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OS 99 ANOS DO EXPURGO DE WUHAN: O FIM DA PRIMEIRA FRENTE UNIDA 1927

Por Carlos Magnum

Há exatos 99 anos, em 15 de julho de 1927, chegava ao fim a Primeira Frente Unida entre o Kuomintang (KMT) e o Partido Comunista da China (PCCh). A decisão do governo de Wuhan, liderado por Wang Jingwei, de expulsar os comunistas da coalizão marcou o encerramento de uma breve experiência de cooperação revolucionária e abriu um dos capítulos mais dramáticos da história da China contemporânea.

O rompimento foi seguido por uma ampla onda de perseguições. Militantes comunistas, dirigentes sindicais e líderes camponeses foram presos, torturados e executados em diversas regiões do país, enquanto organizações populares construídas ao longo dos anos eram desmanteladas pela repressão. Para Mao Zedong e outros dirigentes comunistas, os acontecimentos de 1927 representaram uma profunda ruptura histórica. A partir daquela experiência, consolidou-se a convicção de que a revolução dependeria de forças armadas próprias, da organização independente do partido e do protagonismo do campesinato.

Passados 99 anos, o Expurgo de Wuhan permanece como um marco decisivo da Revolução Chinesa. Sua memória ajuda a compreender como o colapso da Frente Unida redefiniu a estratégia do movimento comunista chinês e influenciou o curso da guerra civil que culminaria, em 1949, na fundação da República Popular da China.

Este pequeno artigo apresenta uma availiação sobre o processo de colapso da Primeira Frente Unida entre o Kuomintang (KMT) e o Partido Comunista da China (PCCh), culminando no evento histórico conhecido como o Expurgo de Wuhan de julho de 1927. O texto baseia-se em materiais históricos que narram a transição da cooperação revolucionária para um dos períodos de repressão política mais violentos da história chinesa no século XX, resultando na execução em massa de militantes comunistas, líderes operários e ativistas camponeses. Para Mao Zedong e a liderança comunista da época, o rompimento não foi apenas uma tragédia militar, mas a validação de que a revolução não poderia ser delegada à burguesia nacional, exigindo a formação de um exército autônomo e a transferência da luta para o c

1. A GÊNESE DA FRENTE UNIDA E O SURGIMENTO DA DUALIDADE DE PODER EM 1927

A Primeira Frente Unida foi estabelecida em 1923 sob os auspícios do Dr. Sun Yat-sen e da Internacional Comunista (Komintern), baseando-se nos “Três Princípios do Povo” e nas “Três Grandes Políticas”, que incluíam a aliança com a União Soviética e o apoio aos operários e camponeses. Durante a Expedição do Norte iniciada em 1926, a cooperação permitiu sucessos militares rápidos contra os senhores da guerra, mas as tensões ideológicas tornaram-se insustentáveis após a morte de Sun Yat-sen e a ascensão de Chiang Kai-shek à liderança militar.

Enquanto Chiang liderava a ala direita do KMT a partir de Nanquim, um governo de esquerda foi estabelecido em Wuhan, liderado por Wang Jingwei, que inicialmente manteve a aliança com os comunistas. No entanto, o massacre de comunistas em Xangai por Chiang em 12 de abril de 1927 (“Terror Branco”) iniciou uma reação em cadeia que forçou o governo de Wuhan a decidir entre a revolução social profunda ou a conciliação com as forças conservadoras e imperialistas.

Sobre a complexidade da liderança russa e os erros estratégicos que precederam o rompimento final, Mao Zedong ofereceu o seguinte testemunho detalhado a Edgar Snow:

“Perguntei a Mao quem ele considerava mais responsável pelo fracasso do Partido Comunista em 1927, a derrota do governo de coalizão e todo o triunfo da ditadura de Nanquim. Mao atribuiu a maior parte da culpa a Chen Duxiu, cujo ‘oportunismo vacilante privou o partido de ter a liderança e o comando necessários – em um momento em que moderação excessiva significava catástrofe’. Além de Chen, o homem responsabilizado pela derrota foi Borodin, conselheiro político chefe russo, que era representante do politburo da União Soviética. Mao explicou que Borodin reverteu, totalmente, seu posicionamento, que até 1926 se centrava na distribuição radical de terras – assim, ele passou a se opor, com força, a isso em 1927, sem qualquer justificativa lógica para sustentar suas vacilações. ‘Borodin estava um pouco à direita de Chen Duxiu’, disse Mao, ‘e estava pronto a fazer de tudo para agradar a burguesia, até mesmo a desarmar os trabalhadores – como ele, por fim, requisitou’. M. N. Roy, o delegado indiano do Komintern, ‘estava ligeiramente à esquerda, tanto de Chen quanto de Borodin, mas era apenas isso.’ Ele ‘podia se pronunciar’, segundo Mao, ‘e falava demais, sem apresentar qualquer método efetivo’. Mao pensava que, objetivamente, Roy havia sido um tolo; Borodin, um intransigente; e Chen, um traidor inconsciente. ‘Chen tinha real temor dos trabalhadores, e especialmente dos camponeses armados. Confrontado por fim com a realidade de uma insurreição armada, perdeu completamente a razão. Não podia mais enxergar com clareza o que estava acontecendo, e seus instintos pequeno-burgueses o traíram até seu pânico e derrota’.”[1]

A edição chinesa de 1979 de Red Star Over China incluiu correções baseadas em pesquisas cuidadas por Wu Liangping, o intérprete de Mao, consolidando o texto como uma representação fiel do pensamento do líder. Além disso, a biografia escrita por Zhong Wenxian, publicada pela Foreign Languages Press em Pequim, reafirma que em 1927 a ala direita do KMT controlada por Chiang e a ala de Wang Jingwei “traíram a aliança anti-imperialista e anti-feudal”. Sobre a atuação específica de Roy e a revelação do telegrama a Wang Jingwei, o texto biográfico de Mao Zedong oferece a seguinte corroboração acerca da obra de Snow:

“Mao pensava que, objetivamente, Roy havia sido um tolo; Borodin, um intransigente; e Chen, um traidor inconsciente. […] Chen era naquele tempo completo ditador do Partido chinês, e tomava decisões vitais sem sequer consultar o Comitê Central. ‘Ele não apresentava a outros líderes partidários as ordens do Komintern’, de acordo com Mao, ‘ou sequer debatia conosco sobre eles’. Mas, por fim, foi Roy quem forçou a ruptura do Kuomintang. O Komintern enviou um recado a Borodin, ordenando que o Partido começasse um confisco delimitado de terras dos senhores de terra. Roy conseguiu uma cópia dessa ordem e prontamente a apresentou a Wang Jingwei, o presidente do governo de esquerda do Kuomintang em Wuhan. O resultado desse capricho é bastante conhecido. Os comunistas foram expulsos do Kuomintang pelo regime de Wuhan, que logo depois sucumbiu, perdendo o suporte de senhores da guerra regionais, que agora buscavam acordos e concessões de segurança com Chiang Kai-shek.”[2]

Esta passagem demonstra que a “anedota” citada encontra respaldo direto no depoimento de Mao a Edgar Snow em 1936, um documento que foi traduzido, lido e aprovado pelo próprio Mao Zedong na época. A revelação do telegrama por Roy é tratada como um “capricho” que precipitou a expulsão dos comunistas e o colapso da coalizão de Wuhan. Para a historiografia maoísta, esse evento serviu de lição sobre o perigo de seguir cegamente diretrizes estrangeiras sem considerar a autonomia militar e política do movimento local.

2. O INCIDENTE DE 15 DE JULHO E A TRAIÇÃO DE WANG JINGWEI

O ponto de ruptura definitivo em Wuhan foi catalisado pela traição do delegado do Komintern, M.N. Roy, que revelou a Wang Jingwei uma diretiva secreta de Moscou que ordenava a apreensão de terras e a formação de um tribunal revolucionário para punir oficiais do KMT. Wang Jingwei, embora liderasse o governo de esquerda, sentiu-se ameaçado pela perda de controle sobre as forças armadas e pelo radicalismo camponês que Mao Zedong incentivava em Hunan.

Em 15 de julho de 1927, Wang Jingwei ordenou formalmente a expulsão de todos os comunistas do Kuomintang e das forças armadas sob seu comando, marcando o fim da colaboração bipartidária em Wuhan. O impacto desta decisão foi imediato e catastrófico para a infraestrutura do PCCh, que ainda operava sob a bandeira de uma “revolução democrática burguesa” protegida pelo KMT de esquerda.

A narrativa autobiográfica de Mao Zedong detalha o colapso organizacional que se seguiu à ordem de Wang Jingwei:

“Na primavera de 1927, o movimento camponês em Hubei, Jiangxi e Fujian, e especialmente em Hunan, havia desenvolvido uma militância surpreendente, apesar da atitude morna do Partido Comunista em relação a ele, e o alarme definitivo ao Kuomintang. Altos oficiais e comandantes do exército começaram a exigir por sua supressão, descrevendo a Associação dos Camponeses como uma ‘associação de vagabundos’, de atos e demandas excessivas. Chen Duxiu havia me retirado de Hunan, responsabilizando-me pelos ocorridos de lá e violentamente opondo-se às minhas ideias. Em abril, um movimento contrarrevolucionário iniciou-se em Nanquim e Xangai, e um massacre generalizado de trabalhadores organizados se deu sob o comando de Chiang Kai-shek. As mesmas medidas foram tomadas em Guangzhou. Em 21 de maio daquele ano de 1927, o Levante de Xu Kexiang ocorreu em Hunan. Punhados de camponeses e trabalhadores foram mortos pelos reacionários. Pouco depois, a esquerda do Kuomintang em Wuhan anulou o acordo com os comunistas e os expulsou do Kuomintang e do governo, o qual deixou de existir em seguida. Muitos líderes comunistas foram ordenados agora pelo Partido a deixarem o país, fugirem para a Rússia, Xangai ou lugares seguros. Recebi ordens para ir a Sichuan. Induzi Chen Duxiu a me enviar a Hunan ao invés disso, como secretário do comitê provincial, mas, após dez dias, ele ordenou que eu retornasse de uma vez, me acusando de organizar uma revolta contra Tang Shengzhi, que então ocupava o comando militar em Wuhan. As relações do Partido encontravam-se em um estado caótico. Quase todos se opuseram à liderança de Chen Duxiu e a seus posicionamentos oportunistas. O colapso da entente em Wuhan, logo em seguida, promoveu a derrocada dele.”[3]

3. O TERROR EM WUHAN E HUNAN: A VAGA DE EXECUÇÕES EM MASSA

A ordem de expulsão não foi um ato puramente administrativo, mas o gatilho para uma purga sangrenta coordenada entre os militares leais a Wang Jingwei e os senhores de terra que buscavam vingança contra as associações camponesas. O período ficou marcado pela cooperação entre as autoridades do KMT e organizações criminosas, como a Gangue Verde, para caçar comunistas e líderes sindicais nas áreas urbanas e rurais.

O massacre de Hunan, incentivado pela liderança militar de Wuhan, foi particularmente brutal, com estimativas de mortes chegando a 250 mil pessoas. As execuções utilizavam métodos medievais de tortura para desestimular qualquer apoio futuro ao comunismo. Conforme relatado nos registros históricos, a barbárie não poupou civis nem intelectuais liberais que haviam apoiado a frente unida.

Mao Zedong descreveu a realidade do terrorismo “branco” desencadeado pela traição de Wuhan e Nanquim:

“A chamada lei econômica capitalista é a exploração da mais-valia; para falar francamente, é a busca exclusiva pelo lucro, e essa regra já foi limitada… O Kuomintang rapidamente conciliou-se com o golpismo de Nanquim – e o comunismo se tornou ato criminoso passível a pena de morte. O que os vermelhos compreendiam ser dois elementos primordiais do nacionalismo – o movimento anti-imperialista e a revolução democrática – foram abandonados, na prática. Como resultado, iniciou-se uma guerra civil e, mais tarde, um intenso conflito contra a emergente revolução agrária. Milhares de comunistas e muitas lideranças de associações camponesas foram assassinados. As organizações foram suprimidas. Uma ‘tirania iluminada’ fazia guerra contra todas as formas de oposição. A brutalidade do antigo sistema ecoou de novo e de novo nas convulsões de seu desaparecimento. Os castigos brutais infligidos aos camponeses revolucionários pela gentry despótica incluíram coisas como furar olhos e arrancar línguas, desentranhamento e decapitação, golpes de faca e moagem com areia, queima com querosene e marcação com ferro em brasa. No caso das mulheres, passavam cordas através de seus seios e as desfilavam nuas em público, ou simplesmente as esquartejavam.”[

4. A RESPOSTA COMUNISTA: DO FRACASSO URBANO À ESTRATÉGIA RURAL

Diante da aniquilação iminente, o Partido Comunista convocou a Conferência de Emergência de 7 de agosto de 1927, onde Chen Duxiu foi formalmente deposto e a nova linha estratégica de luta armada independente foi adotada. Foi neste contexto que Mao Zedong formulou sua tese definitiva de que “o poder político cresce do cano de uma arma” e liderou a Revolta da Colheita de Outono em Hunan.

Embora os levantes iniciais tenham sido derrotados militarmente, eles permitiram a retirada dos remanescentes das forças revolucionárias para bases seguras em montanhas inacessíveis, como Jinggangshan, fundando o primeiro Exército Vermelho dos Trabalhadores e Camponeses. A traição de Wuhan provou aos comunistas que a aliança com a burguesia nacional era uma impossibilidade tática duradoura e que o campesinato, e não o proletariado urbano esmagado, seria a força motriz da revolução chinesa. Mao Zedong relembrou a formação desta nova força a partir dos escombros da Frente Unida:

“Em 1º de agosto de 1927, o Vigésimo Exército, sob comando de He Long e Ye Ting – e em colaboração com Zhu De – liderou o histórico Levante de Nanchang – e o princípio do que veio a ser o Exército Vermelho foi organizado. Uma semana depois, em 7 de agosto, uma reunião especial, chamada Conferência Emergencial do Comitê Central do Partido, depôs Chen Duxiu do cargo de secretário-geral. Uma nova orientação foi adotada pelo Partido, e toda a esperança de cooperação com o Kuomintang foi abandonada para o momento, já que o antigo partido aliado havia se tornado instrumento do imperialismo, incapaz de exercer as responsabilidades de uma revolução democrática. Fui enviado a Changsha para organizar o movimento, que posteriormente se tornou conhecido como Revolta da Colheita de Outono. Meu projeto lá exigia pela concretização de cinco pontos: (1) plena ruptura do Partido provincial com o Kuomintang; (2) organização de um exército revolucionário de camponeses-trabalhadores; (3) confisco de propriedades de pequenos, médios, bem como, senhores de terra; (4) instituição do poder político do Partido Comunista em Hunan, independente do Kuomintang e (5) organização de sovietes. Embora capturado por milícias rurais (mintuan) a serviço do Kuomintang, consegui escapar e reunir o pequeno bando que finalmente escalou a montanha Jinggang, totalizando cerca de mil homens leais até o final.”[5]

5. A ASCENSÃO DO GOVERNO DE WUHAN E A FRAGILIDADE DA FRENTE ÚNICA

A Revolução de 1924-1927 foi caracterizada por uma aliança estratégica entre o CPC e o Kuomintang (KMT) para combater o imperialismo e o feudalismo. Durante o inverno de 1926, após a vitoriosa Expedição do Norte ter ocupado as províncias de Hunan e Hupeh, o Governo Nacional foi transferido de Kwangtung para Wuhan. Este governo, formado conjuntamente por comunistas e pela ala esquerda do KMT, posicionou-se inicialmente contra o centro de poder reacionário estabelecido por Chiang Kai-shek em Nanking. Wang Jingwei, que retornara da Europa, assumiu a presidência em Wuhan, apresentando-se como o herdeiro legítimo das políticas progressistas de Sun Yat-sen. No entanto, a estabilidade de Wuhan era precária devido à crescente radicalização camponesa que ameaçava os interesses da classe dos oficiais militares, muitos dos quais eram proprietários de terras. Enquanto as ligas camponesas em Hunan e Hupeh confiscavam terras e puniam déspotas locais, o governo de Wuhan via-se pressionado entre a fúria das massas e a ameaça de deserção de seus comandantes militares. Agnes Smedley, capturando a essência desse conflito através das memórias de Chu Teh, descreve a situação da seguinte forma:

“Ao longo de maio, junho e julho de 1927, a reação desencadeou rios de sangue por toda a face do país. Milhares de camponeses em protesto na província de Hunan, e centenas de operários em Cantão, no sul, foram massacrados como porcos. O Exército de Yunnan em Kiangsi, cuja Escola Militar Chu Teh ainda chefiava, assassinou líderes operários e camponeses e expulsou e matou comunistas que haviam lutado em suas fileiras. Enquanto a contra-revolução avançava como uma inundação turva pela nação, o governo de Hankow, sob a liderança de Wang Ching-wei, começou a fazer um jogo de sombras com os exércitos ameaçadores de Chiang Kai-shek. O ‘General Cristão’, Feng Yu-hsiang, detendo o equilíbrio de poder entre as duas forças, emergiu de conferências secretas com Chiang para aconselhar Hankow a suprimir os comunistas e enviar os conselheiros russos para casa. Os líderes da ala esquerda do Kuomintang que desejassem fazê-lo, disse ele, deveriam ir para o exterior ‘para um descanso’. Wang Ching-wei era ansioso para aceitar tal conselho, mas considerava a si mesmo, e não ao arrivista Chiang Kai-shek, como o sucessor de Sun Yat-sen. Wang e seus seguidores começaram a manobrar contra Chiang por poder e posição. Os ‘Ironsides’, que ele considerava seu instrumento militar pessoal, foram ordenados a descer o rio em direção ao norte de Kiangsi. Parte do exército do ex-militarista de Hunan, Tang Sheng-chi, também foi movida rio abaixo, enquanto o restante permaneceu nas cidades de Wuhan, onde ocuparam as sedes das organizações operárias, camponesas e estudantis.” [6

6. O ORDENAMENTO DO EXPURGO E A TRAIÇÃO DE WANG JINGWEI

A transição formal de Wang Jingwei da ala esquerda para a contra-revolução aberta ocorreu em julho de 1927. Influenciado pelo sucesso de Chiang Kai-shek em atrair o apoio das potências imperialistas e temendo que a mobilização das massas ultrapassasse o controle do KMT, Wang ordenou a expulsão dos comunistas de todos os postos governamentais e militares. A decisão foi acompanhada por uma ordem de desarmamento imediato dos sindicatos e milícias operárias, deixando a vanguarda revolucionária vulnerável aos ataques dos senhores da guerra aliados ao KMT. O impacto desta traição foi devastador para as organizações de massa. Em Wuhan, a dissolução dos piquetes de trabalhadores foi uma medida de capitulação que facilitou a execução do expurgo. Zhu De observa que esta política foi facilitada pela postura vacilante da liderança central do CPC na época, que sob a influência de Chen Duxiu, evitou o confronto armado direto para tentar preservar a frente única a qualquer custo. O resultado foi o colapso completo da cooperação Kuomintang-Comunista e a dissolução do Governo de Wuhan em julho de 1927, quando Wang Jingwei se uniu formalmente ao governo reacionário de Nanking.

7. O “TERROR BRANCO” EM HUPEH: AS ATROCIDADES DE YANG SEN

O expurgo ordenado por Wang Jingwei resultou em uma vaga de violência sem precedentes. As tropas comandadas por generais reacionários iniciaram o que ficou conhecido como “Terror Branco”, vasculhando vilas e cidades em busca de qualquer pessoa associada às ligas camponesas ou sindicatos. A crueldade dessas operações buscava não apenas eliminar os líderes comunistas, mas extirpar a própria vontade de resistência das massas. Agnes Smedley relata os horrores perpetrados pelas forças de Yang Sen, um senhor da guerra que se aliou a Chiang Kai-shek e Wang Jingwei durante o colapso de Wuhan: “Yang Sen também se aliou a Chiang e, observando a desintegração do governo de Wuhan, lançou-se sobre as aldeias e cidades da província de Hupeh. Rondando de vila em vila como um leopardo magro e sarnento, ele começou a matar cada camponês que pertencia a uma Liga Camponesa, cada operário que se filiara a um sindicato e cada moça que tivesse cortado o cabelo curto. Cabeças de camponeses foram montadas em postes diante de aldeias recalcitrantes, homens e mulheres foram enterrados vivos em valas comuns, casas foram completamente saqueadas, e a noite tornou-se pavorosa com os passos de fuga dos pobres que haviam ousado sonhar com a liberdade. A carnificina não custou nada a Yang porque o povo não estava armado e, a essa altura, os ‘Ironsides’ estavam longe, lutando na província de Kiangsi pela revolução.”[7]

Este relato demonstra que o expurgo não foi meramente político, mas uma campanha de extermínio social contra as classes exploradas. A passividade do governo de Wuhan permitiu que figuras como Yang Sen operassem com total impunidade, destruindo as conquistas sociais da revolução em Hupeh.

8. A CRÍTICA AO OPORTUNISMO DE DIREITA E A CAPITULAÇÃO POLÍTICA

A facilidade com que Wang Jingwei executou o expurgo é atribuída, pela análise marxista posterior, aos graves erros cometidos pela liderança do CPC sob Chen Duxiu. Chen Po-ta argumenta que, enquanto as massas camponesas estavam prontas para lutar, os “oportunistas de direita” tomaram decisões derrotistas que minaram o espírito revolucionário e encorajaram a arrogância da contrarrevolução. Um exemplo crítico foi a ordem de interromper a marcha de 100.000 camponeses armados que avançavam sobre Changsha para contra-atacar o golpe de Xu Kexiang em maio de 1927. “A revolução estava em causa, foi uma decisão das mais ignominiosas e covardes. Este foi um evento crucial na história do período do Governo de Wuhan, um evento histórico crítico que ajudou a causar a derrota da revolução. Subsequentemente, uma série de ordens desprezíveis foram emitidas, proibindo as ações revolucionárias das massas camponesas. Ao mesmo tempo, os piquetes de trabalhadores em Hankow e o Corpo da Juventude Trabalhadora foram dissolvidos. Todas essas ações eram contrárias à posição tomada pelos muitos bolcheviques no Partido representados por Mao Tse-tung; todos esses foram os resultados inevitáveis e vergonhosos do medo com que os mencheviques de Chen Tu-hsiu encaravam as ações revolucionárias das massas.”[8]

Liu Shaoqi corrobora essa análise, identificando que os oportunistas de direita abdicaram da liderança do proletariado sobre o campesinato e as forças armadas, causando a derrota da revolução. Essa política de “unidade sem luta” resultou na entrega voluntária de armas aos inimigos e na desarticulação das organizações de autodefesa operária, selando o destino do governo de Wuhan.

9, A RESPOSTA REVOLUCIONÁRIA: O LEVANTE DE NANCHANG E O EXÉRCITO VERMELHO

O expurgo de Wuhan e a subsequente vaga de execuções forçaram o CPC a uma reavaliação radical de sua estratégia. A derrota demonstrou que a revolução chinesa não poderia triunfar sem uma força armada independente e leal ao proletariado e ao campesinato. Em resposta direta à traição de Wang Jingwei e Chiang Kai-shek, o Partido organizou o Levante de Nanchang em 1º de agosto de 1927.

Zhu De resume o significado histórico deste momento de ruptura: “Há trinta anos, Chiang Kai-shek e Wang Jingwei traíram a revolução, e a burguesia nacional e a camada superior da pequena burguesia a desertaram. Em 1º de agosto de 1927, em um momento crítico em que a revolução sofreu a derrota, o Partido Comunista da China liderou as 30.000 tropas do Exército Expedicionário do Norte sob seu comando no Levante de Nanchang. Este levante representou o primeiro golpe da oposição armada do povo chinês contra os reacionários do Kuomintang. Ele inaugurou um novo período marcado pela liderança independente do Partido Comunista da China sobre a luta revolucionária armada.” [9]

O fracasso em Wuhan marcou o fim da fase urbana e parlamentar da revolução e o início de uma guerra civil de dez anos. A partir de então, o centro da luta deslocou-se para as montanhas e áreas rurais, culminando na criação das bases soviéticas e na tática de guerrilha camponesa liderada por Mao Tse-tung e Zhu De.

10. CONCLUSÃO: LIÇÕES HISTÓRICAS DO EXPURGO DE WUHAN

A vaga de execuções em massa em Wuhan não atingiu apenas os quadros do Partido, mas buscou desmantelar toda a infraestrutura social construída durante os anos da frente única. Sindicatos foram declarados ilegais e qualquer demanda por direitos humanos era rotulada como “banditismo comunista”. Wang Jingwei, que mais tarde se tornaria um colaborador notório do imperialismo japonês, consolidou sua posição como um traidor histórico ao preferir o alinhamento com as forças feudais e imperialistas a permitir o empoderamento das massas chinesas.

A experiência sangrenta de 1927 ensinou aos revolucionários chineses que “o poder político nasce do cano de um fuzil” e que a burguesia nacional era uma aliada vacilante que abandonaria o povo no momento em que seus privilégios de classe fossem ameaçados. O expurgo de Wuhan permanece como um lembrete da brutalidade do “Terror Branco” e da necessidade de uma liderança revolucionária resoluta que não capitule perante as forças da reação. A lição extraída por líderes como Zhu De e Peng Dehuai foi a de que a revolução chinesa jamais poderia ser vitoriosa sem um exército próprio, leal ao povo e independente das vacilações burguesas.

REFERÊNCIAS

[1] SNOW, Edgar. A estrela vermelha brilha sobre a China. Parte 4: Gênese de um Comunista. São Paulo: Autonomia Literária, 2023. p. 221-223.

[2] ZHONG, Wenxian. Mao Zedong Biography, Assessment, Reminiscences. Genesis of a Communist. Pequim: Foreign Languages Press, 1986. p. 51-52. [Cruzamento com: SNOW, Edgar. A estrela vermelha brilha sobre a China. Gênese de um Comunista. São Paulo: Autonomia Literária, 2023. p. 222-223.].

[3] MAO, Zedong. Citado em: SNOW, Edgar. A estrela vermelha brilha sobre a China. Parte 4: Gênese de um Comunista. São Paulo: Autonomia Literária, 2023. p. 214-216..

[4] MAO, Zedong. Mao Zedong Quanjue. Volume 33. Pequim: Renmin Chubanshe, 1990. p. 233. Cruzamento com: LYNCH, Michael. Mao. Londres: Routledge, 2004. p. 62-63.

[5] MAO, Zedong. Citado em: SNOW, Edgar. A estrela vermelha brilha sobre a China. Parte 4: Gênese de um Comunista. São Paulo: Autonomia Literária, 2023. p. 225-230.

[6] SMEDLEY, Agnes. The Great Road: The Life and Times of Chu Teh. volume único. Nova York: Monthly Review Press, 1956. p. 193.

[7] SMEDLEY, Agnes. The Great Road: The Life and Times of Chu Teh. volume único. Nova York: Monthly Review Press, 1956. p. 183.

[8] CHEN, Po-ta. Notes on Mao Tse-tung’s “Report on an Investigation of the Peasant Movement in Hunan”. volume único. Pequim: Foreign Languages Press, 1966. p. 12..

[9] ZHU, De. Selected Works of Zhu De. On the Military Front. volume único. Pequim: Foreign Languages Press, 1986. p. 360.