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Por que os jovens rejeitam o sistema, e por que a direita os captura

Por célula Vera Pinto Telles da LCB/Campinas

Os dados da pesquisa Atlas são claros: entre jovens de 16 a 24 anos, a desaprovação do governo Lula chega a 72,7%. Na intenção de voto para presidente, Flávio Bolsonaro lidera com 37%, seguido por Lula (28,6%) e Renan Santos (24,7%). Esses números não são apenas resultado de campanhas ou discursos, mas do cotidiano de uma juventude que vive a precarização, a humilhação no trabalho e a ausência de perspectiva.

O emprego formal, antes visto como passaporte para a cidadania, hoje é sinônimo de salários baixos, jornadas exaustivas (como a escala 6×1) e relações abusivas, em que chefias se sentem “donos” dos trabalhadores. O jovem, que deveria sonhar com casa própria, carro, família, vê tudo isso cada vez mais distante. E, para piorar, a aposentadoria virou piada amarga: “meus filhos falam que não vão se aposentar”, dizem muitos trabalhadores.

Esse cenário de desamparo é agravado pela despolitização. O PT, que já foi símbolo de esperança, hoje é visto como parte do “sistema”. E, para muitos jovens, é a única referência de poder executivo que conhecem. A política de conciliação do partido, que nunca faz um discurso de ruptura real com o sistema, abre espaço para que a direita, com sua narrativa de “mudança”, captura o sentimento de revolta dos jovens. E o faz distorcendo o que é o sistema, associando-o a pautas progressistas e usando discursos de ódio (misoginia, lgbt-fobia, capacitismo, anticomunismo), como iscas para canalizar a insatisfação.

Enquanto isso, a esquerda institucional (PSOL, PCdoB, REDE, etc.) apoia “criticamente” o PT, mas, para quem não é politizado, ser critico não importa: todos viram “parte do sistema” no imaginário popular. Já as alternativas que pregam ruptura (PSTU, PCB, UP) crescem, mas seu avanço é limitado pelas condições materiais e pela própria despolitização promovida pelo sistema capitalista.

O jovem, então, se vê diante de duas saídas: ou se entrega ao discurso fácil da direita, que promete ruptura, mas entrega mais opressão; ou busca nas alternativas de esquerda radical uma resposta, ainda que sem força suficiente para mudar o quadro.

O que fica evidente é que a juventude quer viver em um sistema que ofereça dignidade, qualidade de vida e futuro. E, quando o PT e a esquerda institucional são vistos como incapazes de romper com as contradições do capitalismo, a direita se aproveita desse vácuo para cooptar o espírito revolucionário dos jovens, e transformá-lo em ódio, medo e retrocesso.

Se a esquerda quiser recuperar esse espaço, precisa ir além do discurso. Precisa ouvir, agir e, acima de tudo, mostrar que é possível construir um outro sistema, um sistema que, de fato, coloque o trabalhador no centro, e não o capital: o socialismo.

Porque, enquanto o jovem for tratado como descartável e a política for vista como traição, a revolta continuará. E a direita continuará pronta para guiá-la para o abismo.

Liga Comunista Brasileira – LCB

6 de abril de 2026