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De Titín a Comandante: A História do Jovem Fidel e a Construção de uma Figura Revolucionária

 

Por Carlos Magnum

 

A Juventude de Fidel Alejandro Castro Ruz, constitui capítulo pouco explorado na militância política em geral, embora bem abordado pelos biógrafos, pelos círculos acadêmicos historiográficos. O período que vai de seu nascimento, em 1926, até o ano de 1956, quando completou trinta anos de idade no exílio mexicano, foram fundamentais para o aprendizado e a construção da figura de maior relevo do continente latino e sul-americano [1, 2]. A análise do desenvolvimento de sua personalidade e de sua consciência revolucionária exige o exame das condições socioeconômicas da Cuba republicana e neocolonial, cenário onde as contradições do capitalismo dependente atuaram como o elemento material que impulsionou o jovem cubano em direção à rebeldia e ao estudo das leis da história [3, 6, 39]. Fundamentando-se nas fontes primárias e secundárias do projeto, incluindo as biografias de Claudia Furiati e Ignacio Ramonet, os volumes das Obras Escolhidas de Fidel Castro e as Obras Escolhidas de Raúl Castro, o presente estudo reconstrói de forma cronológica o percurso intelectual, ético e militar que preparou o Comandante em Chefe para liderar o processo de libertação nacional [6, 27, 38, 39]. O exame das fases de sua infância rústica em Birán, de sua rigorosa formação jesuíta em Santiago e Havana, e de sua efervescência política na Universidade de Havana revela que a trajetória de Fidel não foi retilínea, mas sim um processo dialético de autoeducação e superação ética das origens burguesas de sua própria família [3, 6, 20, 33].

I. AS ORIGENS EM BIRÁN E A INFÂNCIA NO CAMPO CUBANO (1926–1933)

A infância de Fidel Alejandro Castro Ruz iniciou-se em Birán, um enclave açucareiro localizado no norte da antiga província de Oriente, onde as condições de exploração do latifúndio neocolonial eram patentes [3, 6]. Oficialmente registrado como nascido em 13 de agosto de 1926 na fazenda de Birán, sua certidão de nascimento apresenta uma alteração administrativa posterior para o ano de 1926, com o objetivo de facilitar sua entrada no ensino secundário na capital [6, 8, 16]. A fazenda de seu pai, Ángel Castro Argíz, situava-se em um perímetro densamente ocupado e influenciado por gigantescas corporações transnacionais norte-americanas, como a United Fruit Company e a Miranda Sugar State, que ditavam o ritmo da vida econômica e social da região de Oriente [6, 8, 9]. Ángel Castro, um imigrante camponês originário da Galícia que chegara a Cuba como soldado espanhol no final do século XIX, acumulara uma fortuna considerável a partir de contratos agrícolas e exploração de terras próprias e arrendadas [6, 33, 39]. Ele chegou a dispor de cerca de mil hectares de terras próprias e dez mil hectares de terras arrendadas, administrando uma próspera fazenda que contrastava imensamente com a miséria dos camponeses e trabalhadores temporários da cana [33, 39]. A mãe de Fidel, Lina Ruz González, era uma camponesa de ascendência canária e de origem muito humilde na província de Pinar del Río, que aprendera a ler e a escrever de forma autodidata e conduzia as tarefas rurais com vigor e uma profunda religiosidade [3, 6, 30].

Nesse ambiente rústico e isolado, onde a fazenda familiar constituía praticamente a única estrutura organizada além do telégrafo e da escola pública mista, o menino Fidel conviveu diretamente com as camadas mais pobres da sociedade agrária cubana [3, 20, 39]. Seus companheiros de jogos infantis, de banhos nos rios e de caçadas eram os filhos dos camponeses analfabetos e dos cortadores de cana temporários, conhecidos como jornaleiros, que sofriam privações constantes [20, 21]. Essa convivência cotidiana no campo permitiu que Fidel percebesse desde muito cedo a dolorosa desigualdade social que existia na ilha, onde os trabalhadores eram submetidos a condições degradantes sem qualquer amparo do Estado ou assistência social [20, 33]. O próprio Fidel recordava em suas conversas biográficas com Ignacio Ramonet a profunda desigualdade que existia na escolinha pública de Birán, onde ele era o único menino que gozava de uma situação de riqueza [20, 21, 39]. Seus irmãos mais velhos, Angelita e Ramón, assim como sua prima Ana Rosa Soto Ruz, destacavam que o garoto, apelidado carinhosamente de ‘Titín’, demonstrava uma postura de atenção e altivez diante das realidades sociais ao seu redor [6, 8].

“Você era o único rico na escolinha de Birán? Era o único, ali não havia ninguém que fosse nem medianamente rico, nem que fosse dono de uma loja. Eram jornaleiros de pedacinhos de terra. As crianças todas, filhos de gente muito, muito pobre. Mas seguramente o que mais influenciou é que, onde eu nasci, vivia com a gente mais humilde. Lembro-me dos trabalhadores desempregados e analfabetos que faziam fila nas proximidades dos canaviais, sem que ninguém lhes levasse sequer uma gota de água, muito menos café da manhã, almoço, abrigo ou transporte. Também não consigo esquecer aqueles rapazes que andavam descalços. Todos os companheiros com os quais eu jogo, em Birán, com os que vou para cima, para baixo, por todas partes, são a gente mais pobre, alguns dos quais, incluso, a hora do almoço, eu lhes levava uma lata cheia de comida excedente, por não dizer sobrante.” RAMONET, Ignacio. Fidel Castro: biografía a dos voces. volume único. Barcelona: Debate, 2006. p. 441-442. [20, 21]

II. SANTIAGO DE CUBA: PRIVAÇÕES, BATISMO E INGRESSO NA ESCOLA CATÓLICA (1933–1942)

A necessidade de propiciar uma educação formal de melhor qualidade para os filhos levou os pais de Fidel a enviá-lo, em 1933, para a cidade de Santiago de Cuba, sob a tutela de sua professora Eufrasia Feliú Ruiz [39]. Essa mudança precoce, quando o menino não contava ainda com sete anos completos, representou o início de uma dura etapa de provações materiais na residência pobre e desprovida de móveis da família da professora [39, 40]. Enquanto em Birán ele usufruía da fartura da mesa paterna, em Santiago conheceu a escassez e o apetite contínuo, vivenciando em sua própria carne as dificuldades das famílias de classe média baixa da época [10, 40, 41]. Fidel recordava que a casa da professora possuía goteiras por todas as partes quando chovia e que ele precisava economizar cada centavo e remendar os seus sapatos velhos com linhas de costura [40, 41]. Ele compartilhava esse alojamento precário com sua irmã Angelita e, posteriormente, com seu irmão Ramón, todos submetidos a uma disciplina rígida que lhes impedia inclusive de frequentar cinemas ou de usufruir de momentos de recreação [41, 48]. Essa experiência de escassez desenvolveu em Fidel uma atitude de resistência física e de indignação diante das injustiças familiares e das limitações impostas pela autoridade dos Mazorra e da professora [1, 13, 41].

“Pode-se dizer que conheci a pobreza e passei fome. Eu mesmo tinha que costurar o sapato quando furava, arriscando-me a levar uma bronca quando a agulha quebrava. Enfim, fiquei praticamente sem eles, descalço, muitos dias. Estávamos muito magros e cabeludos, porque nem à barbearia nos levavam. Passamos um grande aperto.” REFERÊNCIA: FURIATI, Claudia. Fidel Castro: Uma Biografia Consentida. Do Menino ao Guerrilheiro. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2001. p. 66. [5-6]

Após os protestos constantes do menino contra o confinamento doméstico e a falta de instrução formal de nível primário, seus pais decidiram matriculá-lo, em janeiro de 1935, como aluno externo no Colégio Hermanos de La Salle [11, 41]. Para atender às exigências burocráticas e religiosas da prestigiosa escola católica de Santiago de Cuba, Fidel realizou seu batismo tardio em 19 de janeiro de 1935 [13, 41]. No La Salle, ele cursou com facilidade os primeiros anos letivos, destacando-se como um aluno de memória privilegiada e de excelente desempenho escolar, o que lhe rendeu uma promoção automática do terceiro para o quinto ano [11, 42]. Contudo, a atitude autoritária de um inspetor francês, Neón Marí, que exercia um controle abusivo sobre os estudantes internos e externos, despertou a rebeldia indomável do jovem estudante [36, 42]. Em resposta a uma punição severa que considerou arbitrária, Fidel rebelou-se fisicamente contra o monitor na frente de todos os colegas de classe, demonstrando uma dignidade que marcou sua exclusão temporária do sistema [36, 42]. Seus irmãos Ramón e Raúl Castro, que também haviam sido matriculados na escola, testemunharam os reflexos desse incidente, que culminou no retorno temporário dos irmãos para a fazenda de Birán sob o rótulo injusto de ‘bandidos’ [15, 36, 37].

Após um período de castigos agrícolas e de insistentes apelos de Fidel para continuar os seus estudos, seu pai aceitou enviá-lo novamente a Santiago de Cuba, matriculando-o, em janeiro de 1938, no Colégio de Dolores, regido pela Ordem dos Jesuítas [43]. O Colégio Dolores era uma instituição voltada para a alta burguesia e as famílias proprietárias da província de Oriente, caracterizada por um rigor acadêmico e uma disciplina intelectual muito superiores às da escola anterior [14, 43, 44]. Sob a tutela dos padres jesuítas, quase todos de origem espanhola, Fidel aprofundou-se em disciplinas de Letras, Geografia, Astronomia, Aritmética e História, adquirindo princípios éticos e um profundo sentido de dever pessoal [44, 45]. Ele era um explorador incansável nas montanhas da província de Oriente, desenvolvendo resistência ao percorrer as paragens próximas ao rio Cauto durante as férias [8, 12, 42]. Foi nesse período, em 6 de novembro de 1940, que o jovem Fidel, então com quatorze anos, escreveu uma carta em inglês ao presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt, demonstrando uma audácia e uma curiosidade intelectual singulares para um estudante secundarista [44].

III. ADOLESCÊNCIA EM HAVANA E O COLÉGIO BELÉN (1942–1945)

O excelente desempenho no Colégio Dolores motivou Fidel a tomar a decisão pessoal de transferir-se para a capital do país, ingressando, em 1942, no prestigiado Colégio Belén, a principal e mais moderna instituição da Ordem dos Jesuítas em Havana [16, 45]. Para possibilitar sua entrada no ensino secundário em Havana, uma vez que a escola exigia que o aluno contasse com quinze anos completos em junho de 1942 e Fidel completaria essa idade em agosto, seu pai Ángel Castro obteve a alteração formal de seus registros civis [16, 30]. No Belén, localizado na área residencial do Vedado, Fidel encontrou um ambiente de excelente infraestrutura educacional e esportiva, abrigando mais de cem alunos internos vindos das famílias mais ricas do país [31, 45]. Apesar da origem abastada de seus companheiros, ele manteve hábitos de desprendimento material e de convívio estreito com os funcionários humildes e os trabalhadores do colégio, o que lhe rendeu o apelido de ‘líder’ [31, 35]. Fidel destacou-se imediatamente na prática de esportes como o basquete, o beisebol e o futebol de campo, sendo reconhecido por sua resistência e espírito competitivo inabalável [17, 22]. Seu orientador e monitor mais direto no alojamento dos internos, o jesuíta espanhol Amando Llorente, tornou-se um grande confidente e amigo, influenciando sua formação ética baseada na dignidade e na autossuficiência física [45, 46].

“Fidel Castro Ruz distinguiu-se sempre em todas as matérias relacionadas com as Letras. Excelência e espírito congregante, foi um verdadeiro atleta, defendendo sempre com valor e orgulho a bandeira do colégio. Soube ganhar a admiração e o carinho de todos. Cursará a carreira de Direito e não duvidamos que preencherá com páginas brilhantes o livro de sua vida. Fidel tem madeira e não faltará o artista.” REFERÊNCIA: FURIATI, Claudia. Fidel Castro: Uma Biografia Consentida. Tomo I: Do Menino ao Guerrilheiro. volume 1. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2001. p. 124. [22]

Ao concluir seus estudos de bacharelado em Letras no Belén, em 1945, Fidel já demonstrava habilidades de oratória e oração admiráveis, exercitadas nos debates escolares organizados pela instituição [18]. O anuário escolar do Belén registrou o vaticínio profético do Padre Armando Llorente, que vislumbrava que o jovem cubano esculpiria de forma brilhante a sua própria vida e preencheria páginas inesquecíveis na história pública de Cuba [7, 22]. A sua saída do ambiente jesuíta, contudo, coincidiu com o início de um profundo questionamento sobre as estruturas de exclusão racial e social da Cuba republicana [34, 35]. Fidel notava com estranheza que, em um colégio de mais de mil alunos, não havia um único garoto negro matriculado, constatando as barreiras da segregação de classe na capital [34, 35]. Ele começou a perceber que o sistema de ensino privado reproduzia os privilégios das elites latifundiárias, burguesas e comerciais, forjando nele um espírito crítico que o guiou nas lutas estudantis subsequentes [35, 44].

IV. UNIVERSIDADE DE HAVANA: ATIVISMO ESTUDANTIL E FORMAÇÃO MARXISTA (1945–1950)

Em 27 de setembro de 1945, Fidel Castro ingressou na Universidade de Havana para cursar Direito, Ciências Sociais e Direito Diplomático [4, 24]. A Universidade, instalada na histórica Colina Universitária, era um espaço marcado por uma intensa efervescência política e por rivalidades violentas entre grupos de ação estudantis [24, 30]. Como ele próprio reconheceria em seus pronunciamentos tardios, ele entrou na universidade portando uma grande dose de idealismo moral e altiveza, mas sendo do ponto de vista prático um ‘analfabeto político’ [30, 39]. A sua imersão no ativismo da Federação de Estudantes Universitários permitiu-lhe travar contato com as correntes de pensamento do nacionalismo radical de herança martiana, além das obras clássicas da economia política e do materialismo dialético [5, 47]. Fidel proferiu dezenas de discursos na ‘escalinata’ e no muro do Palácio Presidencial contra a corrupção do governo de Ramón Grau San Martín e a repressão policial [5, 24]. Ele ocupou cargos de liderança estudantil, sendo eleito presidente do Comitê Pro-Democracia Dominicana e participando ativamente do Comitê Pro-Independência de Puerto Rico [5, 47].

O compromisso internacionalista de Fidel manifestou-se em ações armadas concretas durante a sua juventude universitária [5, 28]. Em meados de 1947, ele engajou-se na organização militar e no recrutamento da expedição de Cayo Confites, uma incursão armada que tinha como meta invadir a República Dominicana para derrubar a ditadura sanguinária de Rafael Leónidas Trujillo [28, 47]. Apesar do fracasso da expedição decorrente de delações de políticos cubanos e da intervenção das forças do exército, Fidel escapou da captura nadando pela baía de Nipe com sua arma e munições [28, 47]. No ano seguinte, em abril de 1948, Fidel viajou para a Colômbia com o objetivo de organizar um congresso de estudantes latino-americanos oposicionistas em Bogotá [29, 54]. Nesse cenário, em 9 de abril de 1948, ele testemunhou diretamente o assassinato do líder popular de esquerda Jorge Eliécer Gaitán, o que desencadeou uma rebelião de massas violenta conhecida como o ‘Bogotazo’ [19, 54]. Fidel uniu-se aos sublevados colombianos nas delegacias tomadas e nas ruas de Bogotá, vivenciando em combate urbano o poder e o desespero das massas quando desprovidas de uma organização de vanguarda revolucionária [19, 54].

De regresso a Havana após ser resgatado pela embaixada argentina, Fidel Castro dedicou-se à conclusão de sua formação acadêmica e ao fortalecimento de suas convicções políticas e teóricas [19]. Nesse período, ele aprofundou o estudo do socialismo científico por meio da leitura direta de textos como O Manifesto Comunista de Marx e Engels, além de O Capital, obras que lhe forneceram a chave analítica para interpretar a dinâmica do capitalismo periférico e da dominação imperialista [47]. Em outubro de 1948, Fidel casou-se com Mirta Díaz-Balart, com quem teve o seu primogênito, Fidel Castro Díaz-Balart, em setembro de 1949, constituindo uma fase de consolidação familiar que precedeu sua graduação [4, 26]. Em 1950, ele obteve o título de Doutor em Direito e estabeleceu uma banca de advocacia em Havana dedicada à defesa de camponeses, operários e líderes estudantis [26]. Como advogado dos humildes, Fidel utilizou os tribunais republicanos para denunciar a usurpação de terras e os abusos do latifúndio, concluindo que o aparelho de justiça burguês era estruturalmente desenhado para proteger as classes exploradoras [23, 26].

V. DO GOLPE DE BATISTA AO ASSALTO AO MONCADA (1950–1953)

A década de 1950 representou o divisor de águas na vida de Fidel Castro, momento em que a crise do regime neocolonial cubano desaguou na autocracia militar [44, 53]. O golpe de Estado desferido por Fulgencio Batista em 10 de março de 1952 eliminou as liberdades democráticas e destruiu a via pacífica constitucional de disputa de poder [44, 51]. Fidel concluiu que o parlamento e as petições formais eram inúteis e passou a organizar um movimento clandestino com jovens rurais e trabalhadores das províncias de Havana e Oriente [44, 51]. Diferente dos partidos tradicionais da burguesia de oposição, que defendiam alianças pacíficas e mecanicistas, Fidel Castro estabeleceu uma tática insurrecional baseada no combate armado e no sacrifício revolucionário [51, 53]. Em conjunto com seu irmão Raúl Castro e sob as ordens táticas de Renato Guitart e Abel Santamaría, ele planejou o assalto militar ao Quartel Moncada em Santiago de Cuba e ao Quartel Carlos Manuel de Céspedes em Bayamo [25, 42]. O assalto, realizado em 26 de julho de 1953, constituiu o motor inicial da insurreição, embora tenha sofrido um revés militar tático decorrente da surpresa e da dispersão dos combatentes [25, 42].

Após o combate no Moncada, as forças da ditadura de Batista iniciaram uma perseguição sanguinária que resultou na tortura e no brutal assassinato de dezenas de expedicionários e combatentes capturados [49]. Fidel Castro foi preso nos arredores da Sierra Maestra graças à atitude honrosa de um tenente do exército, Pedro Sarría, que impediu o seu fuzilamento imediato e garantiu a sua condução ao Vivac de Santiago de Cuba [27, 42]. Conduzido a julgamento em uma pequena sala do hospital civil, Fidel Castro assumiu a sua própria autodefesa como doutor em Direito e pronunciou o seu alegato histórico A História me Absolverá [27, 50]. Esse discurso de autodefesa, recheado de análises estatísticas sobre o desemprego camponês, o analfabetismo rústico e a carência de habitações camponesas, transformou-se no programa econômico e de justiça social da Revolução [50, 52]. Ao expor os cinco grandes problemas da nação (terra, industrialização, habitação, desemprego e educação), FidelCastro traçou o rumo de transformações que prepararam o povo cubano para as tarefas futuras da transição agrária e de soberania popular [50, 52].

VI. PRISÃO FECUNDA NA ILHA DE PINOS E AUTODEFESA (1953–1955)

Condenados a cumprir pena de prisão na Ilha de Pinos, Fidel Castro, seu irmão Raúl e os demais sobreviventes do assalto ao Moncada ingressaram no Presídio Modelo no final de 1953 [2, 28]. Esse período de encarceramento, apelidado por Fidel de ‘prisão fecunda’, foi transformado pela liderança revolucionária em uma academia de estudos políticos e teóricos [28, 55]. Eles fundaram a Academia Abel Santamaría, por meio da qual ministravam aulas teóricas de História de Cuba, Geografia, Economia Política e as lições do socialismo científico de Carlos Marx, Friedrich Engels e Vladimir Lenin [28, 55]. Mesmo submetido a um isolamento solitário rigoroso devido aos seus protestos contra a visita de Batista ao presídio em 1954, Fidel dedicou-se à leitura exaustiva e à redação secreta e com suco de limão de suas diretrizes de combate para os companheiros no exterior [28, 55]. A pressão popular massiva exercida pelas organizações camponesas e pela mobilização estudantil forçou o regime ditatorial de Batista a promulgar uma lei de anistia geral em maio de 1955 [44]. Em 15 de maio de 1955, Fidel e Raúl Castro cruzaram os portões do Presídio Modelo da Ilha de Pinos, cientes de que a luta armada popular era o único caminho viável para libertar a pátria [32, 44].

VII. O EXÍLIO NO MÉXICO E A CONEXÃO COM O CHE GUEVARA (1955–AGOSTO DE 1956)

Frente ao cerco implacável da polícia política do regime e à censura prévia de seus artigos nos jornais de Havana, Fidel Castro tomou a decisão estratégica de exilar-se no México em julho de 1955, com o objetivo de preparar a expedição armada de retorno [44]. No México, reunido com Raúl Castro e com outros combatentes sobreviventes do Moncada, Fidel iniciou a organização do Movimento 26 de Julho (M-26-7) no exterior [28, 44]. Foi na capital mexicana, em julho de 1955, na residência de María Antonia González, que ocorreu o histórico encontro entre Fidel Castro e o jovem médico argentino Ernesto ‘Che’ Guevara [44, 52]. O Che, que já possuía uma sólida formação ideológica marxista e presenciara a derrocada criminosa do governo democrático de Jacobo Arbenz na Guatemala pelas forças da CIA, identificou-se imediatamente com o espírito anticapitalista e de dignidade de Fidel [44, 52]. Guevara uniu-se imediatamente ao projeto revolucionário como médico da futura expedição, tornando-se um dos pensadores militares mais destacados do movimento insurgente de libertação nacional [44, 52]. Fidel e seus combatentes receberam uma formação militar exaustiva e rigorosa no Rancho Santa Rosa, no estado do México, sob a liderança do coronel e general espanhol Alberto Bayo, que participara ativamente das lutas antifascistas na Guerra Civil Espanhola [28, 44].

A preparação militar do movimento de libertação nacional cubano no México deparou-se com a severa perseguição de agentes da polícia secreta mexicana, que atuava sob influência da ditadura de Batista e dos serviços de inteligência norte-americanos [44, 47]. Em junho de 1956, Fidel Castro, o Che Guevara e vários revolucionários cubanos foram presos pela polícia secreta mexicana, sofrendo um confinamento temporário que ameaçou inviabilizar a partida da expedição armada [44]. Durante a detenção de Fidel no México, a intervenção de líderes políticos e intelectuais mexicanos de grande relevância nacional e patriótica foi essencial para garantir a sua liberação sem a extradição para Cuba [44]. O veterano general Lázaro Cárdenas, ex-presidente do México reconhecido por suas políticas de nacionalização do petróleo e de soberania camponesa, intercedeu diretamente perante as autoridades governamentais mexicanas para assegurar a liberdade e a integridade de Fidel Castro e de seus companheiros [44]. Ao ser libertado em meados de julho de 1956, Fidel completou exatamente trinta anos de idade em 13 de agosto daquele ano [6, 44]. Ao atingir essa idade madura, ele consolidara um caráter revolucionário inquebrantável, fundindo de maneira pioneira e indissociável o pensamento nacional-libertário e martiano com os pressupostos teóricos fundamentais do socialismo científico de Marx e Engels, preparando a partida do iate Granma rumo à Sierra Maestra [6, 44, 47].

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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