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Sobre a Morte dos velhos Bolcheviques

Por Carlos Magnum

 

O destino dos chamados “Velhos Bolcheviques” (os veteranos que ingressaram no partido antes da Revolução de 1917) durante o Grande expurgo de 1937-1938 tem sido objeto de intenso debate na historiografia soviética. A visão tradicional frequentemente argumentou que a Ezhovshchina (o expurgo liderado por Nikolai Yezhov) foi um plano meticulosamente desenhado por Stálin para exterminar intencionalmente a velha guarda revolucionária, por considerá-la uma ameaça pessoal. De mãos dadas com esta tese estão além do imperialismo e a extrema direita representada pela escola do totalitarismo: os trotskistas, os anarquistas, os pós-modernos e anticomunistas de “esquerda” em geral, todos engrossam o caldo dessa receita. Contudo, estudos estatísticos e demográficos conduzidos após a abertura dos arquivos de moscou, demonstram que esse grupo biográfico não foi erradicado e que a repressão sofrida esteve ligada aos altos cargos que os reprimidos ocupavam no momento das sentenças. Seja como for, os fatores não estão ligados ao passado, mas a hierarquia:

As pessoas mais velhas costumavam ter maior probabilidade de serem presas, principalmente porque ocupavam cargos de liderança.¹² Uma posição de liderança em qualquer área aumentava o risco de se tornar uma vítima, especialmente no aparato econômico ou do partido. No entanto, um estudo recente sobre os Velhos Bolcheviques da geração de Stalin sugere que eles não eram alvos geracionais ou genéricos específicos. De uma amostra de 127 Velhos Bolcheviques que foram participantes ativos na Revolução de Outubro em Moscou, informações sobre o falecimento estavam disponíveis para 109. Destes, 2 morreram na Revolução de Outubro, 16 na Guerra Civil e 6 de causas naturais antes da Ezhovshchina (o Grande Expurgo). Dos Velhos Bolcheviques vivos em meados dos anos trinta, 38 foram vítimas da Ezhovshchina e 38 sobreviveram para morrer de causas naturais. Assim, apenas 50% desta amostra de Velhos Bolcheviques proeminentes foram vitimados pelas operações policiais.¹³

Em 1934, no Décimo Sétimo Congresso, Ezhov disse em seu relatório para a comissão de credenciais que 10% do partido havia se filiado em 1920 ou antes.¹⁴ Em 1939, Malenkov diria que a cifra na época era de 8,3%.¹⁵ Calculando com base na filiação total do partido nos dois momentos (cerca de 1.826.000 e 1.514.000 membros efetivos, respectivamente), o número total desses Velhos Bolcheviques era de 182.600 em 1934 e cerca de 125.000 em 1939. Isso significa uma perda líquida de 57.000, ou uma redução de cerca de 31%, por todas as causas durante o período da Ezhovshchina. Os Velhos Bolcheviques caíram por causa de suas posições de liderança em 1937, e não por causa de sua idade ou experiência passada. [1]

Em outra publicação, em 1993, após novos estudos Getty continuou a sustentar o praticamente o mesmo posicionamento acerca dos velhos bolcheviques:

Embora a taxa de baixas entre eles tenha sido bastante alta, ela não representa a aniquilação total dos Velhos Bolcheviques como geração, nem a destruição completa da “guarda leninista”. Se incluirmos na análise os Velhos Bolcheviques que não faziam parte da elite de 1936, cerca de 70% parecem ter sobrevivido, segundo um determinado cálculo.²⁶ Os Velhos Bolcheviques não sofreram perdas desproporcionais nos Grandes Expurgos, e há poucos motivos para crer que eles tenham sido escolhidos como alvos específicos da Ezhovshchina.

Esses dados sobre a vulnerabilidade dos Velhos Bolcheviques não devem desviar a atenção de uma das descobertas mais impressionantes: a de que aqueles que se filiaram ao partido após as revoluções de 1917, e especialmente após a Guerra Civil, estavam relativamente “seguros” de serem presos durante a Ezhovshchina. Como veremos, os dados sobre a filiação partidária correlacionam-se com outras variáveis de “coorte” (geração) na população como um todo. [2]

Ao analisar as perdas demográficas totais dessa geração, a historiografia aponta que não houve um extermínio planejado de toda uma categoria. Comparando os números de membros do partido filiados até 1920 presentes no Congresso de 1934 com os números de 1939, constata-se a real proporção das baixas. Robert Thurston reforça que o grupo nunca foi erradicado e continuou no topo do Estado. Em março de 1939, ao fim da depuração, cerca de 5.000 veteranos filiados antes da Revolução de Outubro de 1917, além de 125.000 ativistas que entraram até o fim da Guerra Civil, ainda estavam vivos e trabalhando ativamente. Embora essa geração representasse apenas 8,3% da filiação total do Partido Comunista, eles ainda compunham 20% dos delegados do XVIII Congresso do Partido (1939) e 73% do Comitê Central eleito por aquele congresso.

Os Velhos Bolcheviques — aqueles que haviam se filiado ao partido antes de outubro de 1917 e frequentemente apontados como o principal grupo-alvo do Terror — não foram, na verdade, escolhidos de forma específica. Cerca de 5.000 veteranos do partido pré-revolucionário ainda eram membros em março de 1939, e 125.000 militantes do fim da Guerra Civil continuavam vivos e na ativa. Esse grupo representava apenas 8,3% dos membros do Partido Comunista, mas correspondia a 20% dos delegados do Décimo Oitavo Congresso do Partido e a 73% do Comitê Central eleito por ele. Um quinto dos altos funcionários no aparato partidário regional e local pertencia aos quadros da era de Lênin. Quando foram presos durante o Terror, isso geralmente ocorreu porque seus cargos de alta responsabilidade os colocavam em posição de lidar com o tipo de problema ou associação que inevitavelmente atraía a atenção do NKVD. Nisso, eles não foram mais infelizes do que outros administradores com trajetórias diferentes.

Executivos de diversas esferas da vida soviética foram frequentemente substituídos três, quatro ou até mais vezes em rápida sucessão. Essa evidência enfraquece o argumento de Zbigniew Brzezinski de que as pessoas eram eliminadas para trazer “sangue novo” e evitar a estagnação — uma política supostamente necessária porque o sistema totalitário não dispunha de mecanismos regulares de transição. Nenhum plano coerente, exceto o canibalismo, exige a introdução de sangue novo quatro vezes no espaço de poucos meses. A formulação de Brzezinski é excessivamente racional; ela não explica o caráter espasmódico do Terror.

Os materiais sobre as prisões e o tratamento dos prisioneiros também indicam que havia pouca conexão entre a coletivização ou a modernização e o Terror. Muitos jovens, homens e mulheres que não estiveram envolvidos na coletivização ou que serviram lealmente naquela campanha, foram arruinados sob a gestão de Ezhov. Ocultar o próprio passado antes ou durante a Guerra Civil, contudo, tornou-se uma questão profundamente grave durante o Terror. [3]

Quando a análise transcende a alta cúpula burocrática e engloba todos os antigos revolucionários espalhados pelo país, a taxa de sobrevivência da guarda leninista se mostra muito superior à alegada pela narrativa do “extermínio total”. Como apontam as análises prosopográficas: “Embora sua taxa de atrito tenha sido bastante alta, ela não representa a aniquilação total dos Velhos Bolcheviques como uma geração, nem a destruição completa da ‘guarda leninista’. Se incluirmos em nossa consideração os Velhos Bolcheviques fora da elite de 1936, cerca de 70% parecem ter sobrevivido, de acordo com um cálculo.”[4]

A explicação que se segue após a abertura dos arquivos para a alta incidência de expurgos entre os Velhos Bolcheviques que, de fato, morreram, fundamenta-se na vulnerabilidade inerente aos altos cargos estatais. Na década de 1930, os expurgos varreram a máquina do Estado e atingiram violentamente líderes políticos, administrativos e militares considerados burocratas. Então ao contrário do que se diz, o expurgo foi uma tentativa de controlar e submeter inicialmente a burocracia que impedia tanto a luta pela implantação da legalidade revolucionária, como, também, a constituição de 1936 e possivelmente a implantação do planejamento econômico e dos planos quinquenais. Havia uma tentativa, parcialmente reconhecida pela escola revisionista da sovietologia, de retirar o poder dos líderes locais que temiam as reformas de ampliação democrática bem como, posteriormente, passou a atingir a polícia secreta que também concorria com o partido e com o Estado para usurpar o poder. Como os antigos revolucionários naturalmente ocupavam essas posições de destaque, eles se tornaram alvos da violência por sua função, e não por sua biografia: Os Velhos Bolcheviques no presente grupo sofreram não porque eram Velhos Bolcheviques, mas porque ocupavam posições proeminentes dentro da elite do partido, econômica e militar, posições que ocupavam porque eram Velhos Bolcheviques. […] Quando o terror eclodiu em 1936-7, os Velhos Bolcheviques estavam entre as vítimas por causa de onde trabalhavam, e não porque eram Velhos Bolcheviques.”[5]

Finalmente, a evidência de que os veteranos da revolução mantiveram sua predominância estrutural no poder soviético após as purgas é confirmada pelos dados de composição do XVIII Congresso do Partido. Os sobreviventes continuaram a compor a esmagadora maioria do núcleo decisório do regime.

Embora as análises quantitativas que desmistificam o extermínio sistemático da “Velha Guarda” bolchevique tenham sido originalmente desenvolvidas nas décadas de 1980 e 1990, a historiografia revisionista contemporânea mantém e corrobora integralmente essa tese. Estudos recentes demonstram que a repressão ocorrida durante o Grande Expurgo esteve intrinsecamente ligada à ocupação de altos cargos na burocracia estatal e partidária, e não à biografia revolucionária das vítimas. A explicação textual exata de que os dados estatísticos apontam para a ocupação de cargo, e não para o status de “Velho Bolchevique”, como o verdadeiro risco no Grande Terror, é afirmada de forma direta pelo próprio Getty em sua obra de 2013: “Para uma análise mostrando que, embora o status de Velho Bolchevique e a posição na elite se sobrepusessem com frequência, esta última era um indicador muito melhor do risco de prisão”[6].

Não há dúvida de que a amostragem de membros da elite soviética realizada por Getty e Chase incluía um grande número de Velhos Bolcheviques entre os indivíduos expurgados. Como mencionado anteriormente, dos 898 integrantes da amostra, 47,6% foram expurgados no total geral. Contudo, apenas cerca de 31% de todos os Velhos Bolcheviques pereceram. “Estatisticamente, ser um Velho Bolchevique não apresentava relação com a vulnerabilidade do indivíduo perante o terror” (Getty e Chase, op. cit., p. 237)[7]. De acordo com os autores dessa análise, “os Velhos Bolcheviques do grupo em questão não sofreram por serem Velhos Bolcheviques, mas sim porque ocupavam posições proeminentes na elite partidária, econômica e militar” — cargos que, sem dúvida, alcançaram em parte justamente por sua trajetória como Velhos Bolcheviques[8]. Essa constatação difere substancialmente do que os defensores do paradigma totalitário costumam afirmar. Getty e Chase acrescentam que “os Velhos Bolcheviques figuraram entre as vítimas devido ao local [ênfase minha] onde trabalhavam, e não pelo fato de serem Velhos Bolcheviques”[9]. Portanto, se alguém quisesse poupar-se durante a Ezhovshchina, era de grande ajuda ser “um intelectual apolítico, nascido em meio urbano, de classe média ou alta, com ensino superior concluído antes da revolução e que evitasse o trabalho administrativo na esfera política ou econômica. […] Estatisticamente, tratou-se de um expurgo de políticos — fossem eles da oposição ou não”[10].

Portanto, as evidências arquivísticas sustentam a tese de que o Grande Expurgo foi massivamente letal para a elite de forma geral, para a burocracia, dragando um percentual considerável, mas não majoritário dos Velhos Bolcheviques como consequência de seus cargos de comando, mas sem corroborar o mito de que constituíram um alvo geracional sistematicamente aniquilado pelo stalinismo.

Referências

[1] GETTY, J. Arch. Origins of the Great Purges: the Soviet Communist Party reconsidered, 1933-1938. Cambridge: Cambridge University Press, 1985. p. 175-176.

[2] GETTY, J. Arch. Stalinist Terror: new perspectives. Cambridge: Cambridge University Press, 1993. p. 177.

[3] THURSTON, Robert W. Life and Terror in Stalin’s Russia, 1934-1941. New Haven: Yale University Press, 1996. p. 133-134.

[4] GETTY, John Archibald; CHASE, William, Stalinist Terror: New Perspectives, Cambridge University Press, Cambridge, 1993, p. 237.

[5] Idem. p. 240.

[6] GETTY, J. Arch. Practicing Stalinism: Bolsheviks, Boyars, and the Persistence of Tradition. New Haven: Yale University Press, 2013, p. 346.

[7] GETTY, J. Arch; SIEGELBAUM, Lewis H. (org.). Reflections on Stalinism. Ithaca: Northern Illinois University Press: Cornell University Press, 2024. p. 156-157.

[8] Idem. Ibidem.

[9] Idem. Ibidem.

[10] Idem. Ibidem.