duradouras no ombro.

Alguns, mais tarde, discutiriam as causas exatas da lesão — se doença, fraqueza congênita ou acidente. Mas os relatos mais persistentes apontam para aquele atropelamento nas ruas de Gori, onde carroças e carruagens cruzavam os caminhos estreitos por onde também corriam as crianças do povo. Assim, ainda na infância, o menino carregava no próprio corpo as marcas de uma vida dura — doença, pobreza, feridas mal curadas. Eram cicatrizes comuns entre os filhos dos trabalhadores daquele tempo, quando o império possuía soldados e prisões em abundância, mas quase nenhum médico para os pobres. E, no entanto, o menino sobrevivia. Como milhões de crianças nascidas nas casas humildes do império, ele crescia entre a fragilidade e a resistência — como um pequeno broto que insiste em nascer entre pedras. Nessas condições ásperas, forjava-se lentamente não apenas um corpo marcado pela luta, mas também o caráter de alguém que aprenderia desde cedo que viver, para o povo pobre, significava resistir todos os dias contra um mundo hostil.

Foi provavelmente por volta dessa época (1884), com seis anos de idade, que o cotovelo e o ombro esquerdo de Sossó começaram a se desenvolver de maneira anormal, reduzindo o uso de seu braço esquerdo. Várias causas foram propostas: um acidente de trenó ou briga; uma colisão acidental com um faetonte (pequena carruagem), seguida de envenenamento do sangue causado por uma ferida infectada. De terno, Sossó foi atropelado perto da catedral católica romana de Góri por um raro (para Góri) faetonte, talvez porque ele e outros meninos, em um teste de coragem, tentassem agarrar os eixos. [40]

A casa pobre onde viviam mãe e filho em Gori era sustentada por mãos cansadas e por uma vontade teimosa de sobreviver. Com o pai distante e cada vez mais afundado nas margens da vida urbana, coube a Keké travar sozinha a batalha cotidiana contra a fome. Desde cedo, antes mesmo de o sol romper completamente as montanhas do Cáucaso, ela saía para trabalhar. Lavava roupas em água gelada até que os dedos ficassem dormentes, costurava à luz fraca de lamparinas, fazia serviços de diarista nas casas dos poucos que possuíam algum conforto. Era assim que se mantinha de pé aquela pequena família: com baldes pesados, agulhas finas e jornadas que pareciam não terminar nunca. Enquanto isso, o pai, Bessó, afundava cada vez mais na vida dura do subproletariado urbano. Nas oficinas e tavernas de Tbilisi, onde trabalhadores derrotados buscavam esquecer a própria miséria, o álcool e o desespero caminhavam lado a lado. Quando voltava para casa, muitas vezes trazia consigo a violência que nasce de uma existência esmagada pela pobreza.

Assim, o pequeno Sossó cresceu em meio a gritos, golpes e silêncio. O pai o castigava brutalmente; a mãe, endurecida pelas dificuldades, também recorria ao castigo como forma de disciplina. Aquilo não era uma tragédia isolada de uma família: era o reflexo de um mundo inteiro mantido na ignorância e na brutalidade. Os estudiosos marxistas descreveriam mais tarde essa realidade como fruto do “obscurantismo e da miséria mais sombria” imposta pelo regime do czar. O império mantinha o povo na fome, na ignorância e na submissão, pois sabia que homens e mulheres exaustos e desesperados dificilmente encontrariam forças para se organizar.

Mas mesmo nesse ambiente áspero surgia uma esperança. Em 1886, quando Ióssif completou oito anos, chegou o momento de entrar na escola. Aquele passo aparentemente simples tornou-se um campo de batalha dentro da própria família. Keké via nos estudos — sobretudo nos estudos religiosos — uma porta de saída para a vida miserável que conhecia. Sonhava ver o filho tornar-se sacerdote, alguém protegido da dureza das fábricas e oficinas. Bessó pensava diferente. Para ele, o destino do menino deveria ser o mesmo de tantos filhos do povo: aprender um ofício, trabalhar com as mãos, entrar no mundo dos artesãos e operários.

Entre essas duas visões — a esperança clerical da mãe e a realidade artesanal-proletária do pai — o menino crescia. Mas havia ainda um obstáculo maior, imposto pelo próprio império: a língua. No vasto domínio do czar, qualquer avanço institucional exigia dominar o russo. Para um menino georgiano de origem pobre, isso não era apenas um desafio escolar; era um primeiro choque com o poder político e cultural do Estado que esmagava as nações do Cáucaso. Assim, antes mesmo de compreender plenamente o mundo ao seu redor, Sossó já enfrentava barreiras que não eram apenas pessoais, mas sociais e políticas — obstáculos erguidos por um império que governava pela força, pela desigualdade e pela imposição cultural. E foi nesse terreno duro, onde a pobreza se misturava à disciplina do estudo e à opressão nacional, que começou a se formar a consciência de um menino que aprenderia, pouco a pouco, a transformar a experiência da miséria em compreensão da luta histórica das massas.

Em 1886, Keké tentou, pela primeira vez, que seu filho Soso – apelido carinhoso de Josef na infância – entrasse no Seminário de Gori (Escola Teológica Ortodoxa de Gori), porém, seu desconhecimento da língua russa foi uma barreira para a entrada. Entre 1886-88, Soso estuda com amigos do ciclo religioso de sua mãe, e em 1888 ele entra direto na segunda turma preparatório.[41]

Keké, demonstrando a engenhosidade que caracteriza a luta pela reprodução da classe operária, articulou aulas particulares com os filhos do padre local, Tcharkviani, garantindo que Ióssif aprendesse russo enquanto realizava tarefas domésticas para a família paroquial. Esse esforço autodidata, iniciado aos oito anos, revelou um aluno brilhante e resiliente, que utilizava a leitura como meio de transcender a “primitivíssima antiguidade” de Gori. Marx e Engels, em seus volumes sobre a Rússia, enfatizavam que a instrução era a arma essencial para que o proletariado se tornasse uma “classe para si”, tese que encontrou ressonância na estratégia materna de Keké. Ao final deste ciclo, em 1886, Stálin já havia sobrevivido a doenças epidêmicas e traumas físicos severos, consolidando-se como o único herdeiro das esperanças de uma família dilacerada pelas transformações violentas do século XIX.

Aos 9 anos, ingressou na escola da igreja em Gori e, logo após, entre os 15 e 16 anos, em 1894, entrou no Seminário Teológico Ortodoxo de Tiflis. Nesse período, o capitalismo industrial se desenvolvia na Transcaucásia, região marcada por fortes resquícios feudais e pela opressão nacional e colonial, enquanto o marxismo começava a crescer pela Rússia, influenciado pela atuação dos círculos comunistas como a Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhador entre outros grupos[42].

A trajetória política de Josef Djugashvili (que, na juventude, era conhecido como “Sosso” e mais tarde usou o pseudônimo “Koba”)[43] começou a se manifestar no final do século XIX, quando ele ainda era um seminarista no Cáucaso. Seu envolvimento político começou em um “cenário de rebeldias” enquanto era seminarista em Tíflis. Durante esse período, ele expressou sua revolta escrevendo versos em georgiano e publicando-os em 1895 no periódico georgiano Iveria, utilizando o pseudônimo de Sosselo. A poesia que produzia era um “misto de romantismo popular e arroubos patrióticos”, celebrando a natureza e se apiedando da condição camponesa. Por exemplo, no poema “A rosa desabrochou”, lia-se: “Floresce, meu belo país/ O país dos georgianos/ E, tu, georgiano/ Faz o país feliz com teus estudos”. Ele encerrou sua breve “carreira de poeta iniciante” em julho de 1896 com a publicação de “Velho Ninika” no periódico Kvali[44].

A Transcaucásia, transformada em um mercado para o capital russo e estrangeiro, assistiu ao rápido crescimento da classe trabalhadora, sobretudo em Baku, centro industrial e operário. Nesse contexto, o Seminário de Tiflis tornou-se um foco de ideias libertárias. O rígido regime do seminário intensificou em Stálin seu espírito de protesto o levou ao envolvimento revolucionário aos quinze anos, quando aderiu a grupos marxistas ilegais influenciados pela literatura marxista clandestina.

Stálin demonstrou um intenso empenho em sua formação teórica, estudando as principais obras de Marx, Engels e Lênin, como O Capital, o Manifesto Comunista, além de textos que criticavam o Narodismo e o Economismo.

Impressionado pelos escritos de Lênin, Stálin manifestou o desejo de conhecê-lo pessoalmente. Seus estudos abrangiam filosofia, economia política, história e ciências naturais, preparando-o como um marxista culto e disciplinado.

Simultaneamente, ele se engajava em atividades práticas revolucionárias: organizava círculos de estudo entre trabalhadores, redigia panfletos, liderava greves e participava de reuniões clandestinas. Expulso do seminário em 1899 por atividades marxistas, Stálin continuou sua militância enquanto trabalhava como calculador no Observatório Tiflis. Tornou-se, então, um dos principais líderes do movimento social-democrata de Tiflis, liderando uma organização inspirada na Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora de Lênin[45].

Entre 1898 e 1900, Stálin, à frente da minoria revolucionária do Messameh Dassy, travou uma batalha ideológica contra os oportunistas inclinados ao Economismo, promovendo táticas de agitação política de massa e manifestações públicas contra o regime czarista. O apoio de Victor Kurnatovsky, um aliado de Lênin, fortaleceu a adoção das ideias leninistas na Transcaucásia[46].

Em 28 de dezembro de 1899, o ex-seminarista Djugachvili começa a trabalhar no principal observatório físico de Tíflis,17 sobretudo como fachada para acobertar seu trabalho ilegal. Seu quarto no observatório, o primeiro em que morava sozinho, marcou o início de sua vida privada. Às vezes, recebia ali amigos ou operários que pretendia conquistar para a causa. Eventualmente realizavam-se pequenas reuniões. O militante clandestino ia se delineando. Junto com alguns outros companheiros, preparou a manifestação de 1º de maio no Cáucaso. O modesto comício mais parecia uma procissão religiosa ortodoxa que uma ação de massa proletária, mas, na ocasião, Djugachvili dirigiu-se aos manifestantes, e este foi seu primeiro discurso em público.18 [47]

Com o surgimento do jornal Iskra em 1900, Stálin tornou-se um fervoroso defensor de sua política, reconhecendo em Lênin o verdadeiro fundador e guia do partido marxista. Considerava-o superior aos outros líderes, uma “águia da montanha” que enfrentava os desafios revolucionários com coragem e visão. Essa admiração consolidou uma fé inabalável no caminho traçado por Lênin, ao qual Stálin permaneceu fiel mesmo após sua morte[48].

Entre 1900 e 1901, uma onda de greves atingiu Tiflis, impulsionada pela crise econômica e pelo movimento operário. Sob a liderança de Stálin, a manifestação de 1º de Maio de 1901 no centro de Tiflis ganhou destaque nacional, sendo saudada pela Iskra como um marco na luta operária no Cáucaso. Este evento consolidou a influência de Stálin no movimento revolucionário e marcou o início de sua trajetória como líder de massas.[49]

Um relatório do comissariado de Tíflis, de 23 de março de 1901, registra que Djugachvili, que trabalhava no observatório, mantinha relações com operários e pertencia ao partido social-democrata. Ele foi um dos fundadores e editores do primeiro jornal clandestino georgiano, o Brdzola (A Luta), que circulou a partir de setembro de 1901. [50]

Enquanto a liderança exilada debatia em Londres e Genebra, Ióssif Stáline (então conhecido como Koba) atuava nas periferias do Império, no Cáucaso. As fontes indicam que, ao contrário de outros líderes que oscilaram, Stáline alinhou-se cedo e incondicionalmente com a posição de Lênin e do jornal Iskra. Em 1901, Stáline já escrevia no jornal georgiano Brdzola (A Luta), defendendo a linha leninista contra os nacionalistas e oportunistas locais. “Koba distinguia-se de todos os outros bolcheviques […] pela sua energia inquestionavelmente maior, pela capacidade incansável para o trabalho duro, pelo desejo indomável de poder e, acima de tudo, por seu enorme talento organizacional.”[51]

Stálin via em Lênin não apenas um teórico, mas o guia prático para a revolução, alguém de dimensões tão grandes quanto Marx e Engels. A correspondência de Stálin revela sua admiração pela genialidade de Lênin. Ele descreveu a impressão que teve ao ler uma carta de Lênin em 1903: “Só Lenin poderia escrever sobre as coisas mais complexas de forma tão simples e clara, tão concisa e ousada, que cada frase não falava, mas soava como um tiro de rifle. Esta carta simples e ousada fortaleceu-me ainda mais em minha opinião de que Lenin era a águia da montanha de nosso Partido”[52].

Stálin iniciou sua vida como revolucionário profissional em 1901, após ser expulso do seminário, focando na organização de gráficas ilegais e na publicação de materiais que alinhavam o movimento operário georgiano às teses de Lênin: “No outono de 1901, o jornal georgiano Brdzola [Luta] foi lançado com artigos programáticos que mostram que o jornal estava no campo da Iskra[53].

Em Batum, ele demonstrou sua capacidade de liderar greves massivas sob condições repressivas, o que resultou em sua primeira prisão e no início de seu ciclo de exílios siberianos.”Em Fevereiro de 1902, já tinha organizado 11 círculos clandestinos nas principais empresas da cidade [Batum]. A 27 de Fevereiro, seis mil operários da refinaria de petróleo participam numa marcha pela cidade”[54].

2. A Revolução de 1905 e o Primeiro Encontro com Lênin

O prelúdio da revolução de 1905 no Cáucaso foi marcado por uma greve vitoriosa em Baku no final de 1904, onde Stálin, aos 25 anos, já demonstrava sua capacidade de organizar o movimento operário em larga escala contra a corrupção e incompetência da autocracia tsarista: “Em dezembro de 1904, o primeiro sinal de revolta veio em uma greve vitoriosa em Baku, liderada por um georgiano de vinte e cinco anos, que mais tarde seria conhecido como Josef Stálin.”[55]

Durante o período de 1904, Stálin foi fundamental na organização dos trabalhadores do petróleo, culminando em acordos coletivos que elevaram sua autoridade entre os bolcheviques e prepararam o terreno para o levante revolucionário. “Em 1904, ele participou da organização da greve dos trabalhadores do petróleo em Baku, que terminou com a conclusão de um acordo coletivo entre os grevistas e os industriais.”[56]

A Revolução de 1905 representou o momento em que a “criminosa autocracia czarista” levou a Rússia à beira da destruição, evidenciando a ruína de milhões de camponeses e a condição de pobreza extrema da classe operária. Antes da revolução, estima-se que mais de 90% da nação russa vivia em condições pouco melhores que a escravidão, existindo “como porcos na sujeira” enquanto uma pequena elite desfrutava de luxos. O estopim para a crise foi a Guerra Russo-Japonesa, cujas derrotas humilhantes, como a queda de Port Arthur, revelaram a “senilidade e flacidez” do regime de Nicolau II. Joseph Stálin, analisando o período, afirmou:

A autocracia czarista criminosa levou nosso país à beira da destruição. A ruína total dos cem milhões de camponeses russos, a condição oprimida e de pobreza da classe trabalhadora, as dívidas estatais excessivas e os impostos pesados, a total falta de direitos de toda a população, a tirania e a violência sem fim reinando em todas as esferas da vida, finalmente, a total falta de segurança dos cidadãos na vida e na propriedade — tal é o quadro terrível que a Rússia apresenta[57].

O marco inicial da revolução foi o Domingo Sangrento (9 de janeiro de 1905), quando o czar ordenou o fuzilamento de trabalhadores pacíficos e desarmados que buscavam peticionar por uma vida melhor. Nas palavras do próprio Stálin: Em 9 de janeiro de 1905, o governo do Czar Nicolau II reprimiu com força letal uma manifestação de trabalhadores que reivindicavam melhorias nas condições de vida por meio de uma petição pacífica[58].

A Revolução de 1905 também foi o cenário de uma disputa teórica fundamental entre os bolcheviques, liderados por Lênin, e os mencheviques. Os bolcheviques defendiam a hegemonia do proletariado e uma aliança estratégica com o campesinato para derrubar o czarismo e estabelecer uma “ditadura democrática revolucionária”. Por outro lado, os mencheviques viam a revolução como burguesa e acreditavam que a liderança deveria pertencer à burguesia liberal, relegando os operários ao papel de apoiadores. Sobre essa disputa estratégica, Stálin registrou:

“O proletariado deve levar a cabo a revolução democrática até ao fim, unindo a si a massa do campesinato, a fim de esmagar pela força a resistência da autocracia e paralisar a instabilidade da burguesia. O proletariado deve realizar a revolução socialista, unindo a si a massa dos elementos semiproletários da população, a fim de quebrar pela força a resistência da burguesia e paralisar a instabilidade do campesinato e da pequena burguesia[59].

Análise das Divergências entre Bolcheviques e a Social-Democracia Alemã

De fato, o apoio bolchevique à ala esquerda da social-democracia alemã era condicionado a reservas críticas severas quanto aos seus desvios de orientação menchevique. Tal postura deve ser compreendida como um esforço de retificação teórica, e não como um ponto de crítica ao partido.

Para fundamentar essa análise, recorremos a fatos históricos consolidados:

  1. a) Critérios de filiação partidária (1903): Surgiram divergências substantivas entre bolcheviques e mencheviques na Rússia sobre os requisitos para a adesão ao partido. A formulação bolchevique visava estabelecer barreiras organizacionais contra a entrada de elementos não proletários, um risco iminente dado o caráter burguês-democrático da revolução russa. Enquanto os mencheviques defendiam critérios de adesão mais flexíveis, líderes da esquerda alemã, como Parvus e Rosa Luxemburgo, intervieram em favor da posição menchevique. Na ocasião, acusaram os bolcheviques de “ultracentralismo” e de tendências “blanquistas” — termos que seriam posteriormente instrumentalizados pela oposição em escala global.
  2. b) Caráter da revolução e alianças de classe (1905): O debate centrou-se na natureza do processo revolucionário russo. Os bolcheviques propunham a hegemonia do proletariado e uma aliança estratégica com o campesinato, visando a instauração de uma “ditadura revolucionária democrática” que permitisse a transição imediata para a etapa socialista.

Em contrapartida, os mencheviques rejeitavam essa hegemonia, preferindo uma coalizão com a burguesia liberal e classificando a proposta bolchevique como um esquema reacionário. Nesse contexto, Parvus e Luxemburgo formularam a teoria da revolução permanente — uma interpretação considerada utópica e de matriz menchevique por negar a importância da aliança operário-camponesa. Esta tese foi posteriormente adotada por Trotsky e utilizada como plataforma de oposição ao leninismo[60].

A revolução atingiu seu ponto alto com a Greve Geral de Outubro de 1905, que forçou o czar a emitir um manifesto prometendo liberdades civis, embora os bolcheviques tenham denunciado o documento como uma “concessão temporária” e um “engano farsa”.

O monarca não convocará uma Assembleia Constituinte soberana nem abdicará voluntariamente da autocracia. A ‘constituição’ limitada oferecida é apenas uma concessão tática e uma promessa sem garantias reais. Embora o movimento deva utilizar esse espaço institucional como ferramenta para desestabilizar o próprio regime, a população não deve depositar confiança em compromissos reais. A soberania popular exige autonomia e o uso da força própria; a emancipação social depende da ação direta das massas, sendo que a liberdade civil só será consolidada através da derrubada definitiva das estruturas de opressão.

A Grande Revolução Russa começou! Já vivenciamos o primeiro ato terrível desta revolução, formalmente concluído com o Manifesto de 17 de outubro. “Pela graça de Deus”, o czar autocrático curvou sua “cabeça coroada” perante o povo revolucionário e prometeu-lhes “os alicerces inabaláveis ​​da liberdade civil”.

Mas este é apenas o primeiro ato. Este é apenas o começo do fim. Estamos às vésperas de grandes eventos dignos da Grande Revolução Russa. Esses eventos se abatem sobre nós com a inexorável severidade da história, com a necessidade férrea.[61]

Em dezembro de 1905, o movimento evoluiu para o estágio de insurreição armada, com destaque para os eventos em Moscou e nas regiões bálticas. “A “luta de dezembro” em Moscou e entre os letões foi também uma ação do povo”[62]. Nestes levantes, os trabalhadores enfrentaram abertamente as tropas imperiais em barricadas, embora Stálin tenha criticado a falta de uma política ofensiva clara. Ele argumentou que, se os revolucionários de Moscou tivessem capturado pontos estratégicos como a estação ferroviária de Nikolaevsky, o levante teria sido mais prolongado e vitorioso[63].

Ao analisar a derrota final do levante de 1905, Stálin identificou causas estruturais e políticas profundas. Ele observou que “os remanescentes feudais e a autocracia revelaram-se então mais fortes do que o movimento revolucionário dos operários”[64]. Além da força do aparato estatal, a revolução falhou porque o campesinato e o exército não se uniram de forma plena à vanguarda operária. Segundo sua análise: “…se o campesinato e as tropas não se juntaram à insurreição… isso aconteceu porque em uma insurreição fraca e de curta duração eles não podiam ver uma força especial, e aos fracos, como se sabe, ninguém se junta”[65].

Stálin reforçou que a liderança da aldeia deveria vir da cidade, enfatizando que “hoje a cidade é chamada a liderar o campo, o operário a liderar o camponês, e se nas cidades a causa da insurreição não for organizada, o campesinato nunca irá nesta causa com o proletariado de vanguarda”[66]. Ele concluiu que o fracasso em evocar uma resposta simpática entre os camponeses foi uma das razões fundamentais para a derrota de 1905, assim como ocorreu historicamente com a Comuna de Paris (STALIN, Joseph, Stalin’s Kampf, Howell, Soskin & Company, New York, 1940, v. 1, p. 43). Em última análise, a falta de uma aliança de classe sólida e a desorganização interna do partido impediram que o ímpeto de 1905 derrubasse definitivamente o czarismo naquele momento.

Após os eventos acima, foi na Conferência de Tammerfors, em 1905, que Stálin conheceu pessoalmente Lênin, estabelecendo uma lealdade que o manteria na ala bolchevique durante toda a cisão do partido: Stálin tinha 26 anos quando pela primeira vez se encontrou com Lênin, na Finlândia. Foi em Dezembro de 1905[67].

2.1. O Combate ao Nacionalismo e à Divisão Étnica

Stálin atuou ativamente em Tiflis para neutralizar as tentativas do governo tsarista de incitar conflitos étnicos, buscando unificar os diferentes povos do Cáucaso em torno da bandeira da social-democracia. Citação: “Em fevereiro de 1905, preparando activamente a revolução iminente, Stálin organiza lutas de massas contra o racismo e o nacionalismo reaccionários.”[68]

A tática de Stálin em 1905 passava pela conscientização de que apenas a queda da autocracia e o fim do capitalismo poderiam garantir a verdadeira solidariedade entre os povos e o fim da opressão nacional. “Saibam agora, cidadãos, que isto somente pode conseguir-se pondo fim às desigualdades: é suprimiendo ao capitalismo como poremos fim às diferenças nacionais!”[69]

2.2. A Visão sobre a Insurreição Armada na Russia

Diferente da visão menchevique que favorecia a espontaneidade, Stálin defendia que a revolução exigia uma preparação técnica e militar rigorosa, incluindo a formação de grupos armados coordenados. “Ao contrário, argumentava Stálin, uma insurreição tinha de ser preparada e implementada em uma base coordenada, inclusive pela organização antecipada de grupos armados que protegeriam o povo e estocariam armas”[70].

Em seus escritos teóricos desse período, como “A insurreição armada e nossa tática”, Stálin, estabeleceu-se como um defensor intransigente do uso da força para derrubar o regime tsarista. “Em 1905, o chefe dos mencheviques georgianos, Jordânia, publicou uma crítica às teses bolcheviques defendidas por Stálin […] Stálin defende, contra os mencheviques, a necessidade da luta armada para derrubar o tsarismo.”[71]

 

A experiência de 1905, segundo descrita pela historiografia soviética, foi o momento em que o proletariado, sob liderança de homens como Lenin e Stálin, deixou de ser uma classe incipiente para se tornar uma força revolucionária invencível. “O proletariado cresceu e desenvolveu-se junto com o desenvolvimento do capitalismo e, já no começo do século XX (1905), revelou-se uma grande força revolucionária.” [72]

 

Lênin e Stálin lutaram juntos em 1905 para transformar o partido em uma estrutura de vanguarda disciplinada, rejeitando métodos de guerrilha desorganizados em favor de um exército revolucionário regular: “intervieram resolutamente contra a ‘oposição militar’ que defendia as sobrevivências da guerrilha dentro do Exército e lutava contra a criação de um Exército Vermelho regular.”[73]

Stálin via a Revolução de 1905 não apenas como uma luta russa, mas como uma responsabilidade perante toda a humanidade contra o jugo da barbárie czarista. “A social-democracia russa é responsável não somente perante o proletariado russo, mas ante todos os povos da Rússia, que gemem sob o jugo da autocracia bárbara — ela é responsável perante toda a humanidade.”[74]

3.    Prisões e Lutas: o Congresso de Londres e a “Expropriação” de Tiflis (1907)

Após participar do V Congresso do POSDR em Londres, onde os bolcheviques obtiveram vitórias táticas, Stálin retornou ao Cáucaso e esteve envolvido na organização de ações financeiras ousadas para sustentar o partido na clandestinidade. “De acordo com vários autores, Stalin estaria envolvido na chamada ‘expropriação de Tiflis’ do verão de 1907, cujos fundos destinavam-se às necessidades do partido.”[75]. De acordo com as obras de Stálin o V congresso em Londres aconteceu do seguinte modo: o Quinto Congresso do POSDR foi realizado em Londres, de 30 de abril a 19 de maio de 1907. Em todas as principais questões, o congresso adotou resoluções bolcheviques. J. V. Stalin esteve presente no congresso como delegado da organização de Tbilisi. Ele resumiu os trabalhos do congresso em seu artigo “O Congresso de Londres do POSDR (Notas de um Delegado)” (ver pp. 47-80 do volume 2)[76]. Sobre a expropriação de Tiflis, cabe o esclarecimento:

Stalin teve um papel periférico no assalto à carruagem em Tbilisi, em junho de 1907, que ocupa um lugar de destaque no livro “Jovem Stalin”, de Simon Sebag Montefiore.41 Esse violento assalto, que rendeu 250.000 rublos, mas resultou em várias mortes, foi controverso dentro do POSDR porque ocorreu depois que o partido votou pelo fim de tais “expropriações”. Embora Stalin tenha sido culpado por seus oponentes mencheviques por seu envolvimento no assalto, ele não participou diretamente do roubo e pode nem mesmo ter estado na cidade naquele dia. Com toda a probabilidade, o envolvimento de Stalin se limitou a fornecer informações e apoio moral à operação[77].

Koba Djugachvíli não se arriscou a sair na praça. Mas foi fundamental no planejamento do assalto. Entre os executantes da ação (cerca de vinte) estavam muitos membros de seu esquadrão dos tempos de Tchiatura e, em alguns casos, anteriores a isso. Naquele dia, o homem que assumiu a liderança na praça foi Simon “Kamó” Ter-Petrossian (nascido em 1882), um traficante de armas meio armênio, meio georgiano, então com 25 anos, que o futuro Stálin conhecia desde os tempos de Góri.111 Dizia-se que Kamó estava “completamente encantado” com “Koba”.112 Naquele 13 de junho de 1907, as “maçãs” de Kamó despedaçaram três dos cinco guardas cossacos montados, dois funcionários do banco que acompanhavam as diligências e muitos espectadores. Pelo menos trinta pessoas morreram; os estilhaços feriram gravemente outras vinte.113 Em meio à fumaça ofuscante e à confusão, o próprio Kamó pegou o saque manchado de sangue. Viajando de trem (primeira classe) disfarçado de príncipe georgiano com uma nova noiva (uma mulher da gangue), Kamó entregou o dinheiro a Lênin, que estava clandestino na Finlândia tsarista. (De acordo com Nadejda Krúpskaia, a esposa de Lênin, Kamó também levou castanhas cristalizadas e uma melancia.)114 Não obstante a bravata banditismo. Não menos importante, o Banco do Estado russo estava preparado: havia registrado os números de série das notas de quinhentos rublos e os enviou para as instituições financeiras europeias. Não está claro até hoje quanto do dinheiro roubado na praça Ierevan — se é que algum — foi útil para a causa bolchevique. “O butim de Tíflis não trouxe nada de bom”, escreveu Trótski.115 [78]

3.1. A Prisão de Baku e o Estudo na Cadeia (1908)

De volta a Baku para liderar os trabalhadores do petróleo, Stálin foi capturado pela polícia política (Okhranka) e, mesmo encarcerado, utilizou o tempo para expandir seus conhecimentos linguísticos e teóricos: “Já em março de 1908, Djugachvíli estava de volta à prisão tsarista, em Baku, onde estudou esperanto — um companheiro preso lembrou-se dele ‘sempre com um livro'”[79].

Os escritos a partir de junho de 1907 — no período das atividades revolucionárias do camarada Stalin, principalmente em Baku — tratam da luta que os bolcheviques travaram contra os liquidadores mencheviques pela preservação da República de Israel e o fortalecimento do Partido Marxista revolucionário clandestino (“A Crise do Partido e Nossas Tarefas”, “Resoluções Adotadas pelo Comitê de Baku em 22 de Janeiro de 1910”, “Cartas do Cáucaso”). Questões relativas à liderança do movimento operário revolucionário e dos sindicatos são abordadas nos artigos: “O que nos dizem nossas recentes greves?”, “Os donos de petróleo sobre o terrorismo econômico”, “A Conferência e os Trabalhadores”, entre outros. Uma análise do Quinto Congresso do POSDR é apresentada no artigo “O Congresso de Londres do POSDR (Notas de um Delegado)”. Os artigos de J.V. Stalin deste período, incluídos no Volume 2, foram publicados nos jornais Bakinsky Proletary, Gudok e Sotsial-Demokrat. O segundo semestre de 1911 marcou o início do período de São Petersburgo das atividades revolucionárias do camarada Stalin (1911-1913). Como chefe do Bureau Russo do Comitê Central, o camarada Stalin dirigiu os trabalhos do Partido na Rússia na implementação das decisões da Conferência de Praga do Partido. Foi nesse período que foram escritas as obras que tratavam principalmente da nova onda revolucionária no movimento operário e das tarefas do Partido Bolchevique em relação às eleições para a Quarta Duma Estatal. Entre elas, destacam-se o panfleto “Pelo Partido!”, os artigos “Uma Nova Etapa”, “Eles Estão Trabalhando Bem…”, “O Gelo Quebrou!”, “Mandato dos Trabalhadores de São Petersburgo ao Seu Representante Operário”, “A Vontade dos Delegados dos Eleitores”, “As Eleições em São Petersburgo”, e outros. Esses artigos foram publicados nos jornais de São Petersburgo Zvezda e Pravda. [80]

Já em março de 1908, Djugachvíli estava de volta à prisão tsarista, em Baku, onde estudou esperanto — um companheiro preso lembrou-se dele “sempre com um livro” —, mas foi novamente perseguido por acusações de trair camaradas (outros revolucionários foram presos logo depois dele).127

Em novembro, estava de novo a caminho do exílio interno, em Solvytchegodsk, um antigo posto de comércio de peles no norte da Rússia e “uma prisão a céu aberto, sem grades”.128 Lá, centenas de quilômetros a nordeste de São Petersburgo, na floresta de taiga, era possível encontrar todas as tendências políticas — discutidas à exaustão — e todas as variedades de carreira criminosa entre os quinhentos exilados abrigados em casas de madeira. Quase sucumbindo a um ataque grave de tifo, Djugachvíli iniciou um romance com Tatiana Sukhova, outra exilada, que recordaria sua pobreza e sua mania de ler na cama durante o dia. “Ele brincava muito, e ríamos de alguns dos outros”, observou ela. “O camarada Koba gostava de rir de nossas fraquezas.”129 A vida do camarada Koba havia de fato se tornado um caso triste e amargo após a fracassada experiência de 1905 de um avanço socialista. Sua linda e dedicada esposa estava morta; seu filho era um estranho para ele. E as façanhas dos inebriantes anos em Batum (1902), Tchiatura (1905), Tíflis (1907) e Baku (1908), bem como os congressos do partido na Finlândia Russa (1905), Estocolmo (1906) e Londres (1907), não haviam dado em nada. Algumas, como o roubo da diligência dos correios, saíram pela culatra. [81]

3.2. O Primeiro Exílio em Solvytchegodsk e a Fuga (1909)

Após o período na prisão de Baku, Stálin foi enviado para o norte da Rússia europeia; sua permanência foi curta, pois ele logo organizou sua fuga para retomar a agitação política no coração do império,.”Tendo escapado do exílio em 1909, em março de 1910, Stalin foi preso e, após seis meses encarcerado em Baku, foi novamente escoltado a Solvychegodsk.

Assim como o errante Bessó Djugachvíli passou despercebido pelo mundo, seu filho, o errante fugitivo Ióssif Djugachvíli, foi para São Petersburgo. No outono de 1909, refugiou-se no apartamento seguro de Serguei Allilúiev, o maquinista que fora exilado em Tíflis e depois voltou para a capital, onde costumava abrigar Djugachvíli. (Nádia, filha de Serguei, acabaria por se tornar a segunda esposa de Stálin.) Dali, Djugachvíli logo voltou para Baku, onde a okhranka o seguiu durante meses — com o objetivo óbvio de descobrir sua rede clandestina — antes de prendê-lo de novo, em março de 1910. Prisão, exílio, pobreza: essa tinha sido sua vida desde aquele dia de março de 1901, quando teve de fugir do Observatório Meteorológico de Tíflis e passar à clandestinidade, e permaneceria assim até 1917. Mas a existência marginal de Djugachvíli não era um fracasso pessoal. Todos os muitos partidos revolucionários do império sofriam de considerável fragilidade, apesar do radicalismo dos trabalhadores russos e da 1909, os socialistas revolucionários assim infiltrados, especialmente sua ala terrorista, já haviam declinado drasticamente. Seu terrorista mais acabado, Evno Azef, um engenheiro elétrico, foi desmascarado como agente pago da polícia.135[82]

Primeira quinzena de setembro

  1. V. Stalin é transferido do hospital para a prisão de Viatka.

Final de setembro

  1. V. Stalin chega a Solvychegodsk.
  2. V. Stalin foge de Solvychegodsk.

No trajeto, J. V. Stalin permanece vários dias em São Petersburgo.

  1. V. Stalin chega secretamente a Baku e dirige o trabalho de restauração e consolidação das organizações bolcheviques em Baku e na Transcaucásia.

Após um ano de suspensão, o Bakinsky Proletary retoma a publicação com o nº 6, que contém o artigo principal de J. V. Stalin, “A Crise do Partido e Nossas Tarefas”.

O Comitê de Baku do P.O.S.D.R., dirigido por J. V. Stalin, adota uma resolução sobre a situação na redação do Proletary, apoiando “a posição assumida pela maioria da redação, representada pelo Camarada Lênin”.

O nº 7 do Bakinsky Proletary publica a conclusão do artigo de J. V. Stalin, “A Crise do Partido e Nossas Tarefas”, e também o artigo “A Próxima Greve Geral”.

  1. V. Stalin parte de Baku para Tiflis, onde organiza e dirige a luta da organização bolchevique de Tiflis contra os liquidacionistas mencheviques.

  2. V. Stalin toma medidas para restabelecer a tipografia clandestina do Comitê de Baku.[83]

3.3. A Luta nas Minas e a Terceira Prisão (1910)

Stálin atuou como um dos poucos líderes bolcheviques que mantinham células ativas na Rússia durante a reação de Stolípine, sendo preso novamente enquanto preparava um movimento grevista de grande escala. “Em 1910, Stalin preparava a greve geral de Baku quando foi preso pela terceira vez. Como dirigente operário, publicou no início de 1910 o seguinte artigo: ‘A repressão econômica… redobra sua intensidade”[84].

O Comitê de Baku do P.O.S.D.R., dirigido por J. V. Stalin, adota uma resolução sobre a situação na redação do Proletary, apoiando “a posição assumida pela maioria da redação representada pelo camarada Lênin”.

O nº 7 do Bakinsky Proletary publica a conclusão do artigo de J. V. Stalin “A Crise do Partido e Nossas Tarefas”, e o artigo “A Próxima Greve Geral”.

  1. V. Stalin deixa Baku rumo a Tiflis, onde organiza e dirige a luta da organização bolchevique de Tiflis contra os liquidacionistas mencheviques.

Stalin, sob o pseudônimo Gaioz NizhaRadze foi preso e está detido na prisão de Bailov, em Baku.

Enquanto estava na prisão, J. V. Stalin estabeleceu e manteve contato com a organização bolchevique de Baku, dirigindo o Comitê de Baku.

Ele também realiza propaganda entre os políticos – promove debates com os socialistas-revolucionários e mencheviques e organiza o estudo da literatura de Marx pelos prisioneiros políticos.

O número 25 da revista Gudok publica o artigo principal de J.V. Stalin, intitulado “Terrorismo Econômico e o Movimento Operário”.

Os números 28, 30 e 32 da publicação Gudok citam o artigo de JV Stalin intitulado “Os donos do petróleo e o terrorismo econômico”.

O número 5 das publicações profissionais de Bakinsky contém os artigos de J.V. Stalin intitulados “Socialistas ‘lacaios'”.

e “zubatovitas hipócritas”.

Na mesma edição do jornal, é publicado como suplemento o artigo de J.V. Stalin intitulado “A Conferência e os Trabalhadores”.

O Comitê de Baku do POSDR adota uma resolução elaborada por J.V. Stalin, que insta à necessidade de convocar uma conferência geral do Partido, de transferir para a Rússia o centro prático de direção das atividades do Partido e de publicar um jornal de circulação nacional.

V. Stalin é deportado para a Gubernia de Vologda por dois anos, onde permanecerá sob vigilância policial constante. [85]

3.4. O Ciclo de Vologda e a Vigilância da Okhranka (1911)

Após cumprir seu termo em Solvytchegodsk, Stálin foi autorizado a mudar-se para a cidade de Vologda em julho de 1911, onde permaneceu sob estrita vigilância secreta da Okhranka (polícia política tsarista). Naquele contexto, ele era um frequentador assíduo da biblioteca local, visitando-a 17 vezes em pouco mais de três meses para ler obras de história e filosofia. Em setembro de 1911, ele fugiu de Vologda com documentos falsos e seguiu para São Petersburgo, mas foi localizado pela polícia e preso novamente apenas três dias depois de chegar à capital. Em dezembro, foi sentenciado a mais três anos de exílio sob vigilância policial.

J. V. Stalin, munido de uma autorização parte de Solvychegodsk para Vologda.

Em Vologda, J. V. Stalin é mantido sob vigilância da polícia secreta. Stalin escreve uma carta ao conselho editorial do Rabochaya Gazeta (Jornal dos Trabalhadores), dirigido por Lenin, manifestando sua intenção de trabalhar em São Petersburgo ou em Moscou.

J. V. Stalin sai secretamente de Vologda rumo a São Petersburgo e se registra com o passaporte de P. A. Chizhikov. [86]

Em setembro de 1911, levando documentos legais de Tchíjikov, Djugachvíli escapou de Vologda e foi novamente para São Petersburgo. Nos cafundós de Vologda (ou Sibéria), a vigilância da polícia tsarista era risível, mas na capital e nas grandes cidades, como São Petersburgo, Baku ou Tíflis, a okhranka mostrava-se vigilante e eficaz. Na capital, ela localizou Djugachvíli imediatamente e o prendeu três dias após sua chegada. [87]

3.5. A Ascensão ao Comitê Central e o Exílio em Narym (1912)

Ele foi preso novamente em abril de 1912 e enviado para Narym, na Sibéria. No entanto, sua estadia foi curta; ele fugiu após 41 dias, retornando à capital para dirigir a campanha eleitoral para a IV Duma e encontrar-se com Lênin no exterior (Cracóvia).

Desta vez, o local de exílio foi a cidade de Narym, na província de Tomsk. Lá já estavam Smirnov, Sverdlov e alguns outros bolcheviques famosos. Após 41 dias ele fugiu mais uma vez, tendo conseguido chegar a Tomsk de vapor, onde embarcou em um trem com um passaporte falsificado para a parte europeia da Rússia e, de lá, imediatamente para a Suíça, onde se encontraria com Lenin.[88]

3.6. O Último e Longo Exílio em Turukhansk (1913)

A trajetória de prisões e fugas culminou em 1913, quando a Okhranka o enviou para a região mais inacessível da Sibéria, o Círculo Polar Ártico, onde permaneceu sob custódia rigorosa até a queda da monarquia. Consumado o conclave, Stalin viajou à metrópole de São Petersburgo, edificou-se como baluarte fundamental do primeiro periódico bolchevique de expressiva circulação, o Pravda. Os inimigos, contudo, impuseram-lhe outro consternado em março de 1913: ele foi preso e deportado aos confins de Turukhansk, na província de Yenisei, ali tragou a dor e amargou no exílio até o crepúsculo do outono de 1916. A despeito da distância, o vínculo ideológico preservou-se inalterado através de correspondências com Lenin. Seu retorno à urbe, já rebatizada Petrogrado, concretizar-se-ia apenas em 12 de março de 1917[89].

3.7. Stalin na Prisão foi um exemplo de Coragem

Stalin encarava o cárcere não como um período de inatividade, mas como uma oportunidade de estudo e doutrinação. Até mesmo adversários políticos reconheceram sua estoicidade física diante da violência dos guardas.

“A prisão havia há muito perdido o terror para Stalin, que ofereceu o exemplo perfeito de como um revolucionário deve comportar-se nessas condições… Lenin preparou cartas… ordenando que dedicassem seu tempo a estudos teóricos… Em Baku, Stalin retomou seu trabalho de proselitismo e estudo… Sobre este encarceramento, temos o relato do menchevique Vereschak, que em livro atacando o bolchevismo… também registra: ‘Quando chegou a vez de Koba Djugashvili, ele caminhou lentamente sob os golpes, os olhos fixos num livro. Nenhum soldado o atingiu’. Até o crítico foi obrigado a render tributo à coragem pessoal do adversário.” [90]

O algoz Trotsky cita relatos que demonstram a frieza psicológica de Stalin. Enquanto outros prisioneiros sucumbiam ao estresse dos jogos sádicos dos carcereiros, Stalin mantinha-se focado em seus estudos ou descansava, demonstrando total indiferença às provocações.

“Vereshchak surpreendeu-se com a resistência de Koba. Os prisioneiros praticavam um jogo cruel chamado ‘caça à bolha’ para enlouquecer o oponente. ‘Nunca foi possível desequilibrar Koba… nada o abalava’, admitiu Vereshchak. Enquanto todos sofriam com o estresse, ‘Koba dormia profundamente ou estudava calmamente esperanto’ (convencido de que seria a língua internacional do futuro).”[91]

 Service reforça a imagem de um Stalin desafiador que, mesmo durante espancamentos coletivos na Páscoa de 1909, recusou-se a demonstrar medo ou submissão, utilizando um livro como símbolo de sua resistência mental.

“Ele era decisivo, implacável e supremamente confiante. Mas também era corajoso – fato ignorado por seus críticos. Até seu detrator Vereshchak reconheceu que Dzhughashvili manteve coragem e dignidade diante das autoridades. Na Páscoa de 1909, soldados invadiram a ala política para espancar presos. Dzhughashvili não mostrou medo. Segurando um livro, manteve a cabeça erguida sob as coronhadas, decidido a mostrar que a violência não o quebraria.”[92]

Ludwig recorda o momento em que a liderança de Stalin na frente de batalha foi crucial para salvar o Exército Vermelho, rendendo-lhe elogios diretos e condecorações por parte de Lenin. “O líder russo [Stalin] é um general que recebeu a mais alta condecoração militar de Lenin em 1919 com o testemunho: ‘Num momento de grande perigo, perto de Krassnaja, Joseph Stalin, com sua energia incansável, salvou o cambaleante Exército Vermelho. Lutando na linha de frente, inspirou os soldados com seu exemplo’.”[93]

Davis aponta para a ausência de medo em Stalin tanto na Guerra Civil quanto na Segunda Guerra Mundial, destacando sua decisão inabalável de permanecer em Moscou mesmo com o avanço alemão.

“Dizem que ele não conhece o medo, e é certo que nunca duvidou da vitória. Intimistas relataram que, durante a guerra civil, ele desprezava o perigo e o próprio conforto. Mesmo nos momentos mais sombrios, sempre acreditou na vitória. Na 2ª Guerra, recusou-se a preocupar-se mesmo com os alemães às portas de Moscou. Nunca deixou a cidade, certo de que o Exército Vermelho não falharia.”[94]

Snow observa como a permanência de Stalin no Kremlin durante os momentos mais críticos da invasão nazista serviu como um pilar de confiança para a resistência russa. A frieza de Stalin inspirou confiança no auge do desânimo russo, após a perda da Ucrânia. Com os alemães às portas da capital, Stalin permaneceu no Kremlin…”[95]

Svanidze relata um episódio cinematográfico onde Stalin, utilizando um disfarce militar de alta patente e documentos falsos, caminhou impunemente por São Petersburgo sob o nariz da polícia que o caçava.

“Stalin frequentemente visitava [Orbeliani] no Palácio de Inverno. Admirava sua audácia: vivia na capital com passaporte falso após quatro prisões e cinco fugas, e ainda ousava entrar calmamente no palácio fortemente vigiado. Mas seu ato mais ousado foi com ajuda do Príncipe Tchavtchavadze, guarda do Czar e bolchevique secreto. Stalin pediu emprestado um uniforme militar para escapar da polícia. Vestindo uniforme de coronel da Guarda Imperial, ‘Tio Joe’ circulou por Petersburgo em plena luz do dia, recebendo saudares de policiais que procuravam o criminoso estatal Josef Djugachvili! Geórgios no serviço czarista poderiam reconhecê-lo, mas ele confiava que nenhum deles o entregaria.”[96]

Gunther narra um gesto de solidariedade (ou propaganda) onde Stalin troca suas próprias botas pelo calçado precário de um soldado, demonstrando empatia pelas condições da tropa.

“Outro episódio mostra seu lado desprendido. Ao inspecionar tropas perto de Petrogrado, um soldado recusou-se a saudá-lo, apontando para seus pés envoltos em trapos imundos e depois para as botas robustas de Stalin. Sem dizer uma palavra, Stalin tirou suas botas, atirou-as ao soldado, e calçou os trapos molhados e fétidos – usando-os até Lenin ordenar que voltasse ao calçado normal.” [97]

 Levine descreve a cena do “corredor polonês” na prisão, onde Stalin manteve sua postura altiva enquanto era agredido, um relato corroborado até por desafetos políticos.

“Após um motim, a Companhia Selyansk foi convocada para reprimir presos políticos. Forçados a passar por um corredor polonês, os prisioneiros eram espancados com coronhas. Stalin, cabeça erguida e livro sob o braço, marchou orgulhosamente sob a chuva de golpes. Este retrato heroico foi traçado por Semyon Verestchak, seu inimigo político e companheiro de cela em Baku.”[98]

Trotsky traz novamente o relato de Vereshchak sobre a Páscoa de 1909, enfatizando a capacidade de Stalin de ignorar a dor física e o perigo iminente das baionetas. “Vereshchak relata que na Páscoa de 1909, a Companhia Salyan espancou todos os presos políticos. ‘Koba caminhou, cabeça erguida sob as coronhadas, livro nas mãos. Quando a confusão começou, Koba arrombou a cela com um balde de lixo, ignorando baionetas’.”[99]

Service argumenta contra a narrativa de que Stalin seria covarde, apontando que ele frequentemente assumia riscos físicos na Guerra Civil que outros intelectuais do partido evitavam. “Inimigos posteriores ignoraram sua coragem na Guerra Civil. Ele não era covarde físico; colocou Lenin, Kamenev, Zinoviev e Bukharin na sombra ao recusar-se a evitar perigos.”[100]

 Trotsky faz uma distinção crucial: admite que Stalin não tinha medo físico, mas o acusa de ser um oportunista político que preferia esperar para ver o resultado das batalhas antes de se comprometer. “Não que fosse covarde. Não há base para acusar Stalin de covardia. Ele era apenas politicamente evasivo. O calculista cauteloso preferiu permanecer em cima do muro no momento crucial. Aguardava ver o desfecho da insurreição antes de comprometer-se.”[101]

3.8. Ainda Sobre Prisões e Exílios

Chamberlin resume a carreira inicial de Stalin como um ciclo de perseguição policial, destacando que ele escapou da grande maioria de seus exílios até a anistia da Revolução. “Stalin foi expulso do seminário por ideias subversivas e iniciou uma longa carreira revolucionária no Cáucaso (Tiflis, Baku). No processo, foi preso e exilado em seis ocasiões. Cinco vezes escapou para retomar atividades clandestinas; foi libertado do último exílio no extremo norte pela Revolução de Março.”[102]

Cameron detalha os anos entre 1902 e 1917, mostrando a incapacidade do sistema czarista de manter Stalin preso, já que ele fugia sistematicamente para voltar à militância. “Preso pela primeira vez em 1902 e exilado na Sibéria, escapou e evitou a polícia por quatro anos na Geórgia. Seguiram-se novas prisões, exílios e fugas: no total, seis prisões e seis exílios. Libertado do exílio final (acima do Círculo Polar Ártico) em 1917, retornou imediatamente a Petrogrado.”[103]

Barbusse foca na repetição das capturas e recapturas, ilustrando a vida clandestina de “Koba” sob constante vigilância policial. Assim, Koba (um de seus codinomes) fez sua primeira fuga. A partir daí, a polícia o caçou periodicamente: capturando-o e recapturando-o seis vezes.”[104]

Gunther compara as habilidades de fuga de Stalin às de um mágico, ressaltando a ineficácia das sentenças de exílio impostas pelo czarismo. “Cinco vezes foi capturado pela polícia czarista e cinco vezes exilado. Quatro vezes escapou como um Houdini; a revolução de 1917 libertou-o da quinta prisão (no Ártico).”[105]

Montefiore apresenta uma estatística ligeiramente maior sobre o número de exílios, reforçando a intensidade da perseguição sofrida por Stalin desde 1902. “Em 1902, Koba sofreu sua primeira prisão e exílio siberiano – o primeiro de sete exílios, dos quais escapou seis vezes.”[106]

4. Consolidação no Comitê Central Bolchevique, no Editorial “Pravda” (1912–1913) e a questão nacional

 A Conferência de Praga marcou sua emergência como figura nacional; após fugir de Vologda, foi preso novamente e enviado para o exílio remoto em Narym, de onde escapou em tempo recorde. Em janeiro de 1912, na plenária do Comitê Central do POSDR… por sugestão de Lenin, Stalin foi eleito à revelia para o Bureau Russo do Comitê Central do POSDR.”.

A eleição de Stálin para o Comitê Central em 1912 marcou sua emergência como uma figura nacional; no mesmo período, ele ajudou a fundar e editar o jornal Pravda. “Em janeiro de 1912, na plenária do Comitê Central do POSDR… por sugestão de Lenin, Stalin foi eleito à revelia para o Bureau Russo do Comitê Central do POSDR”[107]. A VI Conferência do Partido (Praga, 1912) expulsou os mencheviques, formalizando o Partido Bolchevique. Elegeu um Comitê Central com Lenin, Stalin (então no exílio), Ordzhonikidze e Sverdlov.[108]

As motivações de Lênin para promover e indicar Stálin são demonstradas pela valorização de sua resolução, lealdade e experiência prática no trabalho clandestino, considerando-o o tipo de “homem de ação” necessário para o partido naquele momento. Sua promoção não foi acidental; Stálin já havia chamado a atenção de Lênin por seu papel na organização de greves no Cáucaso e por sua firmeza teórica.

Aqui se inicia o Papel de Liderança: Com essa nomeação, Stálin tornou-se um dos doze principais bolcheviques e o representante autorizado do Comitê Central para o Cáucaso e outras regiões da Rússia. Logo após sua eleição, ele fugiu do exílio em Vologda para assumir suas novas funções em São Petersburgo, onde ajudou a fundar e editar o jornal Pravda. Algumas referências são eloquentes:

Como defensor consistente da unidade partidária, Stalin apoiou a proibição de facções pelo congresso – grupos dentro do partido que operavam com sua própria organização e disciplina internas. No entanto, essa proibição não impediu Lenin de pedir a Stalin que garantisse o controle do aparato central do partido.[109]

O salto de Stálin em 1912 do cafundó de Vologda para o pináculo do novo Comitê Central inteiramente bolchevique teria sido impensável sem o patrocínio de Lênin. No entanto, é preciso dizer que Lênin costumava usar absolutamente todo mundo, e usou também Stálin, como um não russo, para conferir atratividade à sua facção. Além disso, a onda de prisões tornou necessária a promoção de algumas pessoas. De todo modo, a promoção de Stálin ia além do puro simbolismo ou conveniência. Ele era leal e eficaz: era capaz de fazer as coisas. E, também importante, era um bolchevique no meio fortemente menchevique do Cáucaso. É verdade que as duas outras figuras do Cáucaso, Sergo Ordjonikidze (…), também estavam no estrato superior bolchevique nessa condição de membro do Comitê Central e de seu novo subsídio do partido de cinquenta rublos mensais — uma quantia bem-vinda, mas que não liberaria Djugachvíli de continuar a furtar e pedir esmolas.161 De qualquer modo, Stálin viria a dominar Ordjonikidze; Spandarian teria uma morte precoce. Considere-se ainda que Ivan “Vladímir” Belostótski, um metalúrgico e funcionário do seguro de trabalho, foi escolhido para o Comitê Central bolchevique na mesma ocasião, mas logo desapareceu.162 Em outras palavras, Stálin, ao contrário do que se diria mais tarde, não era uma figura acidental promovida pelas circunstâncias. Lênin o colocou no círculo interno, mas ele havia chamado a atenção para si e, além disso, provaria o seu valor. Ele perdurou. [110]

Para a História Oficial Soviética, a conferência de praga foi o momento da expulsão definitiva dos mencheviques liquidacionistas e a constituição dos bolcheviques como um partido independente, o “Partido de Novo Tipo”[111]. Para a historiografia soviética e os próprios participantes bolcheviques, a conferência foi o ato de fundação de um partido livre de oportunismo. A Ruptura com os Liquidacionistas foi a principal decisão política, a expulsão dos mencheviques “liquidacionistas” (aqueles que queriam liquidar a organização partidária ilegal e atuar apenas na legalidade). A conferência declarou que o grupo em torno das publicações Nasha Zarya e Dyelo Zhizni havia se colocado “definitivamente fora do Partido”. Na Visão Revisionista sovietológica, Kotkin descreve isso como uma “manobra ardilosa interna”: Lênin reuniu uma conferência minúscula, com 18 delegados bolcheviques e apenas 2 mencheviques, e declarou “ilegitimamente” que o antigo Comitê Central deixara de funcionar, usurpando o nome do partido para sua facção. Foi nesta conferência que Lênin cooptou Stálin (então no exílio) para o Comitê Central[112]. Essa conferência só deu lugar a separação definitiva entre bolcheviques e mencheviques em virtude da ascensão revolucionária prevista desde o massacre do rio Lena.

A conferência ocorreu de 5 a 17 de janeiro (18 a 30 pelo calendário novo) de 1912, em Praga. Os sociais-democratas checos prestaram grande ajuda na organização, cedendo as instalações (Rua Gibern, nº 7) e alojando os delegados em casas de trabalhadores checos[113]. Foi convocada por iniciativa da Comissão Organizadora Russa[114]. Segundo a historiografia soviética, representou o triunfo da linha bolchevique após anos de luta interna[115].

Outros grupos também foram alvo de intensa condenação. A conferência também condenou as atividades de grupos antipartidários no exterior, como o grupo Golos (mencheviques), o grupo Vperyod e o grupo de Trótski, estabelecendo a necessidade absoluta de uma organização partidária única[116].

O Triunfo de Lênin foi evidente. Lênin escreveu a Máximo Górki celebrando o resultado: “Finalmente conseguimos – apesar da canalha liquidacionista – fazer renascer o partido e seu Comité Central”[117]

A conferência é descrita como tendo grande importância internacional, mostrando aos elementos revolucionários da II Internacional como conduzir uma luta decisiva até à ruptura organizacional completa com os oportunistas[118].

A facção bolchevique “reivindicou formalmente o domínio sobre a totalidade do Partido Operário Social-Democrata Russo”, uma ação que os adversários socialistas (bundistas, sociais-democratas letões e mencheviques), irresignados com derrota, denunciaram como uma “manobra ilegítima”[119].

Em resposta à Conferência de Praga, os mencheviques e outros grupos tentaram organizar o seu próprio congresso em agosto de 1912 (o “Bloco de Agosto”), mas este esforço desintegrou-se em partidarismos irreconciliáveis. Stálin mais tarde ridicularizaria esse bloco, notando que eles acusaram a conferência bolchevique de “usurpação”, “sectarismo” e de organizar um “golpe de estado” no Partido[120].

Mesmo fisicamente ausente neste evento Stálin foi eleito para o Comite Central. A Eleição ao Comitê Central. Na primeira plenária do novo Comitê Central eleito em Praga, Lênin decidiu “cooptar” Djugachvíli (Stálin), que se encontrava no exílio em Vologda, como novo membro do Comitê. Stálin tornou-se assim um dos doze principais bolcheviques[121].

O “Bureau da Rússia” foi criado na conferência para dirigir o trabalho prático dentro do império, cargo que Stálin reivindicou e no qual foi colocado[122]. A Avaliação de Stálin foi um tanto perspicaz mesmo na ausência. Escrevendo em março de 1912, Stálin celebrou a conferência como um “indício manifesto do renascimento do Partido”, afirmando que com ela a crise do partido terminava e este superava o “ponto morto”[123]

Durante este período de intensa atividade literária e organizacional, Ióssif Djugachvíli adotou definitivamente o pseudônimo que o tornaria mundialmente famoso e publicou sua análise sobre a questão nacional. O nome “Stálin” apareceu pela primeira vez de forma pública e permanente na assinatura de seu ensaio teórico “O Marxismo e a Questão Nacional”, publicado na revista Prosveshchenie (Iluminismo) no início de 1913. O termo deriva da palavra russa para “aço” (stal), significando, portanto, “homem de aço”. Historiadores sugerem que a escolha desse nome não foi apenas simbólica da sua “mão de ferro” ou firmeza revolucionária. Ao atuar cada vez mais em São Petersburgo e no cenário político de toda a Rússia, Stálin e seus camaradas buscaram um nome que soasse menos caucasiano e mais integrado à cultura universal em todas as nações sob domínio czarista.

Stalin comentou mais tarde que o nome lhe foi dado por seus camaradas porque eles achavam que combinava com ele e, portanto, permaneceu.60 No entanto, também é possível que Koba estivesse buscando um nome apropriado que o representasse não como um transcaucasiano, mas como um revolucionário russo em um momento em que a Rússia, e não a Transcaucásia, havia se tornado o principal palco de sua atividade. É possível que Stalin tenha tirado o nome de E.S. Stalinskii, o tradutor polonês da edição multilíngue de 1888 do poema épico de Rustaveli.[124]

Lênin catapultou Stálin ao comitê central porque o considerava o maior especialista na questão nacional, e, portanto, incentivou Stálin a escrever sua obra teórica mais importante durante o período que antecede a revolução, e a obra mais importante no período após os textos de Lênin para o sucesso da revolução na russia. É possível e necessário afirmar que sem essas obras de Lênin e Stálin sobre a questão nacional, a revolução jamais teria acontecido, já que sua fundamentação permitiu o apoiou no longo prazo das diversas nacionalidades oprimidas existentes no império czarista. Foi a partir dessa premissa Staliniana que se definiu a posição bolchevique sobre a autodeterminação nacional subordinada ao socialismo. Stalin foi o principal articulador da ressalva de que a autodeterminação nacional não poderia pôr em perigo a revolução nem impedir o desenvolvimento do socialismo[125]. ‘Em 1912, Stalin impediu fusão com mencheviques nas eleições. Deu identidade bolchevique à delegação na IV Duma, criando base operária via Pravda‘.”[126].

Após a publicação de Marxismo e a Questão Nacional, Stalin se firmou, segundo vossos camaradas de armas, como uma força particular no estudo das controvérsias inerentes às diversas nacionalidades residentes no domínio czarista, este prestigio originou-se não somente de vossas colaborações e elaborações teóricas sobre o tema, mas, de forma ainda mais determinante, de sua experiência imersiva e prolongada no contexto do profundo e heterogêneo ecossistema de etnias e nacionalidades que contornavam e compunham a sociedade russa[127].

O livro rendeu elogios da parte de Lênin: Stáln foi denominado de o “Maravilhoso Georgiano” e o Talento Teórico mais elogiado por Lenin. A relação de colaboração entre ambos se consolidou ainda mais. Lênin elogiou publicamente o artigo de Stálin por sua abordagem sobre a “consciência vinda de fora” no movimento operário.

Chegamos aqui a um segundo aspecto da teoria do imperialismo de Lenin que nos interessa: sua atitude em relação às questões nacionais e coloniais. A obra clássica do marxismo russo sobre este assunto é O Marxismo e a Questão Nacional, de Stalin, publicada pela primeira vez em 1913. Esta obra foi escrita em estreita colaboração com Lenin e, embora no que se segue eu vá citar normalmente Lenin, as visões expressas foram, em muitos casos, elaboradas primeiramente pelo ‘maravilhoso georgiano’, como Lenin o chamava. De fato, é impossível separar o trabalho dos dois sobre este tema. A visão marxista dos movimentos nacionais é historicamente relativa: sustenta que o estabelecimento de um Estado-nação independente é uma parte necessária da revolução burguesa e, portanto, uma pré-condição essencial para a conquista da democracia; sua base econômica é que ‘para alcançar a vitória completa da produção de mercadorias, a burguesia deve conquistar o mercado interno, deve ter territórios politicamente unidos com uma população que fale o mesmo idioma’. Em contraste com o que as precedeu, a criação de tais nações ‘burguesas’ é um passo historicamente progressista.[128]

O lançamento da obra magna o “Marxismo e A Questão Nacional”, todos já admitiam que Stalin era o maior especialista sobre as questões das distintas nacionalidades russas, consequência não apenas de vossas investigações acerca do assunto, mas resultado de sua intensa experiência em meio a total maioria dos povos que habitavam a sociedade russa[129].

3.9. O Longo Exílio em Turukhansk (1913–1917)

Após sua prisão em março de 1913, Stálin foi enviado para a região mais remota e inóspita da Sibéria, o Território de Turukhansk, onde permaneceu sob vigilância rigorosa durante a maior parte da Primeira Guerra Mundial, mantendo contato limitado com a liderança no exterior.

Stálin não foi à guerra. Naquele verão de 1914, aos 36 anos de idade, ele estava no segundo ano de uma condenação ao exílio interno de quatro anos em Turukhansk, no nordeste da Sibéria. Foi seu mais longo período consecutivo de banimento, e ele chafurdou perto do Círculo Polar Ártico até 1917. Dessa vez, as autoridades o levaram para muito além do terminal ferroviário, para que não fugisse. Enquanto duas gerações de homens, a flor da Europa, serviam de alimento para a besta, ele lutava contra pouco mais do que mosquitos e tédio. (…) Stálin escreveu numerosas cartas dos confins da Sibéria para bolcheviques no exílio europeu implorando por livros que ele já havia pedido, em particular sobre a questão nacional. Ele pensava reunir em volume seus ensaios sobre o assunto, com base em seu artigo de 1913 “O marxismo e a questão nacional”. No começo de 1914, antes do início da guerra, ele terminou e enviou um longo artigo, “Sobre a autonomia cultural”, mas o texto se perdeu (e nunca foi encontrado).75 Escreveu a Kámenev (em fevereiro de 1916) dizendo que estava trabalhando em mais dois artigos, “O movimento um esboço do conteúdo. Seu objetivo era resolver a relação entre guerra imperialista e nacionalismo e formas de Estado, desenvolvendo uma lógica para Estados multinacionais de grande escala. (…) O imperialismo como a expressão política […]. A insuficiência das antigas estruturas do “Estado nacional”. O rompimento dessas estruturas e a tendência a formar Estados de [múltiplas] nacionalidades. Por conseguinte, a tendência para a anexação e a guerra. […] Consequentemente, a crença na libertação nac[ional]. A popularidade do princípio da autodeterminação nac. como um contrapeso ao princípio da anexação. A fraqueza óbvia (econômica ou não) dos Estados pequenos […]. A insuficiência de uma existência completamente independente de Estados pequenos e médios e o fracasso da ideia de separação nac. […] De um lado, uma união ampliada e aprofundada de Estados e, de outro, a autonomia de regiões nac. dentro dos Estados. […] deveria se expressar na proclamação da autonomia de um território nac. no interior de Estados multinacionais na luta pelos Estados Unidos da Europa.76

Essas ideias antecederam a publicação de O imperialismo: Fase superior do capitalismo, de Lênin, e se enlaçavam um pouco com os escritos de Trótski sobre os Estados Unidos da Europa (que Lênin havia atacado). Mas os artigos do período de guerra prometidos por Stálin, que ele disse a Kámenev que estavam “quase prontos”, nunca se materializaram. [130]

4. O Impacto da Primeira Guerra Mundial e a Crise do Socialismo

Enquanto Stálin estava exilado, a deflagração da guerra em 1914 provocou uma ruptura na Segunda Internacional, com a maioria dos partidos socialistas adotando posições chauvinistas, o que Lênin previu que levaria a um triunfo ainda maior do marxismo revolucionário. Segundo o Lênin: “Só os partidos que permaneceram fiéis a este princípio [internacionalismo], como foi o caso dos bolcheviques, estiveram em condições de conduzir com sucesso a luta proletária nos seus países.”[131]

Nos confins da Sibéria, a sobrevivência dependia da adaptação às condições naturais. Stálin ocupava-se com a caça e a pesca para garantir o sustento, mantendo correspondência com o centro do partido no exterior para pedir livros sobre a questão nacional e, constantemente, solicitar ajuda financeira para comprar alimentos e roupas.

O exílio mais longo de Stalin foi em Turukhansk, na Sibéria. Ele foi deportado para lá em julho de 1913 e permaneceu por quase quatro anos. Algumas das cartas de Stalin desse período sobreviveram, incluindo algumas que ele escreveu para seu grande amigo Roman Malinovsky. Era um local de confinamento rigoroso e Stalin frequentemente estava com a saúde debilitada. Como se poderia esperar, ele reclamava de suas condições materiais aos amigos e camaradas e suplicava por apoio financeiro. Mas, acima de tudo, ele insistia para que lhe enviassem livros e periódicos, especialmente aqueles necessários para continuar seus estudos sobre a questão nacional. Como indica a lista da senhoria de Stalin, ele tinha vários interesses e lia muitos tipos diferentes de livros. Mas era a literatura marxista que o ocupava, especialmente as obras clássicas de Marx e Engels. Sua primeira grande obra publicada foi uma série de artigos de jornal sobre Anarquismo ou Socialismo? (1906–7), na qual ele utilizou as visões deles para contrapor o argumento dos filósofos anarquistas de que o Marxismo era demasiado metafísico. Em O Marxismo e a Questão Nacional (1913), ele criticou a chamada visão austro-marxista de que as nações eram uma construção psicológica em vez de, como ele acreditava, entidades históricas baseadas no território, na língua e na vida econômica.  [132]

Com o colapso da autocracia russa em fevereiro de 1917, o período de isolamento de Stálin foi abruptamente encerrado pela anistia geral. Ele viajou de Atchinsk para Petrogrado via ferrovia transiberiana, assumindo imediatamente papéis de liderança na redação do jornal Pravda e orientando a tática bolchevique inicial enquanto o país ainda estava mergulhado na guerra. “Stalin somente retornaria a Petrogrado em 12 de março de 1917. Ele era um dos líderes do Comitê Central do POSDR e do Comitê do Partido Bolchevique de Petersburgo, e membro do conselho editorial do jornal Pravda.”[133]Apenas 10 dias após Lenin publicar suas Teses de Abril (1917), Stalin manifestou solidariedade no Pravda[134].

5. O Início da Revolução Russa: A Revolução de Fevereiro e o Retorno a Petrogrado

Com a queda da autocracia tsarista em março de 1917, Stálin foi libertado e retornou imediatamente à capital, assumindo a liderança do partido antes da chegada de Lênin e orientando a política bolchevique inicial em relação ao Governo Provisório. “Stalin somente retornaria a Petrogrado em 12 de março de 1917. […] Ele editou o jornal emitido pelo partido como substituto [ao Pravda].”[135]

5.1. Alinhamento com as “Teses de Abril”

Embora inicialmente tenha adotado uma postura cautelosa, Stálin rapidamente se alinhou às teses radicais de Lênin após o retorno deste do exílio, defendendo a passagem de todo o poder aos Sovietes e a preparação para a revolução socialista. A postura cautelosa, devia-se ao conhecimento prévio da posição geral de Lênin:

Tratava-se, portanto, da luta pela república, de uma questão da revolução democrática, não da socialista. A questão da intervenção dos trabalhadores nos acontecimentos apresentava-se então sob um duplo aspecto. Por um lado, os bakuninistas (ou “aliancistas” — os fundadores da “Aliança” contra a Internacional marxista) negavam a atividade política, a participação em eleições etc. Por outro, eram contrários à participação em uma revolução que não tivesse por objetivo imediato e completo a emancipação da classe trabalhadora; eram contrários a qualquer forma de participação em um governo revolucionário. É este segundo aspecto da questão que tem especial interesse para nós à luz de nossa polêmica. Foi esse aspecto, aliás, que deu origem à formulação da diferença de princípio entre os dois lemas táticos.

“Os bakuninistas”, diz Engels, “propagavam havia anos a ideia de que toda ação revolucionária vinda de cima era nociva, e que tudo devia ser organizado e realizado de baixo para cima.”

Daí o princípio: “somente de baixo” — um princípio anarquista.

Engels demonstra o absurdo completo desse princípio na época da revolução democrática. Ele leva, natural e inevitavelmente, à conclusão prática de que a constituição de governos revolucionários é uma traição à classe operária. Os bakuninistas chegaram exatamente a essa conclusão, que elevaram à condição de princípio: “a constituição de um governo revolucionário não passa de um novo embuste e uma nova traição à classe operária”. Temos aqui, como o leitor verá, os mesmos dois “princípios” a que chegou a nova Iskra, a saber: (1) que somente a ação revolucionária “de baixo” é admissível, em oposição à tática “de cima e de baixo”; (2) que a participação em um governo provisório revolucionário é uma traição à classe operária. Ambos esses princípios da nova Iskra são princípios anarquistas. O curso real da luta pela república na Espanha revelou o caráter completamente absurdo e profundamente reacionário de ambos.

Engels comprova essa verdade com vários episódios da revolução espanhola. A revolução, por exemplo, estourou em Alcoy, uma cidade manufatureira de origem relativamente recente, com população de 30 mil habitantes. A insurreição operária foi vitoriosa, apesar de sua direção estar nas mãos dos bakuninistas, que, em princípio, nada queriam ter a ver com a ideia de organizar a revolução. Depois do acontecimento, os bakuninistas começaram a se gabar de que haviam se tornado “mestres da situação”. E como trataram esses “mestres” a sua “situação”? — pergunta Engels. Antes de tudo, instituíram em Alcoy um “Comitê de Bem-Estar”, isto é, um governo revolucionário. Note-se que foram esses mesmos aliancistas (bakuninistas) que, apenas dez meses antes da revolução, haviam decidido em seu Congresso, em 15 de setembro de 1872, que “toda organização de um poder político, dito provisório ou revolucionário, só poderia ser um novo embuste e seria tão perigosa para o proletariado quanto todos os governos existentes”.

Em vez de refutar esse palavrório anarquista, Engels limitou-se à observação sarcástica de que eram justamente os partidários dessa resolução que se encontravam como “membros desse poder governamental provisório e revolucionário” em Alcoy. Engels tratou esses senhores com o desprezo que mereciam pela “completa impotência, confusão e passividade” que revelaram quando no poder. Com igual desprezo Engels teria respondido às acusações de “jacobinismo”, tão caras aos girondinos da social-democracia. Ele mostra que, em várias outras cidades, como em Sanlúcar de Barrameda (um porto de 26 mil habitantes perto de Cádiz), “os aliancistas… também aqui, em oposição a seus princípios anarquistas, formaram um governo revolucionário”.

Reprovou-os não por terem participado do governo (como deveria ter feito, de acordo com os “princípios” da nova Iskra), mas por sua má organização, pela debilidade de sua participação, por sua subordinação à direção da gente republicana burguesa. Com que sarcasmo arrasador Engels teria fustigado aqueles que, em época de revolução, tentam minimizar a importância da direção “técnica” e militar, pode-se ver no fato de que censurou os dirigentes operários bakuninistas por, como membros do governo revolucionário, terem deixado a “direção política e militar” nas mãos da gente republicana burguesa, enquanto alimentavam os trabalhadores com frases pomposas e esquemas de papel de reformas “sociais”[136].

Quando Lênin recusou o governo provisório em 1917, não houve contradição. Não foi recuo nem desvio. A revolução subira um degrau, e nele não cabiam mais as fórmulas velhas. Lênin viu. Olhou o chão rachado, o povo inquieto, e soube: a maré não se segura com cercas podres. Stalin “em 24-29 de abril, na VII Conferência Pan-Russa do POSDR, apoiou os pontos de vista de Lenin e fez uma apresentação sobre a questão nacional; foi eleito membro do Comitê Central do POSDR.” Apenas 10 dias após Lenin publicar suas Teses de Abril (1917), Stalin manifestou solidariedade no Pravda”[137] as Teses de Abril.

5.2. A Liderança Prática no VI Congresso e o salvamento de Lênin

Durante o verão de 1917, com Lênin forçado à clandestinidade após as “Jornadas de Julho”, Stálin assumiu a responsabilidade de apresentar o informe político principal no VI Congresso, consolidando a estratégia de insurreição armada. Durante o VI Congresso, realizado em Petrogrado, Stálin assumiu a tarefa hercúlea de dirigir os trabalhos e o relatório político principal. Sua postura calma e firme foi fundamental para reorganizar o partido após o revés das “Jornadas de Julho”, quando o Governo Provisório iniciou uma perseguição sistemática aos bolcheviques.

Só após a Revolução de Fevereiro de 1917 Stálin consegue regressar a São Petersburgo, onde é eleito para o Presidium do bureau russo e retoma a direção do Pravda. Em Abril de 1917, na Conferência do Partido, ocupa a terceira posição em número de votos para o Comité Central. No mês de Julho, quando o Pravda é fechado pelo governo provisório e vários dirigentes bolcheviques são presos, Lénin refugia-se na Finlândia e Stálin dirige o Partido. Em Agosto, apresenta o relatório do Comité Central ao VI Congresso, cuja linha política é aprovada pela quase unanimidade dos 267 delegados, salvo quatro abstenções. [138]

Stálin foi o porta-voz da tese de que o período pacífico da revolução havia terminado. Ele argumentou que, após os eventos de julho, o poder havia passado virtualmente para as mãos da burguesia contrarrevolucionária, o que exigia uma mudança de estratégia: a preparação para uma insurreição armada com o objetivo de instaurar a ditadura do proletariado em aliança com os camponeses pobres. Por orientação de Lênin, Stálin defendeu a retirada temporária do slogan “Todo o Poder aos Sovietes”, uma vez que estes estavam, naquele momento, dominados por mencheviques e socialistas-revolucionários que colaboravam com o governo burguês.

O partido realizou o seu sexto congresso secretamente em Petrogrado, de 26 de julho a 3 de agosto. Nessa época, o partido contava com 240.000 membros, contra 45.000 na altura da revolução de março. Por ordens do partido, Lenin estava escondido na Finlândia e Stalin apresentou o relatório principal. Ele afirmou que: ‘O período pacífico da revolução chegou ao fim; o período não pacífico, o período de choques e explosões, começou…’ O partido preparava-se para o teste revolucionário que estava imediatamente à frente.[139]

Após o VI Congresso a atuação de Stálin foi fundamental na preparação direta e organizacional para a tomada do poder. Stálin atuou como o principal elo entre o Comité Central (CC) e a base do partido, além de ser a voz editorial da revolução enquanto Lênin permanecia na clandestinidade.

Em 5 de julho de 1917, a redação do Pravda foi depredada por cadetes militares e cossacos. Quando V. I. Lênin entrou na clandestinidade após as Jornadas de Julho, J. V. Stálin tornou-se o editor-chefe do Órgão Central. Em 23 de julho de 1917, a Organização Militar do C.C. do P.O.S.D.R.(B.) conseguiu fundar um jornal chamado Rabochy i Soldat (Operário e Soldado), e o Comitê Central do Partido deu instruções para que, enquanto se aguardava o reinício do Órgão Central, o Rabochy i Soldat desempenhasse suas funções. No período de julho a outubro, o Órgão Central contribuiu imensamente para aglutinar os operários e soldados em torno do Partido Bolchevique e para preparar o terreno para uma insurreição armada. Em 13 de agosto de 1917, o Órgão Central Bolchevique começou a aparecer sob o nome de Proletary (Proletário) e, quando esse jornal foi banido, reapareceu como Rabochy (Operário) e, então, até 26 de outubro de 1917, como Rabochy Put (Caminho Operário). Em 27 de outubro de 1917, o Órgão Central Bolchevique retomou seu antigo nome — Pravda. p. 22. [140]

 5.3. Do Pravda ao Comitê Militar: A Ascensão Estratégica de Stálin e a Salvação de Lênin durante as jornadas de julho

Após as tumultuadas “Jornadas de Julho”, o Partido Bolchevique enfrentou um de seus momentos mais críticos, com a reação governamental buscando decapitar a liderança revolucionária. Enquanto Lênin era forçado a recuar para a clandestinidade para evitar a prisão — e uma provável execução —, coube àqueles que permaneceram em Petrogrado a tarefa de manter a coesão partidária. Nesse vácuo, a historiografia destaca como Stálin assumiu o comando operacional, garantindo a continuidade da estrutura partidária e, fundamentalmente, protegendo seu principal teórico contra as vozes internas que sugeriam uma rendição às autoridades:

Após os eventos de julho de 1917, quando Lenin, perseguido e perseguido pelo governo provisório contrarrevolucionário, foi forçado a se esconder, Stalin dirigiu diretamente o trabalho do Comitê Central e do Órgão Central do Partido, que na época aparecia sob uma sucessão de nomes diferentes. Foi Stalin quem salvou a preciosa vida de Lenin para o Partido, o povo soviético e para a humanidade em geral, resistindo vigorosamente à proposta dos traidores, Kamenev, Rykov e Trotsky, de que Lenin deveria comparecer a julgamento perante os tribunais do Governo Provisório contrarrevolucionário.[141]

A ideia de que Trotsky fora favorável a Lênin comparecer ao julgamento não encontrou amparo nas demais fontes estudadas neste texto, ficando restrita ao biografo oficial de Stálin na URSS. A decisão de não se entregar não foi unânime imediatamente, houve pormenores onde um intenso debate sobre a melhor estratégia para lidar com as acusações de que Lênin seria um “espião alemão”. Enquanto figuras proeminentes e o próprio Lênin ponderavam se a fuga não seria interpretada como uma confissão de culpa pela opinião pública, Stálin injetou uma dose de realismo brutal na discussão. Ele argumentou que não haveria julgamento justo, mas sim um linchamento sumário por parte de oficiais militares radicalizados, tese que se confirmou quando os líderes do Soviete se recusaram a garantir a integridade física do líder bolchevique:

“Lenin e Zinoviev estavam hesitantes: eles temiam que evitar o julgamento confirmasse, aos olhos da opinião desinformada, as acusações levantadas contra eles. Esta foi a princípio também a visão de Lunacharsky e Kamenev. Stalin, ao contrário, aconselhou-os a se esconder. Seria loucura, disse ele, confiar na justiça do Governo Provisório. Uma histeria antibolchevique estava sendo tão desonestamente inflamada que qualquer jovem oficial ou aspirante escoltando os ‘espiões alemães’ para a prisão, ou da prisão para o tribunal, pensaria que era um ato de heroísmo patriótico assassiná-los no caminho. Lenin ainda hesitava em seguir o conselho de Stalin. Stalin então se aproximou do Executivo dos Sovietes e lhes disse que Lenin estava preparado para enfrentar o julgamento se o Executivo garantisse sua vida e segurança pessoal contra a violência ilegal. Como os mencheviques e os socialistas-revolucionários se recusaram a assumir qualquer responsabilidade, Lenin e Zinoviev finalmente decidiram se esconder.”[142]

Embora o Biografo e seguidor de Trotsky, Isaac Deustcher, tenha sido enfático na defesa de Stálin, a posição de Koba fora a seguinte:

Não está claro neste momento quem está no poder. Não há garantia de que, se eles [Lenin e Zinoviev] forem presos, não serão submetidos à força bruta. As coisas serão diferentes se o julgamento for realizado de forma democrática e houver a garantia de que eles não serão linchados. Quando perguntamos ao Comitê Executivo Central sobre isso, eles responderam: ‘Não sabemos o que pode acontecer’. Enquanto a situação não estiver clara e houver uma luta secreta entre a autoridade nominal e a real, não há sentido em os camaradas comparecerem perante as autoridades. Se, no entanto, o poder for exercido por uma autoridade que possa proteger nossos camaradas da violência e que seja justa, então pelo menos em certa medida … eles aparecerão.” (Atas do Sexto Congresso do POSDR(B.), agosto de 1917, 1958, pp. 27 e 28 [em russo].) Essa abordagem foi motivada por uma avaliação incorreta do poder político no país na época e pela ideia de que um tribunal burguês poderia ser “justo”. [143]

Essa divergência tática — entre confiar na legalidade burguesa ou assumir a ilegalidade revolucionária — tornou-se um ponto central na narrativa oficial do partido anos mais tarde. A recusa de Stálin em permitir que Lênin se entregasse foi usada para contrastar sua clarividência política com a suposta ingenuidade ou traição de outros líderes que, naquele momento, advogavam pelo comparecimento aos tribunais, marcando uma linha divisória clara entre a firmeza stalinista e a vacilação de seus futuros rivais: “O Congresso discutiu se Lenin deveria comparecer a julgamento. Kamenev, Rykov, Trotsky e outros haviam sustentado mesmo antes do Congresso que Lenin deveria comparecer perante o tribunal contrarrevolucionário. O camarada Stalin foi vigorosamente contra a aparição de Lenin para julgamento.” [144]

A correção histórica da postura de Stálin foi eventualmente reconhecida até mesmo por seus adversários mais ferrenhos. O próprio Leon Trótski, não sem negar as acusações de que fora favorável a prisão de Lênin, baseando-se nas memórias de Krupskaya e em evidências sobre as intenções assassinas dos generais czaristas, admitiu que a insistência obstinada de Stálin foi o fator decisivo que impediu Lênin de ter um destino semelhante ao de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. A análise retrospectiva provou que o “tribunal” era apenas uma fachada para uma execução planejada, validando a desconfiança absoluta que Stálin nutria pelas garantias do Governo Provisório:

“Em suas reminiscências, Krupskaya afirma: ‘No dia sete visitei Ilyich em seus aposentos no apartamento dos Alliluyevs junto com Maria [a irmã de Lenin]. Foi exatamente quando Ilyich estava vacilando. Ele reuniu argumentos a favor da necessidade de comparecer ao tribunal. Maria argumentou contra ele calorosamente. “Zinoviev e eu decidimos comparecer. Vá e conte a Kamenev sobre isso”, Ilyich me disse. Eu me apressei. “Vamos nos despedir”, Ilyich me disse, “podemos nunca mais nos ver.” Nós nos abraçamos. Fui até Kamenev e entreguei a mensagem de Ilyich. À noite, Stalin e outros persuadiram Ilyich a não comparecer ao tribunal e assim salvaram sua vida.’ … Mais categórico do que qualquer outro contra a rendição foi Stalin:… Até que ponto os opositores da rendição de Lenin às autoridades estavam certos foi provado posteriormente pela história do oficial comandante das tropas, general Polovtsev. ‘O oficial indo para Terioki [Finlândia] na esperança de pegar Lenin me perguntou se eu queria receber aquele cavalheiro inteiro ou em pedaços…. Eu respondi com um sorriso que pessoas sob prisão muitas vezes tentam escapar.’ Para os organizadores da falsificação judicial, não era uma questão de ‘justiça’, mas de capturar e matar Lenin, como foi feito dois anos depois na Alemanha com Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo. Stalin estava mais convencido do que os outros da inevitabilidade de uma represália sangrenta; tal solução estava bastante de acordo com seu próprio modo de pensar. Além disso, ele estava longe de se preocupar com o que a ‘opinião pública’ pudesse dizer. Outros, incluindo Lenin e Zinoviev, vacilaram. Nogin e Lunacharsky se tornaram opositores da rendição no decorrer do dia, depois de terem sido a favor dela. Stalin resistiu mais tenazmente do que os outros e foi provado estar certo.”[145]

Posteriormente, por unanimidade, o próprio Lênin e o conjunto da direção do partido, concluíram que era necessário fugir do julgamento.

  1. O papel de Stálin na Revolução de Outubro e suas principais qualidades

Nikolai Sukhánov, em suas famosas memórias (Crônicas da Revolução), descreveu Stálin como uma figura medíocre e irrelevante em 1917. Essa visão foi amplamente adotada posteriormente por Leon Trótski e seus seguidores para argumentar que a ascensão de Stálin foi um “acidente burocrático” e não fruto de mérito revolucionário. Nada mais falso.

O papel de Stálin em 1917 tem sido motivo de disputa. Nikolai Sukhánov (Himmer), o cronista onipresente dos acontecimentos revolucionários, que era membro do Partido Socialista Revolucionário e tinha uma esposa bolchevique, marcou para sempre as interpretações ao dizer que Stálin, em 1917, era ‘um borrão cinzento que emitia uma luz fraca de vez em quando e não deixava nenhum vestígio. Não há, de fato, nada mais a ser dito sobre ele’.¹¹ A caracterização de Sukhánov, publicada no início da década de 1920, era totalmente errada. Stálin estava profundamente envolvido em todas as deliberações e ações do círculo mais íntimo da liderança bolchevique e, à medida que o golpe se aproximava e, em seguida, se efetivava, foi visto no centro dos acontecimentos.

‘Eu nunca o tinha visto em tal estado antes!’, lembrou David Saguirachvíli (nascido em 1887), um colega social-democrata da Geórgia. ‘Essa pressa e o trabalho febril eram muito incomuns para ele, pois normalmente era muito fleumático, independente do que estivesse fazendo.’ Acima de tudo, Stálin surgiu como uma voz poderosa da propaganda bolchevique. (Apesar de toda a conversa, a maior parte negativa, sobre seu envolvimento em expropriações durante os dias frenéticos de 1905-8, na clandestinidade, ele foi desde o início um agitador e propagandista.) No Dia do Trabalho de 1917, comentou que ‘se aproxima o terceiro ano desde que a burguesia voraz dos países beligerantes arrastou o mundo para o matadouro sangrento’ — um de seus editoriais tipicamente incendiários.

Para círculos do partido, bem como para o público em geral, ele proferiu discurso após discurso, muitos dos quais foram publicados na imprensa. Stálin escrevia com frequência no principal jornal bolchevique, enquanto editava e conduzia à impressão muito mais textos.¹⁴ Entre agosto e outubro — os meses críticos —, escreveu e publicou cerca de quarenta artigos de fundo no Pravda e em seus substitutos temporários, Proletariado e Caminho dos Operários.¹⁵ Essa produção, em forte contraste com o seu silêncio durante os primeiros quase três anos da guerra, salientava a necessidade de tomar o poder em nome dos sovietes, o que, para Lênin, significava nas mãos dos bolcheviques. [146]

Durante sua estadia como editor principal do pravda, e da agitação e propaganda geral do partido, publicou uma série de artigos para estimular as palavras de ordem no fluxo revolucionário que se desenhava, como o famoso “O que precisamos?” (Chto nam nuzhno?), publicado clandestinamente em 24 de outubro, que apelava abertamente à derrubada do Governo Provisório. Com esse apelo à derrubada do Governo Provisório e pela inevitável sucessão pelo Governo dos Sovietes com a pronta eleição de trabalhadores, soldados e camponeses ou seus delegados, Stálin impulsionou a vitória. Durante o mesmo dia, por mais difícil que isso pareça aos nossos olhos hoje, Stalin e Trotsky efetivaram juntos uma conferência dos bolcheviques. Na noite de 25 de outubro, ele participou de uma reunião do Comitê Central do POSDR (B), que determinou a estrutura e o nome do novo governo soviético. Nas eleições para a Assembleia Constituinte Pan-Russa no distrito da capital de Petrogrado, foi eleito deputado pelo POSDR[147]. Através destes jornais, ele foi responsável por popularizar a tese de que a revolução burguesa era insuficiente e que o proletariado deveria assumir a liderança em aliança com os camponeses pobres:

Não podia haver nenhuma dúvida a respeito da direção política de eventos. Apesar da realização bem-sucedida do VI Congresso do Partido no final de julho e início de agosto, o slogan “Todo o poder aos sovietes” fora arquivado, mas então, puf: a “contrarrevolução” aguardada havia tanto tempo de repente se materializou no final de agosto.223 O slogan “Todo o poder aos sovietes!” foi ressuscitado num chamamento para mudar o poder de classe. Dizia-se que as classes dominantes estavam fracassando no comando da revolução democrático-burguesa (necessária para o socialismo); ao contrário, elas eram agora abertamente contrarrevolucionárias. Os generais não trariam a paz. Os banqueiros não fariam reformas econômicas. Os latifundiários não redistribuiriam as terras. A burguesia estava ficando fraca demais. O poder teria de ser tomado, ou todas as conquistas, todo o processo revolucionário, estariam perdidos. Operários e camponeses teriam de liderar a revolução.224 Os membros mais à esquerda dos socialistas revolucionários e até mesmo dos mencheviques, pela primeira vez, também aceitaram esse programa. “Nos dias de Kornílov”, explicou o Caminho dos Operários, editado por Stálin, “o poder já tinha passado aos sovietes.”[148]

Os textos de Stálin explicavam a revolução em termos simples e acessíveis, inclusive durante o Congresso dos Sovietes. “Nos primeiros dias da revolução, o slogan ‘Todo o poder aos sovietes’ era uma novidade”, escreveu ele no Pravda (26 de outubro de 1927), referindo-se ao período iniciado em abril de 1917. “No final de agosto, a cena mudou radicalmente” com “a rebelião de Kornílov. […] Os sovietes na retaguarda e os comitês de soldados na frente, que estavam moribundos em julho-agosto, ‘de repente’ reviveram e tomaram o poder em suas mãos, na Sibéria e no Cáucaso, na Finlândia e nos Urais, em Odessa e Khárkov. […] Desse modo, ‘o poder dos sovietes’ proclamado em abril por um ‘pequeno grupo de bolcheviques em Petrogrado’ obtém reconhecimento quase universal das classes revolucionárias no final de agosto.” Ele diferenciava o avanço para o poder soviético das intermináveis mudanças no Governo Provisório que levaram os socialistas para dentro do gabinete. “Poder ao Soviete significa a purgação completa de cada órgão do governo na retaguarda e na frente, de cima a baixo. […] Poder ao Soviete significa a ditadura do proletariado e do campesinato revolucionário […], ditadura de massa aberta, exercida diante dos olhos de todos, sem truques e trabalho por trás dos panos, pois uma ditadura assim não tem motivos para esconder o fato de que não haverá misericórdia para os capitalistas que promoveram lockouts e intensificaram o desemprego […] ou para os banqueiros especuladores que aumentaram o preço dos alimentos e causaram fome.” Certas classes trouxeram miséria; outras classes trariam a salvação. “Essa é a natureza de classe do slogan ‘Todo o poder aos sovietes’. Os acontecimentos internos e externos, a guerra prolongada e o desejo de paz, a derrota no front e a defesa da capital, a podridão do Governo Provisório […], caos e fome, desemprego e exaustão — tudo isso está atraindo irresistivelmente as classes revolucionárias da Rússia ao poder.” Restava ver como as “classes” exerciam o poder.

David Saguirachvíli, o compatriota georgiano social-democrata de Stálin, o conhecia desde 1901, quando tinha catorze anos e o futuro Stálin, 23. Sua criação fora semelhante à de Stálin — pai ausente, imersão em histórias de mártires georgianos e poetas nacionais, aversão aos administradores imperiais russos e soldados ocupantes, admiração pelos bandidos georgianos que lutavam por justiça e participação em um círculo de revolucionários —, mas ele se tornara menchevique. Contudo, quando Saguirachvíli, depois do golpe, se recusou a participar junto com seus colegas mencheviques do boicote ao Soviete dominado pelos bolcheviques, Stálin, em um corredor do Smólni, “pôs a mão sobre meu ombro da maneira mais amigável e [começou] a falar comigo em georgiano”.293 O georgiano Djugachvíli-Stálin, da periferia do Império russo, filho de sapateiro, tornara-se parte de uma nova estrutura de poder na capital do maior Estado do mundo, graças à geopolítica e à guerra mundial, a muitas decisões fatídicas e múltiplas contingências, mas também graças aos seus próprios esforços. Na lista dos bolcheviques eleitos para um novo Comitê Executivo Central do Soviete, o nome de Stálin aparecia em quinto lugar, logo antes de Svérdlov e depois de Lênin, Trótski, Zinóviev e Kámenev.294 E, o que é ainda mais revelador, Stálin foi uma das duas únicas pessoas a quem Lênin deu permissão para entrar em seu apartamento privado na sede bolchevique do Smólni, uma proximidade e confiança que se revelariam cruciais. [149]

Quanto a liderança política no Comitê Central, Stálin esteve no centro de todas as decisões estratégicas do partido e sua instância máxima. Em 10 de outubro, ele participou da reunião histórica do CC onde votou a favor da resolução de Lênin para iniciar a insurreição armada, sendo eleito membro do Bureau Político, criado “para a liderança política do levante”[150]Ele defendeu firmemente a linha de Lênin contra Kamenev e Zinoviev, que se opunham ao golpe, embora tenha atuado como mediador para evitar uma cisão total no partido, permitindo que as discussões continuassem sem expulsões imediatas.

Tudo isso incitava Lênin. “Temos milhares de operários e soldados armados em Petrogrado, que podem tomar de uma só vez o Palácio de Inverno, o edifício do Estado-Maior, a central telefônica e todas as maiores gráficas”, insistiu novamente em 7 de outubro “Kerenski será obrigado a render-se.”234 Stálin reproduziu a mensagem de Lênin para o público em geral, enfatizando que os operários, camponeses e soldados deveriam esperar um novo ataque de Kerenski-Kornílov. “A contrarrevolução”, Stálin alertou em artigo publicado na manhã do dia 10 de outubro, “está se mobilizando… preparem-se para repeli-la!”[151]

O Centro Militar Prático Revolucionário em uma de suas primeiras ações, em 16 de outubro, durante uma reunião ampliada do CC, elegeu Stálin como um dos principais líderes. Algo do qual Stálin se utilizou quando necessário para diminuir o papel de Trotsky na revolução de outubro.

Examinemos a ata da próxima reunião do Comitê Central, a realizada em 16 (29) de outubro de 1917. Presentes: os membros do Comitê Central, mais repre-sentantes do Comitê de Petrogrado, mais representantes da organização militar, fábrica comitês, sindicatos e ferroviários. Entre os presentes, além dos membros do Comitê Central, estavam: Krylenko, Shotman, Kalinin, Volodarsky, Shlyap-nikov, Lacis e outros, vinte e cinco ao todo. A questão da revolta foi discutida do ponto de vista puramente prático-organizacional. A resolução de Lenin sobre a revolta foi aprovada por uma maioria de 20 votos contra 2, três abstenções. Um centro prático foi eleito para a liderança organizacional do levante. Quem foi eleito para este centro? Os cinco seguintes: Sverdlov, Stalin, Dzerzhinsky, Bubnov, Uritsky. As funções do centro prático: dirigir todos os órgãos práticos da insurreição em conformidade com as diretivas do Comitê Central. Assim, como você vê, algo “terrível” aconteceu nesta reunião do Comitê Central, ou seja, “estranho de se relacionar”, o “inspirador”, a “figura principal”, o “único líder” do levante, Trotsky, não foi eleito para o centro prático, que foi chamado para dirigir o levante. Como reconciliar isso com a opinião atual sobre o papel especial de Trotsky? Não é tudo isso um tanto “estranho”, como diriam Sukhanov ou os trotskistas? E, no entanto, estritamente falando, não há nada de estranho nisso, pois nem no Partido, nem na insurreição de outubro, Trotsky desempenhou qualquer papel especial, nem poderia fazê-lo, pois era um homem relativamente novo em nosso Partido no período de outubro. Ele, como todos os trabalhadores responsáveis, apenas cumpriu a vontade do Comitê Central e de seus órgãos. Quem conhece a mecânica da direção do Partido Bolchevique não terá dificuldade em compreender que não poderia ser de outra forma: bastaria Trotsky ter ido contra a vontade do Comitê Central para ter sido privado de influência no curso de eventos. Essa conversa sobre o papel especial de Trotsky é uma lenda que está sendo espalhada por fofocas do “Partido”. [152]

O Centro Prático operava dentro do Comité Militar Revolucionário (CMR) do Soviete de Petrogrado para coordenar as forças armadas bolcheviques e os guardas vermelhos. Em uma reunião do Comitê Central do Partido, J.V. Stalin propõe que as cartas de V.I. Lenin sobre as ações de fura-greve de Kamenev e Zinoviev sejam discutidas em uma reunião plenária do Comitê Central. J.V. Stalin participa da primeira reunião do Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado[153].

Às Vésperas da Insurreição(24 e 25 de Outubro), nas horas finais antes da revolução, Stálin foi um dos principais coordenadores no Instituto Smólni. Ele informou as delegações bolcheviques que chegavam para o II Congresso dos Sovietes sobre a situação tática. Quando Lênin chegou furtivamente ao Smólni na noite de 24 de outubro, foi Stálin quem o recebeu e o informou sobre os desenvolvimentos políticos e militares recentes, permitindo que o líder assumisse o comando final. V. I. Lenin e J. V. Stalin dirigiram a revolta armada de outubro.

Na tarde de 24 de outubro, Stálin informou a uma reunião de delegados bolcheviques que haviam chegado para o congresso que dois possíveis rumos dividiam o CMR: um defendia “organizarmos um levante de imediato”; o outro aconselhava a “consolidarmos nossas forças”. A maioria do Comitê Central do partido, indicou ele, inclinava-se para o último, ou seja, esperar e ver.247 Kerenski veio para salvar, mais uma vez, ordenando a prisão de dirigentes bolcheviques — pessoas que ele havia libertado após a queda de Kornílov — e o fechamento de dois de seus jornais: Caminho dos Operários e Soldado (dois jornais de direita também deveriam ser fechados, numa medida de equilíbrio). Em 24 de outubro, na presença de Stálin, com a notícia do ataque e o CMR enviou forças e fez as impressoras rodarem novamente.248 Os preparativos para a defesa da revolução se tornaram ofensivos. Rumores de movimentos de tropas “suspeitos” na cidade — “kornilovistas!” — instigaram os guardas vermelhos a ocupar as estações ferroviárias, controlar as pontes e tomar o telégrafo. Quando o governo desconectou as linhas telefônicas para o Smólni, o CMR tomou a central telefônica, mandou reconectar as linhas e desligou as do Palácio de Inverno. Quando as luzes no Smólni pareciam estar passando por problemas, os guardas vermelhos tomaram a estação de geração de eletricidade. Mais tarde, Trótski diria com ironia que “estava sendo deixado para o governo de Kerenski, como se poderia dizer, sublevar-se”.[154]

Em 10 de outubro (no calendário juliano), durante a famosa reunião secreta do Comitê Central (CC) realizada no apartamento de Nikolai Sukhánov (o mesmo crítico citado anteriormente, que não estava em casa, mas sua esposa bolchevique cedeu o local) um desacordo foi digno de nota. Nessa reunião Lênin, recém-chegado da Finlândia e disfarçado (sem barba e de peruca), conseguiu forçar a votação a favor da insurreição armada. A votação foi 10 contra 2. Os dois votos contra: Zinoviev e Kamenev (que achavam que a revolução seria suicídio). A posição de Trótski: Votou a favor da insurreição, mas discordava de Lênin sobre o método. Trótski e os líderes de Petrogrado se opunham a uma revolta “imediata e independente”. Isso precisa ser lido com cuidado para não confundir Trótski com Zinoviev/Kamenev. Lênin temia que o Governo Provisório entregasse Petrogrado aos alemães ou esmagasse os bolcheviques antes do Congresso dos Sovietes. Para ele, o Partido Bolchevique deveria tomar o poder imediatamente, em seu próprio nome, e depois apresentar o fato consumado ao Congresso dos Sovietes. Ele não confiava na máquina burocrática.

 A visão de Trótski e dos líderes de Petrogrado concordavam com a tomada de poder, mas acreditavam que, se o Partido agisse sozinho (“independente”), pareceria um golpe de estado militar (um putsch), o que alienaria os soldados e camponeses que eram leais aos Sovietes, mas não necessariamente aos bolcheviques.

Trótski (que presidia o Soviete de Petrogrado) queria camuflar a insurreição como uma medida de defesa do Soviete contra a contrarrevolução. Ele queria sincronizar o levante com a abertura do II Congresso dos Sovietes.

Para ser tecnicamente preciso: o golpe contra Kerenski começou antes e foi concluído durante a abertura do Congresso.

Essa sincronia não foi acidental foi calculada obsessivamente por Lênin. Ele não queria que o Congresso decidisse burocraticamente se tomaria o poder; ele queria que o Congresso ratificasse o fato de que o poder já havia sido tomado.

Outro fator que dificultou a organização de uma revolta armada imediata e independente foi a oposição de membros do Comitê Central, como Trotsky, e de líderes partidários de Petrogrado com inclinações radicais, que se sentiam atraídos pela ideia de uma revolução socialista precoce na Rússia, mas duvidavam da capacidade de mobilizar trabalhadores e soldados para o tipo de “ataque de baioneta imediato” exigido por Lenin. Apesar dessas preocupações, em resposta à decisão do Comitê Central de 10 de outubro, os bolcheviques de Petrogrado exploraram seriamente as possibilidades de iniciar uma revolta armada imediatamente. Após alguns dias, porém, muitos foram forçados a concluir que o partido estava tecnicamente despreparado para iniciar uma revolta imediata e, em qualquer caso, que a maioria dos trabalhadores, soldados e marinheiros provavelmente não responderia a uma revolta perante o Congresso dos Sovietes. Além disso, foram obrigados a reconhecer que, ao usurparem as prerrogativas do Congresso Nacional dos Sovietes, colocariam em risco as possibilidades de colaboração com aliados importantes como os Socialistas Revolucionários de Esquerda e os Mencheviques-Internacionalistas. Ademais, corriam o risco de perder apoio em organizações de massa como sindicatos, comitês de fábrica e o Soviete de Petrogrado. O mais preocupante de tudo era que aumentariam o perigo de oposição por parte das tropas da frente norte próxima.

Consequentemente, com considerável hesitação causada em grande parte pela pressão de Lenin por uma ação direta mais ousada, a liderança bolchevique em Petrogrado, tanto os partidários de Lenin quanto os de Kamenev, seguiu uma estratégia baseada nos seguintes princípios: que os sovietes (devido à sua importância perante as massas), e não os órgãos do partido, deveriam ser empregados para a derrubada do Governo Provisório; que, para obter o apoio mais amplo possível, qualquer ataque ao governo deveria se limitar a ações que pudessem ser justificadas em termos de defesa dos sovietes; que a ação deveria, portanto, ser adiada até que surgisse uma justificativa adequada para o combate; que, para minar a resistência potencial e maximizar a possibilidade de sucesso, todas as oportunidades deveriam ser aproveitadas para subverter pacificamente a autoridade do Governo Provisório; e que a remoção formal do governo existente deveria ser vinculada e legitimada pelas decisões do Segundo Congresso Pan-Russo dos Sovietes. Na época, Lenin considerou “pura idiotice” esperar pelo congresso.5 No entanto, considerando o desenvolvimento da revolução até aquele momento, bem como as opiniões da maioria dos principais bolcheviques em todo o país, parece ter sido uma resposta natural e realista à correlação de forças prevalecente e ao humor popular.[155]

Em outubro de 1917: Kamenev e Zinoviev votaram contra a insurreição, chamando-a de ‘aventurismo’. Trotsky propôs adiar a revolução até o Congresso dos Sovietes. Stalin rejeitou qualquer demora[156]

Zinoviev e Kamenev sabotaram publicamente o plano, denunciando-o no jornal Novaya Zhizn. Lenin os chamou de ‘traidores’ e ‘fura-greves’, exigindo expulsão do partido.”[157]
Não se pode esperar que a imprensa milionária, ou o Daily Herald de hoje, apresente aos seus leitores os factos reais sobre esta ‘Velha Guarda’. Mas ei-los:
Zinoviev e Kamenev não foram os líderes nem os inspiradores da Revolução Russa que começou em Petrogrado em 1917. Na verdade, enquanto membros do Comité Central do Partido Bolchevique na época, eles opuseram-se e votaram contra a insurreição. Mais ainda, deram o passo de tornar públicos os planos dos bolcheviques, publicando-os no jornal Novaya Zhizn (‘Vida Nova’) em Petrogrado. Imediatamente, Lenine denunciou estes dois, exigindo a sua expulsão do Partido, classificando-os como ‘fura-greves’ da Revolução. Mas Zinoviev e Kamenev retrataram-se e foi-lhes permitido permanecer como membros. [158]

Stalin inicialmente poupou os dissidentes: Publicou a denúncia de Lenin, mas adicionou comentário conciliador (‘esperamos que o caso esteja encerrado’). Ofereceu renúncia quando criticado.”[159]
Lenin em 1917: ‘Zinoviev e Kamenev são prostitutas!’. Permaneceram no Politburo por falta de quadros – Stalin e Sverdlov impediram sua expulsão.”[160]
Zinoviev alegou: ‘Os bolcheviques estabeleceram ditadura do partido, não do proletariado!’. Lenin rebateu: ‘Temos ditadura de classe,com comunistas como força dirigente!’.” [161]

Para desmistificar a narrativa de que Stálin seria uma figura secundária ou irrelevante durante o ano decisivo de 1917, é fundamental observar sua atuação concreta na “casa de máquinas” da revolução. Enquanto Lênin permaneceu forçosamente na clandestinidade, após seu decreto de prisão durante as jornas de julho, coube muitas vezes a Stálin a tarefa vital de articular a estratégia política nos congressos e, simultaneamente, operar a logística da tomada de poder, demonstrando um domínio tático e uma presença de comando que foram essenciais para o sucesso do levante bolchevique, como atestam diversos historiadores:

Stalin coordenou as tropas revolucionárias nos pontos decisivos de Petrogrado. Não estava nos holofotes, mas controlava as rédeas.[162]

No VI Congresso do Partido (agosto de 1917), Stalis substituiu Lenin ausente, apresentando relatório aos 267 delegados com habilidade persuasiva.[163]

Em 24 de outubro de 1917, Stalin reportou a situação a delegados bolcheviques. Seu conhecimento detalhado de operações militares prova que estava no centro da insurreição.[164]

No momento decisivo em que os bolcheviques assumiram o protagonismo do processo revolucionário, a unidade interna do partido era matizada por divergências estratégicas profundas. Não se tratava de um bloco monolítico, mas de uma organização onde coexistiam visões distintas sobre o futuro do socialismo, variando da cautela quase menchevique à impaciência radical. Nesse cenário, a liderança não era difusa, mas concentrada naqueles que se alinhavam estritamente à concepção de um partido de vanguarda militante, funcionando como uma estrutura de comando pronta para o combate de classes:

“No exato momento em que se tornou o partido líder da revolução e assumiu as rédeas do recém-formado governo soviético, havia três tendências definidas dentro do partido bolchevique. Os líderes no comitê central eram Lenin, Stalin, Sverdlov e Dzerzhinsky, representando a versão leninista do marxismo. Kamenev, Zinoviev e Rykov formavam um grupo com uma política por vezes indistinta da dos mencheviques, e Bukharin, Radek, Shliapnikov lideravam um grupo de ‘comunistas de esquerda’. Trotsky oscilava entre os grupos. Lenin via o partido bolchevique como o estado-maior do proletariado travando uma guerra secular.”[165]

Para transformar essa visão de “estado-maior” em realidade concreta e garantir que a tomada de poder não fosse apenas teórica, era imperativo estabelecer uma estrutura de comando militar dedicada. Lênin, consciente da necessidade de pragmatismo e eficiência organizacional para o sucesso da insurreição, não hesitou em selecionar os quadros mais disciplinados e capazes de orquestrar a logística do levante, recorrendo a figuras de sua estrita confiança para compor o núcleo duro da revolução:

“…para garantir uma vitória rápida, seria necessária uma força militar organizada quando a insurreição de fato começasse. Com ordens especiais para preparar essa eventualidade, o Partido nomeou um Centro Revolucionário Militar, composto por Stalin, Sverdlov, Bubnov, Uritsky e Dzerzhinsky, colocando em suas mãos toda a direção militar do levante. Mais uma vez, a escolha de Lenin recaiu sobre o ‘maravilhoso georgiano’ quando precisou de capacidade organizacional e senso tático.”[166]

A formalização desse papel de liderança não demorou a ocorrer, consolidando a posição de Stálin no epicentro das decisões táticas. A burocracia partidária, longe de marginalizá-lo, oficializou sua responsabilidade na condução direta dos eventos que levariam à queda do Governo Provisório, colocando-o no comando do órgão encarregado de supervisionar a mecânica da revolta: “A reunião ampliada do Comitê Central bolchevique de 16 de outubro colocou o camarada Stalin à frente do Centro do Partido para a direção do levante.” [167]

Anos mais tarde, a composição desse centro de comando tornou-se uma arma retórica fundamental na disputa pelo legado de Lênin e pelo controle do Partido. A presença de Stálin nesse núcleo original serviu como base para deslegitimar rivais que reivindicavam o protagonismo de Outubro, permitindo a ele reescrever a hierarquia revolucionária ao apontar as ausências institucionais de seus adversários nos momentos críticos: “Em outubro de 1924, Stalin, pela primeira vez, começou a denegrir, embora ainda não descartasse inteiramente, o papel de Trotsky na Revolução de Outubro…. Trotsky, observou Stalin, nem sequer fora membro do ‘centro’ de cinco homens nomeado para conduzir a tomada do poder, embora o próprio Stalin estivesse nele.”[168]

Essa proeminência em 1917 não foi um acidente, mas o resultado de uma trajetória de ativismo prático e intelectual que superava a de muitos de seus contemporâneos no Politburo. Ao contrário da imagem de um burocrata silencioso, os registros históricos indicam um Stálin profundamente engajado nos debates ideológicos e na agitação direta, desempenhando um papel vital tanto na teoria quanto na prática revolucionária desde os tempos de 1905:

“Ele [Stalin] destacou-se em suas capacidades práticas; e, com exceção de Trotsky, que liderou o Soviete de Petersburgo no outono de 1905, teve um papel muito mais influente nos eventos daquele ano turbulento [1917] do que qualquer outro membro do primeiro Politburo do Partido formado após a Revolução de Outubro. Dzhughashvili debatia frequentemente com os mencheviques georgianos. Falava em reuniões de operários. Foi um dos escritores mais produtivos do Proletarians Bzdzola.”[169]

A intensidade desse trabalho tornou-se especialmente visível durante os períodos de crise, como após as Jornadas de Julho, quando a perseguição governamental forçou os principais líderes ao exílio ou à prisão. Nesse vácuo de poder, a responsabilidade de manter o partido operante recaiu sobre os poucos membros do núcleo interno que permaneceram livres, permitindo a Stálin demonstrar uma competência administrativa e política que surpreendeu até seus pares, consolidando sua autoridade através do trabalho exaustivo:

“Seus trabalhos no Comitê Central e no Pravda envolviam tanta escrita com caneta ou lápis que calos surgiram nos dedos de sua mão direita. Com o trabalho veio a autoridade. Lenin e Zinoviev eram fugitivos. Trotsky, Kamenev e Kollontai estavam na prisão. A liderança do partido caiu nas mãos de Stalin e Sverdlov, pois eram os únicos membros do núcleo interno do Comitê Central que ainda estavam em liberdade. Tal situação teria desconcertado muitos. Mas, Stalin e Sverdlov transbordavam de confiança enquanto buscavam reparar os danos causados ao partido pelos Dias de Julho – e Stalin apreciou a chance de mostrar que tinha habilidades políticas que poucos no partido haviam até então percebido nele… No início do clandestino Sexto Congresso do Partido, no final de julho, não havia dúvida sobre a eminência de Stalin entre os bolcheviques. Ele foi escolhido pelo Comitê Central para apresentar seu relatório oficial, bem como outro ‘sobre a situação política’.”[170]

Apesar dessa centralidade, a ausência do nome de Stálin em certas listas de tarefas operacionais gerou interpretações equivocadas sobre sua relevância na véspera da tomada do poder. Críticos, incluindo Trótski, utilizaram essas lacunas burocráticas para sugerir passividade, ignorando que as funções de edição e coordenação política eram tão vitais quanto as tarefas logísticas, e que a própria liderança suprema do partido muitas vezes não figurava nessas atribuições específicas por razões de segurança ou divisão de trabalho:

“Presumivelmente, foram seus deveres editoriais que o impediram [Stalin] de comparecer ao Comitê Central no mesmo dia. Trotsky também esteve ausente, mas isso não o impediu de denegrir Stalin como um homem que evitava participar das decisões e atividades ligadas à tomada do poder. Espalhou-se a história – que mantém sua vigência – de que Stalin foi ‘o homem que perdeu a revolução’. Acreditava-se que a prova residia nas tarefas atribuídas pelo Comitê Central a seus próprios membros. Aqui está uma lista das atribuições: […] Trotsky achou que isso demonstrava a marginalidade de Joseph Stalin para a ocasião histórica que estava sendo planejada. No entanto, se a inclusão na lista era crucial, por que Trotsky e Lenin foram omitidos? E se o compromisso com a insurreição era um critério, por que o Comitê Central envolveu Kamenev? O ponto era que Lenin tinha que permanecer na clandestinidade e Trotsky estava ocupado no Comitê Revolucionário Militar. Stalin, como editor de jornal, também tinha tarefas que o ocupavam, e essas tarefas não eram sem importância. Assim que teve tempo, voltou ao Instituto Smolny e reuniu-se a seus camaradas líderes. Lá, recebeu instantaneamente um trabalho, sendo enviado com Trotsky para instruir os delegados bolcheviques que haviam chegado ao prédio para o Segundo Congresso dos Sovietes.” [171]

Ainda assim, o mito de que Stálin foi uma figura secundária persistiu, alimentado pelo fato de ele não ter comandado tropas na linha de frente durante os dias cruciais de outubro. Essa visão, contudo, desconsidera a lógica organizacional do momento: deslocar um administrador central, que já detinha funções essenciais de comunicação e estratégia, para o comando tático de última hora teria sido um erro de gestão, não uma prova de irrelevância:

“O fato de Stalin não ter sido solicitado a dirigir qualquer atividade armada perpetuou uma lenda de que ele não contava para nada no Comitê Central. Isso é ignorar o escopo mais amplo da reunião. O Comitê Revolucionário Militar já havia feito seus dispositivos para as guarnições e Guardas Vermelhos. As funções anteriores de Stalin o haviam impedido de se envolver em tais atividades e teria sido loucura inseri-lo no último momento.”[172]

Ao final, a avaliação sóbria de sua atuação em 1917 demonstra um líder que cumpriu suas funções com extrema eficácia, servindo como o elo estável entre a liderança clandestina e a base do partido. Sua familiaridade com o ambiente revolucionário e sua capacidade de transitar entre a escrita teórica, a edição jornalística e o planejamento estratégico foram fundamentais para a coesão bolchevique até o momento da vitória:

“Ele havia feito seus trabalhos, importantes tarefas partidárias, com diligência e eficiência. Com Sverdlov, ele havia dirigido o Comitê Central em julho e agosto. Editou o jornal central do partido até a tomada do poder em outubro. Desde abril, ajudara a trazer o ajuste pragmático da política partidária às demandas populares. Sentia-se em casa no ambiente da Rússia revolucionária; e quando voltava ao apartamento dos Alliluev, era saudado por admiradores. Escrevia, editava, discutia e planejava com entusiasmo.”[173]

Essa imagem de dinamismo e onipresença nos assuntos de Estado projetou-se para além da revolução, construindo o perfil de Stálin nos primeiros anos do poder soviético. Longe do estereótipo de mero executor de ordens, ele se estabeleceu como uma autoridade consultada em todas as esferas vitais da governança, da estratégia militar à diplomacia, tornando-se indispensável para o funcionamento do Politburo em momentos de emergência:

“Longe de se encaixar no estereótipo burocrático, ele era um líder dinâmico que participava de quase todas as principais discussões sobre política, estratégia militar, economia, segurança e relações internacionais. Lenin telefonava ou telegrafava aos membros do Politburo sempre que uma questão controversa estava no ar. Havia poucos cantos dos altos assuntos públicos onde a influência de Stalin era desconhecida; e o Politburo frequentemente recorria a ele quando uma emergência súbita surgia.”[174]

Para compreender a raiz dessa capacidade de liderança militante, é necessário olhar para o passado de Stálin na clandestinidade, onde sua reputação como homem de ação já estava estabelecida muito antes de 1917. Até mesmo seus adversários futuros reconheciam que, sob o pseudônimo de Koba, ele exercia um papel diretivo nas operações mais arriscadas do partido na região do Cáucaso: “A Koba foi atribuída a liderança direta das ‘atividades militantes’ de Baku.”[175]

Essa proeminência pregressa não era apenas folclore revolucionário, mas um fato documentado pelas autoridades czaristas, que identificavam no jovem revolucionário não um militante comum, mas um organizador central e perigoso. Os relatórios policiais da época corroboram a visão de que a liderança de Stálin foi forjada na prática direta e na ocupação de posições de comando desde o início de sua carreira política: “Em 24 de março de 1910, o Capitão de Gendarmaria Martynov afirmou ter prendido Joseph Djugashvili, conhecido pelo pseudônimo de ‘Koba’, membro do Comitê de Baku, ‘um trabalhador partidário muito ativo que ocupava uma posição de liderança’.”[176]

 

6.2. A Ascensão Institucional: Stálin como Pilar Organizacional da Revolução de 1917

Ao contrário da narrativa que se popularizou posteriormente, que pintava Stálin como uma figura periférica ofuscada pelo brilho intelectual de outros líderes, os registros internos do Partido Bolchevique em 1917 contam uma história diferente. A confiança depositada nele pelos quadros do partido não era apenas retórica, mas quantificável através de votos. Durante o Sexto Congresso, momento crucial de definição de lideranças, Stálin emergiu não apenas como um membro da elite dirigente, mas como uma figura preferida em instâncias decisivas, superando rivais de peso na disputa pelo controle dos órgãos de imprensa e direção política:

“O tratamento de Stalin no Sexto Congresso do Partido elevou seu prestígio e autoridade. Nas eleições para o Comitê Central, ele ficou depois de Lenin, Zinoviev, Kamenev e Trotsky no número de votos obtidos. Quando o Comitê Central elegeu o conselho editorial do Pravda, Stalin recebeu a maioria dos votos e Trotsky não conseguiu ser eleito. Quando foi decidido eleger um gabinete interno de 10 membros do ampliado Comitê Central, Stalin novamente prevaleceu na votação.”[177]

Essa preferência pela liderança de Stálin em detrimento de Trótski nas questões internas revela a dinâmica real do “aparelho” partidário. Enquanto Trótski era admirado por sua oratória pública, os funcionários e militantes veteranos viam em Stálin a confiabilidade necessária para gerir a voz oficial do partido. A votação para o conselho editorial do jornal bolchevique serve como um termômetro dessa correlação de forças, onde a inclusão de Trótski foi rejeitada pelos seus próprios pares em favor da estabilidade representada por Stálin: “Entre os funcionários do Partido, Stalin era preferido ao seu futuro rival [Trotsky], e isso é bem atestado pelos primeiros atos do novo Comitê Central. Na votação para o conselho editorial do jornal bolchevique, Stalin recebeu a maioria dos votos, e a moção de que Trotsky, se liberto da prisão, deveria ser convidado a se juntar a ele foi rejeitada por 11 a 10.”[178]

À medida que a insurreição se aproximava, a estrutura de comando bifurcou-se entre a face pública — o Comitê Militar Revolucionário (CMR) do Soviete, liderado por Trótski — e o núcleo operacional secreto do Partido. É neste ponto que a historiografia ilumina o papel fundamental, e muitas vezes ignorado, do “centro prático”. Embora Trótski comandasse as forças visíveis do Soviete, foi criado um órgão especial, composto por cinco homens, para ser o verdadeiro cérebro organizador do levante. A presença de Stálin neste grupo seleto, e a ausência de Trótski, sublinha onde residia a confiança do partido para a coordenação estratégica direta:

“Após o retorno de Lenin à Finlândia, Trotsky assumiu o comando. Ele era o presidente do Comitê Militar Revolucionário do Soviete de Petrogrado, criado em 25 de outubro. Servindo como o estado-maior da Revolução, este comitê controlava a Guarda Vermelha e todas as unidades militares na cidade que apoiavam os bolcheviques. Havia também um ‘centro’ militar revolucionário especial, consistindo de cinco membros, eleitos ou nomeados em 29 de outubro. Stalin, mas não Trotsky, era membro deste centro, que foi descrito como a verdadeira força organizadora da Revolução.”[179]

A criação desse centro de operações não foi um ato burocrático trivial, mas a resposta direta à exigência de Lênin por uma preparação intensiva para a tomada do poder. O líder bolchevique sabia que a agitação política precisava ser sustentada por uma logística militar impecável. Assim, a nomeação de Stálin ao lado de figuras como Sverdlov e Dzerzhinsky para supervisionar o levante demonstra que ele era visto como parte indispensável da “equipe de combate” que transformaria a teoria revolucionária em ação armada:

“Em outubro de 1917 Lenin, enquanto isso, estava convocando todas as organizações e todos os trabalhadores e soldados a se engajarem em uma preparação aberta e intensificada para um levante armado. O Comitê Central do partido nomeou um centro de operações, consistindo de Bubnov, Dzerzhinsky, Uritsky, Sverdlov e Stalin, para supervisionar a organização do levante.” [180]

Em última análise, o sucesso de Outubro foi fruto de um esforço conjunto, mas com divisões de trabalho claras. A responsabilidade pelo ataque decisivo foi compartilhada entre a mobilização de massas feita pelo CMR e o planejamento tático do centro prático de cinco homens. Reconhecer a participação de Stálin nesse núcleo não diminui o papel de outros, mas corrige a distorção histórica que tentou apagá-lo do centro de comando da insurreição: “Organizar o levante tinha sido responsabilidade do centro prático de cinco homens, incluindo Stalin, e do Comitê Militar Revolucionário, que fez uma enorme quantidade de trabalho recrutando forças para o ataque decisivo.”[181]

6.2.1. Os cargos de Stálin

Muitas análises posteriores da Revolução Russa tendem a retratar a ascensão de Stálin como uma usurpação tardia, ignorando o fato de que sua autoridade não foi tomada de assalto, mas construída metodicamente dentro das estruturas legítimas do Estado soviético. Desde os primeiros dias do novo regime, ele não apenas estava presente, mas ocupava assentos em todas as instâncias decisórias fundamentais, consolidando uma influência que crescia organicamente à medida que o país transitava da guerra civil para a reconstrução do Estado:

“Ao mesmo tempo, deve-se lembrar que, desde o primeiro momento da revolução, Stalin foi membro dos mais altos órgãos do partido: primeiro no Comitê Central, depois no Politburo e no Orgburo. Aos poucos, especialmente à medida que a Guerra Civil se aproximava do fim, a posição de Stalin se fortaleceu e ele se tornou uma das figuras-chave no núcleo governante do partido.”[182]

Há uma ironia histórica profunda na construção desse poder: Stálin não tomou esses cargos à força; ele foi eleito e encorajado a assumi-los por aqueles que, anos mais tarde, seriam expurgados. Seus futuros rivais, subestimando o potencial político da administração, sua capacidade teórica, delegaram a ele o controle de três alavancas cruciais do Estado, acreditando que eram posições técnicas, quando na verdade eram os pilares centrais do controle governamental: “Mais estranho ainda, ele [Stalin] foi votado e movido para todas as suas posições de poder por seus rivais. Três dos cargos que ocupou imediatamente após a guerra civil foram de importância decisiva: ele era o Comissário das Nacionalidades, o Comissário da Inspeção Operária e Camponesa e um membro do Politburo.”[183]

Dentre esses cargos, a Inspeção Operária e Camponesa (Rabkrin) merece sublinho especial, pois conferia a Stálin um poder de auditoria quase ilimitado sobre toda a máquina estatal. Proposto para o cargo pelo próprio Zinoviev e apoiado por Lênin — que via na inspeção uma ferramenta vital contra a corrupção e a ineficiência herdadas do czarismo —, Stálin recebeu a chave mestra para supervisionar, investigar e reformar qualquer departamento do governo, criando, na prática, um “supergoverno” sob seu comando direto:

“Ele foi nomeado Comissário da Inspeção Operária e Camponesa em 1919, por proposta de Zinoviev. O Rabkrin, como o Comissariado era chamado, foi criado para controlar todos os ramos da administração, de cima a baixo, com o objetivo de eliminar as duas principais falhas, ineficiência e corrupção, que o serviço público soviético havia herdado de seu predecessor tsarista. Ele deveria agir como o severo e iluminado auditor de toda a máquina governamental cambaleante e rangente; expor abusos de poder e burocracia; e treinar uma elite de funcionários públicos confiáveis para cada ramo do governo…. Todo o esquema bizarro de inspeção era uma das ideias favoritas de Lenin…. A escolha de Stalin para o trabalho dá uma medida da alta confiança de Lenin nele, pois a Inspeção era uma espécie de supergoverno, em si livre de toda mancha e mácula da burocracia.”[184]

Essa acumulação de funções criou uma anomalia estrutural que Stálin explorou com maestria: ele se tornou o único elo de ligação entre a formulação política (o Politburo) e a execução pessoal e organizacional (o Orgburo e a Inspeção). Enquanto outros líderes focavam na “alta política” e nos grandes debates teóricos, Stálin dominava a “carpintaria” do partido, controlando quem executava as ordens e como a máquina funcionava no dia a dia, garantindo que as diretrizes do topo fossem traduzidas em ação pela base através de sua supervisão:

“Basta dizer aqui que, como chefe da Inspeção, Stalin veio a controlar toda a máquina de governo, seu funcionamento e pessoal, mais de perto do que qualquer outro comissário. Sua próxima posição de vantagem estava no Politburo…. A gestão do dia-a-dia do partido pertencia a Stalin. O Politburo discutia a alta política. Outro corpo, que era, como o Politburo, eleito pelo Comitê Central, o Bureau de Organização (Orgburo), estava encarregado do pessoal do partido…. Desde o início de 1919, Stalin era o único oficial de ligação permanente entre o Politburo e o Orgburo. Ele garantiu a unidade da política e da organização…. Como nenhum de seus colegas, ele estava imerso na labuta diária do partido e em todas as suas conspirações de bastidores.”[185]

A razão pela qual seus pares permitiram tal concentração de poder reside na natureza do trabalho em si. As tarefas assumidas por Stálin eram exaustivas, burocráticas e desprovidas do glamour revolucionário que atraía os intelectuais brilhantes como Trótski ou Bukharin. Para eles, o trabalho administrativo era um fardo necessário, mas tedioso; para Stálin, era o terreno onde a autoridade real era cultivada. Sua disposição para assumir a carga de trabalho que ninguém mais queria tornou-o insubstituível:

“Lenin, Kamenev, Zinoviev e, em menor medida, Trotsky, foram os patrocinadores de Stalin em todos os cargos que ocupou. Seus trabalhos eram do tipo que dificilmente atrairiam os intelectuais brilhantes do Politburo. Todo o seu brilho em questões de doutrina, todos os seus poderes de análise política teriam encontrado pouca aplicação tanto na Inspeção Operária e Camponesa quanto na Secretaria Geral. O que era necessário lá era uma enorme capacidade para o trabalho árduo e não inspirador e um interesse paciente e sustentado em cada detalhe da organização. Nenhum de seus colegas invejava Stalin suas atribuições.”[186]

Além dos cargos formais, a confiança pessoal de Lênin em “Koba” (o apelido revolucionário de Stálin) ampliou ainda mais seu escopo de atuação. Lênin o utilizava como um militante versátil, nomeando-o para uma miríade de comissões e frequentemente delegando a ele a presidência de reuniões governamentais. Essa onipresença fez com que, para o funcionamento diário do Estado Soviético, a figura de Stálin se tornasse tão central quanto a do próprio líder da revolução:

“Dentre os principais líderes do Partido, Lenin trouxe Kamenev e Trotsky para o Politburo. E também Koba. Este era o centro nervoso. Zinoviev e Bukharin ele fez apenas membros associados. Lenin também criou um Bureau de Organização, para supervisionar o trabalho atual do Partido, e fez de Koba um membro deste corpo também. Mesmo isso não foi suficiente. Ele nomeou Koba para dois Comissariados do Povo – Nacionalidades e o muito importante da Inspeção Operária e Camponesa…. Lenin nomeou Koba para todas as comissões particularmente importantes…. Lenin frequentemente autorizava Koba a conduzir reuniões do governo em sua ausência…. Este, então, era o novo Koba – membro do Politburo e do Orgbureau, Comissário do Povo duas vezes, representante do Comitê Central e do Conselho Militar Revolucionário nas frentes de Petrogrado, ocidental e sul. Adicione a isso todas aquelas comissões….” [187]

Essa indispensabilidade foi cimentada não apenas pela quantidade de cargos, mas pela competência executiva que ele demonstrava. Em momentos de crise e na formação de novos comitês estratégicos, a presença de Stálin era uma constante, valorizada por sua capacidade de síntese e foco na resolução prática de problemas, qualidades que contrastavam com os longos debates teóricos de outros líderes:

“A primeira crise pós-vitória encontrou Stalin ao lado de Lenin, e ele agora era considerado um organizador e comissário indispensável. Assim, na sessão do Comitê Central de 29 de novembro, que nomeou vários subcomitês para lidar com o trabalho atual, Stalin foi colocado em praticamente todos os importantes: o conselho editorial do Pravda, o comitê para supervisionar a imprensa bolchevique, o grupo para lidar com a questão ucraniana. Ele tinha dons inestimáveis como comissário e organizador: brevidade e a capacidade de ir direto ao ponto.”[188]

No final, a ascensão de Stálin foi alicerçada em uma combinação de tenacidade e habilidade. Longe de ser um ignorante em teoria marxista: dogmático, positivista, como seus críticos alegavam, ele possuía o entendimento necessário para a liderança, mas seu diferencial era a capacidade de trabalho hercúleo. Ele era o editor, o organizador e o executor silencioso que mantinha o partido funcionando enquanto outros discursavam: “Ele [Stalin] nunca reclamou das tarefas: sua capacidade para o trabalho árduo já era bem conhecida…. Ele tinha um entendimento básico da teoria marxista. Ele era um escritor fluente e um editor capaz.”[189]

É fundamental dissipar a noção de que a proeminência de Stálin foi fruto do acaso ou de intrigas burocráticas tardias. Uma análise atenta da trajetória do Partido Bolchevique revela que, muito antes da tomada do poder, houve um processo consciente e deliberado de promoção liderado pelo próprio Lênin. Reconhecendo qualidades singulares no revolucionário georgiano, o líder bolchevique confiou-lhe responsabilidades crescentes ao longo de uma década crítica, inserindo-o firmemente na elite dirigente que, inevitavelmente, moldaria o destino do novo Estado soviético: “E ainda assim nos deparamos com o fato de que Lenin, na década após 1905, deliberadamente selecionou Stalin para tarefas cada vez mais importantes no Partido Bolchevique, tornando-o um dos 10 bolcheviques mais importantes e, portanto, após 1917, um dos 10 homens mais importantes na Rússia.”[190]

O critério central para essa confiança irrestrita não era apenas a lealdade ideológica, mas uma competência administrativa brutalmente eficaz e rara entre os intelectuais do partido. Em um período de caos revolucionário e construção estatal, onde a teoria precisava se converter urgentemente em prática, Stálin destacava-se como um solucionador de problemas universal. Sua disposição para enfrentar o desconhecido, absorver informações complexas sob pressão extrema e impor ordem onde havia anarquia tornava-o um recurso único nas mãos de Lênin, transformando a inércia burocrática em ação decisiva:

“Acima de tudo, a ascensão de Stalin como um líder eficaz dependia de sua capacidade de trabalho, incansável e extremamente variada. Aqui estava um homem, talvez o único à disposição de Lenin, que podia assumir quase qualquer tipo de tarefa, independentemente de ter ou não experiência no assunto, aprender o suficiente para tomar decisões definitivas sob forte pressão de tempo e lidar com os problemas mais urgentes. Os resultados não eram necessariamente ideais, mas no geral eram bem-sucedidos, às vezes brilhantemente, e o principal era manter a ofensiva, se possível, substituindo a deriva por direção.”[191]

7. Conclusão

Com base em todo o material documental e historiográfico analisado até aqui, é possível traçar uma conclusão robusta que desafia o consenso tradicional (muitas vezes influenciado pela visão trotskista ou pela historiografia da Guerra Fria) de que Stálin teria sido uma figura irrelevante ou um mero “borrão cinzento” em 1917.

Desde sempre, Lênin encarregou Stálin das tarefas mais dificeis, desde escrever uma concepção marxista da questão nacional, até mesmo fiscalizar a aliança operário-camponesa, bem como lhe confiou a secretaria geral do partido. Enquanto Lênin estava no exílio ou na clandestinidade, Stálin atuou como o principal canal de comunicação entre a liderança teórica e a base militante. Como editor do Pravda (e seus sucessores), ele não apenas imprimia jornais; ele definia a “linha do partido” diariamente. Seus mais de 40 artigos de fundo escritos entre agosto e outubro foram vitais para orientar a classe trabalhadora e preparar o terreno ideológico para a insurreição.

Nos momentos de crise aguda, como após as Jornadas de Julho de 1917, Stálin demonstrou uma frieza e uma intuição política superiores às de seus pares. Ao impedir que Lênin se entregasse ao Governo Provisório — salvando-o de uma execução quase certa —, ele garantiu a sobrevivência do “cérebro” da revolução. Sua capacidade de prever a violência contrarrevolucionária, quando outros (como Kamenev e Zinoviev) ainda confiavam na legalidade burguesa, provou-se decisiva.

Longe de estar ausente na tomada do poder, Stálin estava no centro dela. Enquanto Trótski brilhava como a face pública e oratória no Soviete, Stálin operava na “casa de máquinas” do levante como membro do Centro Prático de cinco homens. A confiança de Lênin e do Partido nele era quantificável: ele vencia eleições internas consistentemente, superando figuras mais famosas, justamente porque era visto como o homem capaz de transformar decisões abstratas em ações concretas.

Stálin em 1917 não era o estadista que viria a ser anos depois, mas já era o “homem indispensável”. Ele ocupava um espaço único: possuía intelecto suficiente para debater teoria, mas, diferentemente dos intelectuais “puros”, tinha a disciplina e a capacidade de trabalho de um administrador incansável. Ele não chegou o poder por acaso; ele construiu sua autoridade carregando o peso das tarefas que ninguém mais queria ou conseguia executar. A Revolução de Outubro, portanto, não teria a mesma coesão estratégica e operacional sem a sua presença no centro do comando bolchevique.

[1] ENGELS, F. The Foreign Policy of Russian Tsardom. In: ENGELS, F; MARX, K. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. Volume. 27. Pag. 13. Acesso em março de 2026. Disponível no site em: <https://www.marxists.org/archive/marx/works/1890/russian-tsardom/index.htm>.

[2] INSTITUTO MARX-ENGELS-LENIN. Stalin: Chapter I. [S. l.]. Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1947. Acesso em 10 de março de 2026. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/biographies/1947/stalin/01.htm.

[3] KUROMIYA, H. Stalin, [S.l.], Routledge, 2005, p. 1.

[4] KOTIKIN, S. Stálin: Paradoxos do Poder. Objetiva. São Paulo. 2017. Pag. 33

[5] MARCOU, Lilly. A vida privada de Stálin, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2013. P, 7.

[6] KOTIKIN, S. OP CIT. Pag. 86

[7] GETTY, J. Arch. In: NOVE, Alec (ed.). The Stalin Phenomenon. New York: St. Martin’s Pr ess, 1993. p. 100.

[8] CONQUEST, Robert. Stalin: breaker of nations. New York: Viking, 1991. p. 9-10.

[9] CONQUEST, Robert. The Great Terror. New York: Oxford University Press, 1990. p. 55.

[10] RANDALL, Francis. Stalin’s Russia. New York: Free Press, 1965. p. 21.

[11] MEDVEDEV, Roy; MEDVEDEV, Zhores. The Unknown Stalin. New York: Overlook Press, 2004. p. 65.

[12] Idem. p. 73.

[13] Um exemplo disso é o relatório do FMI apontando que os bombardeios dos EUA no Camboja causaram mais de 1,5 milhão de mortes. Diante desse dado, torna-se um desafio hercúleo convencer historiadores de que Pol Pot não foi o único responsável pela morte de 2 milhões de pessoas no país.

[14] DELBARS, Yves. The Real Stalin. London: Allen & Unwin, 1951. p. 39.

[15] TROTSKY, Leon. Stalin. New York: Harper and Brothers Publishers, 1941. p. 7.

[16] LEVINE, Isaac Don. Stalin. New York: Cosmopolitan Book Corporation, [c1931]. p. 7.

[17] SERVICE, Robert. Stalin. Cambridge: Belknap Press of Harvard University Press, 2005. p. 362-363.

[18] ROBERTS, Geoffrey. Stalin’s Library: A Dictator and his Books. New Haven: Yale University Press, 2022. p. 21-22.

[19] Idem. Pag. 20-21. O questionário da ROSTA se encontra em: RGASPI, F.558, Op.1, D. 4507. Acesso em março de 2026. Disponível em: <https://rgaspi-558.dlibrary.org/ru/nodes/4508-delo-4507-otvety-stalina-i-v-biograficheskogo-haraktera#mode/inspect/page/1/zoom/4>. Quanto a Certidão de nascimento e batismo de Dzhugashvili I.V. Está disponível em: <https://rgaspi-558.dlibrary.org/ru/nodes/28722-delo-2-vypiska-o-rozhdenii-i-kreschenii-dzhugashvili-i-v#mode/inspect/page/1/zoom/4>. Acesso em março de 2026.

[20] MONTEFIORE, Simon Sebag. Young Stalin. New York: Alfred A. Knopf, 2007. p. 47.

[21] Idem. Pag. 102.

[22] JONES, Stephen F. Socialism in Georgian colors: the European road to social democracy, 1883–1917. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, 2005. Pag. 305.

[23] Idem. Pag. 182

[24] Idem. Pag. 102.

[25] Idem. Pag. 104.

[26] Idem. Pag. 22.

[27] “Em primeiro lugar, é necessário mencionar o certificado, emitido para Iosif Dzhugashvili em junho de 1894, sobre a conclusão do curso completo da escola teológica de Gori. Este documento é apresentado abaixo (refere-se à fotocópia. Izvestia do CC do PCUS. 1990. Nº 11. p. 133. – Ed.), sublinhamos apenas a data de nascimento do seu titular aqui registrada: ele nasceu ‘no sexto dia do mês de dezembro de mil oitocentos e setenta e oito’. KITAEV, I.; MOSHKOV, L.; CHERNEV, A. Kogda rodilsya I. V. Stalin [Quando nasceu I. V. Stalin]. Izvestia do CC do PCUS (Izvestiya TsK KPSS), Moscou, n. 11, 1990. In STALIN, I. V. Sochineniya [Obras]. Moscou: Gosudarstvennoye Izdatelstvo Politicheskoy Literatury (Gospolitizdat), 1946–1951. Pag. 137.

[28] SUNY, Ronald Grigor. The making of the Georgian nation. 2. ed. Bloomington: Indiana University Press, 1994. Pag. 67.

[29] Idem. PAG. 74.

[30] Idem. PAG. 82-83

[31] Idem. Pag. 67-68.

[32] Idem. Ibidem.

[33] Idem. Ibidem.

[34] DEUTSCHER, I. Stalin: A Political Biography, [S.l.], Vintage Books, 1949, p. 65..

[35] GREY, I. Stalin (Volumen primero). Barcelona, Salvat Editores, 1986, p. 24.

[36] KUROMIYA, H. OP CIT. Pag. 5.

[37] KOTKIN, Stephen. OP CIT. p. 33.

[38] Idem. 36

[39] KOTKIN, Stephen. Stálin: Paradoxos do Poder 1878-1928. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. v. 1, p. 36.

[40] Idem. Ibidem.

[41] STALIN, Josef. Obras Escolhidas. São Paulo: Editora Raízes da América, 2021. v. 1, p. 22.

[42] INSTTUTO MARX, ENGELS, LENIN, STALIN; Stálin a Shoort Biography. Capítulo 1 e 2. Acesso em 5 de dezembro de 2025. Disponível para consulta virtual no seguinte endereço virtual: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/biographies/1947/stalin/01.htm.

[43] Idem. p. 28.

[44] INSTTUTO MARX, ENGELS, LENIN, STALIN. Stálin a Shoort Biography. Capítulo 1 e 2. Acesso em 5 de dezembro de 2025. Disponível no seguinte endereço virtual para consulta: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/biographies/1947/stalin/01.htm.]

[45] Idem. Ibidem.

[46] Idem. Ibidem.

[47] MARCOU, L. OP CIT. P, 22-23.

[48] Idem. Ibidem.

[49] [INSTTUTO MARX, ENGELS, LENIN, STALIN. Stálin a Shoort Biography. Capitulo 1 e 2: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/biographies/1947/stalin/01.htm.]

[50] MARCOU, L.  OP CIT. P, 22-23.

[51] KOTKIN, Stephen. OP CIT. P. 66.

[52] STÁLIN, J. V. OP CIT. São Paulo: Editora Raízes da América, 2021, p. 243.

[53] LIH, Lars T. Lenin Rediscovered: What is to be Done? in Context. Leiden: Brill, 2006. p. 480.

[54] MARTENS, Ludo. Um Outro Olhar Sobre Stálin. Anvers: Editions EPO, 2009. p. 20.

[55]  HILL, Christopher. Lenin and the Russian Revolution. [S.l.: s.n.], 1947. p. 99.

[56]  STALIN, J. OP CIT. P. 24.

[57] STALIN, Joseph, Stalin’s Kampf, Howell, Soskin & Company, New York, 1940, v. 1, p. 19).

[58] STALIN, Iossif Vissarionovitch. Polnoye sobraniye sochineniy: Tom 2. [Obras completas: Volume 2]. Moscou: Gosudarstvennoye Izdatelstvo Politicheskoy Literatury, 1946. Predislovie. Pag. 110.

[59] STALIN, Joseph, Sochinenia, Gosudarstvennoye Izdatelstvo Politicheskoy Literatury, Moscou, 1947, v. 6, p. 114. Ver também: STALIN, Iossif Vissarionovitch. Sobre os Fundamentos do Leninismo: Capítulo VII: A Estratégia e a Tática. [S. l.]: Arquivo Marxista na Internet, 1924. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/stalin/1924/leninismo/cap07.htm. Acesso em: 22 maio 2024.

[60]  STALIN, Iossif Vissarionovitch. Polnoye sobraniye sochineniy: Tom 13. [Obras completas: Volume 2]. Moscou: Gosudarstvennoye Izdatelstvo Politicheskoy Literatury, 1946. Predislovie. Pag. 38.

[61] STALIN, Iossif Vissarionovitch. Polnoye sobraniye sochineniy: Tom 1. [Obras completas: Volume 1]. Moscou: Gosudarstvennoye Izdatelstvo Politicheskoy Literatury, 1946. Pag. 81-82.

[62]STALIN, Joseph, OP CIT. 1954, v. 1, p. 267.

[63] Idem. p. 202.

[64] STALIN, Joseph, Sochinenia, Gosudarstvennoye Izdatelstvo Politicheskoy Literatury, Moscou, 1949, v. 10, p. 26.

[65] STALIN. OP CIT, v. 1, 1954 p. 201.

[66] STALIN. OP CIT. v. 1, 1954. p. 272

[67] MARTENS, Ludo. OP CIT. P. 21.

[68] MARTENS, L. OP CIT. P. 25-26.

[69] STALIN, I. V., 1905. Apud MARTENS, Ludo. El Partido de la Revolución. [S.l.: s.n.], p. 26.

[70] KUROMIYA, H. OP CIT. p. 13; ROBERTS, Geoffrey. Stalin’s Library: A Dictator and his Books. New Haven: Yale University Press, 2022. p. 48.

[71] MARTENS, Ludo. OP CIT. P. 21.

[72] ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS. Materialismo Dialético. Rio de Janeiro: Editorial Vitória, 1954. p. 203.

[73] IDEM. p. 30.

[74] STALIN, I. V., 1905. Apud in: KOTKIN, Stephen. Stálin: Paradoxos do Poder 1878-1928. Editora Objetiva, 2014. p. 169.

[75] CARVALHO, João et al. (Orgs.). Obras Escolhidas de J. V. Stalin. São Paulo: Editora Raízes da América, 2021. p. 24.

[76] STALIN, J. Works. Volume 2. Foreign Languages Publishing House. Moscow, 1953. Pag. 419.

[77] ROBERTS, G. OP CIT. P, 58.

[78] KOTKIN, S. OP CIT. p. 115.

[79] Idem. p. 119.

[80] STALIN, J. OP CIT. V. 2. P. 13.

[81] KOTKIN, S. OP CIT. p. 121-122.

[82] Idem. Ibidem.

[83] STALIN, J. OP CIT. V. 2. P. 421.

[84] MARTENS, L. OP CIT. p. 26.

[85] STALIN, J. OP CIT. V. 2. P. 428, 429-430.

[86] KOTKIN, S. OP CIT. p. 126.

[87] KOTKIN, S. OP CIT. p. 126.

[88] STALIN, I. OP CIT. PAG. 40.

[89] LUDWIG, Emil. Stalin. Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1943. 16 STALIN, J.V. História do Partido Comunista da União Soviética (Bolcheviques). Disponível no seguinte site para consulta: <https://www.marxists.org/portugues/stalin/biografia/ludwig/cap02.htm>. Nova York: International Publishers, 1939. 17 DELYAGIN, Mikhail; RYBAS, STANISLAV; WELLER, Mikhail. No 60º aniversário de sua morte: a importância de I. V. Stalin para a sociedade moderna. Livre Pensamento. Nº 3/4, junho de 2012, publicado em: Acessado em 2 de novembro de 2025. 18 POKHLEBKIN, William. O Grande Pseudônimo. Moscou: Ozon, 1996.

[90] Cole, David M. Josef Stalin; Man of Steel. London, New York: Rich & Cowan, 1942, p. 32

[91] Trotsky, Leon. Stalin. New York: Harper and Brothers Publishers, 1941, p. 117-118

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[100] Service, Robert. OP CIT. Pag. 165.

[101] Trotsky, Leon. Stalin. New York: Harper and Brothers Publishers, 1941, p. 234

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[109] ROBERTS, G. OP CIT. PAG. 84, 85.

[110] KOTIKIN, S. OP CIT. PAG. 191.

[111] ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS. História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS. Edições Avante!, Lisboa, 2008, p. 860

[112] KOTKIN, Stephen. OP CIT. P. 124-155.

[113] V.I. LENIN. Collected Works Vol 34. Progress Publishers, Moscou, 1966, p. 448.

[114] TRANSCRIPTS FROM THE SOVIET ARCHIVES. Volume III. s.l., s.n., s.d., p. 287.

[115] V.I. LENIN. Collected Works. Vol 17. Progress Publishers, Moscou, 1968, p. 11.

[116] Idem. Ibidem.

[117] CUNHAL, A. Lênin – 140 anos. Edições Avante! Lisboa, 2010, p. 20.

[118] V.I. LENIN. Collected Works Vol 23. Progress Publishers, Moscou, 1964, p. 203.

[119] KOTKIN, Stephen. OP CIT.´P. 120.

[120] J.V. STALIN. Works Vol 10. Foreign Languages Publishing House, Moscou, 1954, p. 371.

[121] KOTKIN, Stephen. OP CIT. Pag. 124-155.

[122] Idem. Ibidem..

[123] STALIN, J.V. Obras Escolhidas. Raízes da América. São Paulo, 2021, p. 126.

[124] KURUMYIA, H. OP CIT. PAG. 19.

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[126] Levine, Isaac Don. Stalin. New York: Cosmopolitan Book Corporation, 1931, p. 93

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[130] KOTKIN, Stephen. OP CIT. p. 154-155.

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[132] ROBERTS, Geoffrey. OP CIT. Pag. 53.

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[145] Trotsky, L. OP CIT. Pag. 211-212

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[165] Murphy, John Thomas. OP CIT. Pag. 113

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[168] Conquest, Robert. Stalin: Breaker of Nations. New York, New York: Viking, 1991, p. 121

[169] Service, Robert. OP CIT. Pag. 59.

[170] Idem. Pag. 135.

[171] Idem. Pag. 144.

[172] Idem. Pag. 146.

[173] Idem. Pag. 147

[174] Idem. Pag. 174.

[175] Trotsky, Leon. OP CIT. Pag. 124

[176] Idem. Pag. 125.

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[181] Idem. Pag. 28.

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[183] Deutscher, Isaac. OP CIT. Pag. 228.

[184] Idem. Pag. 230.

[185] Idem. Pag. 231.

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[188] Ulam, Adam. OP CIT. Pag. 161.

[189] Service, Robert. OP CIT. Pag. 83

[190] Randall, Francis. Stalin’s Russia. New York: Free Press, 1965, p. 31

[191] McNeal, Robert. OP CIT. Pag. 50