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A China e o Socialismo Transitório: uma análise na tradição de Prestes e Florestan Fernandes

Por Celso Fernandes Prestes

1. O que é socialismo científico

Socialismo científico não é um modo de produção formal e acabado. É, por definição, socialismo transitório: a ditadura do proletariado que transita para a autogestão dos trabalhadores, para a associação livre em comunas e para o planejamento democrático que supera a lei do valor. É o período de transição efetiva para o comunismo, como definido por Marx na Crítica do Programa de Gotha e por Lenin em O Estado e a Revolução. Onde não há autogestão operária, comuna e planejamento democrático dirigindo a produção, não há socialismo científico realizado.

2. A China vive uma NEP de longo prazo

Aplicada essa categoria, constata-se: não há socialismo científico na China. O que existe é uma NEP de longo prazo, centenária e bicentenária, adotada no final dos anos 1970 como resposta à situação concreta: desorganização legada pela Revolução Cultural, cerco imperialista e crise do Leste Europeu que culminaria no colapso da URSS. A meta é acumulação de forças produtivas sob direção do Estado. Não há conselhos operários dirigindo a produção, não há planejamento democrático substituindo o mercado, não há definhamento do Estado. Há mercado, hierarquia empresarial e Estado fortalecido.

3. Por que ainda é correto falar em China socialista

A caracterização como socialista se sustenta no critério político: o poder de Estado está nas mãos de um partido marxista-leninista, o PCCh, que reivindica o comunismo como horizonte e mantém o monopólio político. Não houve entrega do poder à burguesia, como ocorreu na URSS após 1991. A economia mercantil é dirigida, não dirigente. Por isso, a definição mais precisa é: Estado socialista administrando uma NEP de longo prazo. Não é socialismo científico realizado, mas também não é capitalismo sem direção.

4. A coerência com Luiz Carlos Prestes e Florestan Fernandes

Esta leitura se filia à tradição do último Luiz Carlos Prestes e de Florestan Fernandes. Ambos defenderam, em 1989, o direito do governo chinês de se defender na chamada Batalha da Praça da Paz Celestial. Prestes afirmou que “todo governo tem o direito de se defender” e, mesmo ao admitir não ter acúmulo sobre a China, jamais a caracterizou como contrarrevolucionária. Classificou como “erro do Partido”, categoria interna de quem se mantém no mesmo campo. Florestan foi além: como deputado pelo PT, contrapôs-se publicamente à direção do partido e defendeu o PCCh no Congresso Nacional, recusando o ato que PT e PCdoB fizeram no consulado chinês.

O formato do discurso de Prestes nos anos 1980 já antecipa o método:

a) O poder está na mão de quem?

b) Se está na mão dos trabalhadores, abertura tática é admissível.

c) O objetivo é acumulação de forças para a etapa seguinte.

Prestes usou esse formato para defender a Perestroika em debate com Roberto Campos, alegando que “pode entrar capital internacional, mas o poder segue com os trabalhadores”. Não viveu para ver que a Perestroika foi autodestruição dirigida por revisionistas, porque o PCUS perdeu o poder. O critério, porém, permanece válido: enquanto o Partido Comunista mantém o Estado, a abertura é tática. Na China, o PCCh não entregou o poder. Logo, o formato autoriza a caracterização como via socialista de transição, não como capitulação.

Florestan Fernandes, por sua vez, entendia o socialismo como processo e não como decreto. Defendia a soberania dos Estados dirigidos por comunistas contra o cerco liberal. Sua firmeza em 1989 expressa a mesma linha: analisar a partir da correlação de forças, não da régua moral do Ocidente.

5. Tempo histórico e civilização

A NEP centenária só é compreensível se abandonamos o relógio ocidental. A civilização chinesa opera com tempo de dinastias. Cem anos é o prazo para estabilizar um ciclo. O confucionismo já trabalha com as etapas “xiaokang” – sociedade moderadamente próspera – e “datong” – grande unidade. O PCCh traduz essa gramática para o marxismo: primeiro acumular, depois transitar. Cobrar autogestão operária imediata em 1978 seria idealismo. A escolha foi sobreviver para disputar.

Conclusão

Não há socialismo científico na China se entendemos socialismo científico como transição efetiva para autogestão, comuna e planejamento democrático. Há uma NEP de longo prazo sob direção de Estado socialista. Defender esse processo é manter coerência com Prestes e Florestan: analisar pelo poder de Estado, não pelo formalismo econômico; reconhecer a necessidade histórica, não julgar por anacronismo. Se o PCCh mantiver o poder e avançar para formas superiores de socialização, a história registrará como NEP bicentenária vitoriosa. Se entregar o poder, será revisionismo. O veredito é da luta de classes, não da profecia.

Liga Comunista Brasileira – LCB

18 de abril de 2026