33 anos do outubro negro na Rússia
Por Lucas Zubelli e Artyom Aprelsky (Organização Orbit)
I. Introdução
Quando olhamos para a crise constitucional russa de setembro e outubro de 1993, o famoso “Outubro Negro”, é comum vermos a situação descrita simplesmente como uma infeliz consequência do “duplo poder”. Mas será que foi apenas isso? Na verdade, o episódio se configura muito mais como um autêntico golpe contrarrevolucionário, a cartada final que sacramentou a restauração capitalista na Rússia. Entender os bastidores desse desfecho a partir de uma perspectiva marxista continua sendo um exercício fundamental para compreendermos a política atual.
II. Contexto histórico
No fundo, aquele cenário de “duplo poder” maquiava uma queda de braço bem mais profunda entre duas alas da classe dominante: a burguesia compradora de um lado e, do outro, a velha nomenklatura partidária e econômica. Se ficarmos apenas na superfície dos eventos, veremos um cabo de guerra político clássico. Boris Yeltsin, o recém-eleito primeiro presidente da Federação Russa, batia de frente com a oposição instalada no Soviete Supremo, liderada pelo seu vice, Aleksandr Rutskoy, e por Ruslan Khasbulatov.
A disputa era clara. Enquanto o parlamento (Soviete Supremo) tentava frear e controlar o ritmo das mudanças, Yeltsin queria concentrar poder no Executivo para acelerar o pacote de reformas liberais iniciado em 1991. O pano de fundo para essa tensão era um verdadeiro cenário de terra arrasada: economia em colapso, aplicação de uma “terapia de choque” brutal e o processo agressivo de acumulação primitiva de capital.
A violência que explodiu em outubro não surgiu do nada; ela foi o clímax dessa guerra aberta contra os parlamentares que rejeitavam o neoliberalismo. A gota d’água veio quando Yeltsin decidiu dissolver o Legislativo na canetada. Em resposta, os deputados se barricaram dentro do prédio, o que serviu de estopim para uma repressão militar devastadora. Vale ressaltar que os governos ocidentais não apenas fecharam os olhos, mas endossaram ativamente o uso da força contra o parlamento russo, contando inclusive com a bênção explícita do então presidente americano, Bill Clinton.
III. Crônica do confronto
A escalada autoritária começou com o polêmico Decreto nº 1400. Usando a desculpa de que precisava “evitar uma guerra civil”, Yeltsin assinou a medida e imediatamente ordenou o bloqueio da chamada Casa Branca (a sede do parlamento russo). A partir dali, a situação saiu de controle.
O país assistiu atônito ao assalto ao centro de televisão de Ostankino, um banho de sangue que deixou cerca de 140 mortos, culminando nos absurdos bombardeios de tanques contra o próprio Parlamento entre os dias 3 e 4 de outubro. Foi através do poder bélico que Yeltsin conseguiu esmagar a resistência formada não só por integrantes do antigo regime, mas principalmente por trabalhadores que tentavam, em desespero, salvar o que ainda restava de suas garantias sociais e trabalhistas. Ao final, a repressão armada deixou um saldo sombrio de aproximadamente 160 mortos e centenas de feridos pelas ruas de Moscou.
IV. Análise dos aspectos centrais
A natureza de classe do conflito: os interesses da nascente oligarquia e do capital ocidental contra os funcionários públicos, pensionistas, unidades militares e nacional-patriotas que defendiam o antigo sistema.
O papel da mídia como instrumento de propaganda de classe.
A avaliação jurídica do Decreto nº 1400 (sobre a reforma constitucional por etapas na Rússia) como um ato inconstitucional, evidenciado quando o Parlamento declarou a tentativa de dissolução como ilegal, demitiu o presidente e proclamou Rutskoy como líder interino.
V. Consequências e memória histórica
A adoção da Constituição de 1993 como consolidação legal do poder da burguesia; o fortalecimento da vertical de poder; o trauma duradouro para os trabalhadores; a memorialização das vítimas e o caráter de classe da memória histórica sobre os eventos, marcada pela queixa de alguns apoiadores de Yeltsin de que os principais instigadores do conflito, que apelavam para um golpe, não foram a julgamento e acabaram anistiados.
O legado do “Outubro Negro” permanece vivo e continua gerando mobilizações. Recentemente, uma manifestação realizada em Moscou com o intuito de relembrar as quase 150 vítimas da invasão ao Parlamento terminou com a detenção de aproximadamente 60 indivíduos. De acordo com o Partido Comunista russo, as abordagens policiais e as prisões aconteceram no momento em que o ato já estava se encerrando. O partido também informou que iniciou os procedimentos necessários para garantir a soltura dos manifestantes detidos, destacando que a maior parte deles é composta por jovens. O cenário atual em que esses protestos ocorrem é marcado por um desgaste popular. Há uma insatisfação crescente na sociedade russa provocada pela escalada de ataques com drones ucranianos dentro do território do país. Como essas investidas têm focado em instalações de armazenagem de combustível e refinarias, a população tem enfrentado interrupções diretas no abastecimento.
VI. Conclusão
Se era possível evitar o derramamento de sangue, se havia alternativas dentro do sistema soviético, e por que o “Outubro Negro” se tornou o ponto sem retorno para o capitalismo, definindo o rosto da Rússia contemporânea como um Estado capitalista periférico.
Um vídeo com a música Belaya Noch da banda Pós-Punk Chernikovskaya Hata, resume bem a aflição e sensação horrível do período da Rússia liberal de Yeltsin.
Liga Comunista Brasileira – LCB
13 de outubro de 2026