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109 ANOS DAS JORNADAS DE JULHO DE 1917

Por Carlos Magnum 

A IMPORTÂNCIA DAS JORNADAS DE JULHO DE 1917 NA CONSTRUÇÃO DA REVOLUÇÃO DE OUTUBRO

109 anos, as Jornadas de Julho de 1917 marcaram um dos momentos mais decisivos da Revolução Russa. A explosão da insatisfação de operários e soldados contra a continuidade da guerra e a incapacidade do Governo Provisório de atender às reivindicações populares levou centenas de milhares de manifestantes às ruas de Petrogrado exigindo: “Todo o poder aos Sovietes!”. A violenta repressão que se seguiu encerrou definitivamente a possibilidade de uma transição pacífica do poder.

Após os acontecimentos de julho, os bolcheviques foram colocados na ilegalidade, seus jornais fechados e seus principais dirigentes perseguidos. Lênin foi obrigado a entrar na clandestinidade, enquanto diversos revolucionários foram presos. Nesse período crítico, o partido reorganizou suas forças sob intensa perseguição política, preparando-se para uma nova etapa da luta revolucionária. A derrota momentânea transformou-se em uma valiosa experiência estratégica para os meses que antecederam a Revolução de Outubro.

As Jornadas de Julho também evidenciaram a capacidade organizativa da direção bolchevique. Enquanto Lênin definia a nova orientação política da revolução, dirigentes como Ióssif Stálin e Iákov Svérdlov desempenharam papéis fundamentais na preservação da estrutura partidária, na proteção da liderança revolucionária e na reorganização do partido durante a clandestinidade. O VI Congresso do Partido, realizado secretamente poucas semanas depois, consolidou a nova estratégia que conduziria à insurreição de outubro.

Relembrar o aniversário das Jornadas de Julho é recordar um momento em que a derrota aparente abriu caminho para a vitória futura. Os acontecimentos de julho de 1917 demonstraram que as revoluções são processos complexos, marcados por avanços, recuos e reorganizações. Foi justamente dessa experiência, forjada sob a repressão, que nasceu a maturidade política e organizativa que permitiria aos bolcheviques conquistar o poder poucos meses depois.

1. A CRISE DE JULHO: AGITAÇÃO ARMADA E O FIM DA DUALIDADE DE PODERES

No verão de 1917, a insatisfação popular com a continuidade da guerra e a incapacidade do Governo Provisório em resolver a questão agrária atingiu o ponto de ebulição. As massas de operários e soldados em Petrogrado, influenciadas pela propaganda bolchevique, passaram a exigir a transferência imediata de todo o poder para os sovietes. Em 3 (16) de julho, uma manifestação espontânea de centenas de milhares de pessoas tomou as ruas da capital, desafiando a autoridade da burguesia e da coalizão entre mencheviques e socialistas-revolucionários.

A historiografia soviética e revisionista descreve o caráter desses eventos como um teste de força que resultou em violenta repressão estatal:

“As Jornadas de Julho foram um momento de viragem decisiva na revolução russa. Terminara a dualidade de poderes, situação original criada pela revolução, em que, ao lado do governo provisório, governo da burguesia, se formara um outro governo «indubitavelmente existente de facto e em desenvolvimento: os sovietes de deputados e operários e soldados.» Os mencheviques e socialistas-revolucionários, impedindo que todo o poder fosse entregue aos sovietes e entrando num «governo de coligação», entregaram de facto todo o poder à burguesia. A contra-revolução passou à ofensiva. Novas tarefas se colocaram ao proletariado e ao seu partido, o partido dos bolcheviques. Como descreveu Lenine, se até Julho «era ainda possível o desenvolvimento pacífico em diante da revolução russa», a partir de então a questão punha-se em novos termos «ou a vitória completa da contra-revolução, ou a vitória da revolução operária».”[1]

A repressão que se seguiu, com o fuzilamento de manifestantes pacíficos por ordem do Governo Provisório, marcou o fim da possibilidade de uma transferência pacífica do poder. Os bolcheviques foram declarados ilegais, seus jornais fechados e seus líderes acusados de serem agentes a serviço do Estado-Maior alemão.

2. O PAPEL DE STÁLIN: PROTEÇÃO DE LÊNIN E LIDERANÇA NA CLANDESTINIDADE

Com Lênin e Zinóviev forçados à clandestinidade e Trótski e Kámenev encarcerados, a direção prática do partido recaiu sobre Stálin e Svérdlov. Stálin desempenhou um papel crucial ao esconder Lênin na casa da família Alliluyev, oferecendo seu próprio quarto e gerenciando a segurança do líder bolchevique. Ele se opôs firmemente à ideia de Lênin se entregar para julgamento, convencido de que o tribunal do Governo Provisório seria apenas um pretexto para o assassinato político.

A importância de Stálin neste interregno é detalhada por biógrafos que ressaltam sua subida na hierarquia e sua autoridade crescente:

“Durante esses meses difíceis e perigosos (julho-outubro de 1917), Stálin não era o tribuno inflamado que viria a chamar a atenção dos observadores e permanecer na memória dos cronistas. Está ausente do livro de John Reed, Dez dias que abalaram o mundo, e é pouco evocado no de Nikolai N. Suhanov, A Revolução Russa de 1917. Contudo, à sua maneira discreta, ele subia na hierarquia. Ao chegar ao centro das decisões, figurando entre os principais cabeças do Partido, começava a agir como um líder. Em outubro, foi anunciado como um dos homens mais importantes para Lênin, ao lado de Zunoviev, Kamenev, Trótski, Sokolnikov e Bubnov. Por fim, tornou-se ministro de Lênin, em seu primeiro governo após a tomada do poder – seu primeiro cargo no governo, que concretizou-se numa salinha de Smolny em cuja porta era possível ler, escrito à mão: ‘Comissariado do povo para as Nacionalidades’.”[2]

Stálin protegeu Lênin e também assumiu a direção editorial dos jornais que substituíram o Pravda proibido, como o Caminho dos Operários, mantendo viva a agitação política bolchevique em meio ao terror estatal. Ele foi o responsável por apresentar o relatório político no VI Congresso do Partido, ocorrido clandestinamente entre julho e agosto de 1917, onde o partido abandonou temporariamente o slogan “Todo poder aos Sovietes” (então dominados por conciliadores) em favor da preparação para a insurreição armada.

3. SVERDLOV E A MÁQUINA PARTIDÁRIA: A “FORMIGUINHA” DA REVOLUÇÃO

Enquanto Stálin lidava com a alta política e a segurança de Lênin, Iákov Svérdlov focava na reconstrução da infraestrutura do partido, que havia sido severamente abalada pelas prisões. Svérdlov é descrito como o organizador indispensável, capaz de manter contato com as províncias e coordenar as ações de um partido que crescia exponencialmente em número de membros, apesar da ilegalidade.

A dinâmica organizacional entre Svérdlov e Stálin permitiu que o bolchevismo sobrevivesse ao desastre de julho:

“Evidentemente, tal como todos os movimentos políticos em 1917, o bolchevismo encarnava a bagunça. A organização não era — e não poderia ser — orientada para a produção de um partido centralizado, muito menos “totalitário”, nas condições de 1917, mas para a obtenção de maiorias nas reuniões de representantes partidários na capital a favor das posições de Lênin. Em outras palavras, através da manipulação de regras, persuasão e favores, Svérdlov mostrou ao camarada Stálin como organizar uma facção leninista leal. […] Svérdlov admitiu que, antes da revolução, os bolcheviques “não haviam realizado absolutamente nenhum trabalho entre os camponeses”. Nesse contexto, os SRs de esquerda não ofereciam somente uma vantagem tática imediata, mas uma promessa política de longo alcance.”[3]

Svérdlov também foi mestre em produzir maiorias parlamentares e organizar congressos que garantissem a legitimidade das propostas leninistas, transformando o Soviete de Petrogrado em um reduto bolchevique após o fracasso do golpe de Kornílov em agosto.

3. A REORGANIZAÇÃO EXTRAORDINÁRIA E O VI CONGRESSO

A reorganização do partido sob a direção de Stálin e Svérdlov culminou no VI Congresso, realizado em condições de estrita vigilância policial. Neste evento, Stálin refutou a tese de que a Rússia não estava madura para o socialismo, sustentando que o país poderia ser o primeiro a abrir caminho para a revolução mundial devido à desintegração econômica causada pela guerra imperialista.

A liderança de Stálin neste congresso foi fundamental para consolidar a nova orientação estratégica:

“Stálin estava no centro das atividades práticas do Partido. Como membro do Comitê Central, ele participou diretamente e liderou os trabalhos do Comitê do Partido de Petrogrado, editou o Pravda, escreveu artigos para ele e para o Soldatskaya Pravda e dirigiu a campanha bolchevique nas eleições municipais de Petrogrado. […] Foi Stálin quem salvou a preciosa vida de Lênin para o Partido, para o povo soviético e para a humanidade em geral, resistindo vigorosamente à proposta dos traidores Kamenev, Rykov e Trotsky que Lênin deveria comparecer a julgamento nos tribunais do governo provisório contrarrevolucionário. A brutal repressão da manifestação de julho marcou um ponto de virada no desenvolvimento da revolução. Lênin elaborou novas táticas para o Partido nas novas condições da luta. Juntamente a Sverdlov, Stálin dirigiu o trabalho do Sexto Congresso do Partido (julho-agosto de 1917), que teve que se reunir secretamente.”[4]

A nova direção estabelecida no congresso integrou ao partido o grupo de Trótski (Mejraióntsy), fortalecendo o bloco revolucionário para o assalto final ao poder em outubro

4. JULHO COMO “RECONHECIMENTO” E PREPARAÇÃO PARA OUTUBRO

Lênin, em seus escritos subsequentes, caracterizou este período como uma “operação de reconhecimento no campo do inimigo”, essencial para desmascarar a aliança entre a burguesia russa e o imperialismo anglo-francês. Sem a lição amarga de julho, a insurreição de outubro careceria da disciplina e da clareza sobre quem eram os verdadeiros aliados e inimigos da revolução. A análise de Lênin sobre o significado estratégico desse fracasso aparente é fundamental:

“As Jornadas de Julho — o fuzilamento de uma manifestação pacífica de operários e soldados em Petrogrado em 4 (17) de Julho de 1917, por ordem do Governo Provisório — constituíram um ponto de virada na história. […] Os acontecimentos de Julho não podiam então estabelecer a ditadura do proletariado — as massas ainda não estavam preparadas para isso. Por isso nenhuma das organizações responsáveis as convocou para a estabelecer. Mas, como operação de reconhecimento no campo do inimigo, os acontecimentos de Julho foram de enorme significado. A revolta de Kornilov e os acontecimentos subsequentes serviram como lições práticas e tornaram possível a vitória de Outubro.”[5]

Stálin, em suas reflexões sobre as táticas bolcheviques, corrobora esta visão ao afirmar que, se o partido tivesse tentado o levante em julho sem o apoio consolidado dos sovietes, teria sido esmagado definitivamente, tal como ocorreu com a Comuna de Paris. A “prova de força” de julho demonstrou que o slogan “Todo poder aos Sovietes” precisava ser momentaneamente retirado, pois os sovietes haviam se tornado apêndices da contrarrevolução, exigindo que o partido se preparasse para a insurreição baseando-se diretamente nos comitês de fábrica e nas unidades militares bolchevizadas.

5. O SIGNIFICADO DAS JORNADAS DE JULHO

Em suma, as Jornadas de Julho representaram o batismo de fogo da liderança bolchevique em condições de repressão de Estado. A capacidade de Lênin em fornecer a direção política mesmo no exílio, combinada com a gestão de crise operada por Stálin e Svérdlov no terreno, permitiu que o partido não apenas sobrevivesse, mas emergisse como a única força capaz de liderar as massas operárias e camponesas.

O período pós-julho consolidou a imagem de Stálin como o “executor das ordens da liderança” e mestre da conspiração, qualidades que seriam decisivas na organização militar do levante de outubro. As agitações de julho, embora derrotadas militarmente no curto prazo, serviram como um “ensaio” necessário para o desmascaramento definitivo dos partidos conciliadores e para a vitória definitiva do poder soviético meses depois.

REFERÊNCIAS

[1] CUNHAL, A. A Questão do Estado: Questão Central da Revolução. Portugal: Para História do Socialismo, 2009. p. 4-5.

[2] MARCOU, Lilly. A Vida Privada de Stalin. volume único. Rio de Janeiro: Zahar, 1991. p. 11.

[3] KOTKIN, Stephen. Stálin: Paradoxos do Poder 1878-1928. volume único. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. p. 594-606.

[4] SAYERS, Michael; KAHN, Albert E. A Grande Conspiração: A Guerra Secreta Contra a Rússia Soviética. volume único. São Paulo: Brasiliense, 1957. p. 495-497.

[5] LENIN, Vladímir Ilitch. Collected Works. The July Events. volume 25. Moscow: Progress Publishers, 1964. p. 393-394.

Liga Comunista Brasileira – LCB

17 de julho de 2026