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Prefácio

 

O Dogmatismo Batizado de Dialética

Por Edinailton Costa

 

            O termo dialética é frequentemente utilizado como um marcador de identidade. Nas tribos virtuais contemporâneas, dentre as quais figura a autoproclamada “esquerda radical”, esse termo perde seu valor conceitual e se torna um jargão, assim como a radicalidade que promete ir à raiz das coisas quando na verdade oscila entre esquerdismo (em sentido leninista) confesso e o sinônimo de extremismo (com exaltação da violência irresponsável, seja romantizando brigas de rua, seja exaltando o terrorismo ou debochando do custo humano da guerra).

            Dialética, desde Platão e retornando a Sócrates, Heráclito, Zenão de Eleia e passando por Aristóteles, é um termo que os próprios gregos entenderam em sentidos distintos; porém Hegel e, depois dele, Marx e Engels conseguiram sintetizar algo que há de comum em todas as dialéticas: elas pressupõem que seu objeto de análise seja móvel e, não sendo si mesmo em dois instantes distintos, seja por isso também contraditório. Cumpre ressaltar, para não confundirmos dialética com o ceticismo niilista de um Crátilo (ou de um irracionalista contemporâneo), que esses momentos distintos não são necessariamente imediatos, ou seja: uma realidade pode levar séculos ou milênios para atingir um salto qualitativo (caso das espécies em evolução).

            O caso mais paradoxal da aplicação de um método fundamentado em pressupostos dialéticos talvez seja o de Zenão que usou seus paradoxos para sustentar a impossibilidade do movimento. Ainda que as metafísicas, tanto dele (adotada de Parmênides) quanto a platônica e aristotélica, no limite defendam uma realidade sempre idêntica a si mesma (o Ser, as Formas dos seres, o Movente Imóvel, respectivamente), a dialética aparece em seus textos enquanto contradição inevitável no interior do pressuposto ontológico insustentável que assumiram, isto é, o de que a realidade no que tem de mais essencial é estática, é um substrato metafísico em oposição ao mundo dinâmico observável. Suas explicações foram obrigadas a, de alguma forma, conter o movimento das coisas e conciliar a natureza (e as transformações inerentes à imanência) ao Ser, ao hiperurânio, à origem imóvel de tudo o que se move.

            Platão pode defender que o conhecimento já está na alma que viu a realidade antes de encarnar e a rememora pela prática filosófica. Mas como o filósofo está vivo — é criança, depois adolescente, discípulo — e deve aprender ao longo da vida o que sua alma esqueceu ao cair no mundo, então ele precisa da dialética, de métodos de pesquisa e de educação que vão do simples ao complexo, da análise das partes à síntese totalizante; em suma: a organização pedagógica que sua obra assume deve considerar um discípulo que evolui, que se transforma, que precisa realizar no mundo seu saber inato e inútil enquanto não rememorado ativamente.

            Portanto, ainda que estes filósofos, estes grandes metafísicos da antiguidade, a quem Engels atribui um pensamento dialético, caíssem numa concepção dogmática e antidialética da realidade (em que a essência das coisas mutáveis e interdependentes deveria ser algo que permanece imutável e independente), suas descobertas valiosas, às quais sempre retornamos, dependeram de pressupostos dialéticos em flagrante contradição com sua ontologia engessadora da realidade. A forma como um filósofo chega às suas conclusões é mais importante que as conclusões às quais ele chega ou que as paróquias fundadas em torno dessas conclusões.

            Estes filósofos antigos, em sua compreensão limitada de dialética, ao menos eram capazes de ir além do jargão e aplicar métodos de pressuposto ontológico dialético, isto é, analisavam fenômenos mutáveis e contraditórios em seu movimento, suas relações e contradições, submetendo estas descobertas, ao cabo, a alguma entidade estanque e imóvel enquanto causadora das causas observáveis. Não parece ser este o caso de muitos que utilizam o termo dialética no debate político nacional. A mistificação é seu ponto de partida e não o termo desastrado de uma especulação pura, carente do acúmulo científico que somente o século de Hegel obteve em historiografia e o de Marx e Engels na física, química e biologia.

            “O movimento é o modo de existir da matéria”, diz Engels em resposta aos saltos mistificadores do Sr. Dühring (em que a matéria em seu suposto estado original, nem em repouso, nem em movimento, só poderia passar ao movimento com o peteleco de Deus, à maneira de Aristóteles) e continua: “todo repouso, todo equilíbrio é apenas relativo, só tem sentido relativamente à esta ou aquela forma bem determinada de movimento” (ENGELS, 2015, p. 90). Estou em repouso sobre uma cadeira agora, mas participo do movimento da terra, do sistema solar e os processos químicos do meu corpo não repousam. Heráclito foi quem mais se aproximou dessa concepção dialética da realidade, porém nenhum dos antigos a descreveu tão bem quanto aqueles a quem a modernidade legou com as descobertas da evolução das espécies, das transformações da energia na termodinâmica e do próprio universo no estudo das nebulosas.

            O trotskismo brasileiro contemporâneo, seja o autodeclarado, seja o que reivindica (em uma de suas muitas convergências com o nacional-bolchevismo e seu senso de oportunidade para manipulação das massas) Stálin, Brizola e Getúlio Vargas, embora se reivindique dialético, opera metodologicamente sob uma lógica que o próprio Engels classificaria como essencialmente “metafísica”. Na concepção engelsiana, a metafísica consiste na compreensão de uma realidade engessada e invariavelmente estável. Essa visão opõe-se à verdadeira leitura dialética, de matriz heraclitiana, que se fundamenta justamente na percepção da estabilidade relativa do ser em suas mutações. Ao assumir contornos de rigidez dogmática, essa corrente política adota uma concepção metodológica mais atrasada e equivocada do que a ontologia dinâmica já formulada na antiguidade por filósofos como Heráclito de Éfeso e Platão.

            Tradicionalmente, a historiografia filosófica perpetuou o equívoco de atribuir a Platão a redução de Heráclito a um mobilismo extremo e ininteligível, frequentemente resumido na máxima do “tudo flui”. Contudo, uma análise rigorosa da primeira parte do diálogo Teeteto revela que o próprio Platão soube diferenciar o pensamento genuíno do sábio efésio das interpretações relativistas extremadas promovidas por seus supostos seguidores, a exemplo de Crátilo. Para Heráclito, e na própria interpretação platônica desse mobilismo moderado, a realidade não é um turbilhão caótico que leva o pensamento e a linguagem ao colapso, mas sim um devir que comporta uma estabilidade relativa capaz de preservar certa inteligibilidade do real.

            A sofisticação dessa dialética antiga reside na sua fina compreensão de que a mudança contínua não implica a destruição instantânea da identidade. No esforço de testar seus próprios pressupostos metafísicos, Platão articula de forma brilhante essa conciliação entre permanência e movimento por meio das teorias da sensação. Isso ocorre, por exemplo, ao distinguir os “movimentos rápidos”, que se referem aos atos e qualidades percebidas na relação momentânea entre órgão sensorial e coisa sentida, dos “movimentos lentos”, que dizem respeito aos entes no mundo que mantêm sua identidade fora desse ato de sensação imediato (ou seja, os órgãos ou corpos sensíveis e as coisas percebidas) (FLASKMAN, 2015, p. 91).

Além dessa fenomenologia da percepção sensorial que explica a estabilidade relativa do mundo em movimento e sua racionalidade, as investigações de Platão chegam a antecipar princípios lógicos fundamentais para o materialismo, como o próprio embrião da lei dialética da transformação da quantidade em qualidade, ao demonstrar que uma alteração puramente quantitativa não descaracteriza a identidade qualitativa de um ente de forma automática (BUARQUE, 137, 2015). Essas intuições platônicas convergem com o fragmento 31 de Heráclito em que ele descreve as transformações qualitativas da natureza a partir de quantidades: o elemento mais denso se divide dando origem ao menos denso em um ciclo.

            Ao falhar em apreender a interdependência indissociável entre o fluxo universal e a unidade dos opostos, isto é, uma totalidade dinâmica em que cada parte não é algo em si, mas é determinada por suas relações com outras partes, de modo que a própria definição de esquerda e direita só faz sentido se antes situarmos lugar e tempo (o que era esquerda na Assembleia Nacional Francesa de 1789, como defender o fim do absolutismo e privilégios da nobreza, seria considerado centro ou até direita hoje), o trotskismo brasileiro contemporâneo esvazia a dialética de sua força motriz objetiva e de seu caráter relacional (porém, vale sempre ressaltar, não relativista à maneira de Crátilo e das tribos universitárias de irracionalistas).

            Enquanto a dialética antiga acolhe a contradição imanente à própria realidade para compreender as transformações e o lógos objetivo das coisas, a vertente em questão se refugia em categorias imóveis. Trata-se, em última instância, de um pensamento que recai no imobilismo, demonstrando uma incapacidade de ler a realidade concreta e política em sua complexa, porém inteligível, articulação entre mudança incessante e estabilidade relativa.

BUARQUE, Luísa. Heráclito e Heraclitismo no Crátilo de Platão. Revista Archai, v. 15, n. 15, p. 135, 2015.

FLAKSMAN, A. Notas sobre Heráclito no Teeteto, Banquete e Sofista. Revista Archai, v. 15, n. 15, p. 87, 2015.

ENGELS, F. Anti-Düring. São Paulo: Boitempo, 2015.

 

 

“Isso não é dialético”: Crítica externa e dogmatismo no trotskismo brasileiro: do Testamento de Lênin ao aplauso do anarcocapitalista

Por Rafael Fernandes Zorzi

Objetivo

Este ensaio parte da crítica ao método do trotskismo brasileiro — dogmatismo, crítica externa, incapacidade de diálogo — para reconstituir o debate sucessório na URSS entre 1922 e 1924, com base no Testamento de Lênin e nas advertências dirigidas a Stálin e Trótski. O percurso demonstra que a própria dinâmica da política bolchevique contradiz a narrativa simplificada do trotskismo, e que a irrelevância política da corrente decorre, em grande medida, de sua recusa em enfrentar as contradições reais de sua própria tradição.

  1. O Método da Crítica Externa: Reafirmação Dogmática sem Diálogo Efetivo

            A impressão que motiva este ensaio — de que parte substantiva do trotskismo brasileiro, especialmente o mais influente nas universidades e redes sociais, não debate as teorias que critica por dentro — encontra respaldo em análises mais amplas sobre o funcionamento desse movimento. Como observa o jornalista e militante comunista português Miguel Urbano Rodrigues (1925-2017), exilado no Brasil durante a ditadura salazarista e autor do ensaio “Apontamentos sobre Trotsky — O mito e a realidade”, “nem um só dos partidos e movimentos trotskistas conseguiu afirmar-se como força política com influência real no rumo de qualquer país”[1]. Esta irrelevância política não é acidental: deriva de um método que toma o “Marx imaculado” ou o “Lênin verdadeiro” como totem, a partir do qual se mede e condena toda experiência histórica concreta.

            O trotskismo opera, em larga medida, por meio da crítica externa: ao invés de compreender o argumento adversário “em seus próprios termos”, ele contrasta qualquer tradição (marxista ou não) com um ideal abstrato, concluindo que “isso não é Marx”, “isso não é dialético”, “isso não é revolucionário”. Não há esforço real de compreender o que o outro está dizendo. O método é essencialmente polêmico: não no sentido de debate produtivo, mas como reafirmação dogmática de uma pureza teórica que só existe no abstrato.

            O Partido Comunista da Grécia (KKE), em análise sobre o trotskismo, identifica uma característica central: “fraseologia ultrarrevolucionária pequeno-burguesa em palavras e compromisso absoluto na prática”[2]. Esta definição captura bem a contradição entre a retórica internacionalista radical do trotskismo e sua incapacidade histórica de se enraizar no movimento real da classe trabalhadora.

  1. Lênin e Trótski: O Debate sobre a Revolução Permanente e o Socialismo num Só País

            Antes de examinar o Testamento de Lênin, é necessário reconstituir o debate teórico fundamental que separava os dois dirigentes: um debate cuja sombra se estende até o dogmatismo trotskista contemporâneo.

            Lênin apostou no elo mais fraco da cadeia imperialista: a Rússia czarista, onde as contradições eram mais explosivas. Mesmo sem base material industrializada — algo que os próprios bolcheviques reconheciam — ele demonstrou que a aliança entre operários e camponeses podia sustentar o Estado soviético. A chave da estratégia leninista era política, não mecânico-econômica: a combinação entre a vanguarda operária e as demandas camponesas por terra poderia manter o poder ainda que o capitalismo russo fosse atrasado.

            Trótski, com sua teoria da Revolução Permanente, condicionava a sorte da revolução russa a eventos externos: a vitória na Rússia só serviria como estopim para a revolução na Alemanha, porque ele não acreditava na viabilidade do socialismo num país atrasado. Para Trótski, sem a revolução nos países avançados da Europa, o experimento russo inevitavelmente degeneraria. E a razão era clara: o campesinato russo, apegado à propriedade privada, não poderia ser a base social estável para uma construção socialista duradoura.

            A história mostrou que Lênin estava certo. A URSS se sustentou por décadas sem a revolução alemã. Não apenas se sustentou: industrializou-se aceleradamente, derrotou o nazismo na Segunda Guerra Mundial, e tornou-se uma superpotência. A aliança operário-camponesa, que Trótski julgava inviável como base para o socialismo, demonstrou uma resiliência que sua teoria subestimava.

            Klaus Scarmeloto, em A Atualidade de Stalin[3], sustenta — e ele próprio, em conversas posteriores, já matizou alguns desses entendimentos — que a política de “socialismo num só país” não foi uma traição ao marxismo, mas uma resposta necessária às condições objetivas. Diante do isolamento da URSS e da derrota da revolução alemã, a construção do socialismo teria que acontecer nas fronteiras existentes, ou não aconteceria. A industrialização acelerada, a coletivização e o plano quinquenal foram instrumentos brutais, mas eficazes, de transformação de uma Rússia agrária e atrasada numa potência capaz de enfrentar a máquina de guerra nazista.

  1. O Testamento de Lênin e os Limites da Crítica Interna

            A reconstituição do debate sucessório na URSS entre 1922 e 1924 é frequentemente mobilizada pela tradição trotskista como prova documental de sua narrativa: o Testamento de Lênin supostamente “condenaria” Stalin e “apontaria” Trótski como alternativa. Esta seção não repetirá esse debate nos seus próprios termos, pois seria aceitar o terreno que o dogmatismo trotskista escolheu para lutar. Em vez disso, propõe-se duas operações: primeiro, uma leitura honesta do documento, que revela uma crítica dupla onde a tradição trotskista enxerga apenas uma; segundo, e mais importante, uma reflexão sobre por que este debate, mesmo se resolvido de uma ou de outra maneira, já não é mais o centro da questão.

3.1 O que o Testamento realmente diz

            Lênin, já gravemente enfermo, ditou entre 23 e 31 de dezembro de 1922 sua “Carta ao Congresso” — o chamado “Testamento Político”. Em adendo de 4 de janeiro de 1923, acrescentou considerações sobre ambos os dirigentes.

            Sobre Stalin, escreveu: “O camarada Stalin, ao tornar-se secretário-geral, concentrou em suas mãos um poder imenso, e não estou seguro de que saiba usar esse poder com suficiente prudência”[4]. E, no adendo: “Stalin é demasiado grosseiro, e esse defeito, plenamente tolerável em nosso meio e nas relações entre nós, comunistas, torna-se intolerável no cargo de secretário-geral3.

            Sobre Trótski, foi igualmente direto — e esta parte é sistematicamente omitida pela tradição trotskista quando utiliza o testamento como arma contra Stálin: “Pessoalmente, é sem dúvida o homem mais capaz do atual Comitê Central, mas está demasiado tomado pela segurança em si mesmo e se deixa arrastar, em excesso, pelo lado puramente administrativo das coisas”43.

            O Testamento não é um libelo contra Stálin. É uma crítica dupla, que aponta defeitos em ambos. A tradição trotskista, no entanto, silencia a crítica a Trótski. Este silenciamento seletivo é constitutivo do método dogmático que este ensaio critica.

3.2 Por que esse debate já não é suficiente

            Há, porém, uma consideração mais fundamental. O historiador João Cláudio Platenik Pitillo, cuja pesquisa se dedica ao papel da URSS na Segunda Guerra Mundial e aos processos revolucionários latino-americanos, representa uma linhagem da historiografia contemporânea que já não opera nos termos do debate Lênin-Trótski-Stálin como ele foi herdado.

            O ponto não é “provar que Lênin preferia Stálin” ou “provar que Lênin preferia Trótski”. É reconhecer que a validação ou invalidação histórica de Stálin não pode se reduzir a uma suposta “última vontade” de Lênin, escrita num momento de grave enfermidade. Por mais importante que o Testamento seja como documento, a avaliação de Stálin como dirigente histórico repousa em bases mais sólidas: a industrialização acelerada da URSS, a coletivização, e, acima de tudo, a liderança na derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial.

            Pitillo, ao destacar o protagonismo soviético nas batalhas de Moscou (1941), Stalingrado (1942-1943) e Kursk (1943) — esta última descrita como a maior batalha de blindados da história —, demonstra que o eixo da avaliação histórica precisa se deslocar do gabinete de Lênin para os campos de batalha onde o socialismo soviético foi posto à prova[5]. O Exército Vermelho, sob a liderança de Stálin e do Estado soviético, destruiu 75% das forças do Eixo. A vitória sobre o Japão na Manchúria, em agosto de 1945, derrotou 1,2 milhões de soldados do Exército Imperial Japonês.

3.3 O deslocamento necessário

            A pergunta que o ensaio coloca, a partir dessa inflexão, é: por que a tradição trotskista insiste em reduzir a avaliação de Stálin a um documento de 1922-1923, ignorando sistematicamente as realizações objetivas do período stalinista — realizações que tornaram possível a vitória sobre o nazismo?

            A resposta remete ao método já diagnosticado. A crítica externa precisa de um Stálin “condenado” desde o início, porque sua justificativa moral — “a burocracia traiu a revolução” — não sobreviveria ao confronto com a história concreta. Se a União Soviética sob a liderança de Stálin foi capaz de derrotar o exército mais poderoso do capitalismo mundial e de se projetar como superpotência, então o “julgamento” de Stálin não pode ser feito apenas pelo Testamento. É preciso confrontar o feito histórico.

            O silêncio trotskista sobre a Grande Guerra Patriótica — ou sua redução a uma luta entre “degeneração burocrática” e “fascismo” — é, talvez, a omissão mais sintomática de todas[6]. Não porque Trótski não tivesse críticas a fazer (tinha e muitas), mas porque a magnitude da vitória soviética coloca em questão a própria tese da “inviabilidade” do socialismo construído num só país.

  1. O Silêncio de Trotsky e a Construção da Narrativa do “Golpe”

            O dado histórico mais perturbador para a narrativa trotskista — e o mais frequentemente omitido em suas circulações internas — é o comportamento do próprio Trótski após a morte de Lênin, em 21 de janeiro de 1924.

            Quando o XIII Congresso do Partido se reuniu em maio de 1924, o testamento foi lido às delegações. A assembleia votou por não publicá-lo e por manter Stálin no cargo (contrariando, ao menos em parte, a sugestão de Lênin sobre a remoção do secretário-geral). E Trótski não se opôs. Ele permaneceu em silêncio.

            A pergunta que a militância trotskista não enfrenta é: por quê? Por que Trótski não agiu para fazer valer a última vontade de Lênin? Por que não denunciou publicamente a decisão do congresso?

            A resposta mais plausível — e a mais ausente da literatura trotskista — é que Trótski reconhecia, naquele momento, que não tinha condições políticas de se opor. Ele não contava com maioria no partido. Sua teoria da Revolução Permanente era minoritária. E seu comportamento político — marcado pela autossuficiência, vaidade e pelo menosprezo ao trabalho organizativo — havia lhe custado aliados.

            O próprio Deutscher, biógrafo admirador de Trótski, reconhece que “a velha guarda bolchevique, embora reconhecendo o talento de Trótski como estadista, nunca viu nele um homem do Partido”[7]. Seu passado menchevique não fora esquecido. E “o carácter de Trotsky, a sua vaidade, o estilo autoritário, a sua tendência para a crítica demolidora quando discordava de companheiros de luta inspiravam desconfiança e até rancor”7.

  1. Stálin: A Consolidação do Socialismo e a Derrota do Nazismo

            O que o trotskismo se recusa a reconhecer — embora os fatos falem por si — é que Stálin, independentemente das críticas que se possam fazer a seus métodos, consolidou o socialismo através da industrialização acelerada. A URSS saiu de uma economia agrária e semifeudal para tornar-se, em duas décadas, a segunda potência industrial do mundo. Este feito não pode ser atribuído a um “golpe burocrático” ou a uma “degeneração”. Foi obra de uma direção política que compreendeu as necessidades concretas da construção do socialismo num país isolado e hostilizado pelo imperialismo.

            Mais ainda: foi sob a liderança de Stálin que a União Soviética derrotou o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Os 27 milhões de mortos soviéticos — o preço mais alto pago por qualquer nação na guerra — não foram sacrificados em vão. A vitória em Stalingrado, a Batalha de Kursk, a tomada de Berlim: tudo isso ocorreu sob a direção de Stálin5.

            A matriz ideológica dessa crítica externa se revela na adesão trotskista à tese dos “dois totalitarismos”, que equipara a União Soviética stalinista à Alemanha nazista. Essa falsa simetria, que no plano filosófico reduz antagonismos inconciliáveis a uma mesma categoria abstrata, tem um correlato político imediato: a tentativa de apagar o papel decisivo de Stálin na organização e na vitória do Exército Vermelho. Ao insistir na narrativa de que o exército era uma força “auto-organizada” do proletariado que triunfou apesar da “degeneração burocrática” stalinista, o trotskismo não apenas nega a história, mas também abre alas para que a direita aproprie-se do debate, celebrando a “derrota do totalitarismo” como um todo. A instrumentalização da memória da guerra para fins de política internacional contemporânea é o atestado final da falência política dessa tradição.

            Pode-se argumentar, em defesa de Trótski, que sua teoria do “Estado operário degenerado” nunca pretendeu igualar os dois regimes, preservando a distinção de classe fundamental entre a URSS (um Estado operário burocratizado) e a Alemanha nazista (um Estado capitalista fascista). No entanto, o efeito político objetivo dessa crítica, quando descolada da análise concreta e empunhada como um carimbo de pureza, é na prática o mesmo: fornecer munição para que a direita celebre a derrota do “totalitarismo” como um todo, indistintamente. A intenção do crítico não altera o fato de que, no mundo real, a distinção teórica que ele preserva se apaga diante da apropriação feita pelo campo adversário. O trotskista pode não equiparar Stálin a Hitler em seus artigos e livros; mas, ao insistir na denúncia abstrata da “degeneração burocrática” e ao negar o protagonismo stalinista na vitória sobre o nazismo, o efeito prático de sua crítica é o mesmo da equiparação que ele diz repudiar.

            Klaus Scarmeloto enfatiza em A Atualidade de Stalin que a desestalinização não foi um processo de correção histórica, mas uma transição ideológica para a restauração do capitalismo3. O ataque sistemático a Stálin serve, segundo Scarmeloto, a uma necessidade do próprio imperialismo contemporâneo: “o imperialismo, para efetivar sua política de desemancipação, para manter-se vivo, precisa racionalmente gerar irracionalidade nos povos”3. A figura de Stálin é transformada em “um bode expiatório, um líder tirânico”: uma construção ideológica que legitima a dominação imperialista.

  1. O Trotskismo como Teoria Ultrapassada: Superestimação das Condições Materiais e Subestimação da Aliança Operário-Camponesa

A pergunta que emerge deste ensaio é: não prova a história que o trotskismo, ao superestimar as condições materiais e subestimar a capacidade política da aliança operário-camponesa, é uma teoria ultrapassada e incapaz de protagonizar qualquer revolução vitoriosa no mundo real?

            A resposta, examinando as evidências, tende ao sim. Trótski não acreditava que o socialismo pudesse sobreviver na Rússia sem a revolução alemã. O tempo — sete décadas de existência da URSS, incluindo a vitória sobre o nazismo, a corrida espacial, a consolidação de um bloco socialista que se estendia de Berlim a Havana — mostrou que estava errado. O socialismo podia, sim, ser construído num país atrasado, desde que houvesse uma direção política capaz de forjar a aliança entre operários e camponeses e de impor a industrialização acelerada.

            O trotskismo contemporâneo, ao repetir acriticamente as teses da Revolução Permanente como se fossem dogmas intocáveis, recusa-se a aprender com esta lição histórica. Permanece preso a uma teoria formulada entre 1905 e 1917, quando as condições eram outras, e aplica-a mecanicamente ao Brasil de 2026 (como se a aliança operário-camponesa na Amazônia, no agronegócio ou nas periferias urbanas pudesse ser lida com os mesmos óculos de Petrogrado).

  1. O Método Dogmático como Condenação à Irrelevância

            A questão central que este ensaio coloca para o trotskismo brasileiro é: se o método é esse — polêmica como reafirmação dogmática, crítica externa que não se dispõe a compreender o argumento adversário “por dentro”, recusa sistemática a enfrentar suas próprias contradições históricas — então não está ele condenado a ser irrelevante no movimento comunista de massa, servindo apenas como um círculo fechado que debate entre si sem falar com a classe trabalhadora?

            A evidência histórica e contemporânea sugere que sim. O trotskismo nunca conseguiu construir hegemonia em nenhum movimento revolucionário de massa de expressão. Sua influência restringe-se a pequenos grupos acadêmicos e a redes sociais onde a fraseologia ultrarrevolucionária encontra audiência entre setores pequeno-burgueses frustrados com o capitalismo, mas sem disposição para o trabalho organizativo paciente.

            Esse mesmo padrão de isolamento político não se limita ao campo tático-organizativo. Ele se reproduz no próprio tratamento que o trotskismo reserva a campos inteiros do conhecimento, sobretudo aqueles que poderiam instrumentalizar a luta de classes. A economia política, em especial, é alvo de uma desqualificação que dispensa a análise concreta.

            Para setores influentes do movimento, a economia — sobretudo a de matriz keynesiana ou desenvolvimentista — não é uma ciência passível de crítica imanente, mas uma “pseudociência” a ser rejeitada liminarmente. O argumento é direto: se o capitalismo é intrinsecamente irracional e incontrolável, toda tentativa de compreendê-lo, prevê-lo ou administrá-lo por meio de métodos científicos seria uma ilusão. Essa postura, no entanto, revela o mesmo gesto que o diagnóstico já apontou: a recusa a entrar no mérito do objeto criticado (suas categorias, seus modelos, suas evidências empíricas) em favor de um carimbo de pureza que dispensa a análise concreta.

            Ao chamar a economia de “pseudociência”, o trotskista não está refutando a teoria adversária — está apenas declarando-a indigna de refutação. O efeito prático, como já se viu com a crítica externa em geral, é o isolamento político: o liberal (que estudou a teoria que o trotskista esnoba) não se convence; o público (que não viu argumento) não aprende; e a esquerda perde a oportunidade de mostrar, na prática, a superioridade explicativa do materialismo histórico. A tática, portanto, não é crítica, mas atestado de impotência. E, como todo carimbo de pureza, ela alimenta a narrativa que o inimigo já domina.

            Esse gesto de desqualificação abstrata não é um desvio ou um excesso retórico, é a própria assinatura do método dogmático que este ensaio diagnosticou. E é exatamente por isso que o problema não está apenas na derrota histórica do trotskismo na URSS dos anos 1920: está na reprodução, até hoje, do mesmo método que produziu aquela derrota. Enquanto o trotskismo brasileiro não for capaz de debater “por dentro” suas próprias contradições, incluindo o comportamento de Trótski no XIII Congresso, suas divergências substantivas com Lênin, sua incapacidade de construir alianças efetivas, e sua recusa em reconhecer os méritos da política de “socialismo num só país”, continuará condenado à marginalidade que observamos.

            Uma dessas contradições, frequentemente silenciada, envolve Nadejda Krupskaia, cuja posição no XIII Congresso expõe, como poucas, a natureza facciosa da oposição trotskista. Companheira de Lênin por três décadas, bolchevique desde a fundação do Iskra, Krupskaia era, como o próprio Trótski reconheceu publicamente após sua morte, “uma personalidade notável em sua devoção à causa, sua energia e pureza de caráter”[8]. Sua autoridade para falar sobre a tradição bolchevique e sobre a disputa sucessória era, naquele momento histórico, inigualável.

            Vale a pena registrar o que realmente aconteceu: no XIII Congresso, após a leitura do Testamento que ela mesma insistiu para que fosse apresentado às delegações, Krupskaia fez uma intervenção que os militantes trotskistas raramente citam. Krupskaia, no XIII Congresso do PCR(b) em 27 de maio de 1924, declarou que “a duplicação dos debates sobre as diferenças não é desejável” e que a oposição deveria “proceder com o Partido de maneira disciplinada”.

            A crítica de Krupskaia não era “stalinista”: ela própria, dois anos depois, integraria brevemente a Oposição Unida ao lado de Trótski, antes de recuar por temor de uma cisão. A sua advertência no congresso, portanto, não partiu de uma figura menor ou de uma mera apoiadora emocional. Krupskaia era a companheira de Lênin e um dos quadros mais experientes do Partido. Ela própria se oporia a Stálin dois anos depois. Mas, no momento crucial, sua avaliação foi política, não pessoal: o comportamento da oposição trotskista era faccioso, desorganizador e prejudicial à unidade do movimento.

            O silêncio da tradição trotskista sobre a posição de Krupskaia é eloquente. Se a própria viúva de Lênin, crítica de Stálin, companheira de oposição dois anos depois, ainda assim recusou-se a endossar as táticas da oposição em 1924, então talvez o problema não fosse apenas “stalinismo”. Talvez o método faccioso, o menosprezo à construção coletiva e a incapacidade de ouvir a base do partido já estivessem ali, na matriz política de Trótski, sendo percebidos e rejeitados pelos próprios bolcheviques que o rodeavam. A recusa do trotskismo brasileiro em incorporar esta evidência — que vem de uma fonte praticamente insuspeita de “stalinismo” — é, ela mesma, mais uma prova do método dogmático que este ensaio critica.

 

  1. Sintomas Contemporâneos do Método Dogmático

            Se o método dogmático do trotskismo — crítica externa, recusa ao diálogo efetivo, pureza abstrata — o condena à irrelevância política no movimento real, resta perguntar: como essa irrelevância se manifesta fora do círculo militante? A resposta está em dois fenômenos aparentemente distantes da luta de classes, mas profundamente reveladores do lugar que o trotskismo ocupa no imaginário contemporâneo: o aplauso do anarcocapitalista e a romantização por Hollywood.

8.1 O Sintoma Anarcocapitalista: Quando o Adversário Aplaude

            Há um fenômeno curioso que atravessa as redes sociais brasileiras e os debates universitários, e que pode ser examinado à luz de um episódio público concreto. Trata-se do embate entre dois intelectuais de esquerda com trajetórias e filiações distintas: Gustavo Machado — doutor em filosofia, filiado ao PSTU — e Breno Altman — jornalista, fundador do site Opera Mundi e defensor do legado stalinista na União Soviética. A divergência entre ambos, marcada por acusações mútuas de revisionismo, dogmatismo e, no limite, de abandono da luta de classes, veio a público em um debate no canal do Opera Mundi no YouTube, no qual Gustavo Machado expôs sua crítica a Stálin e à burocracia da URSS nos termos clássicos do trotskismo.

            O que interessa a este ensaio não é o mérito dos argumentos de cada um, mas a reação objetiva que a fala de Gustavo provocou em setores situados no polo oposto do espectro político. Uma amostra dos comentários do próprio vídeo é reveladora.

            “Por um instante eu achei que o camarada Gustavo ia puxar uma bíblia e falar sobre moralidade.”

            O comentarista identifica no trotskista uma tendência ao moralismo abstrato, como se a crítica dependesse de um código de pureza exterior (a “bíblia” da doutrina) em vez da análise concreta das condições objetivas.

            “Nessa o Machado deu uma de Miorim querendo aplicar lógica de uma maneira torta.”

            A referência é a Daniel Miorim, um dos principais divulgadores do anarcocapitalismo no Brasil, sócio-fundador do think tank Universidade Libertária e sócio-proprietário da editora associada, responsável pelo canal Alta Linguagem, além de debatedor público recorrente de autores da Escola Austríaca, como Mises e Rothbard. O comentarista identifica, sem querer, uma similaridade metodológica entre a crítica trotskista e a crítica anarcocapitalista: ambas operam por um crivo lógico-formal, inquisitorial, que reduz a política a um tribunal de pureza.

            “Obviamente o Altman não quis dizer isso, Machado. E todo mundo entendeu o que ele quis dizer: ‘foi um erro’.”

            O comentarista acusa Gustavo de má-fé interpretativa: distorcer o argumento do adversário para submetê-lo a uma lógica punitiva, em vez de buscar compreendê-lo em seus próprios termos. É a crítica externa em estado puro: o trotskista não entra no argumento do outro; aplica um crivo externo e o condena.

            “É fácil comentar se foi um erro ou não depois de anos de análises e das consequências que foram se desenrolando ao longo do tempo. (É o famoso ‘engenheiro de obra pronta’). Agora enquanto estamos vivendo a história, tomando decisões em tempo real, muitas vezes sem conhecer variáveis que hoje em dia são conhecidas, aí a coisa muda de figura.”

            Este comentário é lapidar. O interlocutor — anônimo, provavelmente não marxista — está dizendo, sem saber, a tese central deste ensaio: a crítica externa é sempre posterior, sempre pura, porque nunca precisou decidir em tempo real. É fácil apontar erros de Stálin em 1928 com os dados de 2026. Difícil é construir um Estado sitiado, industrializar um país atrasado e vencer o nazismo enquanto o inimigo ataca.

            O anarcocapitalista que aplaude a crítica trotskista não está endossando o programa socialista: ele o rejeita liminarmente. Ele está apenas celebrando o fato de que um intelectual influente do campo marxista está demolindo a imagem da experiência histórica mais emblemática de construção de um Estado anticapitalista. Para o liberal, o debate entre trotskistas e stalinistas é uma briga entre duas faces do autoritarismo: ele aplaude qualquer um dos lados, desde que a porrada continue. Sua reação não traduz concordância: traduz o reconhecimento de que a crítica trotskista, ao se fixar na denúncia da “degeneração burocrática” e isolar Stálin como um tirano, não ameaça o capital. Apenas alimenta a narrativa que o adversário já domina.

            O caso de Gustavo Machado é sintomático, ainda que se exija cautela na generalização. A reação objetiva ao seu debate com Breno Altman — registrada nos comentários analisados acima — revela um fenômeno que merece ser destacado: setores situados no polo oposto do espectro político apropriam-se da crítica trotskista para seus próprios fins. Um comentarista identifica explicitamente a similaridade entre o método de Gustavo e o do anarcocapitalista Daniel Miorim. Outro o acusa de moralismo abstrato. Um terceiro, de “engenharia de obra pronta”. Essas reações, ainda que não permitam afirmar que “perfis anarcocapitalistas saem em sua defesa”, indicam que a crítica trotskista — ao se fixar na denúncia do stalinismo — produz um eco que o campo adversário consegue sintonizar. O aplauso do inimigo, aqui, não é um dado estatístico. É uma tendência estrutural revelada pelos próprios comentários do público. E ela aponta para o mesmo diagnóstico: o trotskismo, ao petrificar sua crítica, torna-se uma força política nula: um debatedor brilhante, mas irrelevante para a transformação real.

            O aplauso do inimigo não é um equívoco. É o índice mais cruel da irrelevância política de uma corrente que, ao petrificar sua crítica, tornou-se o comunismo que o sistema pode tolerar.

8.2 O Trotskismo como Comunismo Tolerável: A Representação de Hollywood

            Há um dado cultural que raramente é comentado pela própria militância trotskista, mas que diz muito sobre o lugar que sua tradição ocupa no imaginário burguês contemporâneo. Em produções cinematográficas e televisivas, observa-se um padrão recorrente: quando se quer mostrar um passado comunista de um personagem inteligente, carismático ou moralmente bom, Hollywood faz desse personagem um trotskista.

            O caso mais emblemático é o filme Reds (1981), dirigido e estrelado por Warren Beatty. A obra, um épico de três horas sobre o jornalista comunista americano John Reed — autor de Os Dez Dias que Abalaram o Mundo e único americano sepultado no Kremlin — foi descrita como “um dos mais ambiciosos, arriscados e improváveis filmes alguma vez feitos em Hollywood”[9]. Apesar do fervor anticomunista da Guerra Fria, Beatty conseguiu financiamento da Paramount e o filme tornou-se um sucesso de bilheteria, recebendo treze indicações ao Oscar. Reds não retrata um stalinista, mas sim um trotskista simpatizante da revolução, cujas ilusões, segundo o crítico, são gradualmente confrontadas com a realidade do totalitarismo.

            Outro exemplo é O Assassinato de Trotsky (1972), dirigido por Joseph Losey, um cineasta que se intitulava “marxista romântico” e foi banido de Hollywood pelo macarthismo. O filme, protagonizado por Richard Burton como Trótski, é abertamente simpático ao rival de Stálin e foi elogiado por sua “exatidão histórica”. Losey, que estudou com Brecht e conheceu Eisenstein na URSS, representa a figura do intelectual comunista que Hollywood perseguiu, mas cuja obra pôde, décadas depois, ser reavaliada sem o estigma do “inimigo interno”.

            Já na comédia adolescente The Trotsky (2009), a figura do revolucionário russo é reduzida a uma fantasia quixotesca: o protagonista Leon Bronstein se convence de ser a reencarnação de Trótski e tenta organizar greves e sindicatos em sua escola no Canadá. O próprio diretor, Jacob Tierney, descreve o filme como “um suflê” — algo leve, descartável, que não deve ser levado a sério. Uma crítica do World Socialist Web Site captura com precisão o resultado: “em Bronstein, ficamos com um jovem bufão sério, mas inofensivo”. O comunismo, aqui, é um adereço cômico, não uma ameaça[10].

            Mesmo Trumbo — Lista Negra (2015), que retrata o roteirista comunista Dalton Trumbo e a perseguição do macarthismo, descreve seu protagonista como “um daqueles comunistas românticos (e bastante inocentes) que lutavam por uma ideologia sem saber muito bem o que ela significava”[11]. Trumbo é apresentado como alguém que “pagou um preço caro” por sua “ingenuidade”, e o filme sugere que os comunistas americanos “não tinham qualquer ligação com movimentos comunistas no exterior”, provando que “eram apenas boas pessoas ingênuas iludidas”12.

            Esse mesmo padrão de condescendência — e de incapacidade de análise concreta — repete-se quando o trotskismo universitário defronta com o fenômeno Javier Milei. O anarcocapitalismo do atual presidente argentino não é uma abstração teórica nem uma piada de mau gosto. Ele está no poder, cortando verbas de universidades, fechando institutos de pesquisa, destruindo o sistema público de ciência e tecnologia[12]. No entanto, a reação predominante na academia progressista, e em especial no trotskismo universitário, ainda é o riso, o deboche, a classificação apressada “louco”, “palhaço”, “ninguém leva a sério” — em vez da análise concreta de sua lógica interna, de seu apelo de massa e de sua força política real. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, ecoa essa postura quando afirma que a Escola Austríaca é “absolutamente marginal e anacrônica”[13]. O problema é que, enquanto a academia rir, Milei continuará governando[14]. A “súbita glória” do riso não destitui presidentes.

            A recusa da academia em compreender “por dentro” o adversário repete, no século XXI, o mesmo erro metodológico diagnosticado no trotskismo dogmático: a crítica externa que não se dá ao trabalho de entender o que enfrenta, que subestima o inimigo, que o trata como piada até o momento em que ele já desmontou a máquina pública. Rir de Milei é fácil. Analisar as condições materiais que produziram seu fenômeno — e construir uma alternativa política à altura — é difícil. E é exatamente essa dificuldade que o trotskismo acadêmico, com sua crítica externa e sua recusa ao diálogo efetivo, tem preferido evitar.

            Hobbes já advertira: o riso é “súbita glória”: um movimento de superioridade que nasce do desprezo pela fraqueza alheia[15]. Rimos do outro porque nos sentimos momentaneamente mais altos, mais inteligentes, mais lúcidos. Mas essa glória é oca quando o adversário, de fato, governa. Mais do que isso: o riso como estratégia política não é inocente. A extrema-direita aprendeu a usá-lo como arma de deslegitimação — piadas racistas, homofóbicas, misóginas — sabendo que a piada dessensibiliza, normaliza o ódio e silencia quem critica (afinal, “quem não tem senso de humor”?). A esquerda, ao rir de Milei em vez de analisá-lo, adota o mesmo gênero de resposta: o deboche como substituto da análise[16].

            Mas o riso não é prova de superioridade. É a certidão de óbito antecipada daqueles que, não sabendo como agir, refugiam-se no escárnio. Freud notou que toda risada esconde algo sério, demasiadamente sério para ser dito[17]. O que o riso da academia esconde é sua impotência prática, seu descolamento da luta real, sua incapacidade de construir uma alternativa à altura do inimigo que tem pela frente. Porque o inimigo — Milei, a extrema-direita, o capital em sua forma mais brutal —, esse, leva-se muito a sério. E enquanto a esquerda acadêmica ri, ele governa. O riso, portanto, não é um sintoma de saúde política. É o prenúncio da derrota — o som que fazemos quando já não temos nada a oferecer senão a certeza confortável de que somos superiores. É o último suspiro da teoria que se divorciou da prática[18].

            A pergunta que se impõe é: por que Hollywood, uma das máquinas de produção de hegemonia cultural mais poderosas do capitalismo, trata o trotskismo com uma simpatia que jamais dedicaria ao stalinismo ou mesmo ao leninismo?

            A hipótese mais plausível é que o sistema não se sente ameaçado por uma corrente que: (1) nunca efetivamente tomou o poder em lugar nenhum; (2) se especializou em criticar os socialismos que existiram (a URSS, a China, Cuba) do ponto de vista de uma pureza ideal; (3) opera no plano da teoria e da crítica acadêmica, não da construção concreta de partido, Estado e exército; e (4) carece de uma teoria e prática efetivas de aliança camponesa e de construção de hegemonia no mundo real — aquilo que de fato assusta o capital.

            O trotskismo, nessa leitura, é o comunismo que não ameaça. É o comunismo que pode ser romantizado porque nunca construiu uma alternativa de poder que desafiasse a ordem mundial capitalista. Como argumenta Mark Fisher[19], o realismo capitalista se sustenta exatamente pela neutralização da alternativa: o sistema admite a crítica, desde que ela permaneça no plano da nostalgia ou da pureza ideal, nunca da construção real de um poder paralelo. O trotskismo, ao se especializar na crítica externa e na pureza doutrinária, torna-se o comunismo que o realismo capitalista pode tolerar: um comunismo que nunca ameaça se realizar, porque sua própria definição de “verdadeiro socialismo” é uma impossibilidade histórica. A indústria cultural pode retratá-lo com simpatia porque ele não representa o perigo real que a Revolução Russa — com toda sua brutalidade industrializadora, sua coletivização forçada, seu Exército Vermelho derrotando o nazismo — representou para o capital mundial.

            O próprio caráter da teoria da Revolução Permanente — que condicionava a sobrevivência do socialismo russo à revolução nos países avançados, isto é, à impossibilidade de construir socialismo num país atrasado isolado — continha em germe essa neutralização posterior. Se o socialismo “verdadeiro” só poderia vencer simultaneamente nos países centrais, então a tentativa real, concreta, cheia de contradições e erros, de construir socialismo na Rússia nunca foi “verdadeira” o suficiente. Sobrou sempre um ideal abstrato a ser criticado, o que é, precisamente, o papel que o sistema atribui a Trótski e a seus herdeiros.

O stalinista (ou, mais amplamente, o comunista que efetivamente construiu Estados e exércitos) é irrepresentável como herói positivo em Hollywood. Ele é o Gulag, o Grande Expurgo, a Cortina de Ferro. O trotskista, ao contrário, pode ser o protagonista de uma comédia romântica juvenil ou o pai da protagonista em A Maravilhosa Senhora Maisel: uma figura de passado, derrotada, idealista, mas encantadora. É o comunismo que o liberalismo pode admirar porque já não precisa temer.

Isso não é uma prova contra Trótski. É uma prova contra o trotskismo contemporâneo que, ao reproduzir o mesmo método de crítica externa e ideal abstrato, tornou-se exatamente aquilo que o sistema pode tolerar e até romantizar: uma oposição que não ameaça, uma crítica que não desestabiliza, um socialismo de salão que nunca constrange os salões onde seus debatedores são aplaudidos.

8.3 China: O Trotskismo e a História como Círculo

            O terceiro sintoma dessa corrente — talvez o que melhor explicite seu vício de método — é a forma como o trotskismo brasileiro reduz a experiência chinesa a uma simples dominação global de matriz colonial. Longe de ser apenas um equívoco de definição, essa postura denuncia um vício de método: a crença de que a história opera em círculos, repetindo fórmulas do passado.

            O trotskismo olha para a China e vê apenas o que deseja ver: burocracia, degeneração, restauração capitalista e, agora, um “imperialismo emergente”. É o mesmo gesto que aplicou à URSS stalinista. Como o modelo teórico trotskista não prevê a possibilidade de um Estado socialista sobreviver, industrializar-se e projetar-se globalmente sem seguir a cartilha da Revolução Permanente, a conclusão deles só pode ser uma: “a China não é socialismo”. Se não é socialismo, argumentam, só pode ser capitalismo; se é capitalismo e se projeta globalmente, só pode ser imperialismo.

            O problema é que a história não se repete como um círculo perfeito; ela avança em espiral. O que o trotskismo não consegue processar é o que Elias Jabbour define como a Nova Economia do Projetamento. Para Jabbour, a formação social chinesa não é uma simples economia de mercado, mas uma totalidade onde o Estado retoma a capacidade de planejar a economia em altíssimo nível, submetendo a lógica do lucro privado às metas estratégicas de desenvolvimento. Ignorar isso é ignorar que o projeto iniciado em 1949 não “degenerou”, mas evoluiu para uma forma superior de organização socialista.

            O programa de cooperação internacional de Pequim, a Iniciativa do Cinturão e Rota, é reduzido pelo trotskismo à mesma categoria do imperialismo britânico ou do expansionismo estadunidense. No entanto, seguindo a análise de Jabbour, há diferenças fundamentais que o dogmatismo recusa examinar: a China atua pela exportação de bens públicos de infraestrutura e pela oferta de uma alternativa ao Consenso de Washington. Ao contrário do FMI, a China não impõe ajustes estruturais ou privatizações compulsórias.

            Embora existam contradições reais, reduzir a política externa chinesa a “imperialismo emergente” é tão grosseiro quanto foi chamar a URSS de 1928 de “capitalismo de Estado”. Ao classificar a China dessa forma, o trotskismo abdica da análise concreta em favor de uma pureza abstrata. Como aponta a obra de Jabbour, ao fundir mercado e planificação sob o comando político, a China não está traindo o socialismo, mas construindo as condições materiais de sua existência no século XXI — algo que o método trotskista, preso ao passado, simplesmente não consegue enxergar[20].

  1. “Isso não é dialético”: Como o trotskismo petrifica a método

            O título deste ensaio não é uma provocação vazia. A frase entre aspas — “isso não é dialético” — é talvez a sentença mais recorrente no vocabulário do trotskismo dogmático. Ela funciona como um trunfo retórico que encerra o debate em vez de abri-lo, que desqualifica o interlocutor em vez de confrontar seu argumento, que aplica um carimbo de pureza em vez de se submeter ao movimento real da história. O que está em jogo não é uma disputa terminológica sobre o que “dialética” significa. É a constatação de que o trotskismo, ao transformar a dialética num critério externo — algo que se aplica ao pensamento do outro como um martelo, não como ferramenta de autocrítica —, acaba petrificando o que há de mais vivo no método marxista.

            Para Marx, a dialética não era um conjunto de fórmulas a serem aplicadas mecanicamente. Era o movimento real do pensamento que acompanha o movimento real do objeto[21]. No posfácio à segunda edição de O Capital, Marx insiste que a dialética “escandaliza e repugna a burguesia” precisamente porque inclui, na compreensão positiva das coisas, “a compreensão da sua negação necessária, do seu definhamento inevitável”. A dialética não petrifica nada; ela dissolve as formas aparentemente eternas em seu devir histórico. O trotskismo dogmático inverte esse movimento. Em vez de a dialética ser o nome do esforço de pensar com o objeto — deixando-se surpreender por suas contradições, por seus desvios, por suas novidades —, ela se torna um padrão de medida externo. O trotskista não pergunta: “o que este fenômeno me ensina sobre a dialética?” Ele pergunta: “esta análise é dialética?” — e a resposta é um carimbo, não uma investigação.

            O resultado é uma dialética que protege a doutrina contra a experiência. Se a realidade contradiz a expectativa trotskista — a URSS sobreviveu décadas sem a revolução alemã; a China não colapsou depois do stalinismo —, a conclusão não é “talvez a doutrina precise ser revista”, mas sim “a realidade degenerou, traiu, burocratizou-se”. A dialética, que deveria ser o instrumento de autocrítica do pensamento em contato com o novo, torna-se o escudo que impede a autocrítica. Quanto mais petrificado o método, mais “dialético” o trotskista se considera. O movimento é exatamente o oposto do que Marx descreve: em vez de o pensamento se curvar diante do real (incluindo suas novidades e contradições indóceis), o real é forçado a se curvar diante do pensamento, e, quando não se curva, é condenado.

            O filósofo francês Henri Lefebvre, em seu livro Lógica Formal, Lógica Dialética (1947), descreveu com precisão esse processo de petrificação. Durante a Era Stálin, conta ele, lançou-se na França a consigna “Ciência proletária contra ciência burguesa”. Os ideólogos da época exigiam que a própria lógica, como tal, tivesse um “caráter de classe”. Diante da recusa de Lefebvre em substituir o princípio de identidade (A ≡ A) por uma “verdade proletária”, sua obra foi interrompida por “ordem do editor”. Lefebvre conclui que o “dia-mat stalinizado” (o materialismo dialético reduzido a doutrina de Estado) foi “uma tentativa de totalização, um sistema filosófico-político, uma filosofia de Estado”, no qual as “leis da dialética” eram “impostas por decreto”. O “dogmatismo staliniano”, escreve ele, “não se dignava observar que, ao pensar dialeticamente segundo este modelo constritivo, se perdia a coerência, e que se quisesse salvar a coerência, se perdia a dialética”[22].

            O trotskismo, ao reproduzir esse mesmo gesto — exigir que o adversário se submeta ao critério externo da “dialética”, aplicar o carimbo “não é dialético” como forma de encerrar o debate —, incorre no mesmo paradoxo apontado por Lefebvre. O dirigente trotskista Gerry Healy, em Studies in Dialectical Materialism (1982), insiste que “não pode haver treinamento dialético” sem a correta compreensão da natureza como fonte primária, e que as lideranças revolucionárias “em todos os países devem ser treinadas” segundo esse método. Mas o resultado prático dessa exigência é a transformação da dialética num padrão de medida externo, aplicado como um crivo de pureza, exatamente o oposto do movimento vivo que ela deveria ser[23].

            Essa petrificação explica os sintomas analisados na seção 8. O anarcocapitalista aplaude a crítica trotskista precisamente porque ela não é dialética no sentido forte: ela não transborda da forma lógica para a análise de classe; não incomoda o inimigo porque não sai do terreno da coerência interna. E Hollywood romantiza o trotskista como uma figura de passado idealista e inofensiva justamente porque sua dialética nunca precisou construir Estado, vencer guerras ou industrializar países atrasados — nunca precisou sujar as mãos com a impureza do real.

            Uma dialética viva — não petrificada, não dogmática — teria que começar por uma pergunta inconveniente: e se o trotskismo, ao longo de sua história, tiver sido ele próprio o principal obstáculo à sua própria causa? E se o método da crítica externa, da pureza abstrata, da recusa ao diálogo efetivo, for exatamente o que impediu o trotskismo de se tornar uma força política real? Estas são perguntas dialéticas no sentido original: não porque petrificam um método, mas porque submetem o próprio pensamento à prova do real. O trotskismo brasileiro pode continuar a repetir “isso não é dialético” para cada crítica que lhe é dirigida. Mas essa repetição, longe de atestar sua fidelidade ao método, atesta justamente o contrário: petrificou-se exatamente o que deveria permanecer vivo.

Conclusão: O Trotskismo entre a História e o Dogma

            A crítica ao método dogmático do trotskismo não é uma defesa acrítica de Stálin, nem uma apologia ao stalinismo como bloco monolítico. É uma constatação — construída ao longo deste ensaio com evidências históricas e análise concreta — de que a forma como o debate é conduzido pelo trotskismo brasileiro produz um movimento incapaz de falar com a classe trabalhadora real.

O diagnóstico percorreu várias camadas. Primeiro, identificou-se o núcleo do problema: uma crítica externa que toma “Marx” e “Lênin” como totens abstratos, medindo toda experiência histórica por um ideal que nunca precisou descer ao chão da prática. Em vez de diálogo efetivo, o que há é polêmica como reafirmação dogmática. Em vez de análise concreta, condenação moral.

Em seguida, demonstrou-se que esse método não é novo. Ele já estava presente no comportamento de Trótski no XIII Congresso: seu silêncio diante da decisão de manter Stálin no cargo, sua recusa em fazer valer o Testamento que ele próprio, anos depois, usaria como arma. E estava presente na avaliação de Nadejda Krupskaia, que no mesmo congresso alertou: a oposição deve proceder com o Partido de maneira disciplinada. Krupskaia não era “stalinista” — ela própria se oporia a Stálin dois anos depois. Sua crítica veio de dentro da tradição bolchevique, da autoridade de quem conhecia Lênin como ninguém. E foi ignorada.

Do ponto de vista histórico mais amplo, recorremos a João Cláudio Platenik Pitillo para lembrar que a validação ou invalidação de Stálin como dirigente não pode se reduzir a um documento de 1922-1923. A União Soviética sob a liderança de Stálin industrializou-se aceleradamente, derrotou o nazismo na Grande Guerra Patriótica (destruindo 75% das forças do Eixo), e projetou-se como superpotência. O silêncio trotskista sobre estas realizações — ou sua redução a “degeneração burocrática” — é, talvez, a omissão mais sintomática de todas. A magnitude da vitória soviética desmente a tese trotskista da inviabilidade do socialismo construído num só país.

Os sintomas do método dogmático no presente são reveladores. O aplauso do anarcocapitalista — que se sente confortável para elogiar a crítica trotskista reduzida a objeções lógico-formais — demonstra que o trotskismo se tornou incapaz de produzir uma análise de classe que efetivamente incomode o inimigo de classe. A romantização por Hollywood — que trata o trotskista como o intelectual idealista, o dissidente bonito, o revolucionário romântico que no fundo é inofensivo — mostra que o trotskismo se tornou o comunismo que o sistema pode admirar porque já não precisa temer. E a caracterização mecânica da China como “imperialismo emergente” revela a recusa do trotskismo em analisar formações sociais contraditórias sem reduzi-las a categorias pré-fabricadas do século XX.

A esses três sintomas soma-se a recusa do trotskismo em tratar a economia como um campo de conhecimento legítimo. O gesto é o mesmo: desqualificar sem refutar, carimbar sem analisar, isolar sem dialogar. A economia política, quando não se submete ao carimbo da “Revolução Permanente”, vira “pseudociência” — e a esquerda perde a chance de disputar o terreno onde o capital realmente se reproduz.

O que esses sintomas têm em comum é que todos atestam a mesma condição: o trotskismo tornou-se uma crítica que o sistema pode tolerar. E é exatamente por isso que a defesa de Stálin — de seu legado contraditório, de sua industrialização forçada, de sua vitória sobre o nazismo — é o comunismo que o sistema não pode tolerar. E não pode tolerar exatamente porque não se reduz a nostalgia ou ideal abstrato: Stálin construiu um Estado, derrotou exércitos, desafiou a ordem mundial. Para o Realismo Capitalista, que opera pela neutralização da alternativa, o stalinismo é um escândalo: prova que o socialismo não é apenas um ideal romântico, mas uma potência real que já transformou o mundo — e que pode voltar a fazê-lo. Por isso a desestalinização não foi apenas um processo histórico; foi, como aponta Klaus Scarmeloto³, uma transição ideológica para a restauração do capitalismo. E por isso reabilitar Stálin — no sentido de reavaliar seu legado sem as lentes da demonização trotskista ou da Guerra Fria — não é um gesto nostálgico. É um ato de guerra contra o Realismo Capitalista[24].

            O trotskismo brasileiro enfrenta, portanto, uma escolha. Pode continuar a repetir o gesto que o define — a polêmica externa, a reafirmação dogmática, a recusa a aprender com a história — e permanecer o que é: um círculo fechado que debate entre si sem falar com a classe trabalhadora. Ou pode, quem sabe, fazer o que nunca fez: debater “por dentro” suas próprias contradições. Isso incluiria o comportamento de Trótski no XIII Congresso, sua recusa em reconhecer os méritos da industrialização stalinista, sua incapacidade de construir alianças duradouras, e o fato incômodo de que Krupskaia — a viúva de Lênin, crítica de Stálin, companheira de oposição dois anos depois — avaliou, no momento crucial, que a oposição trotskista era facciosa, desorganizadora e prejudicial à unidade do movimento.

            O que está em jogo não é a “pureza teórica” do trotskismo, mas sua eficácia política real. Uma corrente que não consegue dialogar com outras tradições, que recusa a autocrítica, que petrifica conceitos como totens intocáveis, e que se torna, sem saber, objeto de admiração do campo ideológico adversário e de romantização pela indústria cultural, já deixou de ser uma ferramenta de transformação social. Tornou-se um clube de debates para iniciados, uma seita acadêmica que fala para si mesma, uma nostalgia revolucionária que só ameaça a si mesma.

            Enquanto essa autocrítica não ocorrer, o veredicto está dado. O trotskismo brasileiro continuará condenado à irrelevância política no momento histórico em que a classe trabalhadora brasileira mais precisa de direção revolucionária. E, pior: continuará a receber, sem saber, o aplauso do inimigo, o abraço romantizado da indústria cultural e o conforto de uma doutrina que responde a todas as perguntas sem precisar investigar nenhuma realidade concreta, três gestos que, longe de celebrarem sua pureza teórica, atestam sua impotência prática.

            Em última instância, o trotskismo falhou porque seu anti-stalinismo visceral o transformou em um aliado objetivo do liberalismo. Seja ao reduzir a Grande Guerra Patriótica a um conflito entre dois totalitarismos, ao negar a liderança de Stálin na construção do Exército Vermelho, ou ao fornecer, como vimos com os exemplos de figuras públicas do movimento, uma munição preciosa para que anarcocapitalistas desqualifiquem a experiência soviética como um todo, o resultado prático é sempre o mesmo: o fortalecimento da narrativa hegemônica do capital. O movimento que se pretendia a “vanguarda mais consequente” da revolução mundial tornou-se um departamento auxiliar da ideologia burguesa, encarregado de patrulhar as fronteiras do que pode ou não ser dito sobre o “lado errado” da história.

            Diante desse quadro, a história não espera. O capitalismo não se desmanchará sozinho. A pergunta que fica para o trotskismo brasileiro é simples: vocês querem vencer debates abstratos na universidade e nas redes sociais, ou querem ajudar a construir um movimento capaz de transformar o mundo real? Porque, até agora, as evidências apontam decisivamente para a primeira opção. E isso, para qualquer corrente que se pretenda revolucionária, é a derrota mais definitiva de todas.

 

 

Referências e Notas de Rodapé

 1 MIGUEL URBANO RODRIGUES, Apontamentos sobre Trótski — O mito e a realidade, Marxists Internet Archive. Disponível em: https://marxists-malta.org/portugues/rodrigues-miguel/2008/11/40.htm. O artigo analisa a “mitificação” de Trótski no Ocidente e argumenta que “nem um só dos partidos e movimentos trotskistas conseguiu afirmar-se como força política com influência real no rumo de qualquer país”.

2 PARTIDO COMUNISTA DA GRÉCIA (KKE), O trotskismo como movimento oportunista (resolução política). O documento caracteriza o trotskismo pela “fraseologia ultrarrevolucionária pequeno-burguesa em palavras e compromisso absoluto na prática”.

3 KLAUS SCARMELOTO (org.), A Atualidade de Stalin, São Paulo: Editora Raízes da América, 2021.

4 VLADIMIR LÊNIN, Carta ao Congresso (“Testamento”), 23 a 31 de dezembro de 1922. In: Lênin, Obras Completas, v. 45. O documento critica Stalin por ter “concentrado em suas mãos um poder imenso” e Trótski por estar “demasiado tomado pela segurança em si mesmo”. O adendo de 4 de janeiro de 1923 afirma que Stalin “é demasiado grosseiro” para o cargo de secretário-geral.

5 JOÃO CLÁUDIO PLATENIK PITILLO, “O Ocidente Insiste em Reescrever a História”, Brasil 247, 2025. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/o-ocidente-insiste-em-reescrever-a-historia. O artigo destaca que a União Soviética destruiu 75% das forças do Eixo e venceu as batalhas decisivas de Moscou (1941), Stalingrado (1942-1943) e Kursk (1943).

 6 LEON TROTSKY, A Revolução Traída, 1936. In: Trotsky, Obras Escolhidas, v. 8. A obra desenvolve a categoria de “degeneração burocrática” para explicar o stalinismo como uma “casta” que teria usurpado o poder da classe operária na URSS.

7 ISAAC DEUTSCHER, Trotsky: O Profeta Armado, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. O biógrafo polonês reconhece que “a velha guarda bolchevique, embora reconhecendo o talento de Trótski como estadista, nunca viu nele um homem do Partido” e que “o carácter de Trótski, a sua vaidade, o estilo autoritário, a sua tendência para a crítica demolidora inspirava desconfiança e até rancor”.

 8 LEON TROTSKY, discurso fúnebre para Nadejda Krupskaya, 1939. Publicado em The Militant, v. 3, n. 2, 1939. Trótski declarou que Krupskaia era “uma personalidade notável em sua devoção à causa, sua energia e pureza de caráter”.

 9 XIII CONGRESSO DO PARTIDO COMUNISTA RUSSO (BOLCHEVIQUE), relatório taquigráfico, 27 de maio de 1924. In: Arquivos Soviéticos (Biblioteca de Mikhail Grachev). Krupskaia declarou que “a duplicação dos debates sobre as diferenças não é desejável” e que a oposição deveria “proceder com o Partido de maneira disciplinada”. Os delegados votaram por não publicar o Testamento de Lênin e por manter Stálin no cargo de secretário-geral.

10 JANET MASLIN, “Reds Paints a Loving Portrait of John Reed”, The New York Times, 4 de dezembro de 1981. Disponível em: https://www.nytimes.com/1981/12/04/movies/reds-paints-a-loving-portrait. A crítica descreve o filme de Warren Beatty como “um dos mais ambiciosos, arriscados e improváveis filmes alguma vez feitos em Hollywood”, que retrata o jornalista comunista John Reed (único americano sepultado no Kremlin) com simpatia, contrastando com o tratamento dado ao stalinismo.

11 DAVID WALSH, “The folly of a youth: The Trótski”, World Socialist Web Site, 23 de junho de 2010. Disponível em: https://www.wsws.org/en/articles/2010/06/trot-j23.html. A crítica cita o diretor Jacob Tierney descrevendo o filme como “um suflê” e conclui que o protagonista é reduzido a “um jovem bufão sério, mas inofensivo”.

12 PETER BRADSHAW, “Trumbo Review – Thank You for Smoking Redux”, The Guardian, 5 de novembro de 2015. Disponível em: https://www.theguardian.com/film/2015/nov/05/trumbo-review-bryan-cranston. O crítico descreve o roteirista comunista Dalton Trumbo como “um daqueles comunistas românticos (e bastante inocentes) que lutavam por uma ideologia sem saber muito bem o que ela significava”, sugerindo que os comunistas americanos perseguidos pelo macarthismo “eram apenas boas pessoas ingênuas iludidas”.

13 Dados sobre os cortes de Milei na educação superior e na ciência argentina: ver relatórios do CONICET e declarações do ministro de desregulação e transformação do Estado, Federico Sturzenegger. A universidade pública argentina perdeu 70% de seu orçamento real nos primeiros meses de 2024, e o CONICET (principal órgão de fomento à pesquisa) teve 30% de suas vagas de ingresso eliminadas (Fonte: *Página/12*, março de 2025).

14 AXEL KICILLOF, “Kicillof sobre la escuela austríaca: ‘es marginal y absolutamente anacrónica'”, declaração à imprensa, reproduzida em Ámbito Financiero, 2024.

15 JAVIER MILEI aplica sistematicamente teses da Escola Austríaca (Mises, Rothbard, Hayek) em políticas de Estado: fechamento de ministérios, desregulação completa da economia, dolarização implícita, extinção de órgãos de controle. A “motosserra” não é metáfora vazia; é programa de governo.

16 THOMAS HOBBES, Leviatã, parte I, cap. 6. Para uma análise detalhada da teoria hobbesiana do riso como “súbita glória” e manifestação de superioridade desdenhosa, ver QUENTIN SKINNER, Hobbes e a Teoria Clássica do Riso, São Leopoldo: Editora Unisinos, 2002.

17 Sobre o uso político do humor pela extrema-direita como mecanismo de dessensibilização, normalização do ódio e silenciamento da crítica, ver os resultados de busca sobre “estratégia do riso” e a análise do discurso de Milei, que frequentemente usa sarcasmo para atacar movimentos feministas (chamando-os de “zumbis ideológicos”), a educação pública e a ciência.

18 SIGMUND FREUD, O Chiste e sua Relação com o Inconsciente (1905). Freud argumenta que todo chiste (e, por extensão, toda risada) contém um conteúdo sério — demasiadamente sério para ser dito diretamente — que ganha expressão na forma cômica.

 19 A expressão “último suspiro da teoria que se divorciou da prática” retoma a crítica central do ensaio ao trotskismo dogmático: a recusa à análise concreta como condição da irrelevância política.

 20 MARK FISHER, Realismo Capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?, São Paulo: Autonomia Literária, 2020 (original de 2009). Fisher argumenta que o capitalismo contemporâneo opera como horizonte ontológico, neutralizando alternativas reais ao transformá-las em nostalgia ou fantasia.

 21 ELIAS JABBOUR; ALBERTO GABRIELE, China: o socialismo do século XXI, 1. ed., Belo Horizonte: Boitempo, 2021.

22 KARL MARX, O Capital, Livro I, “Posfácio à segunda edição” (1873).

 23HENRI LEFEBVRE, Lógica Formal, Lógica Dialética, 1947 (Prefácio à 2ª edição). Disponível em: https://www.abertzalekomunista.net/es/biblioteca-2/marxistas-internacionales/lefebvre-henri/318-logica-formal-logica-dialectica

 24 GERRY HEALY, Studies in Dialectical Materialism, 1982. In: Marxism, the Revolutionary Party and the Critique of Healy’s Studies on Dialectical Materialism.

25 MARK FISHER, Realismo Capitalista, São Paulo: Autonomia Literária, 2020. Fisher argumenta que o capitalismo contemporâneo não é apenas um sistema econômico, mas um horizonte ontológico que neutraliza qualquer alternativa real, transformando o socialismo em nostalgia. Reabilitar Stálin — no sentido de reavaliar seu legado sem as lentes da demonização trotskista ou da Guerra Fria — é um ato de guerra contra esse horizonte porque aponta para uma experiência real de construção socialista, com todas as suas contradições, que o Realismo Capitalista precisa constantemente recalcar.

[1] MIGUEL URBANO RODRIGUESApontamentos sobre Trótski — O mito e a realidade, Marxists Internet Archive. Disponível em: https://marxists-malta.org/portugues/rodrigues-miguel/2008/11/40.htm. O artigo analisa a “mitificação” de Trótski no Ocidente e argumenta que “nem um só dos partidos e movimentos trotskistas conseguiu afirmar-se como força política com influência real no rumo de qualquer país”.

[2] PARTIDO COMUNISTA DA GRÉCIA (KKE)O trotskismo como movimento oportunista (resolução política). O documento caracteriza o trotskismo pela “fraseologia ultrarrevolucionária pequeno-burguesa em palavras e compromisso absoluto na prática”.

[3] KLAUS SCARMELOTO (org.). A Atualidade de Stalin. São Paulo: Editora Raízes da América, 2021.

 

[4] VLADIMIR LÊNINCarta ao Congresso (“Testamento”), 23 a 31 de dezembro de 1922. In: Lênin, Obras Completas, v. 45. O documento critica Stalin por ter “concentrado em suas mãos um poder imenso” e Trótski por estar “demasiado tomado pela segurança em si mesmo”. O adendo de 4 de janeiro de 1923 afirma que Stalin “é demasiado grosseiro” para o cargo de secretário-geral.

[5] JOAO CLAUDIO PLATENIK PITILLO, “O Ocidente Insiste em Reescrever a História”, Brasil 247, 2025. Disponível em:  brasil247.com/blog/o-ocidente-insiste-em-reescrever-a-historia.  O artigo destaca que a União Soviética destruiu 75% das forças do Eixo e venceu as batalhas decisivas de Moscou (1941), Stalingrado (1942-1943) e Kursk (1943).

[6] LEON TROTSKYA Revolução Traída, 1936. In: Trotsky, Obras Escolhidas, v. 8. A obra desenvolve a categoria de “degeneração burocrática” para explicar o stalinismo como uma “casta” que teria usurpado o poder da classe operária na URSS.

 

[7] ISAAC DEUTSCHERTrotsky: O Profeta Armado, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. O biógrafo polonês reconhece que “a velha guarda bolchevique, embora reconhecendo o talento de Trótski como estadista, nunca viu nele um homem do Partido” e que “o carácter de Trótski, a sua vaidade, o estilo autoritário, a sua tendência para a crítica demolidora inspirava desconfiança e até rancor”.

[8]LEON TROTSKY, discurso fúnebre para Nadejda Krupskaya, 1939. Publicado em The Militant, v. 3, n. 2, 1939. Trótski declarou que Krupskaia era “uma personalidade notável em sua devoção à causa, sua energia e pureza de caráter”.

[9] JANET MASLIN, “Reds Paints a Loving Portrait of John Reed”, The New York Times, 4 de dezembro de 1981. Disponível em: https://www.nytimes.com/1981/12/04/movies/reds-paints-a-loving-portrait. A crítica descreve o filme de Warren Beatty como “um dos mais ambiciosos, arriscados e improváveis filmes alguma vez feitos em Hollywood”, retratando o jornalista comunista John Reed — único americano sepultado no Kremlin — com simpatia, em contraste com o tratamento dado ao stalinismo.

 

[10] JANET MASLIN, “Reds Paints a Loving Portrait of John Reed”, The New York Times, 4 de dezembro de 1981. Disponível em: https://www.nytimes.com/1981/12/04/movies/reds-paints-a-loving-portrait. A crítica descreve o filme de Warren Beatty como “um dos mais ambiciosos, arriscados e improváveis filmes alguma vez feitos em Hollywood”, que retrata o jornalista comunista John Reed (único americano sepultado no Kremlin) com simpatia, contrastando com o tratamento dado ao stalinismo.

[11] PETER BRADSHAW, “Trumbo Review – Thank You for Smoking Redux”, The Guardian, 5 de novembro de 2015. Disponível em: https://www.theguardian.com/film/2015/nov/05/trumbo-review-bryan-cranston. O crítico descreve o roteirista comunista Dalton Trumbo como “um daqueles comunistas românticos (e bastante inocentes) que lutavam por uma ideologia sem saber muito bem o que ela significava”, sugerindo que os comunistas americanos perseguidos pelo macarthismo “eram apenas boas pessoas ingênuas iludidas”.

 

[12]  Dados sobre os cortes de Milei na educação superior e na ciência argentina: ver relatórios do CONICET e declarações do ministro de desregulação e transformação do Estado, Federico Sturzenegger. A universidade pública argentina perdeu 70% de seu orçamento real nos primeiros meses de 2024, e o CONICET (principal órgão de fomento à pesquisa) teve 30% de suas vagas de ingresso eliminadas (Fonte: Página/12, março de 2025).

 

[13] Axel Kicillof, “Kicillof sobre la escuela austríaca: ‘es marginal y absolutamente anacrónica'”, declaração à imprensa, reproduzida em Ámbito Financiero, 2024.

 

[14] Javier Milei aplica sistematicamente teses da Escola Austríaca (Mises, Rothbard, Hayek) em políticas de Estado: fechamento de ministérios, desregulação completa da economia, dolarização implícita, extinção de órgãos de controle. A “motosserra” não é metáfora vazia; é programa de governo.

 

[15] THOMAS HOBBES, Leviatã, parte I, cap. 6. Para uma análise detalhada da teoria hobbesiana do riso como “súbita glória” e manifestação de superioridade desdenhosa, ver QUENTIN SKINNER, Hobbes e a Teoria Clássica do Riso, São Leopoldo: Editora Unisinos, 2002.

 

[16] Sobre o uso político do humor pela extrema-direita como mecanismo de dessensibilização, normalização do ódio e silenciamento da crítica, ver os resultados de busca sobre “estratégia do riso” e a análise do discurso de Milei, que frequentemente usa sarcasmo para atacar movimentos feministas (chamando-os de “zumbis ideológicos”), a educação pública e a ciência.

[17] SIGMUND FREUD, O Chiste e sua Relação com o Inconsciente (1905). Freud argumenta que todo chiste (e, por extensão, toda risada) contém um conteúdo sério — demasiadamente sério para ser dito diretamente — que ganha expressão na forma cômica.

 

[18] A expressão “último suspiro da teoria que se divorciou da prática” retoma a crítica central do ensaio ao trotskismo dogmático: a recusa à análise concreta como condição da irrelevância política.

 

[19] MARK FISHER, Realismo Capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?, São Paulo: Autonomia Literária, 2020 (original de 2009). Fisher argumenta que o capitalismo contemporâneo opera como horizonte ontológico, neutralizando alternativas reais ao transformá-las em nostalgia ou fantasia.

[20] JABBOUR, Elias; GABRIELE, Alberto. China: o socialismo do século XXI. 1. ed. Belo Horizonte: Boitempo, 2021.

[21] MARX, Karl. O Capital, Livro I, “Posfácio à segunda edição” (1873).

 

[22]  HENRI LEFEBVRE, Lógica Formal, Lógica Dialética, 1947 (Prefácio à 2ª edição). Disponível em: https://www.abertzalekomunista.net/es/biblioteca-2/marxistas-internacionales/lefebvre-henri/318-logica-formal-logica-dialectica

 

[23] GERRY HEALY, Studies in Dialectical Materialism, 1982. In: Marxism, the Revolutionary Party and the Critique of Healy’s Studies on Dialectical Materialism.

[24] MARK FISHER, Realismo Capitalista, São Paulo: Autonomia Literária, 2020. Fisher argumenta que o capitalismo contemporâneo não é apenas um sistema econômico, mas um horizonte ontológico que neutraliza qualquer alternativa real, transformando o socialismo em nostalgia. Reabilitar Stálin — no sentido de reavaliar seu legado sem as lentes da demonização trotskista ou da Guerra Fria — é um ato de guerra contra esse horizonte porque aponta para uma experiência real de construção socialista, com todas as suas contradições, que o Realismo Capitalista precisa constantemente recalcar.