A História da Revolução Russa: Parte 1
A Construção do Bolchevismo e as Raízes do Leninismo: A Revolução Russa (1861-1904)
Por Carlos Magnum
Introdução
Os fatores econômicos, sociais e políticos que desaguaram na Revolução Russa de 1917 exigem, para fins de compreensão, o afastamento de leituras meramente factualistas ou teleológicas. A Revolução não desceu do céu. Não veio escrita no destino, nem marchou como uma procissão inevitável. Ela foi feita por mãos humanas — mãos calejadas, trêmulas de frio, manchadas de graxa, de terra, de sangue. Foi feita a partir de escolhas, conflitos de classe, erros humanos e circunstâncias imprevisíveis. Entender a origem do bolchevismo e a criação do pensamento leninista supõe uma análise rigorosa das contradições viscerais ao Império Russo no epílogo do século XIX e na aurora do século XX. Para compreender isso tudo, é preciso abandonar a frieza das cronologias mortas e entrar na vida. Entrar nas oficinas abafadas, onde o metal em brasa iluminava rostos exaustos. Entrar nas aldeias, onde a colheita falhava e a fome voltava como um velho inimigo. Entrar nos quartéis, onde soldados mal equipados, ou nem isso, aprendiam, na lama e na guerra, que morriam por um mundo que não lhes pertencia. Paz, pão e terra não foram meras agitações, mas um pedido de socorro dos povos eslavos.
Neste período contextual, selado pelo modernismo industrial tardio e dependente, dentro de um sistema autocrático e semifeudal com forte presença do Estado e do capital financeiro de outras potências imperialistas, construiu-se o solo fértil onde as primeiras células da organização revolucionária buscaram raízes aproveitando-se do fato de que Rússia fora o elo frágil do sistema imperialista. Era um tempo de crescimento torto e pesado.
As fábricas surgiam às pressas, máquinas eram importadas e o suor do povo russo era, possivelmente, um dos mais baratos do continente. O ferro era moderno, mas o poder era antigo. Sobre o país ainda pesava a mão dura do Estado autocrático da dinastia dos Romanov, os latifundiários e os banqueiros falavam a mesma língua mesmo quando engoliam orgulhos.
E como sabemos, quando o capital vem de fora. Os lucros são os primeiros a irem embora.
Restando a insistente miséria que ficava no povo como um carrapato.
Nas cidades, operários trabalhavam sob o ritmo implacável de indústrias financiadas por bancos estrangeiros. Nos campos, o camponês continuava preso à terra como seus avós. Entre o novo e o velho, o país rangia — tenso, desigual, instável. Era um império forte por fora. Frágil por dentro.
Foi nesse solo contraditório que surgiram as primeiras células revolucionárias. Pequenos círculos. Reuniões silenciosas. Tipografias escondidas. Homens e mulheres que aprendiam a organizar, a estudar, a resistir.
Eles sentiam o que a vida ensinava todos os dias: naquele vasto sistema de dominação imperialista, a Rússia era o ponto mais fraco.
A diligência ora em curso, longe de se limitar à cronologia histórica dos fatos políticos, prontifica-se a desvelar o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção reticulares no cenário da Rússia czarista. O panorama medial consiste em assinalar como a ligação entre o sofrimento do campesinato medieval, e a ascensão de um proletariado industrial urbano altamente concentrado e explorado, permitiu a Lênin articular uma teoria de partido e de Estado que se distinguia do reformismo hegemônico da Segunda Internacional.
Sob este prima, a pesquisa cercou as origens da opressão eslava — a “Rússia dos Czares e Carrascos” — para revelar a dinâmica e estrutura da hierarquia de classes. Quando se examinam as disputas de ideias que atravessavam a velha Rússia — os sonhos agrários dos populistas, a prudência confortável da burguesia e o despertar duro e disciplinado do operariado — vê-se algo maior do que simples debates de livros. Nas fábricas esfumaçadas e nas aldeias castigadas pela fome, o marxismo deixava de ser apenas teoria estrangeira para tornar-se instrumento de combate. Panfletos passavam de mão em mão nas noites clandestinas, discussões acesas surgiam entre operários cansados após jornadas intermináveis, e pouco a pouco a doutrina se enraizava na própria experiência do povo. Assim se formaram as condições — objetivas e subjetivas — que fariam da ruptura de Outubro de 1917 não uma fantasia política, mas uma necessidade histórica, um grito de libertação nacional e social que ecoaria muito além das fronteiras russas, sacudindo regimes e ideologias por todo o mundo.
No capítulo 1, A “Rússia dos Czares e Carrascos”, ergue-se o retrato desse velho império, elucidamos que, no começo do século XX, o czarismo era o regime mais retrógrado e opressor da Europa — algo que Marx preconizava no século XIX —, operando como um poder absoluto e medieval sobre uma população majoritariamente camponesa e analfabeta que vivia em miséria, o czarismo ainda pesava sobre o povo como uma muralha medieval, governado pela dinastia dos Romanov, sustentado por polícia, baionetas e censura. Embora a servidão tenha sido formalmente abolida em 1861, o campesinato permanecia em dependência medieval e miséria extrema A população era majoritariamente camponesa, pobre e analfabeta; embora a servidão tivesse sido abolida em 1861, a dependência permanecia viva nas dívidas, nos latifúndios e nas colheitas incertas. Entre 1891 e 1910, o país enfrentou treze anos de más colheitas e três anos de fomes severas. A industrialização, financiada majoritariamente por capital estrangeiro, baseava-se na exploração brutal do proletariado, com jornadas de trabalho exaustivas (12 a 15 horas) e condições sanitárias deploráveis. Nessas fábricas financiadas por capital estrangeiro onde reinava a superexploração, os trabalhadores dormiam em dormitórios superlotados, sustentando com o próprio corpo o crescimento industrial de um país que pouco lhes dava em troca.
O “Cárcere das Nações”, o Império suprimia as identidades nacionais, proibindo línguas locais e fomentando inimizades étnicas e o antissemitismo como ferramenta de controle estatal, povos inteiros eram obrigados a esquecer suas línguas, suas tradições, sua própria identidade; o poder czarista alimentava rivalidades étnicas e o antissemitismo para dividir os oprimidos e preservar seu domínio. Repressão Violenta onde qualquer resistência era respondida com violência sistêmica, exemplificada pelo massacre do “Domingo Sangrento” em 1905, onde tropas imperiais fuzilaram uma manifestação pacífica de 140.000 pessoas que pediam pão e justiça. O regime mantinha 90% da população sob coerção e fome, tornando-se insustentável por depender exclusivamente da força bruta para se manter, embora vez ou outra concedesse direitos como foi a abertura da duma.
No segundo capítulo, a análise desloca-se da estrutura social para a práxis política o olhar abandona apenas a paisagem da miséria e volta-se para aquilo que começou a nascer dentro dela: a ação consciente. Se a “Rússia dos Czares e Carrascos” forneceu o cenário de insustentabilidade material, é na virada do século XIX para o XX que emerge o instrumento de sua superação. Nas cidades industriais que cresciam entre a neve e a fumaça das fábricas, entre greves e prisões, formou-se POSDR: Partido Operário Social-Democrata Russo. Ali começava algo novo. Este segmento dedica-se a examinar como a fragmentação das revoltas camponesas e o idealismo dos Narodniks (populistas) cederam lugar ao rigor científico do marxismo, traduzido para a realidade russa por figuras como Plekhánov e, posteriormente, consolidado pela genialidade de Lênin que surgiu como figura de maior relevo no marxismo do século XX. Ainda hoje, após Marx e Engels, Lênin prossegue como o maior nome do Marxismo incontestavelmente. Até mesmo grandes desenvolvimentos do século XX, como as conquistas do homem no espaço, e, principalmente, a industrialização recorde responsável pela vitória sobre o Nazismo que gerou nas palavras de Deustcher a transição do arado a boi para o domínio atômico, tem por base o discípulo de Lênin: Stálin. “Foi Stálin, declaram eles, quem construiu a União Soviética como uma superpotência. Foi Stálin quem industrializou um país camponês, levou-o dos arados de madeira às armas atômicas, lançou-o no século XX e fez o Ocidente tremer perante o poder da Rússia”1.
Um de seus primeiros biógrafos sérios, Isaac Deutscher, argumentou que Stalin havia usado métodos bárbaros para expulsar o atraso e a barbárie da Rússia. “O cerne da verdadeira conquista histórica de Stalin”, escreveu Deutscher em 1953, logo após a morte do ditador, “reside no fato de que ele encontrou a Rússia trabalhando com arado de madeira e a deixou equipada com bombas atômicas.”¹³ Vale ressaltar que Deutscher era um antigo seguidor do grande rival de Stalin, Trotsky (assassinado por um agente de segurança soviético no México em 1940), e não simpatizava pessoalmente com o ditador comunista. 2
Sob sua direção teórica e política de Lênin, nasceu a ideia de um partido de novo tipo. Não um clube parlamentar como os partidos reformistas da Europa ocidental, acomodados em discursos e eleições, mas uma organização disciplinada de revolucionários profissionais. Um partido forjado na clandestinidade, perseguido pela polícia czarista, alimentado pelas grandes greves operárias da década de 1890 e pela experiência dura da luta cotidiana que alcançaria grandes feitos no século XX.
O terceiro capítulo dedica-se à engenharia política, pedagógica e teórica que permitiu a cristalização da ala bolchevique do POSDR. Analisamos o papel vital da imprensa clandestina — especificamente os jornais Iskra e mencionamos brevemente a Pravda — como o “andaime” organizativo que transformou círculos locais dispersos em um organismo nacional disciplinado. Para além da logística, investigamos a distinção dialética entre a propaganda (formação teórica de quadros) e a agitação (mobilização de massas), demonstrando como o bolchevismo treinou o proletariado para superar o “narcisismo de classe” e o “economicismo”, alcançando uma consciência política integral.
A obra aprofunda-se na histórica cisão de 1903, desvelando que o embate entre Lênin e Martov em torno do Parágrafo 1º dos Estatutos não foi mera disputa semântica e sim uma escolha entre um partido de revolucionários profissionais e uma agremiação amorfa e vulnerável. O capítulo encerra-se demonstrando como a recusa radical ao conciliacionismo e a adoção de uma disciplina férrea permitiram que a “qualidade” bolchevique prevalecesse sobre a “quantidade” menchevique, forjando a falange de batalha que conduziria a Revolução de Outubro. A história subsequente da revolução russa será realizada em outra oportunidade.
A apreensão da Revolução Russa — e de qualquer formação social em estado de sublevação — requer o estudo exaustivo e minucioso das questões concretas que delineavam a política da Rússia czarista no fim do século XIX. Para além disso, é essencial avaliar as lutas operárias que antecederam a fundação do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) que, junto dos sovietes, foram os catalisadores da transformação que culminou na instauração da República por meio da Revolução de Outubro de 1917. Para compreender a Revolução Russa, não basta repetir palavras. É preciso vislumbrar, imaginar criativamente. Vislumbrar a neve suja nas ruas de Petrogrado, ouvir o ranger das máquinas nas fábricas, sentir o cheiro de pão, ainda que escasso, nas casas dos operários. A revolução não nasceu de livros, tão somente, embora por eles norteada. Nasceu da fome, do frio, do cansaço sem fim. Nasceu da vida.
Mediante a manutenção do poder nas mãos da nobreza aristocrática dos Romanov, a Rússia foi um império de antagonismos intensos, no qual o desenvolvimento forçado das forças produtivas se reproduzia em uma dinâmica política semifeudal e extremamente repressora. A brutal realidade, vivida por todos os estratos oprimidos, ambientava o contexto em que Vladimir Lênin criou o conceito de um “partido de novo tipo”, isto é, um ordenamento organizado de revolucionários peritos, especialistas, profissionais e competentes em todas as áreas do saber necessárias para a realização da revolução. Isto divergia fundamentalmente das tendências do reformismo europeu que se opunham ferozmente a defesa de um partido centralizado3.
O caminho revolucionário da Rússia foi totalmente assinalado pela evolução imperialista do capitalismo. O paradoxo em questão escancarava e brilhava mais que os raios do sol: as cidades industrializadas continham fábricas desenvolvidas e revelavam o luxo das elites financeiras que contrastavam com a pobreza extrema da classe trabalhadora e dos camponeses — ambos explorados tanto pela burguesia quanto pela aristrocracia que sugava também os patrões. O caráter da exploração russa era mero reflexo das medievalidades e dos pré-capitalismos preservados pelos monopolistas que preferiam conciliar com a aristocracia para maximizar a exploração4.
A exploração, a opressão, ambas reforçadas pelos aristocratas czaristas, estabilizavam um regime imensamente arbitrário de repressão. Por consequência, a classe trabalhadora, enfurecida como um vulcão em erupção, mas endurecida, tal qual o frio cortante das geleiras da sibéria, lutava há décadas por seus interesses e, com o tempo, tornou-se a força motriz da revolução que vinha se desenhando. Já os camponeses, cansados de apelar ao coração inexistente dos aristocratas com petições simbólicas, passaram a ação direta, a expropriação de terras da nobreza e dos latifúndios.5
Assim se iniciava o século XX, com o amadurecimento e a desilusão avassaladora dos camponeses e trabalhadores russos. Greves transcendiam questões econômicas, convertiam-se em manifestações políticas, frequentemente recebidas com repressão armada. Os czares, que receberam, no passado, o dinheiro de Bismarck, não aprenderam com ele que o braço se preserva pela entrega da mão. Graças a vossas medidas repressivas que só aumentavam, a greve econômica, que virou manifestação, em 1903, tornou-se ainda mais voraz, passando a ter o caráter político típico das greves gerais. A greve geral de 1903 arrebatou 200.000 trabalhadores de todas as nacionalidades, levando a coesão proletária que se tornou uma vanguarda revolucionária e inspiradora em outros países.6
Na prática, a abolição da servidão foi, tão somente, uma formalidade, porque as grandes propriedades não mudaram. Claro, alguns donos de terra tentaram modernizar e usar técnicas capitalistas, mas a grande maioria simplesmente resistiu. Eles mantiveram o velho esquema de alugar a terra em troca de trabalho ou colheita, o que, vamos ser sinceros, é feudalismo com outro nome. Isso criou um problema duplo: o camponês continuou sendo explorado, atolado em impostos e sem remuneração salarial, e o trabalhador da cidade (o proletariado nascente) ficou refém de atravessadores. O resultado óbvio foi fome e epidemia para todos os lados.7
Essa dinâmica comprometeu totalmente o desenvolvimento do mercado interno e a modernização agrícola, retardou o avanço do capitalismo no campo. Os camponeses ricos, os latifundiários, chamados de Kulaques, emergiram como uma nova classe burguesa, enquanto os camponeses pobres, incapazes de competir, transformaram-se em trabalhadores assalariados ou migraram para as cidades, engrossando as fileiras do proletariado urbano. Assim, a sociedade rural russa passou por uma polarização acelerada, com o desaparecimento do padrão tradicional e o surgimento de novas classes sociais, refletindo a tensão entre o atraso estrutural e as exigências do capitalismo emergente8. Além disso, as comunas russas, que Marx chamava com muito entusiasmo de Obschinas, encontravam dificuldades para se preservar.
Depois da reforma de 1861, emergiu, tanto nas camadas populares quanto na política do governo czarista, um broto capitalista. A aristocracia procurou fortalecer a economia e o aparato militar do império, assumindo um papel mais central no desenvolvimento das forças produtivas, protegendo a indústria nacional com tributação alfandegária e, por fim, oferecendo grandiosas encomendas às fábricas bem como um extenso investimento nas ferrovias9.
A aristocracia estatal, era proprietária de muitas terras, florestas, minas e fábricas antes das reformas e integrou-se parcialmente ao capitalismo quando conquistou ferrovias e indústrias privadas. Constantemente, funcionários do governo, ministros etc., adquiriam ações em empresas públicas e privadas de capital aberto, estabelecendo vínculo direto do aparato estatal com o aparelho privado empresarial onde todos os envolvidos lucravam.10
A partir da década de 90 do século XIX, o governo russo estimulou a abertura para capitais internacionais, criando um controle de setores estratégicos: mineração, metalurgia, petrolíferas, por exemplo. Os investidores franceses, belgas, alemães e britânicos foram os principais a lograr êxito. Isso acelerou o desenvolvimento industrial à custa da saída de uma leva grande dos lucros nacionais e diminuiu a autonomia da burguesia nacional, acostumada a depender dos aristocratas para suas ilegalidades. Ao impulsionar o capitalismo por uma via prussiana, não clássica, de cima, o Estado desenvolveu os interesses aristocráticos e as potências imperialistas em vez de observar as necessidades do povo russo e até mesmo da burguesia russa, antagonizando os interesses nacionais que, posteriormente, custariam caro11.
A imponente fachada da autocracia czarista, escondida numa economia rural estagnada, registrara poucos progressos importantes desde a emancipação dos servos, um campesinato faminto e inquieto. Grupos terroristas estavam em atividade desde a década de 1860, com repetidos surtos de violência e repressão12. No começo do século XX, o czarismo era o regime mais retrógrado e mais opressor da Europa. Tratava-se de um poder feudal, medieval, absoluto, que reinava sobre uma população essencialmente camponesa e analfabeta 13.
Na visão historiográfica, a exploração dos camponeses servos nesse período era considerada “quase tão brutal quanto a exploração dos escravos no mundo antigo”14. O campesinato russo vivia no obscurantismo e na miséria mais sombria, em estado crónico de fome. De tempos a tempos explodiam grandes epidemias e revoltas da fome. Entre 1800 e 1854, o país tinha conhecido 35 anos de escassez; entre 1891 e 1910 houve 13 anos de más colheitas e três anos de fomes15.
Durante as décadas de 1870 e 1880, o país enfrentou uma crise agrária prolongada que se estendeu até meados da década de 1890, provocada pela queda dos preços internacionais e pela baixa produtividade do solo. A desigualdade no campo era evidenciada pelo fato de que, no final do século XIX, cerca de “30.000 grandes latifundiários possuíam 70 milhões de deciatinas de terras”, enquanto milhões de famílias camponesas viviam em condições de inanição16
A crise agrária do último quarto do século XIX, que abrangeu os países da Europa ocidental, a Rússia, e depois também os Estados Unidos, começou na primeira metade da década de 70 e prolongou-se, de uma ou outra forma, até meados da década de 90 do século XIX. Ela foi provocada pelo fato de que, em consequência do desenvolvimento do transporte marítimo e da ampliação da rede ferroviária, começou a entrar no mercado europeu, em grande quantidade, o trigo mais barato proveniente da América, da Rússia e da Índia.
A produção de trigo custava mais barato na América em decorrência do cultivo de novas terras férteis e da existência de terras livres, pelas quais não se cobrava a renda absoluta. A Rússia e a Índia podiam exportar trigo para a Europa ocidental a preços baixos porque os camponeses russos e indianos, sufocados por tributos superiores as suas forças, eram obrigados a vender o trigo a preços ínfimos. Os arrendatários capitalistas e os camponeses europeus, em face da elevada renda, aumentada pelos grandes proprietários de terra, não podiam suportar essa concorrência.17
Esse cenário resultou em uma diferenciação social aguda, onde a “pequena produção engendrava o capitalismo e a burguesia diariamente e em escala de massa”18. Consequentemente, enquanto uma minoria de camponeses ricos, os kulaks, prosperava através da usura e da posse de máquinas, a maioria era reduzida à condição de proletários rurais.
Sugerimos que o leitor compare os argumentos dos nossos populistas agrários com os dados reais sobre a formação do mercado interno. Eles afirmam: “Se o pequeno produtor rural prospera, a indústria floresce, e vice-versa”. No entanto, esses autores ignoram completamente a natureza social da riqueza exigida pela indústria. Essa riqueza não surge do nada; ela depende da transformação de produtos, meios de produção e da própria força de trabalho em mercadorias.
Esses teóricos se consolam com a ideia de que o grão comercializado vem do “agricultor familiar” e que a infraestrutura logística sobrevive graças a ele. Mas será que eles não percebem que esses supostos “membros da comunidade” já operam como capitalistas de fato?
Eles insistem que o agronegócio capitalista é inexistente onde impera a posse comunitária da terra, e que ele só surgiria com o fim dos laços sociais tradicionais. Essa “oportunidade” de provar tal tese nunca chegou — e nem chegará. Os fatos mostram justamente o contrário: o desenvolvimento da agricultura capitalista dentro das comunidades, onde os laços tradicionais foram totalmente adaptados para servir a grandes produtores que exploram o trabalho assalariado. 19
A partir de 1890, a industrialização começou a penetrar de forma mais agressiva na economia russa, estimulada massivamente pelo capital estrangeiro e pela construção da ferrovia Transiberiana20.
O capitalismo ocidental foi um fator determinante. Contudo, os chamados “Narodniks” — apesar da fé mística que depositavam no “povo” (narod) — eram, em sua maioria, “aristocratas arrependidos”. Tratava-se de proprietários de terras que sentiam culpa por viverem da exploração camponesa. Devido à sua origem, educação e mentalidade, eles estavam totalmente desconectados da realidade rural e nutriam, inclusive, um certo receio dos camponeses reais.
Os intelectuais das décadas de 1870 e 1880 que decidiram “ir ao povo” para viver e trabalhar nas aldeias enfrentaram barreiras imensas. Era quase impossível estabelecer um diálogo com camponeses analfabetos e dominados pela Igreja. A filosofia política dessa classe rural resumia-se a uma vaga esperança religiosa de que o czar — uma figura tão distante e hipotética quanto o próprio Deus — um dia aliviaria seu sofrimento e puniria os opressores.
Como diz o provérbio russo:
“Deus está no alto do céu e o czar está longe demais.”
Enquanto isso, o latifundiário permanecia ali, bem presente e exercendo seu domínio imediato.
As transformações sociais surgiram com o acelerado desenvolvimento industrial dos últimos trinta anos do século XIX. No entanto, esse processo foi financiado quase inteiramente por capital estrangeiro, o que pouco alterou o status da classe média local.
Dependente do Ocidente para obter capital, técnicos e ideais políticos, a burguesia russa via-se obrigada a buscar a proteção do Estado czarista para se defender de rivais economicamente mais fortes. Não havia, por parte deles, qualquer intenção de desafiar a hegemonia política da monarquia e da nobreza. Essa postura só mudaria no século XX, quando o regime ruiu sob as tensões de uma guerra moderna, expondo sua total incompetência, corrupção e incapacidade de manter a ordem e a estabilidade financeira. 21
“No passado, a Rússia era a Rússia dos czares e dos carrascos. Vivia mantendo oprimidos os povos que formavam o império russo. Seu governo vivia sugando o sangue dos povos por ela oprimidos, inclusive o povo russo. Era o tempo em que todos os povos maldiziam a Rússia.22
O desenvolvimento capitalista na Rússia, como se viu, não só ocorreu posteriormente do que na Europa Ocidental, mas também se fez sob condições específicas e voluntárias de dependência quando os Czares abriram o país para o capital financeiro internacional, isso futuramente explicará a subserviência da Rússia na Primeira Guerra Mundial. Além disso, fora incentivado por empréstimos internacionais e financiamentos estatais, engendrando uma classe trabalhadora centrada em grandes indústrias, mas sem qualquer direito político elementar. Lênin avaliou que, ao contrário do Ocidente, no qual a burguesia tomou a frente da luta contra o pré-capitalismo, na Rússia a burguesia era extremamente pusilânime e tendia a aliar-se ao czarismo contra o proletariado revoltado.
As forças produtivas na Rússia se formaram sob parte do êxodo rural, com a imensa maioria dos ex-camponeses. Esse êxodo, acompanhado pela quebra das estruturas milenares de vida campesina, aproximou trabalhadores urbanos e camponeses, criando, assim as estruturas para uma frente tática entre essas classes na luta revolucionária23. Ao fim, os czares foram as primeiras vítimas de vossas invenções tal como perilo que construiu um instrumento de tortura (um touro de bronze) para o tirano Fálaris que decidiu testar a máquina no próprio criador em vez de o recompensá-lo. Ao criar a indústria, os Czares criaram seus coveiros.
Dada as más condições de trabalho da classe trabalhadora e camponesa floresceram em progressão geométrica a consciência de ambas24.
Conforme cresciam as condições do trabalho industrial, o poder de intervenção concreto do trabalhador russo cresceu nas regiões marginais do império, no qual os proletários regionais se juntaram à luta e a revolução. O proletariado russo dava exemplos ao proletariado de todas as regiões e países próximos. Esta troca de experiências foi fundamental aos povos que lutavam contra a existência do pré-capitalismo, distinguindo-se de todas as demais nações coloniais ao amarrar explicitamente os trabalhadores da nação predominante na conscientização das minorias nacionais25.
As últimas três décadas do século XIX na Rússia foram marcadas por uma “economia rural estagnada, que registrara poucos progressos importantes desde a emancipação dos servos26. Este atraso profundo ocorria em uma sociedade onde “a população camponesa era medieval nas instituições, asiática nas aspirações e pré-histórica nas concepções de vida”27. A partir de 1870, iniciou-se uma longa “crise agrária do último quarto do século XIX, que abrangeu os países da Europa ocidental, a Rússia, e depois também as Americas”28. Na esfera revolucionária, a década de 1870 assistiu à “ascensão do movimento narodnik, mais tarde substituído pelo Partido Social-Revolucionário, voltado para os camponeses”29.
A transição para a década de 1880 foi caracterizada pelo que Lênin denominou “etapa plebeia, ou democrático-burguesa, aproximadamente de 1861 a 1895”30. Foi em 1883 que Gueorgui Plekhánov fundou em Genebra o grupo “Emancipação do Trabalho”, iniciando formalmente “a luta pela edificação de um Partido Social-Democrata na Rússia”31. O ano de 1885 foi o marco do despertar da consciência operária russa, conforme demonstrado pela “grandiosa greve das fábricas têxteis de Petersburgo”, que assinalou o vigor do proletariado contra a autocracia32. Já no final daquela década, a indústria russa começava a se distinguir por muita concentração”, onde, em 1879, as grandes empresas já concentravam “54,8% da soma total da produção”33.
A década de 1890 representou a entrada definitiva da Rússia na era do “capitalismo monopolista”, consolidando a passagem do estágio pré-monopolista para o imperialismo34. Este processo de modernização foi impulsionado por obras faraônicas, como a “Ferrovia Transiberiana (1891-1903), que ligava a capital imperial ao Pacífico”35. A exploração brutal do proletariado nascente levou a agitações que forçaram o governo tsarista a uma “concessão imposta, arrancada em combate pelos operários russos”, resultando na “lei de 1897 [que] reduziu o dia de trabalho para 11 horas e meia”36.
Neste contexto de ascenso operário, em 1895, Vladímir Lênin organizou em São Petersburgo a “União de Luta pela Emancipação da Classe Operária”, fundindo a teoria marxista com a agitação fabril37. Em 1897, ocorreu a fundação do “Partido Marxista Russo dos Trabalhadores Socialdemocratas, o partido de Lenin, Martov e Plekhanov”38. O século XIX encerrou-se com a publicação da obra clássica de Lênin, O Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia (1899), que “completou a derrota ideológica do populismo” e revelou as bases econômicas da futura luta de classes39. Finalmente, o ano de 1900 marcou a fundação do jornal clandestino “Iskra para toda a Rússia”, atuando como o “elo fundamental na cadeia das tarefas dos marxistas russos” para a formação do partido de novo tipo40.
As raízes sociais da Revolução Russa demonstram que pouco mais de 5 a 10% da sociedade russa determinava a vida do restante. Uma minoria ínfima desfrutava de um luxo absoluto e de uma vida “culta” e “divertida”, desconectada da realidade, enquanto o restante, a maioria, viviam não muito melhores que escravos, o que implica que o sistema czarista não era apenas injusto, mas insustentável por ser insuportável. Um sistema que mantém 90% da população sob coerção e fome não possui base de apoio real, dependendo exclusivamente da força. Lenin, portanto, não foi o alpha e ômega da revolução, seu “único criador”, mas a própria arrogância do czarismo o levou a razão.
“Fato é que cerca de 90% ou mais da nação russa tinha pouca diversão nos velhos tempos e eram pouco melhores que escravos. Era divertido, admito, para os nobres, generais e os ricos e cultos. Mas não era grande coisa para as massas, que viviam como porcos na lama – e não como porcos no luxo.”.41.
“A Revolução Bolchevique foi feita, se quiser, por Lenin. Mas não se ‘faz’ uma revolução; é preciso haver condições específicas. A primeira e mais importante é que a maioria da população não goste de seu modo de vida… Os 5% no topo divertiam-se; ah sim, divertiam-se maravilhosamente. Mas os outros viviam como animais, sem sequer ter comida suficiente.”42.
A falência econômica de cem milhões de camponeses, a violência sistemática contra operários e intelectuais, e a privação absoluta de direitos civis era uma rotina no Czarismo. Stalin descreve o Estado não como um governo falho, mas como uma força criminosa ativa que utiliza o assassinato e o exílio para se manter, uma força estatal que aprendeu muito pouco ou nada com a experiência de Bismarck na Alemanha. O que permanece, contudo, é a construção de uma força necessária para a derrubada violenta do poder; a autocracia era perpetradora de atrocidades sombrias, o governo não tinha qualquer legitimidade, a revolução não era apenas uma opção política, mas um imperativo de sobrevivência nacional e de autodefesa. Além disso, o regime semeava inimizade e ódio” entre diferentes nacionalidades, Lênin e Stálin sugerem que a união das diversas etnias sob uma nova bandeira revolucionária seria o único antídoto contra a tática czarista de “dividir para conquistar”, antecipando a estrutura de uma união supranacional. Fato é que o quadro czarista, por si só, servia para convencer o povo de que a ordem vigente é sinônimo de destruição, tornando a ruptura não apenas inevitável, mas o único caminho para a preservação da propriedade e da vida.
“A autocracia czarista criminosa levou nosso país à beira da destruição. A ruína absoluta de cem milhões de camponeses russos, a condição oprimida e miserável da classe trabalhadora, as dívidas estatais excessivas e os pesados impostos, a completa falta de direitos da população, a tirania e violência sem fim que reinavam em todas as esferas da vida, e, por fim, a total insegurança na vida e propriedade dos cidadãos – eis o quadro terrível que a Rússia apresenta. Isto não pode continuar! A autocracia, perpetradora dessas atrocidades sombrias, deve ser destruída! […] Além das centenas de milhares de cidadãos pacíficos – operários assassinados nas ruas das cidades – além das dezenas de milhares de trabalhadores e intelectuais, os melhores filhos do povo, definhando em prisões e exílio, além dos assassinatos e violências diários cometidos pelos bashi-bazouks [tropas irregulares] czaristas nas aldeias, entre os camponeses de toda a Rússia, a autocracia inventou novos ultrajes para coroar tudo: começou a semear inimizade e ódio entre o próprio povo, provocando seções da população e nacionalidades inteiras umas contra as outras.”43
Ao estabelecer a proibição de línguas e o roubo de terras, o próprio império leva a crer que a revolução, em todas as suas etapas, não foi apenas uma troca de governo, mas um ato de libertação nacional que devolveu aos povos o direito à própria identidade e aos frutos do seu trabalho. Os motivos para o socialismo são claros como o sol bem como a ideia de que a consciência revolucionária é uma resposta ética e necessária de um indivíduo íntegro; em certo sentido, o “ódio à opressão” não é um sentimento negativo, mas o combustível para uma retidão que busca restaurar a justiça em um ambiente onde o ar já não era respirável.
A estatística mostra explicitamente o aumento das sentenças e, consequentemente, o despertar da resistência popular; o fato de as penas terem quintuplicado revela uma nação que parou de se curvar, sugerindo que o povo já não temia o cárcere porque a busca pela liberdade superava o instinto de preservação individual perante um sistema agonizante. Por fim, os números expõem o massacre, mas carregam a mensagem da santificação do sacrifício popular; ao listar os milhares de mortos e feridos, tudo sugere que o sangue derramado pelo czarismo foi o que selou o destino irrevogável da autocracia, transformando vítimas em mártires e transformando a revolução em uma dívida histórica de reparação que os sobreviventes tinham a obrigação ética de cobrar.
O contraste entre o que testemunhei sob Nicolau II em 1916 e 30 anos depois era como escuridão total versus luz solar. O Império era com razão chamado de ‘cárcere das nações’. Analfabetismo, pobreza abjeta, doença e exploração estavam por toda parte. Escolas em línguas nacionais eram proibidas. A riqueza era sugada enquanto a indústria permanecia primitiva. As melhores terras eram dos nobres russos. Inimizades nacionais eram fomentadas deliberadamente como arma contra movimentos de libertação.44
Stalin recordou seus motivos para aderir ao socialismo: ‘Tornei-me marxista por minha condição social (meu pai era operário) … e pela disciplina jesuítica do seminário… O ódio à opressão czarista saturava o ar que respirava’45.
Entre 1905 e 1914, as sentenças a trabalhos forçados (katorga) quintuplicaram com a crise da autoridade czarista46.
“De janeiro de 1905 a abril de 1906, o governo czarista matou mais de 14.000, executou 1.000, feriu 20.000 e prendeu/exilou 70.000.”47
O analfabetismo não era o único fator de atraso. Estudantes eram doutrinados à obediência cega ao Trono, Altar e Império. Preconceito e superstição eram incentivados. Problemas sociais e ciência moderna eram proibidos. Até Guerra e Paz de Tolstói era banido das escolas — enquanto os soviéticos venderiam 40 milhões de cópias!48
No campo, a desigualdade na posse da terra era gritante, com menos de 30.000 grandes latifundiários possuindo cerca de 70 milhões de deciatinas de terra, a mesma quantidade que pertencia a dez milhões de famílias camponesas pobres.
“Para se ter uma ideia do poder econômico desta classe na Rússia, basta citar o seguinte fato fundamental, comprovado pelos dados estatísticos do governo sobre a propriedade de terras em 1905, publicados pelo Ministério do Interior. Menos de 30.000 latifundiários na Rússia Europeia possuem 70.000.000 de dessiatines de terra; essa mesma quantidade de terra é compartilhada por 10.000.000 de famílias camponesas com as menores parcelas de terra. Isso resulta em uma média de cerca de 2.300 dessiatines por grande proprietário e, no caso dos camponeses pobres, uma média de apenas 7 dessiatines por família. 49.
Mesmo após a abolição formal da servidão em 1861, os camponeses permaneceram em “bondade perpétua”, sendo forçados a pagar tributos aos antigos senhores por terras que já eram cultivadas com o suor de seus ancestrais. Aqueles que não possuíam cavalos para arar a terra — cerca de sete milhões de famílias em 1927 — eram frequentemente forçados a usar o próprio esforço físico ou o de suas vacas para puxar o arado.
Essa aspiração é fomentada e incentivada de todas as formas pelos defensores da burguesia, que fingem ser paladinos e amigos do pequeno camponês. Muitas pessoas simplórias não conseguem ver o lobo em pele de cordeiro e repetem esse engano burguês acreditando que estão ajudando os camponeses pobres e médios. Argumentam, em livros e discursos, que a pequena propriedade seria a forma mais lucrativa e rentável de agricultura, que ela estaria florescendo e que é por isso, dizem eles, que existem tantos pequenos produtores em todos os lugares apegados à sua terra (e não porque as melhores terras pertencem à burguesia, assim como todo o dinheiro, enquanto os pobres precisam viver uma vida de escravidão confinados em minúsculos lotes!). O pequeno camponês não precisa de muito dinheiro, dizem esses sujeitos de língua afiada; os camponeses pequenos e médios seriam mais econômicos e industriosos que os grandes fazendeiros, sabendo viver uma vida mais simples. Em vez de comprar feno para o gado, contentam-se em alimentá-lo com palha. Em vez de comprar uma máquina cara, levantam mais cedo e trabalham por mais tempo, rendendo tanto quanto uma máquina; em vez de pagar a terceiros por reparos, o próprio camponês pega seu machado no domingo e faz o serviço de carpintaria — o que sai muito mais barato do que o método do grande fazendeiro. Em vez de alimentar um cavalo caro ou um boi, usa sua própria vaca para arar. Na Alemanha, todos os camponeses pobres usam vacas em seus arados; e em nosso país o povo empobreceu tanto que começa a usar não apenas vacas, mas homens e mulheres para puxar o arado! Como tudo isso é lucrativo e barato! Como são dignos de elogio os camponeses pequenos e médios por serem tão industriosos e diligentes, por viverem vidas tão simples e não perderem tempo com bobagens, por não pensarem no socialismo, mas apenas em suas fazendas; por não se unirem aos operários que organizam greves contra a burguesia, mas buscarem os ricos, tentando juntar-se às fileiras das ‘pessoas respeitáveis’! Se todos fossem tão esforçados e diligentes, vivessem frugalmente, não bebessem, economizassem mais, gastassem menos com tecidos e tivessem menos filhos — todos seriam felizes e não haveria mais pobreza ou necessidade! 50
O camponês médio vivia em condições subumanas, habitando choças escuras e sem ventilação, comendo pão negro e batatas por não ter recursos para adquirir carne, ovos ou leite.
O Dr. Emile Joseph Dillon viveu na Rússia de 1877 a 1914. Viajou por todas as regiões do império. Conheceu os ministros, a nobreza, os burocratas e as sucessivas gerações de revolucionários. O seu testemunho sobre o campesinato russo merece ser tido em conta. Começa por nos descrever a miséria material em que vivia a maioria de campesinato. «O camponês russo deita-se às seis ou mesmo cinco horas, durante o inverno, porque não pode comprar petróleo para se iluminar. Não tem carne, ovos, manteiga, leite, muitas vezes nem couves, vive sobretudo de pão negro e batatas. Vive? Vai definhando com uma quantidade insuficiente de alimentos.»51
Lênin descreveu como o governo czarista via essa massa: como “gado pagador de impostos”, privada de direitos e sujeita à “disciplina do chicote” por parte da nobreza fundiária:
“Os proprietários nobres ‘emanciparam’ os camponeses russos de tal forma que mais de um quinto de todas as terras camponesas foi recortado e tomado pelos latifundiários. Os camponeses foram obrigados a pagar o ‘dinheiro de redenção’ — ou seja, um tributo aos antigos senhores de escravos — por suas próprias terras, que já haviam sido regadas com seu suor e sangue. Eles pagaram centenas de milhões de rublos em tais tributos aos senhores feudais, caindo assim em uma pobreza cada vez maior. Não satisfeitos em tomar as terras camponesas e deixar para eles as piores parcelas, por vezes inteiramente inúteis, os proprietários frequentemente armavam armadilhas: dividiam as terras de modo a deixar os camponeses sem pastos, prados, florestas ou água para seus animais. Na maioria das províncias (gubernias) da Rússia propriamente dita, os camponeses, após a abolição da servidão, permaneceram no mesmo estado de servidão desesperada perante os latifundiários. Após a ‘emancipação’, os camponeses continuaram a ser a classe social ‘inferior’, gado pagador de impostos, o rebanho comum sobre o qual as autoridades estabelecidas pelos latifundiários mandavam à vontade, de quem exigiam taxas, a quem açoitavam, maltratavam e humilhavam. 52
Aqueles que não possuíam cavalos para arar a terra eram frequentemente forçados a usar o próprio esforço físico ou o de suas vacas para puxar o arado. Nas cidades, o desenvolvimento industrial operava-se através da exploração brutal de um proletariado recém-formado e desprovido de qualquer proteção legal.
A essa altura, uma nova força surgia em cena: o movimento operário criado pela industrialização. O proletariado russo — arrancado de seus minúsculos lotes de terra, lançado em fábricas e minas, amontoado em alojamentos insalubres, mal pago e sobrecarregado de trabalho — rapidamente adquiriu consciência de si em condições altamente favoráveis à união, à solidariedade de classe, à organização e ao desenvolvimento de um movimento revolucionário de massas. Como o desenvolvimento capitalista na Rússia foi tardio, muitos ramos da indústria saltaram diretamente da fase artesanal para a grande fábrica com equipamentos modernos. Essas fábricas tendiam a ser geridas por empresas estrangeiras, interessadas principalmente em retornos rápidos, ou por capitalistas locais menos eficientes, que só conseguiam competir reduzindo custos: havia mais vítimas a cada ano nas fábricas russas do que durante toda a guerra Russo-Turca de 1877-78. Assim, a luta de classes mostrava-se especialmente nua e crua. Diferente da classe média, o proletariado russo herdou do Ocidente uma ideologia que ainda não havia perdido sua vitalidade. As revoluções de 1848 e a Comuna de Paris de 1871, somadas aos escritos teóricos de Marx e Engels e à experiência política da Segunda Internacional, produziram um corpo de doutrina socialista e tradições especificamente voltadas à revolução operária. 53
A jornada de trabalho nas fábricas e manufaturas era exaustiva, em condições de higiene deploráveis e perigosas. Ao dizer que a indústria “destrói os véus patriarcais”, Lenin implica que a exploração no campo deixou de ser disfarçada por laços de tradição ou “proteção” senhorial para se tornar uma agressão econômica direta. A menção à jornada de trabalho agrícola ser mais longa que a industrial carrega a mensagem implícita de que o camponês mecanizado está em uma situação de desvantagem tática ainda maior que o operário fabril, tornando a organização coletiva uma questão de urgência médica e vital. Implicitamente, o autor sugere que a tecnologia (as máquinas), sob o controle do capital, não é um instrumento de progresso, mas uma nova arma de suplício. Isso justifica, na lógica do texto, a necessidade de um “controle público” e, futuramente, da apropriação desses meios de produção pelos próprios trabalhadores para que a máquina pare de produzir doenças e passe a produzir liberdade.
A indústria mecanizada de grande escala, ao concentrar massas operárias, transformar os métodos de produção e destruir todos os véus e proteções tradicionais e patriarcais que ocultavam as relações entre as classes, leva invariavelmente a atenção pública em direção a essas relações, bem como a tentativas de controle e regulamentação social. Esse fenômeno, que encontrou expressão marcante na inspeção fabril, também começa a ser observado na agricultura capitalista russa, precisamente na região onde esta é mais desenvolvida. A questão das condições sanitárias dos trabalhadores foi levantada na Província (Gubernia) de Kherson já em 1875, e novamente em 1888, culminando em um programa de estudo em 1889. A investigação realizada (embora insuficiente) revelou as condições de trabalho nas aldeias remotas: constatou-se que, na maioria dos casos, os trabalhadores não possuem alojamentos; quando existem alojamentos coletivos, são precários e, frequentemente, encontram-se ‘cavernas’ ou abrigos subterrâneos habitados por pastores, que sofrem com umidade, superlotação, frio e escuridão. A alimentação é, em regra, insatisfatória. A jornada de trabalho varia de 12,5 a 15 horas, sendo bem superior à jornada da grande indústria (11 a 12 horas). Pausas durante o calor intenso são raríssimas exceções, e doenças cerebrais tornam-se comuns. O trabalho com máquinas gera divisões e doenças ocupacionais: nas debulhadoras, os ‘alimentadores’ realizam um trabalho perigoso sob densas nuvens de poeira, enquanto os ‘lançadores’ enfrentam um esforço tão pesado que as equipes precisam ser trocadas a cada uma ou duas horas. As conclusões do Sr. Tezyakov indicam que a ideia antiga de que o trabalho do lavrador seria a ‘mais agradável e saudável das ocupações’ não se sustenta sob o espírito capitalista. Com a mecanização da agricultura, as condições sanitárias não melhoraram, mas pioraram, introduzindo uma especialização do trabalho que gerou doenças ocupacionais e uma série de lesões graves. 54
Em 1908, o salário médio de um operário fabril era de apenas 20 rublos e 50 kopeks mensais, valor insuficiente para cobrir as necessidades básicas de uma família diante dos altos aluguéis. A exploração do trabalho infantil era uma prática comum e cruel, com crianças de 8 a 10 anos sendo incorporadas à produção industrial e têxtil para complementar a minguada renda familiar:
O capital extrai a mais-valia mediante a desenfreada exploração do trabalho infantil. O salário das crianças e adolescentes em todos os países capitalistas e coloniais é algumas vezes mais baixo do que o salário dos operários adultos. O salário médio das operárias era inferior ao salário médio do operário: nos Estados Unidos (1949) em 41%; na Inglaterra (1951) em 46%; e na Alemanha Ocidental (1951) em 42%. Esta diferença é ainda maior nos países coloniais e dependentes. Em 1949, nos Estados Unidos, mesmo de acordo com dados aquém da realidade, havia entre a população assalariada mais de 3,3 milhões de crianças e adolescentes. O trabalho infantil era amplamente empregado na Rússia tzarista. Parte não pequena dos operários têxteis e de empresas de outros tipos da Rússia era constituída de crianças com idades entre 8 e 10 anos. A exploração do trabalho infantil pelo capital assume uma forma particularmente brutal nos países coloniais e dependentes. Na Rodésia do Sul, por exemplo, as crianças africanas de 6 e 7 anos trabalham nas empresas durante 8 e 9 horas por dia, recebendo um miserável salário. 55
A saúde e a higiene pública refletiam o abandono das massas pelo Estado tsarista. A mortalidade infantil era assustadora, com uma em cada quatro crianças de pais operários morrendo antes de completar o primeiro ano de vida. Na capital, São Petersburgo, o adensamento populacional era tal que a média era de quatro pessoas por quarto, o que facilitava a propagação de doenças.
Os tempos eram difíceis: trabalhadores gastavam metade da renda em comida e um quarto em habitação e roupas. A taxa de mortalidade anual era de 23 a 26 por mil. Vivendo em média quatro pessoas por cômodo, os operários de São Petersburgo pagavam os aluguéis mais altos do império. A cidade carecia de sistema de esgoto; fossas em quintais eram a norma e o lixo acumulava-se nas ruas. Sete em cada dez operários compartilhavam um quarto(…). Cerca de 60% da população da capital eram camponeses que migravam para empregos industriais, trazendo consigo hábitos rurais que confundiam os moradores antigos, que os viam como uma massa ignorante destinada aos piores salários. Da mesma forma, dezenas de milhares de não russos — poloneses, lituanos, letões, finlandeses e judeus — eram recrutados para as fábricas. O antissemitismo e a intolerância étnica infectavam o Império do topo à base..” 56
Em 1912, o governador-geral da capital advertiu que a cidade carecia de sistema de esgoto e o lixo acumulado nas ruas gerava “deficiências sanitárias gravíssimas”. A expectativa média de vida no império era de meros 30 anos, um índice significativamente inferior ao de potências europeias como a Grã-Bretanha, onde a média era de 52 anos.
A Rússia imperial encarou o desafio da modernidade com considerável sucesso. Tornou-se a quarta ou quinta maior potência industrial do mundo, graças aos têxteis, e maior produtora agrícola da Europa, graças à enorme dimensão do país. Mas aí estava o problema: o PIB per capita da Rússia era apenas 20% do da Grã-Bretanha e 40% do alemão.53 São Petersburgo tinha a corte mais opulenta do mundo, mas, quando o futuro Stálin nasceu, a média da expectativa de vida no país era de apenas trinta anos, mais alta do que na Índia britânica (23), mas não melhor do que na China, e bem abaixo da Grã-Bretanha (52), da Alemanha (49) e do Japão (51). A taxa de alfabetização no reinado do tsar Nicolau II estava em torno de 30%, inferior à da Grã-Bretanha no século XVIII. A elite russa sabia dessas comparações intimamente porque visitava a Europa com frequência e avaliava seu país não em comparação com potências de terceira categoria — o que chamaríamos de países em desenvolvimento —, mas com as de primeira. Porém, mesmo que as elites russas fossem mais modestas em suas ambições, seu país poderia esperar pouca trégua no início do século XX, tendo em vista a unificação e a rápida industrialização da Alemanha e a consolidação e a industrialização do Japão. Quando uma grande potência bate de repente à porta de seu país, com tecnologia militar avançada, oficiais que são alfabetizados e capazes, soldados motivados, instituições estatais bem geridas e escolas de engenharia no país, você não pode gritar “injusto”. O avanço socioeconômico e político da Rússia tinha de ser, e era, medido em relação ao dos seus rivais mais avançados.5457
O nível cultural era igualmente alarmante, com o analfabetismo atingindo 76% da população acima de nove anos de idade antes da revolução.
A renda nacional da URSS, que pertence inteiramente aos trabalhadores, cresceu, de 1913 a 1937, a preços constantes, em mais de 4 vezes. A produção de objetos de consumo pela grande indústria cresceu, de 1913 a 1937, em quase 6 vezes. Se, na Rússia de antes da revolução, os analfabetos constituíam 76% da população de 9 anos e mais, já na URSS, ainda antes da Segunda Guerra Mundial o analfabetismo tinha sido, no fundamental, liquidado. O número de alunos de escolas de instrução geral de todos os tipos (no território da URSS, com as fronteiras de antes de 17 de setembro de 1939) aumentou de 7,9 milhões, em 1914, para 30,3 em 1937; o número de alunos de escolas técnicas e de outros estabelecimentos de ensino médio especializado passou de 35,8 mil para 862,5 mil; o número de estudantes de estabelecimentos de ensino superior passou de 112 mil para 547,2 mil; a tiragem de livros cresceu de 86,7 milhões para 677,8 milhões; a tiragem dos jornais se elevou de 2,7 milhões para 36,2. 58
A resistência a essas condições era tratada com repressão violenta: em 1905, tropas imperiais fuzilaram uma multidão desarmada que pedia pão e justiça, resultando em mais de mil mortos.
As maiores metalúrgicas de São Petersburgo, as oficinas Putilov — um reduto do partido. A greve espalhou-se rapidamente por toda a cidade. Foi ali que ocorreu um dos eventos mais trágicos da história do trabalho na Rússia: o massacre do ‘Domingo Sangrento’, diante do Palácio de Inverno em 9 de janeiro de 1905. A demonstração pacífica de 140.000 pessoas era liderada pelo padre Gapon, que tinha ligações com a polícia secreta. Os bolcheviques alertaram os trabalhadores de que os oficiais do czar ordenariam que as tropas disparassem contra eles, mas, ainda assim, a manifestação prosseguiu. A petição das massas exigia ‘anistia, liberdade civil, salários normais, a transferência gradual da terra para o povo e a convocação de uma assembleia constituinte com base no sufrágio universal e igualitário’. Conforme o partido previra, o czar voltou suas armas contra as massas desarmadas, resultando em uma carnificina horrível com mais de 1.000 mortos e 2.000 feridos.” (…)
Confrontada por uma autocracia semifeudal selvagem, a classe operária russa era especialmente consciente e revolucionária — características que foram direcionadas e acentuadas pelo trabalho do brilhante líder bolchevique, Lenin. Os operários trabalhavam como escravos de 11 a 13 horas por dia por salários de miséria; eram tiranizados nas oficinas, não possuíam o direito de se organizar industrial ou politicamente, e suas greves e movimentos de protesto eram recebidos com repressão sangrenta. As prisões estavam repletas de combatentes da classe operária. Os camponeses enfrentavam um regime igualmente árduo: eram sistematicamente roubados de suas terras, esmagados por impostos e estavam nas mãos de agiotas implacáveis. Tanto operários quanto camponeses, quando o governo achava conveniente, eram recrutados aos milhões para morrer nos campos de batalha a serviço do imperialismo do czar. As diversas nacionalidades que compunham o povo russo também eram submetidas a uma repressão impiedosa e, periodicamente, pogroms violentos eram dirigidos contra os judeus. A Igreja Ortodoxa estava completamente identificada com todo esse sistema monstruoso de roubo e opressão. 59
Como resumiu Lênin, a revolução não foi uma “aventura”, mas uma necessidade histórica imposta por uma situação sem saída, em que o país caminhava para o colapso econômico e a barbárie total sob o jugo da autocracia.
Lênin designou legitimamente a Revolução de Outubro como uma «revolução operária e camponesa».35 Lênin designou legitimamente o governo soviético como um «governo operário e camponês».36
Lênin assinalou justamente que a revolução socialista na Rússia foi acelerada pela situação sem saída das massas populares, pelo seu ódio ao regime existente, que havia levado o país a um estado catastrófico, a pontos de perder a autonomia económica e política.
Nestas condições apenas a revolução socialista podia salvar o país. Por isso, Outubro de 1917 não foi nenhuma «aventura», como lhe chamam os anticomunistas não só estrangeiros mas também domésticos, «mas uma necessidade, pois não se apresentava outra escolha».37 (…).
A novidade dos problemas que tiveram de ser resolvidos, o caminho pioneiro que escondia muitas surpresas, o desconhecimento e a dificuldade dos problemas obrigaram a que se caminhasse todo o tempo às apalpadelas.
Em 31 de Julho de 1919, no seu discurso no I Congresso de Toda a Rússia de Trabalhadores da Instrução e da Cultura Socialista, Lénine afirmou: «A Rússia é o primeiro país ao qual a história deu o papel de iniciador da revolução socialista, e é precisamente por isso que nos são exigidos tantas lutas e sofrimentos.»41 A União Soviética encontrou-se durante muitos anos e décadas numa situação de «fortaleza sitiada», sob permanentes ameaças militares, alvo de aventuras e provocações dos imperialistas. É indiscutível que depois da Revolução de Outubro, o País dos Sovietes foi ao longo de uma série de décadas um oásis, um país socialista isolado, sob um cerco capitalista hostil. Daqui a necessidade de uma atenção máxima à defesa do país e à indústria pesada. 60
Os populistas (Narodnikis) se centravam na agitação nas aldeias, mas foram os protestos nas cidades que ascenderam fortemente. No entanto, como alegria dos oprimidos pouco dura, a repressão czarista era intensa, greves e a atividades populares em geral, eram intensamente perseguidas, apesar disso o movimento crescia e com ele a consciência do povo. 61
No decorrer de 1875, nasceram as organizações de trabalhadores que visavam a independência da classe proletária. Foram elas: a União dos Operários do Sul da Rússia, em Odessa, e a União dos Operários do Norte da Rússia, em São Petersburgo. Lideradas por figuras como Yevgeny Zaslavsky, Victor Obnorsky e Stepan Khalturin, estas foram as primeiras organizações a rejeitarem a plataforma populista e a lutar por outros métodos de batalha estruturados em medidas bem sucedidas de luta fincados pela Primeira Internacional. A novidade que se espalhava eram o aumento de direitos políticos, mas, infelizmente, a reação as destruiu facilmente com uso da força policial do império62.
Embora a duração dessas iniciativas fosse incipientes, introduziram germes coesos para edificação da consciência ideológica entre os trabalhadores. O embate tornou-se nítido, como a alvorada, no decorrer da greve de 1885 na indústria têxtil, quando exigências reais vieram à cabo, como o fim do sistema de multas constantes impostas pelos proprietários das fábricas. A opressão a essa greve foi mortal, porém o Estado foi levado a regularizar através de uma lei de 1886 essas multas, a vitória parcial foi significativa para a classe trabalhadora do período63.
Quando o proletariado tomou a frente do movimento democrático, a chave virou. Não foi só uma mudança de liderança, mas ideológica: o populismo deu lugar ao marxismo. Os populistas simplesmente abdicaram da luta. Deram lugar a combatentes mais formados, que não se limitavam a crer que a comuna rural e o terrorismo eram o caminho para o socialismo.
A história antecedente do proletariado tinha vindo a preparar o caminho para finalmente assumir a chefia do movimento democrático russo. O número crescente de manifestação de operários, as decididas lutas grevistas e a activa campanha para dar unidade e coesão ao movimento operário exerceriam grande influência na vida pública e no desenvolvimento do pensamento público no país.
Depois de a Narodnaya Volya ter sido dispersa, um número considerável de narodniki, desistiu da luta revolucionária e em vez disso canalizaram as suas energias para as esferas do iluminado liberal. Entretanto, os que se mantiveram fiéis às suas tradições revolucionárias começaram a estudar as obras dos principais pensadores ocidentais e a experiência de luta política noutros países europeus na sua busca de uma sólida teoria revolucionária. Depois de lerem as obras de Marx e Engels e de observarem a vaga crescente dos protestos proletários revolucionários, estes intelectuais começaram a centrar a sua atenção no movimento operário.
Em 1882, um antigo narodniki, Georgi Plekhanov, traduziu o Manifesto Comunista para russo, e, em 1883, em Genebra, na Suíça, ele e os seus camaradas fundaram a primeira organização social-democrata russa, a que chamaram o Grupo da Emancipação do Trabalho. Os seus membros haviam de realizar um amplo trabalho de propaganda e publicar traduções russas das grandes obras de Marx e Engels, e os seus próprios panfletos destinavam-se a popularizar as ideias marxistas e a expor a inconsistência do programa dos narodniki e a sua táctica errada. Este desenvolvimento representou um passo importante do populismo para o marxismo.
Plekhanov e os seus camaradas demonstram que na Rússia como noutros países a classe operária estava destinada a desempenhar o papel de chefia no movimento revolucionário e que o caminho para a vitória exigia luta política da parte da classe trabalhadora e a tomada do poder político. No seu discurso proferido no Primeiro Congresso da Segunda Internacional em Paris em 1889, Plekhanov declarou: «O movimento revolucionário na Rússia só pode triunfar se se tornar um movimento revolucionário dos operários.»
Os membros do Grupo da Emancipação do Trabalho trabalhavam em íntima ligação com os marxistas revolucionários da Europa Ocidental. Engels seguiu de perto a avanço do movimento revolucionário na Rússia e recebeu com alegria a notícia da criação da primeira organização social democrática. Dois anos depois da sua fundação, escrevia:
«Tenho orgulho em saber que há um partido entre os jovens da Rússia que aceita francamente e sem equívoco as grandes teorias económicas e históricas de Marx… o próprio Marx teria tido o mesmo orgulho se tivesse vivido um pouco mais.»
Contudo, havia algumas inconsistências no programa do Grupo, que tinham origem no facto de os seus membros substituírem o potencial revolucionário dos camponeses e praticarem uma oposição exagerada à burguesia liberal, a qual, embora criticasse a polícia reaccionária do governo czarista, não podia apoiar o movimento revolucionário por causa da sua instintiva hostilidade aos movimentos populares.
Além do Grupo da Emancipação do Trabalho, que tinha a sua sede no estrangeiro, começaram a aparecer na própria Rússia grupos sociais-democratas, primeiro em S. Petersburgo e depois noutras grandes cidades. Um destes grupos marxistas da cidade de Kazan, no Volga, contava entre os seus membros um jovem estudante e ardente campeão da teoria revolucionaria marxista, Vladimir Lenine. Seria ele quem infligiria o golpe final à influência das ideias populistas no movimento revolucionário russo.64
Vladímir Ilitch Uliánov, mundialmente conhecido pelo pseudônimo Lênin, nasceu em 10 (22) de abril de 1870, na cidade russa de Simbirsk, às margens do rio Volga. Ele era o terceiro filho de Iliá Nikoláievitch Uliánov, um respeitado inspetor e diretor de escolas públicas, e de Maria Alexandrovna Uliánova, uma mulher culta que falava vários idiomas. O ambiente de sua infância, onde era chamado pela família de Volódia — diminutivo de Vladimir — foi marcado por uma estabilidade de classe média e um forte incentivo à educação e à vida erudita. Nascido e criado em um ambiente intelectual, foi profundamente influenciado por seus pais, ambos professores dedicados à educação e ao conhecimento. Sua família era culta e progressista, o que ajudou sua prosperidade intelectual desde cedo. Embora os conceitos atuais de neuro divergência não existissem naquela época, Lênin comprovou precocemente ter altas habilidades e possivelmente superdotação, evidenciadas por seu excelente desempenho escolar e posteriormente pela quantidade massiva e abrangência teórica de seus escritos. Durante a infância em Simbirsk, às margens do Volga, teve contato direto com as duras condições de vida dos camponeses e das minorias locais, experiências que contribuíram decisivamente para a formação de sua visão crítica da sociedade e pela adoção futura do marxismo65.
Parte I
Aparece o rebelde
“Eu gostaria de me levantar da sepultura daqui a uns cem anos e dar uma olhada em
como as pessoas estarão vivendo então.”
Dr. Alexander Blank, avô de Lenin
1. Os Ulyanov e os Blank
Em 10 de abril de 1870, o rio Volga — o rasgo natural dominante da cidade provinciana de Simbirsk, no sudoeste da Rússia, e maior rio da Europa — mostrava os primeiros sinais da primavera. A temperatura havia subido até os 5º C. O largo campo de gelo que atravessava o canal entre as margens do rio começava a se elevar e a rachar. A primavera estava chegando, e a tão esperada mudança da estação provocava empolgação em todas as casas de Simbirsk, exceto em uma na rua Streletskaya, onde um menino estava nascendo. Seus pais, Ilya e Maria Ulyanov, já tinham dois filhos, e a família inteira assistiu a seu batismo alguns dias depois, na Catedral de São Nicolau, onde o padre espargiu água sobre sua cabeça e o batizou como Vladimir Ilich Ulyanov. Os padrinhos foram Arseni Belokrysenko, contador no serviço público do Império e parceiro de xadrez de Ilya, e Natalya Aunovskaya, mãe viúva de um dos colegas de Ilya.1 Após o batismo, Ilya Ulyanov foi a São Petersburgo para assistir a uma conferência pedagógica e deixou Maria Alexandrovna se recuperando do parto com a ajuda da nova ama da família, Varvara Sarbatova. A vida na casa da rua Streletskaya voltouà normalidade.2 66 (…)
A família Ulyanov mudou-se para Simbirsk no outono de 1869, poucos meses antes do nascimento de Vladimir. O pai, cujo nome completo era Ilya Nikolaievich Ulyanov, havia sido nomeado inspetor das Escolas Populares da província. Trouxe sua esposa grávida, Maria Alexandrovna Ulyanova, e seus dois filhos, Alexander e Anna, para a casa que alugariam da família Pribylovski, na rua Streletskaya. 3 O posto de Ilya fora criado como parte do plano do governo para uma rápida expansão da escolaridade em meados dos anos 1860. Imediatamente se tornou uma figura ilustre nos negócios da cidade e província de Simbirsk.67
Durante a infância, Vladímir foi descrito como um menino enérgico, barulhento e por vezes destrutivo com seus brinquedos, mas também muito brilhante e charmoso. Um traço claro de rejeição ao que provavelmente entendia, mesmo quando criança, inadequado a seu desenvolvimento, o que é comum em crianças com alto desenvolvimento cognitivo.
Anna, irmã de Volodya, seis anos mais velha, registrou o impacto que ele causava quando bebê: Ele era o terceiro filho, e muito barulhento — um gritador de olhinhos avelã, felizes e combativos. Começou a andar quase ao mesmo tempo que sua irmã, Olya [isto é, Olga], que era um ano e meio mais moça que ele. Ela começou a caminhar muito cedo e sem ser notada pelos que a cercavam. Volodya, em contraste, aprendeu a caminhar tarde; se sua irmã tropeçava inaudivelmente (ou “embaralhava os pés”, como dizia a babá) e levantava-se sozinha, apoiando as mãos no chão, ele inevitavelmente ficava batendo com a cabeça, provocando um alvoroço desesperado pela casa.
A estrutura de madeira da casa transformava-a numa câmara de eco, e os assoalhos e as paredes ressoavam enquanto o baixinho ficava batendo com a cabeça no carpete — ou até nas próprias tábuas do assoalho. Sua mãe, Maria Alexandrovna, tinha dúvidas sobre se ele não acabaria mentalmente retardado. A parteira que ajudara em seu nascimento deu sua opinião: “Ele vai acabar sendo ou muito inteligente, ou muito burro.” Na época, isso não tranquilizou muito Maria Alexandrovna, e ela mais tarde recordaria quanto tinha temido pelo seu pequeno Volodya. 2 A família não podia ir além dos palpites quanto à razão pela qual ele batia com a cabeça, e chegou à conclusão de que tinha alguma coisa a ver com sua conformação física. Volodya, quando bebê, tinha pernas curtas, fracas, e uma cabeça grande. Estava sempre caindo no chão, aparentemente por ser pesado na parte superior do corpo. Uma vez tendo caído, acreditavam, ele se balançava a fim de tomar impulso para erguer-se, e batia com a cabeça de pura frustração. 3 Isso não explicava por que continuava a ser tão barulhento, mesmo depois que aprendeu a caminhar. Nunca parou de fazer escândalo e, segundo Anna, foi turbulento e exigente durante toda a infância. 4 Foi muito mais destrutivo do que os outros filhos dos Ulyanov. Quando os pais lhe deram um cavalinho de papel machê em seu aniversário, seu instinto foi esgueirar-se até um canto levando o brinquedo e arrancar-lhe as pernas, torcendo-as. Anna ficou observando, enquanto se escondia atrás de uma porta. Alguns minutos depois, ele foi encontrado, bem contente, com o cavalinho a seu lado, feito em pedaços. Além disso, Volodya nem sempre foi agradável com seus irmãos. Aos 3 anos, sapateou sobre a coleção de cartazes de teatro que o irmão mais velho, Sasha, havia disposto cuidadosamente sobre o carpete. Destruiu vários deles antes que sua mãe conseguisse arrancá-lo dali. Uns dois anos depois, agarrou a régua preferida de Anna e partiu-a no meio. 5 A essa altura, já tinha idade suficiente para entender que fizera algo gravemente errado naquela família ordeira. Havia, em seu comportamento, um aspecto malicioso, de que o restante da família não gostava nada. 68
O relato das irmãs de Lênin leva a uma perspectiva humanizadora e intimista sobre a infância de “Volodya”, os traços de personalidade e vulnerabilidades físicas que contrastam com a imagem de aço do futuro líder revolucionário que, por outro lado, é perceptível no quão barulhento e enérgico ele era. A anedota do vaso quebrado não apenas ilustra a formação de sua consciência moral — marcada por um arrependimento intenso que culmina na confissão tardia, demonstrando a incapacidade de conviver com a mentira —, mas também sugere a integridade que sua mãe tanto valorizava; simultaneamente, a revelação sobre o erro médico em seu olho esquerdo desmistifica seu famoso hábito de apertar os olhos, recontextualizando uma característica icônica de sua postura política como uma simples adaptação à miopia não tratada, inserindo o homem de carne e osso, com suas fragilidades genéticas e dilemas infantis, dentro da figura histórica monumental.
Lenin também tinha muito charme e era sempre perdoado pela babá, Varvara Sarbatova. Quando se comportava mal, ele se acusava bem depressa. Isso, pelo menos, em certa medida, reconfortava sua mãe: “É bom que jamais faça nada às escondidas.” 6 Aos 8, pôs à prova esse argumento. Foi quando, pela primeira vez, teve permissão para viajar de barco a vapor até Kazan, para visitar sua tia Anna Veretennikova (nascida Blank), na companhia de sua irmã, Anna, e de seu irmão, Alexander. Foi uma grande ocasião para ele, que teve dificuldade para conter as lágrimas enquanto acenava para a mãe, despedindo-se dela no cais de Simbirsk. Em Kazan, divertiu-se como nos velhos tempos com seus primos Veretennikov e partiu para algumas brincadeiras pesadas. Infelizmente, no processo, arrebentou um vaso de vidro. Tia Anna ouviu a comoção, entrou correndo na sala e interrogou todo mundo sobre o incidente. Volodya, no entanto, ficou calado e não admitiu o que havia feito. Três meses depois desse acontecimento, já de volta a Simbirsk, sua mãe encontrou-o soluçando sobre o travesseiro, tarde da noite. Ao subir até seu quarto, ele despejou sobre ela: “Eu enganei a tia Anya [diminutivo de Anna]. Disse que não tinha sido eu que quebrei o vaso, quando fui eu que o quebrei.” 7 Volodya era um menino atarracado, de altura moderada, com cabelos castanho-claros cacheados que, na adolescência, ficaram de um ruivo claro. Ainda tinha pernas curtas e uma cabeça desproporcionalmente grande. Embora gozasse, em geral, de boa saúde, havia preocupação com uma tendência a entortar o olho esquerdo. A mãe levou-o a Kazan, para ser examinado pelo oalmologista, professor Adamyuk, que declarou o defeito irremediável, e que ele teria de se haver exclusivamente com o olho direito. 8 Bem mais tarde, em 1922, Lenin soube que recebeu um diagnóstico errado. Na verdade, o que tinha no olho esquerdo não passava de miopia, 9 e o fato de Adamyuk não lhe ter receitado óculos resultou em seu hábito — muito notado quando se tornou um político famoso — de apertar os olhos quando conversava com as pessoas. Seus irmãos e suas irmãs sofreram de problemas bem mais graves. Quando Sasha adoeceu gravemente, com uma inflamação estomacal, Maria Alexandrovna prostrou-se de joelhos diante da imagem que ficava no canto da sala de estar e chamou sua filha, Anna: “Reze pelo Sasha.” 10 Sasha se recuperou da doença, mas outros Ulyanov, incluindo Volodya, sofreram com o próprio estômago. Parece ter havido uma predisposição genética na família, possivelmente herdada do lado dos Blank. 69
Sua passagem pelo Ginásio Clássico de Simbirsk foi nada menos que irrepreensível. Dotado de uma mente voraz e sistemática, ele converteu a rotina escolar em um palco de triunfos contínuos. Onde outros viam dificuldade, ele encontrava lógica e clareza, mantendo-se perenemente no topo da hierarquia acadêmica, colecionando distinções e as notas mais altas como quem cumpre um destino natural.
O Ministério do Esclarecimento Popular, querendo isolar os alunos dos ginásios do mundo contemporâneo, reduziu a física, a química e a biologia a uma presença mínima no currículo (e as obras de Mendeleiev, o químico mundialmente famoso, foram retiradas das bibliotecas). O governo também estipulou que os alunos dos ginásios deveriam comparecer regularmente aos serviços da Igreja Ortodoxa russa. A disciplina era imposta com rigor. Como outros diretores do período, Fiodor Kerenski empregava espancamentos, detenções, deveres extras, uma moralização pesada e, como era praxe em todas as escolas tsaristas, os professores estimulavam os alunos a delatar seus colegas delinquentes. 29 Tal escolarização era desagradável para a maior parte dos alunos: a disciplina irritante e, às vezes, brutal, a carga de trabalho imensa e o currículo totalmente afastado da vida cotidiana. Embora nenhuma das piores sanções disciplinares tivesse sido aplicada a Vladimir, é difícil acreditar que sua experiência na escola não tenha deixado qualquer marca negativa em seu consciente. A interferência direta e pesada do Estado no Ginásio Clássico de Simbirsk tinha um aspecto de trapaça, e poucos alunos brilhantes devem ter deixado de chegar à conclusão de que, se as escolas eram dirigidas de forma tão burocrática, também deviam sê-lo as outras instituições do Estado. Vladimir deve ter notado o contraste entre seus estudos em casa e o regime escolar. Sob a tutela da mãe, seu trabalho acadêmico deve ter sido mais agradável; o fato de que muitos colegas abandonaram o ginásio por causa das exigências excessivas deve ter lhe dado pelo menos uma ideia rudimentar de que nem tudo estava bem. 30 No entanto, ao contrário do que havia feito na mesma idade do irmão mais velho, Sasha, Vladimir não se rebelou. Somente uma vez, quando foi surpreendido imitando seu incompetente professor de francês, Adolf Por, ele se viu em apuros. 31 Mas seu pai o fez prometer que nunca mais voltaria a sair da linha, e Vladimir retornou a seus hábitos de obediência. Sua atitude geral, no entanto, era positiva, e ele teve um excepcional progresso acadêmico. O diretor Kerenski mostrava-se satisfeito com o adolescente, concedendo-lhe não apenas notas 5, como também 5+s em seus boletins escolares; estava tão impressionado que, de acordo com Anna Ilinichna, “perdoou-lhe certos atos de indisciplina que não teria perdoado tão facilmente em outros”. Ela acrescentou: “É claro que, aqui, houve a influência de sua boa atitude para com Ilya Nikolaievich e a família inteira.” 32 A única pessoa a expressar dúvidas sobre Vladimir foi, de fato, seu pai, que se preocupava que o sucesso acadêmico lhe estava vindo fácil demais e que ele poderia não reconhecer a necessidade de ser industrioso. 70
O jovem Vladimir — invariavelmente conhecido na família como Volodya — era uma criança talentosa e capaz, qualidades aprimoradas pelo ambiente confortável e acolhedor do lar, graças à carreira bem-sucedida de seu pai. A família morava em uma boa casa; os três filhos mais velhos tinham cada um seu próprio quarto, havia uma cozinheira, uma babá e empregados para cuidar das tarefas domésticas. O próprio Lenin recordou que a família não sentia falta de nada. Professor excepcional e defensor da educação estatal, seu pai ascendeu ao cargo de diretor das escolas da província em poucos anos. Era muito estimado pelas autoridades e recebeu diversas condecorações, incluindo a Ordem de Stanislav, Primeira Classe, alcançando finalmente o posto de Conselheiro de Estado, correspondente na Tabela de Patentes ao título de general.71
A serenidade da vida doméstica dos Ulyanov foi estilhaçada em 1886 quando o destino, implacável em reforçar a finitude humana, trouxe à tona a morte súbita do patriarca da família e lançou a primeira sombra sobre a casa. Contudo, o luto pela perda do pai mal havia se assentado quando, no ano seguinte, uma tragédia ainda mais brutal se abateu sobre eles. Aleksandr, o irmão mais velho e referência intelectual de Vladimir, foi executado na forca. O crime de ‘Sasha’ foi a ousadia de conspirar contra a vida do Czar Alexandre III, um evento que não apenas encerrou uma vida promissora, mas marcou o fim definitivo da inocência na juventude de Lenin.
Ilia Uliánov morreu em janeiro de 1886, com 54 anos. Em sociedades patriarcais, a morte do pai de família é um golpe tremendo do destino sobre o núcleo familiar, principalmente em se tratando de um homem esclarecido. Pouco mais de um ano depois, desabou sobre a família outra tragédia. Aleksandr, ou Sasha, irmão mais velho de Volodia e membro da organização secreta Narodnaia Vólia (Vontade do Povo), movimento revolucionário decidido a derrubar o tsarismo por atos de terrorismo individual, foi preso em março de 1887, quando planejava um atentado contra o tsar Alexandre III. Durante o processo, ele defendeu o recurso à violência na luta contra o despotismo. Foi condenado à forca, aos 21 anos de idade, junto com quatro de seus camaradas; os cinco foram executados em 8 de maio do mesmo ano.
Guardar para si ou para os que lhe eram muito próximos seus sentimentos íntimos era um traço marcante da personalidade de Vladímir Ilitch. É sabido que a morte do irmão, pelo qual tinha grande admiração, afetou-o profundamente. Emoções de tamanha intensidade estão na fronteira do indizível. Manteve-as no fundo da memória, recolhendo do irmão o exemplo de dedicação integral à causa pela qual ele morrera. Não permitiu, entretanto, que o valor moral desse exemplo interferisse na crítica ao terrorismo individual e aos pressupostos políticos em que ele se baseia. Sintomaticamente, há apenas duas referências a Aleksandr Uliánov nos 46 volumes da edição-padrão de suas obras, ambas datando dos últimos anos de sua vida, embora inscritas em contextos bem diferentes.
A primeira e mais importante é de 16 de abril de 1917, num momento crucial da luta dos sovietes pelo poder. Os soldados da 8ª Bateria de Artilharia enviaram uma carta ao Soviete de Petrogrado perguntando quem era exatamente Lênin. Este e outros exilados bolcheviques estavam sendo caluniados pelos “patriotas” do governo burguês e da imprensa pequeno-burguesa, que alegavam que eles só conseguiram sair da Suíça rumo à Rússia mediante um acordo secreto com as autoridades do Reich, que lhes permitiram atravessar a Alemanha de trem em troca de sabotarem o esforço de guerra russo. As boas mentiras são as que têm um mínimo de verdade. Os bolcheviques denunciaram desde o início a grande guerra imperialista em curso. Um cessar-fogo na frente leste convinha ao Reich alemão, que, por isso, facilitou o retorno dos exilados, que até então acompanhavam de longe o desdobramento da situação revolucionária na Rússia.
Em resposta à compreensível demanda dos soldados, perplexos diante da boataria antibolchevique, Lênin redigiu em catorze linhas um esboço de autobiografia, inacabada por força das circunstâncias, na qual lemos: “Na primavera de 1887, meu irmão mais velho, Aleksandr, foi condenado à morte e executado por ter participado de um atentado contra o tsar Alexandre III”.
A segunda referência é de 12 de novembro de 1921. Na condição de presidente do Conselho de Comissários do Povo, Lênin enviou ao colégio do Comissariado do Povo para as Finanças um telegrama declarando que “podemos e devemos confiar na honestidade” de um certo Tchebotarev, um democrata burguês, disposto a colaborar com os sovietes. Ao que acrescentou: “Conheci Tchebotarev nos anos 1880, por ocasião do processo de meu irmão mais velho, Aleksandr Ilitch Uliánov, enforcado em 1887”.72
Apesar da dor, Lênin recusou-se a romantizar o martírio de Sasha. Ele não nutria qualquer simpatia pela tática do terrorismo individual, enxergando nela um beco sem saída histórico — sobretudo no descenso revolucionário — e não uma estrada para a libertação. Aquele julgamento severo, formulado ainda sob a sombra da forca, foi a semente primitiva de sua doutrina; uma rejeição lúcida que antecipava, com anos de antecedência, a arquitetura rigorosa da filosofia que ele viria a erguer.
Vladimir Ulyanov conseguiu reprimir suas emoções mais eficazmente que suas irmãs Anna e Olga. A mágoa existia, mas ele a enterrou. Há uma história segundo a qual Vladimir, ao saber da execução de Alexander, reagiu não como um membro da família, mas como um revolucionário em formação. Segundo Maria Ilinichna, ele concluiu que a falência estratégica do terrorismo socialista agrário havia sido provada. “Não”, diz-se que ele falou, na presença dela, “não devemos seguir esse caminho.” Isso foi tomado pelos marxistas-leninistas — e não só por eles — como prova da íntegra decisão de Vladimir, aos 16 anos, de repudiar o socialismo agrário. É difícil imaginar história menos plausível, mesmo considerando que gerações de estudiosos a aceitaram. Maria Ilinichna escreveu suas memórias depois da morte de Lenin, quando era obrigatório retratar sua carreira como algo monolítico, e o próprio Lenin como infalível, até quando rapaz. A utilidade de seu testemunho é dúbia de qualquer maneira, uma vez que tinha apenas anos quando Alexander foi enforcado. Desafia a credibilidade que fosse capaz de relembrar as palavras exatas de uma declaração cuja ressonância ideológica nada teria significado para ela na infância. 73
Aos 17 anos, ingressou na Universidade de Kazan, pouco após a execução de seu irmão mais velho, Alexander, por envolvimento em uma conspiração narodniki contra o czar. A morte do irmão foi um choque que alavancou Lênin a procurar um caminho revolucionário diferente. Jubilado da universidade por compor grupos políticos estudantis e expulso de sua região natal mandado para uma aldeia, Lênin fez de tudo para manter sua concentração, determinação e postura revolucionária, mergulhando nos estudos de Marx e Engels74.
Ele voltou para casa em 4 de dezembro de 1887 para uma mãe que não mais o controlava. Durante sua residência em Kazan, já havia entrado em contato com ativistas revolucionários. A cidade era um lugar de exílio usado pelo governo central para dispor de seus inimigos — e, nesse período, havia dezenas de pessoas assim, sob vigilância policial. Não era demasiado difícil para o irmão de um revolucionário executado descobrir quem era os simpatizantes revolucionários locais e como participar de suas discussões. O grupo que atraiu Vladimir Ulyanov era liderado por Lazar Bogoraz, um socialista agrário defensor do terrorismo. As ideias exatas de Bogoraz são um tanto obscuras. Mas, sem dúvida, queria o fim da monarquia e defendia a transformação social e econômica do país; e parece ter tido a esperança, tal como Alexander Ulyanov, de minimizar as incipientes divisões dentro do movimento revolucionário clandestino. Vladimir estava no primeiro estágio de desenvolver suas ideias sobre a política da revolução. Era natural para ele começar aprendendo o que podia de pessoas que eram afins com seu irmão e, de fato, suficientemente sérias em seu engajamento político para manter contato com grupos semelhantes em São Petersburgo e outros centros. 75
Nos anos seguintes, enquanto se preparava como autodidata para os exames de Direito, ele iniciou seu estudo sistemático do marxismo, lendo O Capital e juntando-se a círculos marxistas em Kazan e Samara. Em 1891, obteve seu diploma de Direito com distinção na Universidade de São Petersburgo e atuou brevemente como advogado assistente. Em 1893, mudou-se para São Petersburgo, onde se ligou a militantes operários e começou a escrever seus primeiros trabalhos de economia política marxista, ganhando reputação pela sua combatividade e rigor intelectual.
Quando sua mãe esperava visitas a Alakaevka que ele ainda não conhecesse, trancava-se para não ser visto e continuava com sua leitura.14 Como exceção, permitia que sua irmã, Maria, se sentasse a seu lado, para que a ajudasse com seu dever de casa.15Ela havia transferido seu afeto do falecido pai para o mais velho Ulyanov sobrevivente. Mas Vladimir era um feitor severo. Verificava no dia seguinte se ela havia decorado o que ele dissera ou se havia se limitado a anotar o seu ditado.
Estava agindo como seu próprio pai, Ilya, agira com ele. Concentrando-se atentamente em sua autoinstrução, estava de novo copiando o exemplo paterno. Mas o marxismo, e não a pedagogia, era a preocupação de Vladimir. Dominava tanto a sua vida que começou a traduzir para o russo o Manifesto comunista.
16 Também se esforçou para conseguir aprender a ler em inglês. Durante os muitos anos vindouros, esse esforço foi para ele um meio de distração. Seus estudos como linguista o estimularam a encarar uma hora passada examinando um dicionário de língua estrangeira como uma das delícias de sua vida. Vladimir estava tentando, como outros de sua geração, resolver por si próprio como o movimento revolucionário deveria tentar reconstruir o império russo. Para esse propósito, não seria suficiente em si mesmo ler Marx e Engels ou folhear os mais recentes livros interessantes em alemão, francês e inglês. Sua obrigação era estudar as tendências atuais na economia imperial russa para discernir o que isso revelava sobre as possibilidades políticas e sociais. 76
No verão de 1893, Lênin trabalhava em um esboço de Quem são os “amigos do povo” e
como lutam contra os sociais-democratas?, enquanto frequentava círculos ilegais de debate
para atacar o narodismo e proferia palestras sobre as obras de Marx. No início de 1894, leu o
conto de Tchékhov “Enfermaria n. 6”, publicado havia pouco (novembro de 1893); a obra
teve extraordinário impacto sobre ele. Contou a Anna Ilínitchna: “Quando li o conto na noite
passada, simplesmente fiquei doente, não consegui permanecer no quarto, levantei-me e saí.
Sentia-me também confinado na enfermaria n. 6”77
.
De volta a Kazan, colocou-se entre grupos ínfimos, minuciosos, diminutos na escuridão intentando escapar das vicissitudes do aparato repressor. Tamanha era vossa inflexibilidade em desistir da luta, que teimava em permanecer na clandestinidade, consumia assiduamente e com gosto a teoria proibida: o marxismo. Ao seu lado, a malta intenta dos discípulos de Marx e Engels sem medo de morrer, de lutar e libertar. Mais à frente, reuniu camaradas que, naquela altura e com ele, prestavam-lhe contributo à causa da revolução, formando um círculo próprio, remetendo àquele de seu mestre à época: Plekhanov. Nem as autoridades czarista, muito menos vossos mecanismos do Estado obtivera êxito em lhe destruir o pulso. Estudava às ocultas, escrevia, agitava, e ainda assim levou adiante os livros. Fez Direito na Universidade de São Petersburgo. Desde menino até o fim do chamado ensino superior, tudo lhe entrava fácil, como se o saber não lhe oferecesse travas.
Ainda 1893, partiu para a capital. Ia leve de bagagens, mas carregado de firmeza: um moço que se fizera revolucionário antes do tempo, moldado pela mistura de prática dura e leitura funda, movido por essa obstinação que não descansa.
Lênin escreveu panfletos e artigos que explicavam os objetivos do movimento socialista em linguagem acessível para os trabalhadores. Ele criticou as ideias narodnikis e economistas, enfatizando o papel central da classe operária na revolução78, algo que os populistas sequer pensavam.
Em 1895, ajudou a fundar a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, o que levou à sua prisão e posterior exílio na Sibéria, consolidando definitivamente sua trajetória como líder revolucionário.
Lênin participou da organização de redes clandestinas que mais tarde contribuiriam para a fundação do Partido Trabalhista Social-Democrata Russo (POSDR) em 189879.
Após seu exílio na Sibéria, Lênin ajudou a lançar o Iskra em 1900, um jornal que se tornou o principal meio de unificação do movimento social-democrata russo e da disseminação das ideias marxistas80.
Foi contra a tendência do “economismo” — que desejava limitar a luta operária a reivindicações salariais imediatas, deixando a política para os liberais — que Lênin se levantou. Em sua obra seminal Que Fazer? (1902), Lênin argumentou que a consciência política de classe não surgiria espontaneamente das massas, mas precisava ser introduzida por uma vanguarda revolucionária especializada de fora. “A consciência política de classe pode ser trazida ao operário apenas de fora, isto é, de fora da luta econômica, de fora da esfera das relações entre operários e patrões.”1.
Lênin era categórico sobre a necessidade de combater a “espontaneidade” que, segundo ele, levaria apenas à subordinação à ideologia burguesa. Ele exigia uma organização de “revolucionários por ofício”: “Sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário. […] Só um partido guiado por uma teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda.”2. Aprofundaremos essas questões ao longo do texto.
Joseph Stálin nasceu em 21 de dezembro de 1879, em Gori, na província de Tiflis, em uma família humilde de camponeses. Aos nove anos, ingressou na escola da igreja em Gori e, em 1894, entrou no Seminário Teológico Ortodoxo de Tiflis. Nesse período, o capitalismo industrial se desenvolvia na Transcaucásia, região marcada por fortes resquícios feudais e pela opressão nacional e colonial, enquanto o marxismo começava a crescer pela Rússia, influenciado pela atuação de Lênin e sua Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhador3.
Embora as biografias oficiais soviéticas tradicionalmente celebrassem sua data de nascimento em 21 de dezembro de 1879, conforme o Novo Calendário Russo, os registros da igreja e outras fontes indicam que ele nasceu em 6 de dezembro de 1878. Essa discrepância na data pode ter sido uma tentativa de se apresentar como mais jovem por questões clandestinas. Seus pais, Ekaterina (Keke) Gueladze e Vissarion (Bessó) Djugashvili, eram originários de famílias de servos camponeses pobres e analfabetos; Bessó era sapateiro e, por um período, chegou a possuir sua própria oficina, qualificando-se como “explorador”. Iosif, apelidado de Sosso, era o quarto filho do casal, sendo que os três primeiros faleceram ainda na infância. A família vivia em um alojamento modesto em Gori, com apenas dois cômodos e uma oficina no porão, tipicamente pobre para a Rússia daquela época. Após o fracasso dos negócios do pai e o seu suposto alcoolismo, a mãe foi forçada a trabalhar como lavadeira ou costureira, dedicando-se intensamente ao filho, embora a infância de Iosif fosse marcada por relatos de que o pai bebia e o espancava com frequência, contribuindo para o endurecimento de seu caráter.
“Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, mais tarde Stálin, nasceu em Gori, Geórgia, uma área cristã antiga e estabelecida na região da Transcaucásia do antigo Império Russo, em 6 de dezembro de 1878 e foi batizado onze dias depois. Este fato simples não era amplamente conhecido até bem recentemente. De acordo com as biografias oficiais soviéticas, sua data de nascimento era 9 (21 de acordo com o Novo Calendário adotado após a Revolução Russa de 1917) de dezembro de 1879. Assim, o ditador soviético era na verdade um ano mais velho do que se pensava. Qual era o propósito desta desinformação? Stálin é conhecido por ter oferecido diferentes datas de nascimento em diferentes ocasiões. Talvez ele quisesse apresentar-se como mais jovem do que era: 1879 tê-lo-ia feito … um ano mais jovem do que seu arqui-rival Lev Bronshtein (Trotskii).4
“A família de três pessoas alugou uma pequena casa de madeira e tijolo, com um único cômodo, de um artesão ossétio. Localizava-se no bairro russo de Góri, perto dos quartéis das tropas imperiais, cujos calçados Bessó fazia. De apenas oito metros quadrados, a estrutura tinha uma mesa e quatro bancos, uma cama de tábua, um samovar, um baú e uma lâmpada de querosene. Roupas e outros pertences eram colocados em prateleiras abertas. Mas tinha um porão, onde se chegava por uma escada em caracol, e era ali que Bessó guardava suas ferramentas e abriu sua oficina, e ali Keké fez um berçário para Sossó. Em outras palavras, a vida de Stálin começou em um porão. 5
“Ekaterina deu à luz três crianças nos anos de 1875 a 1878. Todas três morreram logo após o nascimento. Ekaterina mal tinha vinte anos quando em 21 de dezembro de 1879 deu à luz um quarto filho. Pelo capricho da sorte esta criança cresceria e se tornaria um menino saudável, vigoroso, e teimoso. No batismo recebeu o nome de Joseph; e assim o padre Grego Ortodoxo local, que agia como registrador, gravou o aparecimento neste mundo de Joseph Vissarionovich Djugashvili, mais tarde a se tornar famoso sob o nome de Joseph Stalin.6.
“Sua mãe, Ekaterina, foi a pessoa mais influente na sua infância. […] Desde que seu marido começou a gastar em beber o que ganhava ou não pôde ganhar o suficiente para mantê-los, ela teve que «trabalhar dia e noite para poder sobreviver»7.
“Os pais, Yekaterina e Vissarion Djugashvili, eram camponeses pobres que mais tarde passaram a morar em Gori, sempre carentes de recursos. Dos três filhos, Mikhail e Georgii faleceram antes de atingir um ano de idade, restando apenas Iosef, ou Soso, como era chamado. (…) Segundo I. Iremashvili, um menchevique georgiano que conheceu a família, o pai de Stalin, o sapateiro, bebia demais e espancava mulher e filho com frequência.”. “Stáline foi um dos raros dirigentes bolcheviques de origens modestas. Toda a sua vida, esforçou-se por escrever e falar de forma compreensível para os trabalhadores simples.”O camponês Vissarion tornou-se sapateiro. Ele prosperou por um tempo, chegando a possuir sua própria oficina e a contratar trabalhadores, qualificando-se assim como um ‘explorador’, como Stálin disse mais tarde.”8
“Cercada de montanhas… que se tornaria conhecida no século XX graças a um robusto caucasiano ali nascido em 6 de dezembro de 1878 e batizado no dia 17 do mesmo mês (no início de sua carreira de revolucionário profissional, ele mudará a data de nascimento, declarando 21 de dezembro de 1879 à polícia).”9.
A trajetória política de Josef Djugashvili — que, na juventude, era conhecido como “Sosso” e mais tarde usou o pseudônimo “Koba”10 — começou a se manifestar no final do século XIX, quando ele ainda era um seminarista no Cáucaso. Seu envolvimento político começou em um “cenário de rebeldias” enquanto era seminarista em Tíflis. Durante esse período, ele expressou sua revolta escrevendo versos em georgiano e publicando-os em 1895 no periódico georgiano Iveria, utilizando o pseudônimo de Sosselo. A poesia que produzia era um “misto de romantismo popular e arroubos patrióticos”, celebrando a natureza e se apiedando da condição camponesa. Por exemplo, no poema “A rosa desabrochou”, lia-se:
“Floresce, meu belo país.
O país dos georgianos.
E, tu, georgiano.
Faz o país feliz com teus estudos”.
Ele encerrou sua breve “carreira de poeta iniciante” em julho de 1896 com a publicação de “Velho Ninika” no periódico Kvali11.
A Transcaucásia, transformada em um mercado para o capital russo e estrangeiro, assistiu ao rápido crescimento da classe trabalhadora, sobretudo em Baku, centro industrial e operário. Nesse contexto, o Seminário de Tiflis tornou-se um foco de ideias libertárias. O rígido regime do seminário intensificou em Stálin seu espírito de protesto e o levou ao envolvimento revolucionário aos quinze anos, quando aderiu a grupos marxistas ilegais influenciados pela literatura marxista clandestina.
Stálin demonstrou um intenso empenho em sua formação teórica, estudando as principais obras de Marx, Engels e Lênin, como O Capital e o Manifesto Comunista, além de textos que criticavam o Narodismo e o Economismo. Impressionado pelos escritos de Lênin, Stálin manifestou o desejo de conhecê-lo pessoalmente. Seus estudos abrangiam filosofia, economia política, história e ciências naturais, preparando-o como um marxista culto e disciplinado.
Simultaneamente, ele se engajava em atividades práticas revolucionárias: organizava círculos de estudo entre trabalhadores, redigia panfletos, liderava greves e participava de reuniões clandestinas. Expulso do seminário em 1899 por atividades marxistas, Stálin continuou sua militância enquanto trabalhava como calculador no Observatório Tiflis. Tornou-se, então, um dos principais líderes do movimento social-democrata de Tiflis, liderando uma organização inspirada na Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora de Lênin12.
Entre 1898 e 1900, Stálin, à frente da minoria revolucionária do Messameh Dassy, travou uma batalha ideológica contra os oportunistas inclinados ao Economismo, promovendo táticas de agitação política de massa e manifestações públicas contra o regime czarista. O apoio de Victor Kurnatovsky, um aliado de Lênin, fortaleceu a adoção das ideias leninistas na Transcaucásia13.
Em 28 de dezembro de 1899, o ex-seminarista Djugachvili começa a trabalhar no principal observatório físico de Tíflis,17 sobretudo como fachada para acobertar seu trabalho ilegal. Seu quarto no observatório, o primeiro em que morava sozinho, marcou o início de sua vida privada. Às vezes, recebia ali amigos ou operários que pretendia conquistar para a causa. Eventualmente realizavam-se pequenas reuniões. O militante clandestino ia se delineando. Junto com alguns outros companheiros, preparou a manifestação de 1º de maio no Cáucaso. O modesto comício mais parecia uma procissão religiosa ortodoxa que uma ação de massa proletária, mas, na ocasião, Djugachvili dirigiu-se aos manifestantes, e este foi seu primeiro discurso em público.18 14
Com o surgimento do jornal Iskra em 1900, Stálin tornou-se um fervoroso defensor de sua política, reconhecendo em Lênin o verdadeiro fundador e guia do partido marxista. Considerava-o superior aos outros líderes, uma “águia da montanha” que enfrentava os desafios revolucionários com coragem e visão. Essa admiração consolidou uma fé inabalável no caminho traçado por Lênin, ao qual Stálin permaneceu fiel mesmo após sua morte15.
Entre 1900 e 1901, uma onda de greves atingiu Tiflis, impulsionada pela crise econômica e pelo movimento operário. Sob a liderança de Stálin, a manifestação de 1º de Maio de 1901 no centro de Tiflis ganhou destaque nacional, sendo saudada pela Iskra como um marco na luta operária no Cáucaso. Este evento consolidou a influência de Stálin no movimento revolucionário e marcou o início de sua trajetória como líder de massas.16
Um relatório do comissariado de Tíflis, de 23 de março de 1901, registra que Djugachvili, que trabalhava no observatório, mantinha relações com operários e pertencia ao partido social-democrata (Idem, p. 42, dossiê 72). Ele foi um dos fundadores e editores do primeiro jornal clandestino georgiano, o Brdzola (A Luta), que circulou a partir de setembro de 1901. 17
Enquanto a liderança exilada debatia em Londres e Genebra, Ióssif Stáline (então conhecido como Koba) atuava nas periferias do Império, no Cáucaso. As fontes indicam que, ao contrário de outros líderes que oscilaram, Stáline alinhou-se cedo e incondicionalmente com a posição de Lênin e do jornal Iskra. Em 1901, Stáline já escrevia no jornal georgiano Brdzola (A Luta), defendendo a linha leninista contra os nacionalistas e oportunistas locais.
“Koba distinguia-se de todos os outros bolcheviques […] pela sua energia inquestionavelmente maior, pela capacidade incansável para o trabalho duro, pelo desejo indomável de poder e, acima de tudo, por seu enorme talento organizacional.”18
Stálin via em Lênin não apenas um teórico, mas o guia prático para a revolução. A correspondência de Stálin revela sua admiração pela clareza de Lênin. Ele descreveu a impressão que teve ao ler uma carta de Lênin em 1903: “Só Lenin poderia escrever sobre as coisas mais complexas de forma tão simples e clara, tão concisa e ousada, que cada frase não falava, mas soava como um tiro de rifle. Esta carta simples e ousada fortaleceu-me ainda mais em minha opinião de que Lenin era a águia da montanha de nosso Partido.”19
Ao chegar a São Petersburgo, Lênin encontrou vários grupos sociais-democratas clandestinos, mas sem uma integração real ao movimento operário. A partir de sua atuação, ele iniciou conferências que criticavam os narodniki e defendiam o papel central da classe operária na revolução. Essas críticas seriam publicadas em “O que são os Amigos do Povo e como eles combatem os sociais-democratas”, onde Lênin enfatizava a necessidade de fundar um partido marxista unido para liderar a luta até a revolução comunista20.
Lênin se dedicou à educação política dos operários, espalhando ideias socialistas e promovendo sua união para a ação revolucionária. Por meio de folhetos simples, ele explicava os objetivos dos trabalhadores em sua luta contra os capitalistas. Outros grupos sociais-democratas seguiram seu exemplo e se engajaram mais ativamente no movimento operário21.
Em 1895, por sugestão de Lênin, grupos sociais-democratas de São Petersburgo formaram a Liga de Luta pela Emancipação da Classe Operária, um passo importante para a criação de um partido marxista revolucionário. A unificação se expandiu para outras cidades industriais, com os sociais-democratas participando das greves e buscando organizar e politizar as lutas dos trabalhadores22.
A repressão czarista alcançou Lênin, mas seus seguidores continuaram o trabalho iniciado por ele. Em 1896, uma grande greve nas fábricas têxteis de São Petersburgo, envolvendo trinta mil trabalhadores, foi a maior e mais organizada greve do proletariado russo até então. A greve demonstrou a força da classe operária e a validade da teoria marxista, gerando apoio internacional de trabalhadores de outros países23.
Para cumprir seu papel histórico, era fundamental que a classe operária russa fundasse um Partido Marxista Revolucionário. Desde o Grupo de Emancipação do Trabalho, os sociais-democratas russos ressaltavam essa necessidade. O primeiro núcleo de um partido marxista foi a Liga da Luta pela Emancipação da Classe Operária, fundada por Lênin em 1895, mas logo dissolvida pela polícia. Em 1898, surgiu o Partido Trabalhista Social-Democrata Russo, mas foi imediatamente reprimido 96 e 1897, Stálin conduziu círculos de estudo marxistas e, em 1898, formalizou sua filiação ao Partido Social-Democrata Operário Russo, integrando a organização georgiana Messameh Dassy. Embora dominada por tendências nacionalistas burguesas, Stálin, ao lado de Ketskhoveli e Tsulukidze, liderou uma minoria marxista revolucionária dentro do grupo. Esse núcleo seria fundamental para o surgimento do movimento social-democrata revolucionário na Geórgia.24
Em 1900, Lênin, de volta do exílio, iniciou a publicação do jornal Iskra (A Faísca) em Estugarda, com o editorial de Lênin, “As Tarefas Urgentes do Nosso Movimento”. Este jornal clandestino tornou-se a principal ferramenta de agitação política, circulando por toda a Rússia através de rotas clandestinas, ajudando a organizar os trabalhadores progressistas e estreitar laços com os comités locais. O Jornal adentrava o território russo pela Romênia, Alemanha, Irã, Finlândia etc25.
O Iskra desempenhou papel decisivo no Segundo Congresso do Partido, realizado em 1903, onde Lênin e seus aliados, conhecidos como bolcheviques, defenderam um partido de tipo novo. Durante as eleições para os corpos centrais do Partido, Lênin e os bolcheviques obtiveram a maioria, e os seus opositores passaram a ser conhecidos como mencheviques. O Congresso aprovou o programa do Partido, que continha um programa mínimo (derrubada do czarismo, república, direitos iguais, jornada de 8 horas e fim das práticas feudais) e um programa máximo (revolução socialista e construção de uma sociedade socialista). Esse programa revolucionário foi um marco para o movimento operário russo e internacional, consolidando a fundação do Partido Marxista Revolucionário na Rússia26.
O movimento revolucionário na Rússia evoluiu dos populistas (narodniks), que apostavam no campesinato e no terror individual, para o marxismo, que via no proletariado a força motriz da revolução. Em 1895, Lênin unificou os círculos marxistas de São Petersburgo na “União de Luta pela Emancipação da Classe Operária”.
O I Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) ocorreu clandestinamente em Minsk, entre os dias 1 e 3 de março de 1898, com a presença de nove delegados, tendo como principal organizador P. B. Struve. Apesar da relevância histórica, o congresso não produziu nem um programa nem um estatuto oficial para o partido. Poucas semanas após o evento, quase todos os participantes foram presos, levando Lenin a afirmar que o congresso não resultou na criação de um partido efetivamente funcional27.
Reconhecendo a necessidade de estruturar o partido e elaborar um programa sólido, o grupo ligado ao jornal “Iskra” (A Centelha) assumiu a tarefa de organizar o congresso partidário. Paralelamente, a “União dos Social-Democratas Russos”, alinhada à corrente do “economicismo”, também começou a trabalhar pela convocação do congresso, buscando fortalecer sua posição política e impedir que os seguidores do “Iskra” assumissem o controle central da nova organização.
Foi contra essa dispersão e oportunismo que Lênin, no exílio, lançou o jornal Iskra (A Centelha) em 1900, com o objetivo de criar uma organização de revolucionários profissionais e centralizar ideologicamente o partido. Neste mesmo período, no Cáucaso, o jovem Ióssif Stáline (Djugachvíli) ingressou na organização social-democrata georgiana “Mesamedasi”. As fontes indicam que, desde o início, Stálin alinhou-se incondicionalmente à linha leninista do Iskra, combatendo o nacionalismo e o oportunismo locais. Ludo Martens, baseando-se em fontes históricas, confirma essa adesão precoce: “Entre 1901 e 1917, desde as origens de partido bolchevique até à vitória da Revolução de Outubro, Stálin foi um partidário consequente da linha elaborada por Lênin. […] Stálin seguiu Lênin desde o início, quando este contava com um número limitado de correligionários entre os intelectuais socialistas.”28
Como vimos exaustivamente, no alvorecer do século XX, o movimento operário russo encontrava-se em uma encruzilhada: embora as greves e o descontentamento crescessem, a organização dos revolucionários era um mosaico de círculos locais isolados, vulneráveis à repressão policial e limitados por visões puramente econômicas. Foi nesse cenário de dispersão que Lênin, escrevendo do exílio em 1901, formulou uma estratégia que não era apenas editorial, mas militar e organizativa. Ele defendia que o ponto de partida para a sobrevivência do movimento e o “fio condutor” para a edificação de uma estrutura nacional sólida deveria ser a fundação de um jornal político que atravessasse as fronteiras regionais da Rússia. Lênin defende que o ponto de partida para a atividade revolucionária e o “fio condutor” para a construção da organização é a fundação de um jornal político para toda a Rússia. Segundo ele:
Em nossa visão, o ponto de partida de nossas atividades, o primeiro passo para criar a organização desejada — ou, digamos, o fio condutor que nos permitiria desenvolver, aprofundar e estender essa organização — deve ser a fundação de um jornal político para toda a Rússia. O jornal é nossa maior necessidade; sem ele, não podemos realizar de forma sistemática aquela propaganda e agitação abrangentes e de princípios firmes que constituem a tarefa principal e permanente da Social-Democracia, especialmente neste momento em que o interesse pela política e pelo socialismo despertou nas camadas mais amplas da população.
Nunca se sentiu tanto a necessidade de reforçar a agitação dispersa (folhetos locais, panfletos, ações individuais) por meio de uma agitação sistemática e generalizada que só a imprensa periódica pode oferecer. Não é exagero dizer que a regularidade com que um jornal é impresso e distribuído serve como critério preciso do quão bem consolidado está esse setor essencial de nossas atividades militantes.
Além disso, nosso jornal deve ser nacional. Enquanto não unirmos nossos esforços para influenciar o povo e o governo por meio da palavra impressa, será utopia pensar em combinar outros meios de influência mais complexos e decisivos. Nosso movimento sofre — ideológica e organizacionalmente — com a fragmentação e com a imersão quase total dos militantes em trabalhos locais, o que limita sua visão e sua capacidade técnica. É nessa fragmentação que residem as raízes da instabilidade.
Por fim, precisamos de um jornal especificamente político. Sem um órgão político, um movimento que mereça esse nome é impensável na Europa de hoje. Precisamos concentrar todos os elementos de descontentamento e protesto para vitalizar o movimento revolucionário do proletariado. Já despertamos na classe operária a paixão pelas denúncias “econômicas” de fábrica; agora, devemos despertar em todas as seções conscientes da população a paixão pela denúncia política.
Não devemos desanimar com a atual debilidade dessas denúncias. Isso não ocorre por submissão ao despotismo, mas porque aqueles prontos para denunciar não possuem uma tribuna nem um público que os encoraje. Hoje, isso muda rapidamente. Essa força existe: é o proletariado revolucionário. É nosso dever fornecer a ele uma tribuna para a denúncia nacional do governo czarista: um jornal Social-Democrata. Através do proletariado, o jornal alcançará a pequena burguesia urbana, os artesãos e os camponeses, tornando-se, de fato, um jornal político de todo o povo. 29
Para além da difusão doutrinária, a proposta leninista de 1901 introduzia uma dimensão de engenharia política até então inédita no movimento russo. No contexto de uma autocracia que proibia partidos e perseguia reuniões, o jornal deveria funcionar como o sistema nervoso central de um organismo em formação. Ao transpor a função literária da imprensa para uma finalidade arquitetônica, Lênin visava converter a energia dispersa dos militantes em um corpo disciplinado e nacionalmente coordenado. O periódico era, em essência, o esqueleto técnico que sustentaria a futura organização de combate. Para Lênin, era necessário algo que transcendesse a simples troca de ideias e impusesse uma disciplina logística capaz de resistir ao monitoramento policial. Em 1901, ele apresenta uma solução que rompe com a tradição puramente literária da época: o jornal não seria apenas um veículo de leitura, mas a ferramenta de engenharia necessária para dar forma ao partido. Ao propor essa estrutura, Lênin visava converter a energia dispersa e espontânea dos militantes em um organismo nacionalmente coordenado e profissionalizado.
O papel de um jornal não se limita apenas à difusão de ideias, à educação política ou ao recrutamento de aliados. O jornal não é apenas um propagandista e um agitador coletivo; ele é, acima de tudo, um organizador coletivo.
Neste último aspecto, ele pode ser comparado ao andaime erguido em volta de um edifício em construção: ele delineia os contornos da estrutura, facilita a comunicação entre os construtores e permite que eles distribuam as tarefas e visualizem os resultados comuns alcançados pelo trabalho organizado. Com o auxílio do jornal, e por meio dele, formará se naturalmente uma organização permanente, dedicada não apenas a atividades locais, mas a um trabalho geral e regular. Isso treinará seus membros a acompanhar atentamente os eventos políticos, avaliar sua importância e impacto nos diversos setores da sociedade e desenvolver meios eficazes para que o partido revolucionário influencie esses acontecimentos.
A simples tarefa técnica de municiar o jornal com material e garantir sua distribuição regular exigirá uma rede de agentes locais do partido unido. Esses agentes manterão contato constante, conhecerão o estado geral dos negócios, se acostumarão a realizar funções detalhadas no trabalho nacional e testarão sua força na organização de diversas ações revolucionárias.
Esta rede de agentes será o esqueleto da organização que precisamos:
Ampla o suficiente para abranger todo o país;
Diversificada o suficiente para permitir uma divisão rigorosa do trabalho;
Temperada o suficiente para manter suas atividades sob qualquer circunstância ou “reviravolta” inesperada;
Flexível o suficiente para, por um lado, evitar o combate aberto contra um inimigo superior e, por outro, aproveitar a lentidão desse mesmo inimigo para atacá-lo onde e quando ele menos esperar.
Hoje, enfrentamos a tarefa relativamente fácil de apoiar manifestações estudantis; amanhã, talvez tenhamos o desafio maior de apoiar movimentos de desempregados ou de ocupar nossos postos em uma insurreição camponesa. Esse grau de prontidão combativa só pode ser desenvolvido através da atividade constante de tropas regulares. Se unirmos forças para produzir um jornal comum, esse trabalho formará não apenas propagandistas habilidosos, mas os organizadores e líderes políticos mais capazes — aqueles prontos para lançar a palavra de ordem no momento decisivo e assumir a frente da batalha. 30
A proposta de Lênin de centralizar a luta revolucionária em torno de um jornal nacional não foi recebida sem resistência. No seio da Social-Democracia russa, vozes críticas acusavam-no de um “doutrinarismo de gabinete” e de uma tentativa de impor um controle autocrático sobre os variados grupos locais. Para seus opositores, a ideia de um jornal como “organizador” parecia um exagero intelectualista. Lênin, contudo, elevou o tom da polêmica no clássico Que Fazer? (1902), utilizando a ironia para ridicularizar o que chamava de visão tacanha de seus adversários e reafirmando que, na modernidade russa, era impossível erguer a estrutura da revolução de forma improvisada. A virada para o século XX também foi marcada pela ascensão da Okhrana — a temida polícia secreta do Czar —, que se tornava cada vez mais eficiente em desmantelar as tipografias clandestinas locais espalhadas pela Rússia. Enquanto grupos como os editores do jornal Rabotcheye Dyelo (A Causa Operária) acreditavam que a revolução deveria ser um processo orgânico e focado em demandas econômicas imediatas, Lênin via nessa fragmentação um convite ao desastre. No exílio, ele percebeu que, sem uma espinha dorsal logística que unisse os comitês de São Petersburgo aos de Odessa, os revolucionários continuariam sendo “amadores” (kustarnitchestvo). A proposta de um jornal centralizador não era apenas um desejo de controle, mas uma tática de sobrevivência militar: tratava-se de substituir o artesanato político pela indústria revolucionária.
‘O jornal não é apenas um propagandista e um agitador coletivo, mas também um organizador coletivo. Nesse sentido, pode ser comparado ao andaime erguido em volta de um edifício em construção; ele delimita os contornos da estrutura e facilita a comunicação entre os construtores, permitindo-lhes distribuir o trabalho e visualizar os resultados comuns alcançados pelo seu esforço organizado’.
Isso soa como a tentativa de um autor de gabinete de exagerar o próprio papel? O andaime não é necessário para a moradia em si; é feito de material barato, montado temporariamente e vira lenha assim que a estrutura principal é concluída. Quanto à construção de organizações revolucionárias, a experiência mostra que, às vezes, elas podem ser erguidas sem andaimes, como ocorreu nos anos setenta. Mas, agora, não podemos sequer imaginar a possibilidade de levantar o edifício de que precisamos sem esse andaime.
Camarada Kritchevski e camarada Martinov! Chamo a atenção de vocês para esta manifestação ultrajante de ‘autocracia’, ‘autoridade sem controle’, ‘regulação suprema’, etc. Imaginem só: o desejo de dominar toda a corrente!! Enviem uma queixa imediatamente. Aqui está um tema pronto para dois editoriais para o nº 12 do Rabotcheye Dyelo!”31
Posteriormente, embora o jornal continuasse central na visão de Lenin, na história dos bolcheviques aconteceram mudanças fundamentais de contexto e tom em relação a importância da imprensa. Do “Andaime” à “Liderança”, no texto de 1901 (Onde Começar?), o foco era construir a estrutura (o “andaime”) de um partido que ainda não existia plenamente. Em 1912, o Partido já existia e o Pravda substituiu o Iskra se tornando um jornal de massas legal; o foco agora é a hegemonia e a liderança política real sobre a classe operária. O Medo da Monotonia, em 1912, Lenin está preocupado com o “engessamento” editorial. Ele nota que o adversário (Axelrod/Liquidacionistas) é mais “ousado” e “atraente”. Ele exige que o jornal seja vivo e polêmico, enquanto em 1901 a preocupação era mais técnica e organizacional (distribuição, rede de agentes, sigilo). Abertura e Clandestinidade eram comuns naquela época, o texto de 1901 foca na criação de uma rede secreta de agentes. O de 1912 lida com a política parlamentar (cita as eleições) e a necessidade de dialogar com os “colaboradores constantes”, refletindo um partido que já atua em múltiplas frentes, inclusive na legalidade. Neste contexto o cenário mudou então a forma de atuação no jornal também.
Para o Editor da Nevskaya Zvezda
A vitória seria certa se o jornal não tivesse medo da polêmica. É preciso falar abertamente sobre os liquidacionistas e trazer vida à publicação por meio do debate, com artigos contra Axelrod e outros. Artigos como os de Axelrod atraem o público: todos os operários ouvem sobre as divergências e sentem-se atraídos pelas explicações diretas dele, pois ele diz as coisas com uma ousadia cem vezes maior que a nossa. Todos os operários de vanguarda conhecem o texto de Axelrod — e se vocês se calam, vocês ficam para trás! E um jornal que fica para trás está perdido. Um jornal deve estar um passo à frente de todos, e isso vale tanto para a Nevskaya Zvezda quanto para o Pravda. Ao lado de artigos mais “positivos”, o Pravda deve oferecer polêmica — notas literárias, artigos de fundo ridicularizando os liquidacionistas e assim por diante. A monotonia e o atraso são incompatíveis com o negócio do jornalismo. Além disso, o Pravda tem um dever especial e vital: “quem ele vai liderar?”. É isso que todos perguntam e tentam ler nas entrelinhas. Seria importante realizar uma reunião (uma vez em quatro anos, antes das eleições) — não se pode tocar um jornal sem encontros, ainda que infrequentes, com seus colaboradores constantes. Reflitam sobre isso bem e rápido, pois o tempo não espera. 32
Lênin utiliza a definição clássica de Plekhánov para distinguir as funções pedagógicas do Partido, estabelecendo a diferença dialética entre a agitação e a propaganda. A distinção leninista entre agitação e propaganda, fundamenta-se na necessidade de transformar a consciência espontânea das massas em consciência socialista e organizar o proletariado como uma força política independente. Conforme detalhado em sua obra clássica Que Fazer? (1902) e complementado pelas análises de Stálin e da historiografia, esses conceitos operam de forma coordenada, mas possuem funções pedagógicas e táticas distintas no seio do movimento revolucionário. A diferenciação entre as formas de comunicação revolucionária não nascera no vácuo, mas nos debates acalorados do grupo Emancipação do Trabalho, a primeira organização marxista russa fundada no exílio suíço. Ao recorrer a Gueorgui Plekhánov, o “pai do marxismo russo” — que era tanto um mestre quanto um adversário do jovem Volodya — Lênin resgatava uma ferramenta intelectual desenhada para resolver um problema prático: como falar simultaneamente com o intelectual universitário de São Petersburgo e com o operário têxtil que mal dominava a leitura? Na virada do século, a Social-Democracia enfrentava o desafio de romper o isolamento das fábricas; para isso, era preciso uma estrutura que não apenas entregasse panfletos, mas que funcionasse como uma verdadeira escola política clandestina, capaz de elevar o nível de compreensão do povo em meio à censura imperial.
A Propaganda é o processo que fornece muitas ideias a um grupo pequeno de pessoas. A ideia é a formação teórica. O propagandista foca na explicação teórica do sistema e das contradições do capitalismo; sua função é formar quadros profissionais para o combate contra a classe dominante para fazer a revolução, munindo-os de uma base teórica densa e multifacetada. Ao tratar, por exemplo, do desemprego, o propagandista deve explicar a natureza capitalista das crises, sua inevitabilidade na sociedade capitalista e a necessidade da transição para o socialismo. Em suma, ele deve apresentar muitas ideias — tantas que, como um todo integral, serão compreendidas apenas por um número (comparativamente) restrito de pessoas. A necessidade de distinguir a propaganda da agitação tornou-se urgente à medida que os círculos marxistas na Rússia, como a União de Luta pela Emancipação da Classe Operária em São Petersburgo, começaram a crescer e a atrair tanto intelectuais universitários quanto operários avançados. No ambiente de intensa vigilância da polícia imperial, não bastava apenas revoltar a massa; era preciso criar um núcleo duro de militantes que compreendessem as leis do desenvolvimento histórico para garantir que o movimento não se dissolvesse após as primeiras prisões. A propaganda, portanto, surgiu como a “escola de guerra” do partido, funcionando em tipografias escondidas e reuniões em apartamentos suburbanos, onde o estudo de obras como O Capital servia para forjar a coluna vertebral ideológica da futura vanguarda revolucionária. Nas palavras de Lênin:
Ao tratar, por exemplo, do desemprego, o propagandista deve explicar a natureza capitalista das crises, sua inevitabilidade na sociedade moderna e a necessidade da transição para o socialismo. Em suma, ele deve apresentar muitas ideias — tantas que, como um todo integral, serão compreendidas apenas por um número (comparativamente) restrito de pessoas. 33
A necessidade de organizar e ampliar a agitação política sistemática, apoiando integralmente o movimento de massas que desponta e garantindo que ele se desenvolva sob a bandeira da plena implementação das palavras de ordem do Partido. Deve-se dar destaque especial à propaganda pela república e contra a política da monarquia czarista para combater, entre outros pontos, a ampla difusão de slogans moderados e daquelas posições que tentam restringir a atuação política aos limites da “legalidade” vigente. 34
Ao instruir o Comitê Central (C.C.) do Partido a aplicar rigorosamente estas decisões, o Congresso ressalta que publicações especiais, simpósios e afins podem e devem oferecer espaço para uma troca de opiniões abrangente entre os membros sobre todos os temas aqui listados.”
Vocês não percebem — todos vocês que, de uma forma ou de outra, atuam na agitação e propaganda — a diferença entre a difusão de ideias dentro de partidos políticos em plena luta e a troca de opiniões em publicações técnicas e simpósios? Tenho certeza de que qualquer um que se esforce para compreender esta resolução verá a distinção. Esperamos que os representantes desta tendência, que estamos integrando ao Comitê Central, lidem com as decisões do Congresso como qualquer militante disciplinado e consciente faria.
Com o auxílio deles, pretendemos analisar essa questão no C.C. sem criar situações de exceção. Investigaremos e definiremos o que está ocorrendo no Partido: se é a propagação de teses dentro de uma organização militante ou se é apenas um intercâmbio de ideias em fóruns teóricos. Quem quiser se aprofundar em estudos minuciosos sobre citações de Engels terá sua oportunidade; temos teóricos capazes de oferecer conselhos úteis ao Partido, o que é necessário. Publicaremos duas ou três grandes coletâneas — isso é útil e essencial. Mas será que isso tem qualquer semelhança com a propaganda política de ideias ou com o conflito entre plataformas partidárias? Como confundir essas duas coisas? Ninguém que realmente deseje entender nossa situação política cometerá tal erro. 35
Apesar de usar a ideia geral de Plekhánov Lênin discordava de seu antigo mestre e novo adversário. Historicamente, essa divergência se manifestou na crítica de Lênin ao programa da Liga do Norte em 1902 marca um momento de ruptura com a ortodoxia pedagógica de Gueorgui Plekhánov, o principal teórico do marxismo russo até então. Enquanto Plekhánov tendia a enxergar a propaganda como uma atividade puramente educativa e acadêmica, destinada a um desenvolvimento abstrato da consciência, Lênin imprime uma visão marcadamente organizacional e pragmática ao conceito. Teoricamente, a discordância reside na recusa de Lênin em aceitar a propaganda apenas como uma “escola de agitadores” ou como um exercício para indivíduos isolados. Para ele, a propaganda deve estar indissociavelmente ligada à construção do partido como um organismo de direção, formação política e combate, capaz de unificar as diversas frentes de opressão sob uma vanguarda profissionalizada, superando o que ele chamava de desvios “economicistas” que limitavam o horizonte revolucionário. Lênin sintetiza essas divergências teóricas e táticas nos seguintes pontos:
§ 7 formula a “tarefa” das atividades da Liga de modo restrito. Não devemos apenas “desenvolver a consciência de classe do proletariado”, mas também organizá-lo em um partido político — para então dirigir sua luta (tanto econômica quanto política).
A afirmação de que o proletariado se encontra em “condições específicas e concretas” é supérflua. Deve ser omitida ou tais condições precisam ser claramente definidas (o que deveria ocorrer em outra seção do programa).
É um erro classificar a agitação como o “único” meio para atingir nossos objetivos. Ela está longe de ser o único recurso disponível.
Definir agitação apenas como “influência sobre amplos setores dos trabalhadores” é insuficiente. É preciso especificar a natureza dessa influência. A agitação política deve ser abordada de forma mais direta, firme, precisa e detalhada. Do contrário, ao silenciar sobre a agitação política propriamente dita e dedicar dois parágrafos inteiros (14 e 15) à agitação econômica, o programa desvia-se (ainda que involuntariamente) para o “economicismo”. Deve-se enfatizar a necessidade de agitar contra todas as formas de opressão — política, econômica, social ou nacional —, independentemente da classe ou setor populacional atingido. É vital que a Social-Democracia esteja na vanguarda de todos os confrontos com o governo; somente após estabelecer isso é que os meios de agitação (oral, jornais, panfletos, manifestações etc.) devem ser listados.
O § 8 inicia com uma repetição desnecessária.
“Reconhece a propaganda apenas na medida em que…”, etc. Isto está incorreto. A propaganda não possui apenas esse significado; ela não serve exclusivamente para a “formação de agitadores”, mas é um meio de difundir a consciência de classe em geral. O programa cai no extremo oposto. Se o objetivo era criticar a propaganda que se distancia das tarefas de agitação, seria melhor dizer: “na propaganda, é particularmente necessário não perder de vista a tarefa de formar agitadores”. Contudo, a propaganda não pode ser reduzida apenas ao treinamento de “agitadores experientes e capazes”, nem se deve simplesmente “rejeitar” a “formação de operários conscientes individualmente”. Consideramos isso insuficiente, mas não o “rejeitamos”. Portanto, a parte final do § 8 (a partir de: “sendo nossa atitude de rejeição”) deve ser totalmente excluída.36
A agitação é, em sentido dialético, o oposto da propaganda: ela fornece uma ou poucas ideias a uma grande massa de pessoas. O agitador busca inspirar os oprimidos na luta por seus interesses. Para isso, utiliza fatos flagrantes e cotidianos — como a fome ou a injustiça — para despertar a indignação e o descontentamento coletivo, sintetizando a mensagem em pontos diretos e mobilizadores. Historicamente, a transição para a agitação de massas marcou o fim da fase puramente teórica dos pequenos círculos intelectuais e o início da imersão dos revolucionários na vida cotidiana das fábricas russas. Durante a década de 1890, militantes como os da União de Luta de São Petersburgo perceberam que, para mover milhares de operários, não bastava explicar as leis abstratas da mais-valia; era preciso tocar na ferida aberta das multas abusivas, das jornadas de 14 horas e das péssimas condições de higiene nos alojamentos. A agitação tornou-se, assim, a linguagem das ruas e o estopim das greves, transformando o sofrimento imediato em um ato de resistência política. Diferente do estudo silencioso da propaganda, a agitação era o grito nos portões das indústrias, projetado para unificar a massa através de uma indignação compartilhada.
O agitador, ao tratar do mesmo tema, tomará como exemplo um fato gritante e amplamente conhecido por seu público — como a morte por inanição da família de um operário desempregado ou o empobrecimento crescente. Utilizando esse fato de conhecimento geral, ele concentrará seus esforços em transmitir uma única ideia às massas: por exemplo, o absurdo da contradição entre o aumento da riqueza e o aumento da miséria. Ele buscará despertar o descontentamento e a indignação das massas contra essa injustiça gritante, deixando a explicação completa dessa contradição para o propagandista.
Consequentemente, o propagandista atua principalmente por meio da palavra escrita, enquanto o agitador utiliza a palavra falada. O propagandista exige qualidades distintas das do agitador. Kautsky e Lafargue, por exemplo, chamamos de propagandistas; Bebel e Guesde, de agitadores. Isolar uma terceira esfera — ou função — da atividade prática e nela incluir o ‘chamado às massas para ações concretas’ é um completo absurdo. Isso porque o ‘chamado’, enquanto ato isolado, ou é o complemento natural e inevitável do tratado teórico, do panfleto de propaganda e do discurso de agitação, ou representa uma função meramente executiva.
Tomemos o exemplo da luta dos social-democratas alemães contra os impostos sobre os cereais. Os teóricos escrevem obras de pesquisa sobre política tarifária, incluindo o ‘chamado’, por exemplo, à luta por tratados comerciais e pelo livre comércio. O propagandista faz o mesmo na imprensa periódica, e o agitador em comícios e discursos públicos. Atualmente, a ‘ação concreta’ das massas consiste em assinar petições ao Reichstag contra o aumento desses impostos. O chamado para essa ação vem indiretamente dos teóricos, propagandistas e agitadores, e diretamente dos trabalhadores que levam as listas de assinaturas às fábricas e residências. Pela ‘terminologia de Martynov’, Kautsky e Bebel seriam ambos propagandistas, enquanto os que coletam as assinaturas seriam os agitadores. Não é óbvio o contrassenso? 37
Nos escritos de Lênin entre 1920 e 1921, observa-se uma transição estratégica onde o fervor da agitação revolucionária cede lugar à necessidade imperativa de consolidação estatal e reconstrução econômica. Implicitamente, o autor estabelece uma hierarquia rígida entre a teoria e a prática, onde o debate intelectual é relegado a esferas acadêmicas e publicações especializadas para que não fragilize a unidade de ação e a disciplina férrea exigidas no interior do Partido. Ao converter a agitação política em “propaganda de produção”, Lênin busca canalizar a subjetividade do trabalhador para a eficiência técnica, transformando o compromisso ideológico em métrica de produtividade e substituindo o conflito de plataformas pela gestão administrativa centralizada. Essa postura revela o esforço do regime em institucionalizar o movimento de massas, domesticando o ímpeto da revolta sob o manto de uma legalidade nova e de um pragmatismo que prioriza a sobrevivência do Estado soviético em detrimento da espontaneidade política.
Diante das vitórias militares da R.S.F.S.R. e da sua nova posição internacional, a propaganda voltada à produção deve agora assumir papel central, sendo intensificada e organizada sistematicamente.Os principais jornais, prioritariamente o Izvestia e o Pravda, devem: a) reduzir o espaço dedicado à política geral e ampliar a cobertura sobre produção; b) orientar o trabalho do Partido e das instituições soviéticas para mobilizar mais recursos nesta frente; c) empenhar-se para que essa propaganda alcance escala nacional, criando mecanismos de incentivo e, acima de tudo, métodos para verificar os resultados práticos alcançados.
Paralelamente, deve-se ampliar e sistematizar o recrutamento de administradores talentosos, organizadores e inventores vindos diretamente das massas de operários e camponeses.
Em toda a R.S.F.S.R., a propaganda de produção deve ser coordenada por um órgão central unificado, visando a economia de esforços e uma orientação técnica superior. Para tanto, é indispensável garantir autonomia local e setorial. Sucessos comprovados devem ser recompensados de forma criteriosa (bonificações em espécie etc.), através de auditorias competentes e imparciais.
O conselho editorial de um jornal de massas (com tiragem entre 500 mil e 1 milhão de exemplares) deve ser estabelecido como o órgão gestor exclusivo para a direção da propaganda de produção. 38
Neste trecho, redigido em um momento crítico de transição para a Nova Política Econômica (NEP), Lênin opera uma revisão pragmática sobre o papel da superestrutura — especificamente da imprensa — na consolidação da revolução.
Ao contrastar a natureza do jornalismo capitalista, voltado ao lucro e à manipulação, com a função educativa do jornalismo soviético, o autor admite que a destruição do aparato burguês foi apenas o primeiro passo, e possivelmente o mais fácil. O desafio subsequente, revelado nas entrelinhas, é o combate ao “infantilismo” dentro do próprio Partido: Lênin critica duramente a retórica vazia e o apego a slogans abstratos que já não correspondiam às necessidades materiais de um país exaurido. Ao exigir a substituição da “pirotecnia política” pela “propaganda de produção”, ele estabelece que a legitimidade do novo regime não viria mais apenas da agitação ideológica, mas da capacidade técnica de organizar a vida cotidiana e ensinar as massas a gerirem a economia de forma autônoma e eficiente.
Que conclusão podemos tirar desses dados parciais? Acredito que seja exatamente o que diz o Programa do nosso Partido: estamos dando apenas os primeiros passos na transição do capitalismo para o comunismo.
Sob o regime capitalista, um jornal é uma empresa privada, uma fonte de lucro, um meio de informação e lazer para os ricos e um instrumento para enganar e ludibriar as massas trabalhadoras. Nós destruímos esse aparato de lucro e mentira. Começamos a transformar a imprensa em uma ferramenta para educar as massas e ensiná-las a viver e gerir a economia sem a tutela de latifundiários e capitalistas. No entanto, estamos apenas no início desta jornada. Fizemos pouco nesses últimos três anos; o que resta por fazer é imenso e o caminho à frente é longo.
Portanto, menos pirotecnia política, menos debates genéricos e menos palavras de ordem abstratas vindas de comunistas inexperientes que não compreendem suas tarefas. Precisamos de mais propaganda voltada à produção e, acima de tudo, de uma aplicação muito mais eficiente e técnica da experiência prática que se adapte ao desenvolvimento das massas.39
Embora inspirados por Plekhanov, Lênin e os “Iskristas” (bolcheviques) levaram a agitação para um campo muito mais amplo que o sugerido pela ala oportunista. Lênin criticou aqueles que queriam dar à agitação econômica um caráter político, em vez de realizar uma agitação política abrangente. Lênin contra duas frentes que ele considerava igualmente prejudiciais: o Economicismo (que limitava a luta operária ao sindicalismo) e o Terrorismo Individual (que tentava substituir a ação de massas por atos isolados de violência contra autoridades). Para Lênin, ambos os desvios partiam do mesmo erro: a descrença na capacidade de organização política da classe operária. O terrorismo, ao tentar “excitar” as massas por meio de atentados, tratava o trabalhador como um espectador passivo de “heróis” individuais. A resposta de Lênin é a agitação política abrangente, capaz de transformar o descontentamento cotidiano e disperso em um movimento nacional e consciente, focado na derrubada da autocracia.
Deste ponto de vista, torna-se claro por que o Rabotcheye Dyelo, incapaz de resistir à espontaneidade do Economicismo, também não conseguiu resistir à espontaneidade do terrorismo. É extremamente interessante notar os argumentos específicos que o grupo Svoboda apresenta em defesa do terror. Eles “negam completamente” o papel dissuasivo do terrorismo, mas enfatizam, em contrapartida, sua “importância excitante”.
Isso é característico, primeiro, por representar uma das etapas de decomposição do ciclo tradicional de ideias (pré-Social-Democracia) que insistia no terror. Admitir que o governo não pode mais ser “aterrorizado” — e, portanto, desestruturado — pelo terror, equivale a uma condenação completa do terrorismo como sistema de luta ou como esfera de atividade sancionada pelo programa.
Segundo, é ainda mais característico como exemplo da incapacidade de compreender nossas tarefas imediatas quanto à “educação para a atividade revolucionária”. O Svoboda defende o terror como meio de “excitar” o movimento operário e dar-lhe um “forte impulso”. É difícil imaginar um argumento que se desminta de forma tão absoluta. Já não ocorrem atrocidades suficientes na vida russa sem que seja necessário inventar “excitantes” especiais? Por outro lado, não é óbvio que aqueles que não se sentem excitados nem mesmo diante da tirania russa permanecerão “de braços cruzados” assistindo a um punhado de terroristas em um combate individual contra o governo?
O fato é que as massas operárias já estão altamente excitadas pelas mazelas sociais da vida russa, mas nós somos incapazes de reunir e concentrar todas essas gotas e fluxos de ressentimento popular — que são produzidos em escala muito maior do que imaginamos pelas condições da vida na Rússia — para combiná-los em um único e gigantesco torrente. Que isso é realizável, prova-o o crescimento enorme do movimento operário e a sede com que os trabalhadores clamam por literatura política.
Por outro lado, os apelos ao terror e os apelos para dar à própria luta econômica um caráter político são meramente duas formas de evadir o dever mais urgente dos revolucionários russos: a organização de uma agitação política abrangente. O Svoboda deseja substituir a agitação pelo terror, admitindo abertamente que “assim que uma agitação intensa e vigorosa começar entre as massas, a função excitante do terror terminará”. Isso prova precisamente que tanto os terroristas quanto os economicistas subestimam a atividade revolucionária das massas. Enquanto um grupo busca “excitantes” artificiais, o outro fala em “demandas concretas”, mas ambos falham em dedicar atenção suficiente ao desenvolvimento de sua própria atividade na agitação política e na organização de denúncias políticas. Nenhum outro trabalho pode substituir essa tarefa, seja no presente ou em qualquer outro momento. 40
Ele insistia que a agitação deveria responder a todos os casos de tirania e opressão, independentemente de qual classe fosse afetada, para treinar a consciência política do proletariado. O que Lênin sustenta nas entrelinhas deste texto é uma profunda ruptura com o “narcisismo de classe”. O implícito aqui é que olhar apenas para a própria fábrica deforma a consciência do trabalhador.
A Classe se Define pela Relação: Lênin sugere que o operário só sabe quem ele é quando entende quem é o padre, o juiz e o latifundiário. A identidade de classe não é interna, mas relacional. O Partido como Cartógrafo: O papel implícito do Partido e do jornal é o de um mapeador social. O Partido não ensina o operário a trabalhar ou a pedir aumento (ele já sabe fazer isso), o Partido ensina o operário a ler a sociedade como um todo complexo. A Política como Desmascaramento: Ao falar em “sofismas” e “camuflagem”, Lênin implica que a sociedade burguesa é um teatro de sombras. A agitação política é o ato de “acender as luzes” para mostrar os fios que movem as instituições. Educação pelo Escândalo: Está implícito que o “fato político atual” (o escândalo do dia, a injustiça do momento) tem mais poder pedagógico do que dez manuais de teoria marxista, pois ele retira a teoria da abstração e a joga na vida vivida.
Ao contrapor à Iskra sua teoria de “elevar a atividade das massas operárias”, Martynov, na verdade, revelou um desejo de rebaixar essa atividade. Ele declarou que a luta econômica — diante da qual todos os economicistas se curvam — seria o meio preferível, mais importante e “mais amplamente aplicável” para despertar essa ação. Este erro é pedagógico: a atividade das massas só pode ser elevada quando não está restrita à “agitação política em bases econômicas”.
A condição fundamental para a expansão necessária da agitação política é a organização de denúncias políticas abrangentes. Não há outro meio de treinar as massas na consciência política e na atividade revolucionária a não ser através dessas denúncias. Esta é uma das funções mais vitais da Social-Democracia internacional; mesmo a liberdade política não elimina a necessidade de denúncias, apenas altera seu foco. O partido alemão, por exemplo, fortalece suas posições justamente pela energia incansável com que conduz suas campanhas de denúncia política.
A consciência da classe operária não pode ser uma consciência política genuína a menos que os trabalhadores sejam treinados para responder a todos os casos de tirania, opressão, violência e abuso, não importa qual classe seja afetada — e que o façam a partir de um ponto de vista social-democrata. A consciência das massas não será uma consciência de classe real a menos que os operários aprendam, por meio de fatos e eventos políticos concretos e atuais, a observar cada uma das outras classes sociais em todas as manifestações de sua vida intelectual, ética e política. É preciso aprender a aplicar, na prática, a análise e a estimativa materialista de todos os aspectos da vida de todas as camadas e grupos da população.
Aqueles que concentram a atenção e a consciência da classe operária exclusiva ou principalmente sobre si mesma não são social-democratas. O autoconhecimento da classe operária está indissociavelmente ligado à compreensão prática das relações entre todas as classes da sociedade moderna, adquirida através da experiência política. Por isso, a concepção da luta econômica como o meio ais aplicável para atrair as massas é extremamente prejudicial e reacionária.
Para tornar-se um social-democrata, o operário deve ter uma imagem clara da natureza econômica e dos traços sociais e políticos do proprietário de terras e do padre, do alto funcionário do Estado e do camponês, do estudante e do vagabundo. Ele deve conhecer seus pontos fortes e fracos; deve captar o significado dos sofismas com os quais cada classe camufla seus interesses egoístas; deve entender quais interesses certas leis refletem e como o fazem. Essa “imagem clara” não pode ser obtida em livros, mas apenas por meio de exemplos vivos e denúncias que acompanhem de perto o que acontece ao nosso redor no momento — o que é discutido em sussurros, o que se expressa em estatísticas, sentenças judiciais, e assim por diante. Essas denúncias políticas abrangentes são a condição essencial e fundamental para treinar as massas na atividade revolucionária. 41
Lenin descreve exatamente o mecanismo de transformação da classe operária e de sua consciência: a transição do estado de “guerra econômica desordenada” (espontaneismo) para a “luta de classes consciente” (organização política). Mas, tudo isso já existia na teoria de Marx e Engels. Nos termos de Marx a classe em si se transforme em classe para si. No livro “A Miséria da Filosofia”, Karl Marx e Friedrich Engels afirmam que os indivíduos só se constituem verdadeiramente em classe quando adquirem consciência da sua condição e se engajam na luta comum. A essa forma superior, em que os interesses coletivos são assumidos politicamente, chamam de “classe para si”; ao contrário, quando tal consciência inexiste, trata-se apenas de uma “classe em si”, incapaz de expressar reivindicações políticas de modo organizado. Nas palavras do camarada Marx:
As condições econômicas transformaram, primeiramente, a massa da população em trabalhadores. A dominação do capital criou para essa massa uma situação comum e interesses comuns. Assim, essa multidão já constitui uma classe em relação ao capital, mas ainda não uma classe para si. Na luta — da qual destacamos apenas algumas fases —, essa massa se une e se constitui como uma classe para si mesma. Os interesses que ela defende tornam-se interesses de classe. E a luta de classes é, fundamentalmente, uma luta política42.
Marx sugere que o capitalismo, por sua própria natureza, agrupa as pessoas. No entanto, o simples fato de serem operários não os torna uma força política automática. É uma condição puramente econômica. Os trabalhadores compartilham a mesma fonte de renda (salário) e sofrem a mesma exploração, mas podem não ter consciência disso. Eles são uma classe apenas porque o Capital os colocou na mesma “caixa”. Tal qual a consciência espontaneísta sindical ou econômica tão bem trabalhada por Lênin. O salto qualitativo ocorre quando a classe percebe que seus interesses são irreconciliáveis com os dos capitalistas e decide lutar coletivamente. No segundo trecho que você traduziu, Marx desconstrói a ideia de que “classe” é apenas uma questão de “quanto você ganha”. Se classe fosse apenas sobre a “identidade das rendas”, médicos e lixeiros poderiam pertencer à mesma classe se ganhassem o mesmo. A classe não é definida pelo valor do que recebe, mas pela sua posição no processo de produção. O que importa é se você é dono dos meios de produzir ou se é obrigado a vender sua força de trabalho. A Luta Econômica é um Meio, a luta Política é o Fim. Marx deixa implícito que sindicatos e greves por melhores salários são apenas o estágio inicial. Já Lênin não apenas explicitou essa realidade como a desenvolveu melhor que seus adversários. A “luta de classe contra classe” só se torna madura quando deixa de ser apenas sobre dinheiro (economia) e passa a ser sobre quem detém o poder na sociedade (política). Para Marx, não existe “neutralidade”: ou você defende a estrutura atual ou luta para transformá-la.
A Superação da Consciência Espontânea de acordo com Lênin, depende de conceitos já estudados anteriormente, isto é, ocorre via a conversão da “guerra econômica simples”, por exemplo, a luta sindical econômica, para a consciência de classe. Na teoria leninista, isso se faz através de conceitos já explicados: 1) Agitação: O uso de fatos (como péssimas condições de trabalho mencionadas no texto sobre os “operários fabris”) para mobilizar as massas em torno de reivindicações imediatas; 2) Propaganda: Definida por Lênin como “assimilação das ideias do socialismo científico”. A propaganda, para Lênin, é a explicação profunda e teórica para menos pessoas (os “representantes avançados” ou a vanguarda).
Na obra fundamental Que Fazer?, Lênin estabelece que o espontaneísmo é a consciência em forma embrionária, mas que, por si só, é incapaz de transcender os limites do sistema capitalista. A Consciência Sindical deve evoluir para a consciência Socialista, segundo Lênin argumentava: a classe operária, entregue exclusivamente aos seus próprios esforços, só consegue desenvolver uma consciência sindical (tred-iunionista), ou seja, a convicção de lutar por melhores salários e leis trabalhistas, sem questionar a raiz da exploração. A consciência socialista deve ser Introduzir a “de fora”: A consciência socialista (marxismo) não nasce espontaneamente das fábricas, mas foi elaborada por intelectuais instruídos (como Marx e Engels) e deve ser introduzida no movimento operário de fora pela vanguarda do partido. Por isso, Lênin combate a adoração da “espontaneidade” (stikhiinost), argumentando que o movimento operário entregue a si mesmo gera apenas uma consciência sindical.
Os trabalhadores só conseguem obter uma educação política real por meio de uma luta constante, coerente e total, na qual as aspirações e tendências proletárias enfrentem diretamente as influências e tendências burguesas. Nem mesmo Trotsky negaria que o liquidacionismo — assim como foi o Economismo entre 1895 e 1902 — é uma manifestação da influência burguesa sobre o proletariado. Quanto a Plekhanov, ele próprio, em um passado já distante, há cerca de um ano e meio ou dois anos, defendeu a decisão do Partido que estabeleceu essa verdade fundamental. 43
Lênin reconhece que a “rotina” e o “conservadorismo” são inimigos tão perigosos quanto a própria burguesia armada, pois residem nos hábitos cotidianos das massas. Assim, a educação política transborda para a esfera da conduta: ser revolucionário, para Lênin neste momento, significa ser o arquiteto de uma autodisciplina que dispense os antigos métodos de coerção econômica.
“O proletariado, por meio da luta de classes — enfrentando a resistência da burguesia e combatendo o conservadorismo, a rotina e a hesitação da pequena burguesia — deve sustentar seu poder e fortalecer sua capacidade de organização. É preciso ‘neutralizar’ os grupos que temem romper com a burguesia e que seguem o proletariado com vacilação, consolidando uma nova disciplina: a disciplina camarada dos trabalhadores. Trata-se de um novo fundamento para os laços sociais, uma unidade firme com o proletariado que substitui tanto a disciplina servil da Idade Média quanto a disciplina da fome — aquela escravidão assalariada ‘livre’ imposta pelo capitalismo.”44
II. O Combate a Espontaneidade
A luta de V. I. Lênin contra o espontaneísmo (em russo, stikhiinost) foi um dos pilares da construção do partido de novo tipo e da definição da estratégia revolucionária bolchevique. Para Lênin e seus seguidores, como Stálin, o espontaneísmo não era apenas um erro tático, mas a base lógica do oportunismo, que subordinava o movimento operário à ideologia burguesa.
A teoria da adoração da espontaneidade é decisivamente oposta ao caráter revolucionário do movimento operário; ela se opõe a que o movimento siga a linha de luta contra os fundamentos do capitalismo, preferindo que ele se limite a reivindicações ‘realizáveis’ e ‘aceitáveis’ para o sistema. É a defesa integral da ‘linha de menor resistência’. Em suma: a teoria da espontaneidade é a ideologia do trade-unionismo [sindicalismo reformista].
Essa teoria se opõe frontalmente a conferir um caráter planejado e politicamente consciente ao movimento espontâneo. Ela rejeita a ideia de o Partido marchar à frente da classe trabalhadora, elevando as massas ao nível da consciência política e liderando o movimento. Em vez disso, defende que os elementos conscientes não devem intervir no curso natural das massas, restando ao Partido apenas observar o movimento espontâneo e deixar-se arrastar por ele. A teoria da espontaneidade nada mais é do que a minimização do papel da consciência no movimento; é a ideologia do ‘khvostismo’ [seguidismo], a base lógica de todo oportunismo.”
Essa teoria se opõe frontalmente a conferir um caráter planejado e politicamente consciente ao movimento espontâneo. Ela rejeita a ideia de o Partido marchar à frente da classe trabalhadora, elevando as massas ao nível da consciência política e liderando o movimento. Em vez disso, defende que os elementos conscientes não devem intervir no curso natural das massas, restando ao Partido apenas observar o movimento espontâneo e deixar-se arrastar por ele. A teoria da espontaneidade nada mais é do que a minimização do papel da consciência no movimento; é a ideologia do ‘khvostismo’ [seguidismo], a base lógica de todo oportunismo.” 45
Lênin argumenta que o movimento puramente espontâneo das massas é incapaz de atingir o socialismo por si só. “A história de todos os países mostra que a classe operária, exclusivamente pelo seu próprio esforço, só é capaz de desenvolver uma consciência sindicalista”, ou seja, a convicção de que é necessário unir-se em sindicatos para lutar contra os patrões e exigir leis trabalhistas. Não é que os trabalhadores sejam incapazes de pensar, mas que a estrutura do capitalismo os acorrenta à luta imediata pela sobrevivência (o sindicalismo). O socialismo científico é uma “ciência” e, como tal, requer um tempo de estudo e abstração que o trabalho fabril impede. O Papel da Intelectualidade: Lênin reconhece a origem burguesa dos intelectuais, mas argumenta que eles cumprem uma função técnica necessária: a de portadores da teoria. A Ruptura com o Economismo: Implicitamente, Lênin está atacando os “economistas” que diziam que os intelectuais não deveriam “doutrinar” os operários. Lênin responde que, se os socialistas não levarem a ideologia socialista aos operários, a burguesia levará a dela (que já está em todo lugar). Não existe vácuo ideológico.
Dissemos que não poderia haver consciência social-democrata entre os trabalhadores. Ela teria de ser levada a eles de fora. A história de todos os países mostra que a classe operária, exclusivamente por seu próprio esforço, é capaz de desenvolver apenas uma consciência sindicalista — ou seja, a convicção de que é necessário unir-se em sindicatos, combater os patrões e pressionar o governo para aprovar a legislação trabalhista necessária etc.
A teoria do socialismo, porém, surgiu de teorias filosóficas, históricas e econômicas elaboradas por representantes instruídos das classes proprietárias: os intelectuais. Pela sua condição social, os próprios fundadores do socialismo científico moderno, Marx e Engels, pertenciam à intelectualidade burguesa. Da mesma forma, na Rússia, a doutrina teórica da Social-Democracia surgiu de maneira totalmente independente do crescimento espontâneo do movimento operário; surgiu como um resultado natural e inevitável do desenvolvimento do pensamento entre a intelectualidade socialista revolucionária.
Portanto, tínhamos tanto o despertar espontâneo das massas operárias para uma vida e luta conscientes, quanto uma juventude revolucionária, armada com a teoria social-democrata e ansiosa por alcançar os trabalhadores. É particularmente importante mencionar o fato, muitas vezes esquecido, de que embora os primeiros social-democratas daquele período realizassem zelosamente a agitação econômica, eles não consideravam essa como sua única tarefa. Pelo contrário, desde o início, estabeleceram para a Social-Democracia russa as tarefas históricas mais abrangentes, em especial a derrubada da autocracia. 46
III. A Questão da Teoria Revolucionária
Opondo-se à “espontaneidade”, que os “economistas” confundiam com o desenvolvimento objetivo do movimento, sublinhou a importância da consciência socialista, que só a ação organizada do partido operário podia formar nas massas: “Sem teoria revolucionária (…) não pode haver movimento revolucionário. (…) Só um partido guiado por uma teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda”.
Em Julho de 1903, o II Congresso do POSDR dá um passo decisivo para a fundação de facto do partido, aprovando o programa e os estatutos propostos por Lênin. A maioria aprova igualmente as suas propostas de constituição do Comité Central e da Redacção do Iskra, mas nos intensos debates revelam-se claramente duas tendências: os leninistas, que por serem maioritários passam a ser chamados bolcheviques, e os oportunistas minoritários, mencheviques, liderados por Mártov, Trótski e Axelrod. 47
IV. O Partido como Vanguarda
O que significa uma vanguarda? Significa que cada órgão do partido, cada célula, cada poro deve ser formado por especialistas técnicos e profissionais no ramo de atuação: os agitadores, como já vimos, devem ser capazes de transformar análises teóricas propagandeadas que são densas (como as discutidas no II Congresso) em palavras de ordem compreensíveis para o cotidiano da classe trabalhadora. Habilidade requer a capacidade de Identificar a “contradição principal” de um momento e focar nela. Por Exemplo: Transformar a complexa teoria do imperialismo no slogan “Pão, Paz e Terra”. Historicamente, isso envolvia o domínio da escrita e da impressão clandestina. Hoje, exige: Produção de Conteúdo: Habilidade em design gráfico, edição de vídeo e escrita persuasiva (copywriting político). Agitação Digital: Entender algoritmos para furar bolhas e espalhar a “centelha” de forma estratégica. Para Lênin, isso fazia a diferença. A distinção clara entre quem é membro e quem é apenas simpatizante é uma medida de segurança e eficiência: ao restringir o título de membro apenas àqueles que participam ativamente de uma organização sob controle central, ele visa proteger o partido contra o oportunismo, a vacilação ideológica e a infiltração policial. Em suma, Lênin prefere um partido menor, porém mais eficiente e operacionalmente firme, do que uma organização ampla e diluída onde não se pode distinguir quem realmente trabalha de quem apenas fala.
A consciência socialista deve ser levada à classe operária de fora pela vanguarda, que deve ser capaz de elevar as massas ao seu nível e não “marcar passo” com os setores mais atrasados. Revolucionários de Profissão: A organização deve consistir principalmente em pessoas que façam da atividade revolucionária o seu ofício principal.
Em sua resposta, o Sr. N. N. escreveu: ‘O grupo Emancipação do Trabalho exige uma luta direta contra o governo sem antes considerar onde obter as forças materiais para esse embate e sem indicar o caminho da luta’. Enfatizando estas últimas palavras, o autor acrescenta a seguinte nota de rodapé ao termo ‘caminho’: ‘Isto não pode ser explicado por razões de sigilo, pois o programa não se refere a uma conspiração, mas a um movimento de massas. E as massas não podem seguir por caminhos secretos. Podemos conceber uma greve secreta? Podemos conceber manifestações e petições secretas?’
Assim, o autor aproxima-se da questão das ‘forças materiais’ (os organizadores de greves e manifestações) e dos ‘caminhos’ da luta, mas permanece em estado de total confusão. Isso ocorre porque ele ‘adora’ o movimento espontâneo de massas, ou seja, ele o vê como algo que nos isenta da necessidade de realizar uma atividade revolucionária organizada, e não como algo que deveria nos incentivar e estimular essa mesma atividade.
É impossível que uma greve seja segredo para quem dela participa, mas ela pode (e na maioria das vezes é) um ‘segredo’ para o conjunto dos trabalhadores russos, pois o governo cuida de cortar toda comunicação com os grevistas e impedir a difusão de notícias. É aqui, precisamente, que se exige uma ‘luta especial contra a polícia política’ — uma luta que nunca poderá ser conduzida ativamente por massas tão grandes quanto as que participam das greves.
Esta luta deve ser organizada, segundo ‘todas as regras da arte’, por pessoas profissionalmente dedicadas à atividade revolucionária. O fato de as massas serem atraídas espontaneamente para o movimento não torna a organização desta luta menos necessária; ao contrário, torna-a mais urgente. Nós, socialistas, falharíamos em nosso dever direto com as massas se não impedíssemos a polícia de manter cada greve em segredo (e se nós mesmos não preparássemos, de tempos em tempos, greves e manifestações sigilosas). E teremos sucesso nisso, pois as massas que despertam espontaneamente produzirão, de suas próprias fileiras, um número cada vez maior de ‘revolucionários profissionais’ — desde que não nos ocorra a ideia estúpida de aconselhar os operários a continuarem marcando passo no mesmo lugar. 48
Lih, um representante da escola revisionista da sovietologia, argumenta que Lênin estava, na verdade, a tentar aplicar, dentro do possível, o modelo da social-democracia alemã (SPD) à realidade russa, ao contrário da interpretação tradicional que vê Lênin como um autoritário que impunha a consciência de fora para dentro. A Rússia não tinha naquele período um desenvolvimento proletário tão acentuado. Quando Lênin fala em “guias de rua” e “organização de combate” no contexto de Rostov, Lars Lih interpreta isso não como a criação de uma seita de conspiradores, mas como o esforço de criar um “partido de tipo europeu” capaz de difundir a “boa nova” (a mensagem política) num ambiente de repressão absoluta. Para Lih, o “revolucionário profissional” de Lênin nada mais é do que um militante altamente treinado para que o movimento de massas não seja esmagado pela polícia na sua primeira manifestação de audácia.
Na realidade, os eventos de Rostov deveriam nos levar a refletir seriamente sobre a possibilidade de um verdadeiro levante popular. O caráter comum da greve inicial apenas ressalta a poderosa solidariedade do proletariado, que percebeu instantaneamente que a causa dos ferroviários grevistas era a sua própria causa. O drama de Rostov revela a receptividade do proletariado à pregação da ação política e sua prontidão em defender, em combate aberto, o direito a uma vida e a um desenvolvimento livres. De fato, todo trabalhador consciente já exige esses direitos.
Assim, vemos que uma insurreição armada de todo o povo contra a autocracia não é apenas algo que os revolucionários inventaram ou colocaram em seus programas; é o resultado inevitável, natural e prático do próprio movimento — o fruto da crescente indignação, experiência e audácia dos trabalhadores.
Digo que este é o próximo passo inevitável — desde que não esqueçamos, nem por um minuto, a tarefa que nos cabe e que se torna cada vez mais urgente: a de ajudar as massas que já estão se levantando a fazê-lo de maneira cada vez mais ousada e coesa. Cada manifestação de rua deve ter não apenas um ou dois, mas uma dezena de oradores e guias/líderes de rua. Precisamos criar uma organização de combate genuína — não um aparato puramente intelectual voltado para fins terroristas, como o dos Socialistas-Revolucionários, mas uma organização capaz de realmente dirigir as massas em luta. 49
A fusão dos círculos marxistas dispersos ocorreu nominalmente no I Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) em Minsk, em 1898. Contudo, a verdadeira estruturação ideológica deu-se no II Congresso, realizado em Bruxelas e Londres em 1903. Foi aqui que se deu a cisão histórica. 50
Em 1900, a “União” publicou um manifesto propondo a realização do II Congresso. Esse processo levou à realização de uma conferência em abril de 1902, na cidade de Białystok, que reuniu tanto representantes da linha iskrovista quanto da “União”. Durante a conferência, foi formado um Comitê Organizador encarregado de preparar o congresso. No entanto, as autoridades czaristas prenderam todos os participantes, incluindo os membros do comitê. Aproveitando o fracasso dessa primeira tentativa, os iskrovistas convocaram uma nova conferência em outubro de 1902, novamente em Białystok. Desta vez, excluíram representantes da “União dos Social-Democratas Russos” e do “Bund” (União Geral dos Trabalhadores Judeus). Nessa conferência, foi eleito um segundo Comitê Organizador, formado exclusivamente por aliados do “Iskra”, que então avançaram na preparação do congresso. Esse comitê, atuando por meio de seus representantes locais, garantiu que a maioria dos delegados eleitos para o congresso fosse composta por partidários da linha iskrovista. Organizações dissidentes foram sistematicamente excluídas sob diferentes justificativas baseadas na incapacidade organizativa que apresentavam 51.
Em julho de 1903, os delegados eleitos se reuniram em Bruxelas, mas, devido à repressão policial, a abertura do congresso foi impedida, forçando os participantes a transferirem os trabalhos para Londres. No total, 57 delegados participaram do congresso, sendo 43 com direito a voto e 14 com direito apenas a voz consultiva. O congresso foi marcado por uma importante cisão: de um lado, os bolcheviques (majoritários), liderados por Lênin, que defendiam um partido centralizado e composto por revolucionários profissionais; de outro, os mencheviques (minoritários), liderados por Martov, que defendiam uma estrutura mais ampla e inclusiva. Além disso, foi aprovado o programa do partido, estabelecendo diretrizes ideológicas e políticas. Contudo, pouco tempo depois, em 1º de novembro de 1903, Lênin se retirou da redação do jornal “Iskra”, que passou ao controle dos mencheviques, simbolizando uma mudança de forças dentro do movimento social-democrata russo. Essa cisão marcaria o início de profundas diferenças que moldariam o futuro da Revolução Russa52.
No total, ocorreram 37 sessões (13 em Bruxelas e 24 em Londres). Estiveram representadas 26 organizações, incluindo o grupo “Emancipação do Trabalho”, a organização russa do jornal Iskra (A Centelha), o Comitê de São Petersburgo, a Organização Operária de São Petersburgo, os comitês de Moscou, Kharkov, Kiev, Odessa, Nikolaev, a União da Crimeia, o Comitê do Don, a União dos Trabalhadores das Indústrias Metalúrgicas, os comitês de Ekaterinoslav, Saratov, Tiflis, Baku, Batum, Ufá, a União Operária do Norte, a União Siberiana, o Comitê de Tula, o Comitê Central do Bund (União Geral dos Trabalhadores Judeus da Lituânia, Polônia e Rússia), o Comitê Exterior do Bund, a “Liga Exterior da Social-Democracia Revolucionária Russa”, a “União dos Social-Democratas Russos no Exterior” e o grupo “Trabalhadores do Sul”. Participaram, no total, 43 delegados com 51 votos deliberativos (isso ocorreu porque muitos comitês não puderam enviar o número necessário de representantes, então alguns delegados possuíam dois mandatos) e 14 delegados com votos consultivos, representando vários milhares de membros do partido53.
Lênin não aceitava o modelo de “clube de discussão”. Em sua análise posterior do congresso, ele reafirmou a necessidade de disciplina férrea, combatendo o que chamava de “anarquismo senhorial” dos intelectuais que rejeitavam a disciplina partidária: “O oportunismo na organização expressa-se, por exemplo, na defesa da autonomia e do princípio democrático levados a um extremo, e na oposição ao centralismo.”54
A cisão entre bolcheviques e mencheviques no Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), em 1903, não foi apenas uma divergência tática, mas uma ruptura ideológica que moldou o curso da Revolução Russa. Enquanto os bolcheviques, liderados por Lenin, defendiam uma revolução imediata conduzida por uma vanguarda disciplinada em momentos de fluxo revolucionário, os mencheviques, que sequer procuravam averiguar as ascensos e descensos revolucionários, apostavam em uma transição gradual, alinhada ao desenvolvimento capitalista55.
No dia 22 de agosto de 1903 (calendário gregoriano) — ou 9 de agosto no calendário juliano —, ocorreu o Segundo Congresso do POSDR que viveu seu primeiro e talvez maior momento de tensão. Nesse contexto, a trajetória de Lênin foi marcada por um conflito inicial: no debate sobre o Parágrafo 1 dos Estatutos, sua proposta de um partido de militantes profissionais foi derrotada pela de Martov. Martov, que defendia um modelo de “portas abertas” mais amplo e menos rigoroso56.
No entanto, essa derrota estatutária foi o estopim para a divisão. Logo após a votação, os aliados de Martov abandonaram o Congresso por divergências distintas, esvaziando o plenário e alterando a aritmética política. Essa retirada estratégica, conforme demonstram as fontes, garantiu aos partidários de Lênin uma maioria estável. Foi essa nova configuração que definiu e conceituou os grupos de Lênin e Martov.
O conflito em torno do Artigo 1º não se esgotava na forma organizativa. Ele antecipava uma clivagem estratégica mais profunda, que só se tornaria evidente na Revolução de 1905. De um lado, os mencheviques concebiam a revolução como um processo dirigido pela burguesia liberal; de outro, os bolcheviques afirmavam a necessidade de uma liderança proletária independente, capaz de mobilizar o campesinato e os setores plebeus para uma ruptura social mais radical. Segundo a história narrada por Lênin:
O Artigo 1º do Estatuto define quem é membro do Partido. No meu projeto, a definição era: “É considerado membro do Partido Operário Social-Democrata Russo aquele que aceita seu programa e apoia o Partido tanto financeiramente quanto por meio da participação pessoal em uma de suas organizações”. Em vez do trecho que sublinhei, Martov propôs: “trabalhar sob o controle e a direção de uma das organizações do Partido”.
Minha formulação teve o apoio de Plekhanov; a de Martov foi defendida pelo restante da redação (com Axelrod como porta-voz no Congresso). Argumentamos que o conceito de “membro” precisava ser restrito para separar quem realmente trabalha de quem apenas fala. O objetivo era eliminar o caos organizacional e acabar com a situação absurda de existirem grupos formados por “membros”, mas que não eram, de fato, organizações do Partido. Martov, por outro lado, defendia a expansão do Partido. Ele falava em um movimento de massas que exigia uma organização ampla — ou seja, difusa. É curioso notar que, para defender esse ponto, quase todos os apoiadores de Martov citaram o meu livro Que Fazer?. Plekhanov rebateu Martov duramente, apontando que sua formulação “jauresista” [reformista] abriria as portas para os oportunistas, que desejam justamente estar “dentro” do Partido, mas “fora” de sua estrutura organizacional.
Eu afirmei que, na prática, “sob o controle e direção” não significaria absolutamente nada além de falta total de controle ou direção. Martov venceu: sua proposta foi adotada (por cerca de 28 votos contra 23, se bem me lembro). Ele ganhou graças ao Bund, que percebeu a brecha e usou seus cinco votos para garantir a aprovação da “pior alternativa” (foi exatamente assim que um delegado do Rabocheye Dyelo justificou seu voto em Martov!).
Essa controvérsia acalorada e a votação do Artigo 1º expuseram, mais uma vez, as divisões políticas no Congresso. Ficou provado que a aliança entre o Bund e o Rabocheye Dyelo poderia decidir o destino de qualquer votação, bastando apoiar a minoria da redação do Iskra contra a maioria. 57
O Objeto da Votação e o Conceito de Partido foram a disputa central que ocorreu em torno do Parágrafo 1 dos Estatutos do Partido58. Um ponto aparentemente técnico, mas que na verdade definia a natureza da organização ao estabelecer os critérios de filiação. Enquanto a proposta de Lênin exigia que o membro participasse ativamente de uma das organizações do Partido (visando um núcleo de revolucionários profissionais, ativos e disciplinados), a proposta de Martov defendia uma redação mais elástica, permitindo a filiação de qualquer um que prestasse “assistência pessoal” sob a orientação do Partido. Esse embate foi o divisor de águas que opôs duas concepções de mundo: a de um partido de quadros, coeso e preparado para a clandestinidade e legalidade, contra a de um partido de massas, mais amplo e de fronteiras organizacionais muito flexível.
A declaração entre parênteses foi feita por Plekhanov em uma reunião no dia 2 de setembro de 1904 (“Starover”, ou Velho Crente, era o pseudônimo de Potresov) (Plekhanov 1923-7, vol. 13, p. 376). Anos mais tarde, o próprio Plekhanov atacaria duramente os três.
Antes de nos aprofundarmos nesses detalhes institucionais, precisamos de um panorama dos eventos para que as polêmicas façam sentido.
Quando o Segundo Congresso se reuniu em Bruxelas e, posteriormente, em Londres, a maioria dos delegados representava comitês que haviam declarado lealdade ao jornal Iskra. A principal oposição era liderada pela delegação do Rabocheye Dyelo e pelo Bund (a União Geral dos Trabalhadores Judeus); ambos os grupos abandonaram o Congresso no meio do caminho. A maioria fiel ao Iskra permaneceu unida em questões programáticas e, em grande parte, em questões táticas. Uma ruptura grave ocorreu devido à cláusula estatutária que definia o status de membro do partido. Analisaremos esse famoso embate mais adiante, mas note que os rótulos de “maioria” (bolcheviques) e “minoria” (mencheviques) não surgiram dessa disputa, uma vez que os mencheviques, liderados por Martov, saíram vitoriosos nessa questão específica.59
Martov defendia uma concepção de organização partidária consideravelmente elástica. Sua tese sustentava que o Partido deveria aceitar como membro qualquer pessoa que, embora não integrada a uma célula específica, declarasse aceitar o programa e prestasse algum tipo de “assistência pessoal” sob o controle da organização. Na prática, isso diluía as fronteiras do Partido, permitindo que simpatizantes, intelectuais e grevistas ocasionais se autointitulassem membros, criando uma estrutura de massas espontâneo com contornos fluidos e menor rigor disciplinar. Os grupos da coalizão temporária que uniu a ala “suave” do Iskra, os delegados do Bund (a organização operária judaica) e os representantes do jornal Rabocheye Dyelo eram classificados por Lênin como oportunistas e economicistas, somaram seus votos aos de Martov não por afinidade ideológica total, mas para derrotar o projeto de centralismo rigoroso proposto por Lênin, que eles consideravam autoritário e restritivo60.
O aviso do camarada Pavlovitch sobre o programa não foi em vão, e isso ficou evidente de imediato, naquela mesma sessão. Os camaradas Akimov e Lieber — que garantiram a aprovação da redação de Martov — revelaram logo sua verdadeira face: exigiram (pp. 254-255) que, para o programa também, fosse realizada apenas uma aceitação “platônica”, uma concordância apenas com seus “princípios fundamentais” (para fins de filiação ao Partido). “A proposta de Akimov é perfeitamente lógica do ponto de vista de Martov”, observou Pavlovitch. Infelizmente, as atas não mostram quantos votos a proposta de Akimov recebeu; provavelmente não menos de sete (os cinco do Bund, mais Akimov e Brouckère). Ora, foi justamente a retirada desses sete delegados do Congresso que transformou a “maioria compacta” (anti-iskristas, o “Centro” e os martovistas) — que começava a se formar em torno do Artigo 1º do Estatuto — em uma minoria compacta! Foi a saída desses sete delegados que resultou na derrota da moção para manter o antigo conselho editorial — aquela suposta violação gritante da “continuidade” da redação do Iskra! Que curioso: esses sete eram a única salvação e garantia da “continuidade” do jornal: os bundistas, Akimov e Brouckère. Ou seja, os mesmos delegados que votaram contra os motivos para adotar o Iskra como Órgão Central; os mesmos cujo oportunismo foi reconhecido dezenas de vezes pelo Congresso, inclusive por Martov e Plekhanov, quando se tratou de suavizar o Artigo 1º em relação ao programa. A “continuidade” do Iskra protegida pelos anti-iskristas! — eis o ponto de partida da tragicomédia pós-Congresso. 61
A análise de Volkogonov tenta “desmistificar” a historiografia soviética clássica (o Breve Curso de Stalin), mas, ao fazê-lo, incorre em um idealismo que ignora a realpolitik do movimento revolucionário. Implicitamente, Volkogonov tenta reabilitar a figura de Martov ao deslocar o debate do campo da eficácia política para o campo da ética abstrata.
Ao sugerir que a “suavidade” de Martov era uma busca por “união com alta moralidade”, Volkogonov implica que Lênin seria, por antítese, o líder “imoral”. O problema é que, no contexto de um partido clandestino operando sob o terror czarista, a “moralidade” de uma organização que não consegue se proteger ou agir de forma coesa é, na prática, um suicídio político.
Volkogonov admite, quase como um aparte irônico, que a formação “amorfa” de Martov jamais alcançaria os objetivos revolucionários. Ao fazer isso, ele esvazia sua própria defesa de Martov: de que adianta uma “alta moralidade” em uma estrutura que o próprio autor reconhece ser incapaz de cumprir sua função histórica?
A afirmação de Volkogonov de que a cisão não era organizacional é profundamente problemática e pode ser contestada por três ângulos:
Criticar a ideia de que a divisão era organizacional é separar corpo e alma de forma artificial. A forma como um partido se organiza dita quem tem o poder de decisão. Para Lênin, a organização era a política. Se a regra de filiação é frouxa, a estratégia torna-se frouxa. Volkogonov tenta transformar o conflito em uma “disposição de espírito” (suavidade vs. dureza), mas ignora que essa disposição só ganha realidade histórica quando vira estatuto, hierarquia e controle de votos.
Volkogonov sugere que a questão real era se o partido seria uma “ordem” (quase religiosa/militar) ou um “corpo democrático”. Essa é uma leitura anacrônica. O que estava em jogo no Artigo 1º era a segurança operacional. Um membro que “presta assistência” sem estar em uma organização (proposta de Martov) é um membro que o Partido não controla, não disciplina e não consegue proteger da polícia secreta (Okhrana). Portanto, a questão era organizacional no sentido mais estrito da palavra: sobrevivência estrutural.
Ao dizer que o “partido-cidadela” não era o objetivo de Lênin, Volkogonov ignora a obra Que Fazer?. Lênin queria, sim, um núcleo de profissionais. A estrutura organizacional era o único meio de enfrentar o Estado czarista. A tentativa de Volkogonov de reduzir o embate a uma questão de “caráter” ou “moralidade” higieniza o conflito, retirando dele o peso da vontade de poder. Lênin não estava brigando por “palavras microscópicas” (como disse Service) ou por “moralidade” (como diz Volkogonov), mas pela criação de uma ferramenta capaz de tomar o Estado — algo que uma organização baseada na “suavidade” jamais faria. Segue a avaliação de Volkogonov:
No Segundo Congresso, realizado em Bruxelas e Londres no verão de 1903, parecia que as perspectivas de Martov eram brilhantes. Depois de Plekhanov, ele emergia como o delegado mais significativo, embora a voz de Lênin se tornasse mais confiante à medida que ganhava apoiadores. Milhões de cidadãos soviéticos, educados em uma história simplificada além do reconhecimento, acreditaram que a cisão de 1903 entre bolcheviques e mencheviques ocorreu devido à questão organizacional — ou, mais precisamente, ao ponto um dos Estatutos do Partido sobre a filiação.
Professores, catedráticos e comissários do exército, todos repetiam mecanicamente: ‘Lênin queria criar um partido-cidadela, uma unidade de combate partidária; Martov preferia criar uma formação amorfa e difusa que jamais poderia ter alcançado os objetivos comunistas’. Ironicamente, este último ponto era indubitavelmente verdadeiro.
Quanto ao ‘partido-cidadela’, esse não era o objetivo de Lênin. A questão real era se o Partido deveria ser uma ordem ou um corpo democrático. Lênin propunha que um membro deveria apoiar o Partido tanto por meios materiais quanto pela ‘participação pessoal em uma das organizações do Partido’. A fórmula de Martov era menos rigorosa: além do apoio material, o membro era obrigado a dar ao Partido ‘apoio pessoal regular sob a orientação de uma de suas organizações’.
De acordo com o Breve Curso de Stalin sobre a história do Partido, Martov queria ‘abrir as portas de par em par para elementos não proletários instáveis… Essas pessoas não fariam parte da organização, nem estariam sujeitas à disciplina do Partido ou realizariam tarefas partidárias, nem enfrentariam os perigos associados. No entanto, Martov… propunha reconhecer tais pessoas como membros do Partido’.
Talvez Stalin também acreditasse que se tratava de uma ‘questão organizacional’. A ‘suavidade’ política, para Martov, significava não apenas uma disposição para o compromisso, mas também significava compreender a necessidade de uma união com alta moralidade. E era isso, e não a questão organizacional, que o separava de Lênin para sempre: o conflito foi dominado por imperativos morais, e não políticos. 62
A Legitimidade do Termo Bolchevique atribuída a Lênin e seu grupo, não é contestável como quer fazer crer Kotkin. Este historiador sugere que os mencheviques aceitaram o epíteto de ‘minoria’ de forma evitável, essa interpretação carece de realismo político. Ora, é implausível supor que o grupo de Martov aceitaria um rótulo que os marginalizava se houvesse qualquer alternativa de vitória. Na prática, a ‘vitória estatutária’ de Martov tornou-se irrelevante diante da astúcia de Lênin, que aproveitou o esvaziamento do plenário e a vacilação dos aliados de Martov para capturar o controle institucional. Lênin, portanto, explorou o fato do Bund e do Rabocheye Dyelo serem inconsistentes ao contrário de seus partidários. Mas, segundo Kotkin:
A questão do papel dos trabalhadores no processo histórico já dividira os sociais-democratas alemães. (…) Eduard Bernstein (…) concluiu que os socialistas deveriam abraçar a melhoria e a evolução (…) e não organizar a aniquilação do capitalismo. Karl Kautsky (…) insistiu que o socialismo e depois o comunismo ainda seriam alcançados através da revolução. Entrementes, as condições tsaristas não permitiam uma abordagem ‘revisionista’ (…) porque o sindicalismo e o constitucionalismo continuavam ilegais. Lênin admirava Kautsky, mas ia mais além, defendendo uma abordagem conspiratória (…). Em O que fazer? (1902), ele previu uma revolução se ‘alguns profissionais (…) tivessem chance de organizá-la’. Sua postura foi denunciada como não marxista e ele foi acusado de blanquista (…). De algum modo, no entanto, Lênin estava apenas reagindo à intensa militância operária no Império russo (…). É verdade que ele, às vezes, parecia dizer (…) que os trabalhadores, deixados à sua própria sorte, desenvolveriam apenas uma consciência sindical. Mas isso fez com que Lênin se tornasse mais (…) radical. Basicamente, ele queria um partido de revolucionários profissionais para superar o bem organizado Estado tsarista (…). Mas Lênin não conseguiu convencer os outros: no congresso de 1903 (…) a concepção de Mártov (…) venceu por uma pequena maioria (28 votos a 23). Lênin se recusou a aceitar o resultado e anunciou a formação de uma facção, que chamou de bolcheviques (…), porque havia obtido a maioria em outras questões secundárias. A maioria de Mártov (…) aceitou tornar-se conhecida como menchevique.).63
Ao classificar as vitórias de Lênin como baseadas em “questões secundárias”, Kotkin adota uma postura que não está factualmente ancorada na dinâmica imediata daquele congresso, subestima a profundidade estratégica e o impacto histórico da ruptura bolchevique. Kotkin sugere que a distinção entre bolcheviques (maioria) e mencheviques (minoria) foi quase um acidente terminológico ou uma “jogada de marketing” sobre temas menores. No entanto, o que Kotkin chama de secundário era, na verdade, o cerne da eficácia política: Controle Editorial e Organizativo dados a Lênin, são o mecanismo central que, como se verá na nossa empreitada, permitiria o controle do aparato partidário em 1912 quando o partido bolchevique se separa oficialmente do partido menchevique. Para um partido clandestino, quem controla o jornal e o centro coordenador detém o poder real, não apenas simbólico. A Natureza do Partido também não é um mero detalhe.
A “vitória” terminológica de Lênin foi um ato de vontade política que moldou a identidade da esquerda russa para sempre e do movimento comunista mundial.
Ao minimizar as vitórias de 1903, Kotkin parece sugerir que o bolchevismo foi uma construção artificial ou “teimosa”. Essa visão ignora que a radicalização de Lênin não era apenas um traço de personalidade, mas uma resposta à falência do liberalismo, do revisionismo e do reformismo russo bem como à incapacidade do czarismo de se transformar para satisfazer as contradições do país.
Lenin, portanto, não foi um usurpador. Ao analisarmos as diferenças micro e “suavidade da linguagem”, vemos que as pequenas coisas podem significar ações diametralmente diferentes e até opostas. Na realidade, o texto em si, para Mortov, era um pretexto, um campo de batalha simbólico para algo muito mais visceral. Martov queria regras para “conter o espírito implacável de Lênin e seus associados”. Lênin e Martov eram conhecidos próximos que militaram juntos antes da formação POSDR na União de Luta pela Emancipação da Classe operaria. Por isso a necessidade de combater Lênin era vital para Martov. Ele via o Estatuto não como uma ferramenta de gestão, mas como um mecanismo de defesa. Ao avaliar as nuances vemos que detalhes não são tão relevantes e o que importava era o “fundamento”. Ambos sabiam que o parágrafo 1º era o código de acesso ao poder. Quem vencesse ali definiria o “DNA” do partido: ou um exército disciplinado sob o comando de poucos, ou uma rede aberta onde a influência de Lênin seria diluída.
As entrelinhas da disputa tática, ao contrário da visão tradicional que coloca Martov como o “democrata” contra o Lênin “autoritário”, deixa escapar uma ironia central sobre a natureza do controle. A proposta de Martov continha uma armadilha de controle que era mais autoritária e menos transparente que a de Lênin. Estar “sob a direção” sem estar integrado à estrutura cria uma relação de subordinação nebulosa. Isso dá à cúpula o poder de “dirigir” indivíduos que não possuem os direitos e as proteções de quem está formalmente organizado, portanto, estas pessoas tinham menos prerrogativas. A “elasticidade” de Martov não era necessariamente democrática; era administrativa. Martov queria que o Partido pudesse mobilizar massas de simpatizantes, mas mantendo-os em um estado de “assistência constante” sob ordens centrais, sem que eles tivessem o peso institucional de membros de pleno direito para questionar a liderança. Martov estava disposto a sacrificar a clareza organizacional e a segurança interna do Partido para criar um contrapeso à Lênin e seus associados. O “autoritarismo” de Martov residia em querer moldar o Partido como um instrumento de contenção pessoal, em vez de uma ferramenta de ação política.
Para Martov, as regras de Lênin não passavam de um excesso autoritário (…). As palavras de Martov sobre operar “sob a direção” eram, pela maioria dos critérios, mais autoritárias do que as palavras originiais de Lenin. Mas as sutilezas de linguagem não tinham qualquer importância para Martov e Lenin, e os historiadores gastaram tinta com o contraste semântico. O que realmente importava para eles era a essência da questão. Martov queria um partido com membros que tivessem espaço para se expressar, independentemente da liderança central; para Lenin, a necessidade era de liderança, liderança e mais liderança — e qualquer outra coisa, pelo menos por enquanto, devia estar subordinada a essa necessidade. 64
Ao descrever a “greve dos generais” e a recusa de Martov em aceitar a decisão do Congresso, subentende-se que, para a minoria, a continuidade da tradição e das relações pessoais no antigo conselho editorial do Iskra sobrepunha-se à soberania coletiva da organização recém-formada. Além disso, a movimentação dos votos e a saída estratégica de delegados sugerem que a vitória de Lênin e a consolidação da linha “majoritária” (bolchevique) foram viabilizadas por uma conjuntura de forças engajadas que a oposição a Lênin era incapaz de incapaz de realizar. Essa a incapacidade política da oposição em aceitar o centralismo democrático acabou por precipitar uma ruptura irreversível na estrutura do movimento socialista russo. O engajamento do grupo de Lênin é um mérito a ser reconhecido.
A cisão mais importante ocorreu (…) na escolha dos editores do Iskra. O Congresso havia designado o Iskra como o órgão oficial do partido, mas esse novo status levantou uma questão delicada e fundamental: teria o Partido (…) o direito de nomear os editores de algo que antes era um assunto exclusivo do grupo Iskra? Lênin e Plekhanov acreditavam que sim e (…) propuseram uma redação composta por apenas três pessoas: eles próprios e Martov. Martov e os outros três editores (…) não negavam o direito formal do Congresso de nomear a redação, mas consideravam politicamente desastroso não reconduzir o antigo conselho editorial em sua totalidade. Martov recusou-se a participar da nova junta eleita e juntou-se aos outros três (…) ao declarar boicote às instituições do partido. Foi a chamada ‘greve geral dos generais’.65
Após a reunião dos dezesseis (…) começaram as reuniões das duas alas do Congresso (…). Os partidários da linha coerente do Iskra somavam (…) vinte e quatro votos (…). Este crescimento rápido deveu-se a dois fatores principais:
A Rejeição às Listas de Martov: Quando as listas de candidatos para o Comitê Central começaram a circular, a vasta maioria dos iskristas as rejeitou de imediato. Os nomes propostos por Martov causaram má impressão no Congresso (…).
Esclarecimento Político: Ao compreenderem o que de fato ocorria na organização do Iskra, a massa de delegados inclinou-se para a maioria. Ficou evidente para todos a incapacidade de Martov em manter uma linha política firme.
Assim, consolidaram-se rapidamente os vinte e quatro votos em torno da tática coerente, da lista para o Comitê Central e da eleição do trio editorial (…).” 66
A validade do Congresso foi reconhecida por todos os seus participantes, consolidando-se como o palco de uma luta aberta entre os ‘iskristas’ e os ‘anti-iskristas’ (…). Entre essas duas forças opostas, situava-se o chamado ‘Pântano’ (…). Ao final do embate, a vitória coube aos partidários do Iskra, que conseguiram aprovar o programa do Partido com base no rascunho original do jornal. Com isso, o Iskra foi oficializado como o Órgão Central e sua linha política foi adotada como a diretriz oficial da organização.
Essa hegemonia também se refletiu nas resoluções táticas e nos Estatutos organizacionais (…), que preservaram o espírito iskrista em sua essência. No entanto, os anti-iskristas (…) conseguiram desfigurar certos detalhes pontuais dos Estatutos.
O equilíbrio de forças durante o Congresso revelava uma geografia de votos bem definida: do total de 51 votos, 33 pertenciam ao bloco do Iskra (…). O ‘Pântano’ detinha 10 votos, enquanto os anti-iskristas somavam 8 (…). Contudo, a composição do Congresso sofreu uma alteração drástica em sua reta final. Pouco antes das eleições, sete delegados (…) abandonaram o encontro, com estes últimos anunciando inclusive sua desfiliação do Partido. 67
A vitória estatutária de Martov provou ser efêmera, pois a unidade de sua coalizão dependia de grupos que não tinham um compromisso real com a unidade partidária sob os termos do Iskra. A saída dos delegados do Bund e do grupo Rabocheye Dyelo do plenário ocorreu pela incapacidade de realização de suas reivindicações particulares. Lênin e seus partidários eram convictos e engajados ao contrário de Martov e os mencheviques. Os partidários de Lênin, passaram a constituir a maioria absoluta dos delegados remanescentes. Aproveitando essa nova correlação de forças, Lênin assegurou o controle dos órgãos vitais do Partido: sua ala venceu as eleições para o Comitê Central e impôs uma redação enxuta para o jornal Iskra, composta apenas por ele mesmo, Plekhánov e Martov. Foi este momento específico de triunfo eleitoral nas instâncias dirigentes que cristalizou o nome “Bolchevique” (da maioria) para o seu grupo, enquanto os opositores, agora em desvantagem numérica nas decisões finais, foram carimbados com a alcunha de “Mencheviques” (da minoria).
Martov e eu apresentamos propostas distintas para a composição do ‘trio’ editorial, mas não chegamos a um consenso. (…) Decidimos propor uma lista de compromisso. Estávamos dispostos a ceder em todos os pontos: cheguei a aceitar uma lista que incluía dois partidários de Martov, mas a minoria rejeitou a oferta. Um detalhe sintomático foi o delegado do grupo Yuzhny Rabochy (…) que recusou integrar nossa lista, mas aceitou prontamente constar na lista martovista. Ou seja: um elemento externo ao núcleo do jornal estava decidindo o destino do Comitê Central68.
Assim como Martov, eu também tentei indicar um candidato específico para o Comitê Central
Assim como Martov, eu também tentei indicar um candidato específico para o Comitê Central (…) e não tive sucesso (…). Contudo, nunca me passou pela cabeça reclamar disso. Esse camarada possui amor-próprio suficiente para não permitir que ninguém (…) venha indicá-lo por escrito ou lamber feridas sobre ‘enterros políticos’ e ‘reputações destruídas’.
Vejamos agora a segunda votação da organização Iskra: ‘Por dez votos a dois, com quatro abstenções, foi adotada uma lista de cinco candidatos para o Comitê Central que (…) incluía um líder dos elementos não-iskristas e um líder da minoria iskrista’. Esta votação é de extrema importância. Ela prova (…) que são mentirosas as fábulas criadas posteriormente (…) de que queríamos expulsar os não-iskristas do Partido ou marginalizá-los. (…) O voto que citei demonstra que:
Não excluímos os não-iskristas nem do Comitê Central (…) muito menos do Partido.
Oferecemos aos nossos oponentes uma representação minoritária muito substancial.
O ponto central é que eles não aceitavam nada menos que a maioria. Quando esse ‘desejo modesto’ não foi satisfeito, armaram um escândalo e recusaram-se a ocupar qualquer cargo nos órgãos centrais. (…) A realidade dos fatos é comprovada por uma carta que a minoria nos enviou logo após a aprovação do Parágrafo 1 dos Estatutos. Vale lembrar que aquela reunião foi a última da organização Iskra; depois dela (…) cada lado passou a tentar convencer os demais delegados de que estava com a razão.”69
A natureza psicológica e hegemônica da linguagem é fundamental para liderança política. Para Lênin a disputa no POSDR não foi um puro e simples debate de ideias, mas um teste de poder. Lênin sabia fazer da Linguagem uma Arma: Lênin não buscava a precisão típica dos acadêmicos, mas a hegemonia. Ao se apropriar do termo “maioria”, ele transformou uma circunstância numérica momentânea em uma identidade permanente e vitoriosa. Martov, conforme já ressaltado, além de autoritário era inepto, a derrota dos Mencheviques foi, antes de tudo, uma falha de em usar a linguagem como poder e meio de criar hegemonia. Ao aceitar ser chamado de “minoria” após perder os votos, Martov demonstrou uma reverência quase ingênua, enquanto Lênin operava na lógica da percepção política. Lênin entendia que quem controla os mecanismos de execução (Comitê Central e Jornal) dita a regra, independentemente do que diz o texto do Estatuto. Martov jogava o jogo das regras, enquanto Lênin jogava o jogo do poder:
Em seguida, os ‘durões’ forçaram a mão para tornar reais conceitos de centralismo, disciplina e ativismo. No topo do Partido, deveria haver um conselho partidário (…) [que] controlaria uma junta editorial do Iskra composta de três pessoas e um comitê central igualmente de três pessoas. A votação nessa estrutura (…) resultou em vitória para Lenin e Plekhanov. Agindo juntos, eles conseguiram dirigir o Partido; e nenhum dos dois se preocupava com que o preço de seu triunfo tivesse sido o êxodo da Bund judaica (…).
Por esse motivo, Lenin rebatizou seus ‘durões’ como os ‘majoritários’ (bolcheviques). Estava sempre um passo à frente de seus adversários. (…) Perdera para Martov na questão das regras do Partido; em tal situação (…) teria imaginado um nome triunfal para seus seguidores. [Martov] deixou passar a oportunidade. O que se seguiu foi pior ainda. Martov aceitou a autodescrição dos leninistas como bolcheviques e passou a chamar seu próprio grupo de ‘os minoritários’ (mencheviques). Quando o Congresso preencheu as vagas no Comitê Central e no conselho do Iskra, a inépcia tática de Martov ficou patente. 70
Embora as divergências entre ambos fossem profundas, de ordem tática e organizacional, foram esses nomes — baseados na conjuntura de uma votação específica em Londres — que acabaram por batizar permanentemente as duas alas do POSDR.
Em Julho de 1903, o II Congresso do POSDR dá um passo decisivo para a fundação de fato do partido, aprovando o programa e os estatutos propostos por Lênin. A maioria aprova igualmente as suas propostas de constituição do Comité Central e da Redacção do Iskra, mas nos intensos debates revelam-se claramente duas tendências: os leninistas, que por serem maioritários passam a ser chamados bolcheviques, e os oportunistas minoritários, mencheviques, liderados por Mártov e Axelrod, com Trotsky ao centro de ambas as correntes ou tendências do POSDR.71
A distinção entre “Maioria” e “Minoria” se traduzia na prática política cotidiana. Lênin sempre argumentou que a “Minoria” (Mencheviques) era hesitante e duvidava da capacidade política dos trabalhadores. A divergência prática ficou clara no episódio da Avenida Nevsky, conforme relatado por Lênin:
Como uma multidão já se reuniria na Avenida Nevsky de qualquer maneira, mesmo sem a distribuição de panfletos, defendeu-se que todas as medidas fossem tomadas para garantir que os operários também participassem da manifestação. Um representante da “Minoria” (Mencheviques) opôs-se, alegando que “nem todos os operários são desenvolvidos o suficiente para participar conscientemente da manifestação e defender as exigências apresentadas pelo Comitê”. A questão foi colocada em votação e a reunião decidiu, com apenas um voto contrário, realizar o ato. Contudo, descobriu-se que grande parte dos panfletos impressos — mais de 12.000 cópias com a convocação — havia sido queimada. Além disso, a distribuição em massa nas fábricas tornou-se impossível, pois o material não pôde ser entregue em lugar algum até a manhã de sábado, e aos sábados as fábricas encerram o expediente às duas ou três da tarde. Assim, os panfletos circularam apenas entre um pequeno círculo de operários conhecidos, sem atingir as grandes massas. Nessas circunstâncias, a manifestação estava condenada ao fracasso. E fracassou… 72
Para Lênin, isso era um contrassenso: a Minoria queria um partido largo e sem rigor (o que atrairia pessoas menos preparadas), mas usava a suposta “incapacidade” das massas como desculpa para evitar a ação revolucionária direta.
Para Lênin, a proposta de Martov não era apenas uma questão de redação estatutária, mas um sintoma de um “oportunismo organizacional” que ameaçava transformar o Partido em uma agremiação heterogênea e amorfa, incapaz de resistir à repressão czarista. Ao rejeitar uma lista de liderança que mantivesse o antigo conselho editorial ineficiente e ao combater a política de “portas abertas” da Minoria, Lênin buscava salvaguardar o caráter revolucionário da organização. Ele compreendia que aceitar tal composição significaria subordinar a linha política do jornal Iskra e dos órgãos centrais a uma ala que, em sua visão, carecia de firmeza teórica e disciplina prática, preferindo o racha imediato à diluição dos princípios que deveriam nortear um partido de novo tipo.
Um dos momentos de maior tensão no Segundo Congresso ocorreu quando a nova maioria, liderada por Lênin, propôs a reestruturação do conselho editorial do jornal Iskra. Até então, o periódico era dirigido por um grupo histórico de seis pessoas; Lênin, contudo, defendeu a eleição de um trio dirigente composto por ele mesmo, Plekhánov e Martov, visando maior eficiência e uma linha política mais coesa. Embora Martov tenha sido eleito para compor esse trio, ele recusou-se categoricamente a assumir o posto. Sua decisão foi um ato de solidariedade política e pessoal aos três editores antigos que foram excluídos (Axelrod, Potrésov e Zassúlitch), cujas contribuições históricas ele considerava desrespeitadas pela nova maioria. Esse boicote, que Lênin descreveu como a “greve geral dos generais”, marcou o início de uma paralisia institucional, pois Martov e seus aliados passaram a contestar a autoridade do Congresso e a legitimidade das decisões da maioria Bolchevique, aprofundando o racha que tornaria a convivência entre as duas frações insustentável.
A Eleição dos Órgãos Centrais
Plekhánov, Martov e Lênin foram os eleitos. Martov, contudo, recusou novamente o cargo. Koltsov (que obteve três votos) seguiu o mesmo caminho e declinou. Diante dessas recusas, o Congresso aprovou uma resolução instruindo os dois membros remanescentes do conselho editorial do Órgão Central a cooptarem um terceiro integrante, assim que encontrassem uma pessoa adequada para a função.
Em seguida, procedeu-se à eleição dos três membros do Comitê Central — sendo que o escrutinador revelou ao plenário o nome de apenas um deles — e do quinto membro do Conselho do Partido (também por meio de voto secreto). 73
Embora os líderes mencheviques tenham conseguido aprovar sua versão do Item 1 dos Estatutos no início do Congresso de 1903, a subsequente retirada de um grupo de ala direita garantiu uma maioria estável aos bolcheviques. É apenas a partir deste momento que se torna preciso utilizar os termos Bolchevique e Menchevique, nomes derivados das palavras russas para “maioria” e “minoria”, respectivamente. Os mencheviques recusaram-se a aceitar muitas das decisões da maioria e, deste ponto em diante, embora as duas facções ocasionalmente cooperassem, funcionavam efetivamente como dois partidos distintos. A separação formal ocorreria, em definitivo, em 1912. 74
A divergência entre as alas não se limitou ao campo das ideias, mas atingiu o cerne da disciplina partidária e da legitimidade institucional. Lênin defendeu intransigentemente a validade das decisões e eleições do Segundo Congresso como instâncias soberanas e vinculativas, sustentando que a minoria deveria submeter-se à vontade da maioria em nome da unidade e da eficácia revolucionária. Em contrapartida, os Mencheviques, inconformados com a derrota eleitoral e com o modelo de centralismo proposto, recusaram-se a aceitar os resultados, desencadeando um boicote aos órgãos centrais. Esse impasse transformou o que deveria ser uma divisão interna de opiniões na formação de duas facções organicamente distintas e antagônicas. O que Lênin chamou de “anarquismo aristocrático” da minoria — a recusa em aceitar a autoridade dos delegados — gerou uma cisão permanente: embora as facções ainda compartilhassem a sigla oficial por algum tempo, passaram a operar com direções, finanças e táticas próprias, evoluindo inevitavelmente para partidos separados que representariam dois caminhos distintos para o movimento operário russo.
Vale a pena detalhar este desentendimento inicial, aparentemente trivial, devido às reais diferenças de perspectiva ligadas à disputa sobre a organização partidária. Isso ficou evidente na prática durante a Revolução de 1905: os mencheviques argumentavam que, em uma revolução burguesa, a principal força motriz deveria ser o setor liberal. Para eles, os social-democratas deveriam apenas auxiliar os partidos liberais na conquista de reformas constitucionais, evitando qualquer ação que pudesse assustá-los e empurrá-los para a reação. Os bolcheviques, por outro lado, herdaram de Marx e Engels a concepção de que mesmo a revolução democrático-burguesa não seria completada pela burguesia sem a pressão e o empurrão dos “elementos plebeus” da sociedade. Consequentemente, Lênin e seus apoiadores desejavam assumir uma liderança independente, convocando o campesinato como aliado estratégico. 75
A luta interna não tardou a agudizar-se. Com a ajuda de Plekhánov que passou a apoiar os mencheviques, estes tomam a redacção do Iskra desrespeitando as decisões do congresso, o que motiva a saída de Lénine e a denúncia pública do comportamento dos fraccionistas no seu livro Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás (1904).
É nesta obra que Lénine define os princípios organizativos do partido bolchevique, mais tarde adoptados por todos os partidos comunistas da III Internacional, visando assegurar não só a unidade ideológica mas também a unidade de organização. 76
A síntese fundamental desse racha histórico revela uma dinâmica política complexa: embora Martov tenha vencido Lênin por uma margem de 28 a 23 na definição estatutária de “membro do partido” (o Parágrafo 1), essa vitória provou-se taticamente estéril. A coalizão que apoiou Martov era heterogênea e fragmentou-se assim que o Congresso passou a discutir questões específicas de autonomia e controle institucional. Com a retirada estratégica de sete delegados — cinco do Bund judeu e dois “economistas” do Rabocheye Dyelo —, a balança de poder pendeu definitivamente para Lênin. Foi esta nova configuração que permitiu a Lênin obter a maioria absoluta nas eleições para os cargos de comando, garantindo o controle do Comitê Central e a reestruturação da redação do jornal Iskra. Consequentemente, foi essa vitória nas eleições para as instâncias de direção que imortalizou o nome de seu grupo como Bolcheviques (bolshinstvo: maioria), enquanto os seguidores de Martov, derrotados nas escolhas finais, herdaram a alcunha de Mencheviques (menshinstvo: minoria).
Enquanto Stálin trabalhava para construir o partido bolchevique na clandestinidade russa seguindo as diretrizes de Lênin e da maioria, Leon Trótski posicionava-se, desde o II Congresso do POSDR em 1903, como um opositor ferrenho de Lênin. Segundo o próprio Lênin:
“O camarada Trótski entendeu completamente errado a ideia fundamental do camarada Plekhánov (…) seus argumentos evitaram o cerne da questão. (…) a minha formulação restringe ou amplia o conceito de membro do Partido? Se ele tivesse se feito essa pergunta, teria visto facilmente que minha formulação restringe esse conceito (…). Para refutar essa conclusão simples e óbvia, seria preciso provar que [elementos de confusão] não existem; mas o camarada Trótski nem sequer pensou em fazer isso.”
“O camarada Trótski interpretou completamente mal a ideia central do meu livro O que fazer? quando disse que o Partido não é uma organização conspiratória (…). Ele esqueceu que (…) o Partido deve ser apenas a vanguarda, a liderança das vastas massas da classe operária; massas que (…) não pertencem nem devem pertencer integralmente ao ‘partido’.”
“Vejamos agora a quais conclusões o camarada Trótski chega em consequência de seu erro fundamental. (…) Ele considera triste aquilo que um revolucionário com o mínimo de experiência apenas saudaria. Se centenas e milhares de operários presos (…) não fossem membros das organizações do Partido, isso apenas mostraria que temos boas organizações e que estamos cumprindo nossa tarefa: manter em segredo um círculo mais ou menos limitado de líderes e atrair as mais amplas massas possíveis para o movimento.” 77
A relação entre Lênin e Trótski, nesse contexto, foi marcada por hostilidade política profunda, e não por colaboração. Trótski atacou violentamente as concepções de Lênin. A historiografia em geral, mesmo a trotskista, documenta os insultos proferidos por Trótski: Em agosto de 1904, após a cisão bolchevique-menchevique, Trótski denunciou Lênin como ‘um advogado desleixado’, um ‘Robespierre’ que buscava ‘uma ditadura sobre o proletariado’. A saraivada de epítetos incluía ‘hediondo’, ‘libertino’, ‘demagógico’, ‘mal-intencionado e moralmente repugnante’.”78
Lênin, por sua vez, não poupou críticas devastadoras a Trótski, considerando-o um oportunista sem princípios que oscilava constantemente. Em janeiro de 1911, [Lênin] referiu-se a Trotski79 como judas do Marxismo.
Ainda no início de 1917, escreveu (a Inessa Armand): É isso!! Eis o Trotsky!! Sempre fiel a si mesmo, distorce, trapaceia, posa de esquerda, ajuda a direita, enquanto pode…” Em correspondências e artigos, Lênin referiu-se a ele com termos duríssimos:
Trotsky, apesar de seu inegável brilhantismo como intelectual e orador marxista, era um alvo fácil para Stalin. Ele tinha um histórico de críticas a Lenin e aos bolcheviques e só se juntou ao grupo no verão de 1917. Trotsky tentou apagar essas críticas, mas Stalin insistiu em relembrar o partido de seus erros passados.
Ele gostava particularmente de citar o ataque de Trotsky, em 1915, à visão de Lenin de que a revolução proletária e o socialismo eram possíveis em um único país, mesmo na Rússia camponesa, culturalmente atrasada e economicamente subdesenvolvida. Em jogo estava a crença de que seria possível construir o socialismo na Rússia Soviética.
A visão de Trotsky era de que a Revolução Russa precisava de revoluções bem-sucedidas em países mais avançados para não ser esmagada pelo imperialismo e pelo capitalismo. Stalin reconhecia que a revolução socialista na Rússia não seria “finalmente” vitoriosa até que houvesse uma revolução mundial, mas também acreditava que o socialismo soviético sobreviveria e prosperaria por si só. A grande maioria do partido bolchevique concordava com Stalin, preferindo sua doutrina de socialismo em um só país à defesa de Trotsky de uma revolução mundial como objetivo primordial.
Como todos os principais bolcheviques, Stalin citava Lenin seletivamente para adequá-lo aos seus argumentos. Em 1915, por exemplo, Lenin especulava sobre a possibilidade de um país avançado adotar o socialismo sem o apoio de revoluções em outros países. Mas as opiniões de Lenin sobre esse assunto evoluíram após 1917, em resposta à realidade de uma revolução na Rússia “atrasada” que havia levado os bolcheviques ao poder.30 Para Stalin e seus apoiadores dentro do partido, o sucesso da revolução era fundamental, e eles não receberam bem a sugestão de Trotsky em Tarefas no Oriente (1924) de que o centro da revolução mundial poderia se deslocar para a Ásia na ausência de revoluções europeias: “Tolo!”, escreveu Stalin à margem. “Com a existência da União Soviética, o centro não pode estar no Oriente.”80
Sobre este mesmo assunto, afirma Kotikin:
Stálin obteve ajuda para suavizar o seu dilema de ninguém menos que Trótski. Único entre aqueles que estavam no topo do regime, Trótski não era um bolchevique antigo e o atraso de para essa acusação. Em agosto de 1904, após a cisão bolchevique-menchevique, Trótski denunciou Lênin como “um advogado desleixado”, um “Robespierre” que buscava “uma ditadura sobre o proletariado”. A saraivada de epítetos incluía “hediondo”, “libertino”, “demagógico”, “mal-intencionado e moralmente repugnante”. Essas denúncias desmesuradas de Trótski continuaram ao longo dos anos.2 Lênin devolveu as invectivas em escritos que eram igualmente preservados em âmbar. “Um novo panfleto de Trótski saiu recentemente […] um pacote de mentiras descaradas”, escreveu Lênin em outubro de 1904.3 Em agosto de 1909, ele escreveu que “Trótski se comporta como um desprezível carreirista e divisionista. Ele apoia o partido da boca para fora e se comporta pior do que qualquer divisionista”.4 Em uma carta particular de outubro desse mesmo ano, Lênin cunhou o termo pejorativo “trotskismo”.5 Em janeiro de 1911, referiu-se a “Judas Trótski”.6 Ainda no início de 1917, escreveu (a Inessa Armand): “Aí você tem Trótski!! Sempre fiel a si mesmo = distorce, trapaceia, posa de esquerdista, ajuda os direitistas quanto pode”.7 Os asseclas de Stálin no aparato central que haviam tomado posse do arquivo de Lênin tiveram pouca dificuldade para trazer à tona suas gemas anti-Trótski.8 Nada precisava ser inventado, embora muito viesse a ser fabricado ou retirado de contexto. Trótski, no entanto, ampliava os efeitos ao apresentar-se como igual a Lênin e até mesmo, em alguns aspectos, seu superior. Ele não parecia compreender que sua relação com Lênin era uma questão não de fato, mas de posicionamento.981
O trecho da obra de Lênin em questão é:
O rubor da vergonha de Judas Trotsky
Na reunião plenária, Judas Trotsky fez grande alarde ao combater o liquidacionismo e o otzovismo. Jurou e declarou-se fiel ao Partido. Recebeu um subsídio. Após a reunião, o Comitê Central enfraqueceu, o grupo Vperyod se fortaleceu e angariou fundos. Os liquidadores consolidaram sua posição e em Nasha Zarya26. Cuspiu na cara do partido ilegal, diante dos próprios olhos de Stolypin. Judas expulsou o representante do Comitê Central do Pravda e começou a escrever artigos liquidacionistas no Vorwärts.27 Desafiando a decisão direta da Comissão Escolar28 nomeada pela Reunião Plenária, que proibia a presença de qualquer palestrante do Partido na escola faccional do Vperyod, Judas Trotsky compareceu e discutiu um plano para uma conferência com o grupo Vperyod. Esse plano foi agora publicado pelo grupo Vperyod em um folheto. E é esse Judas que bate no peito e proclama em voz alta sua lealdade ao Partido, alegando que não se humilhou perante o grupo Vperyod e os liquidadores. Tal é o rubor de vergonha de Judas Trotsky. 82
Ainda nas Obras Completas de Lênin, encontramos a confirmação de que ele via Trótski como um elemento pernicioso que tentava encobrir o liquidacionismo (a tentativa de dissolver o partido ilegal): “No presente, Trótski […] está a fabricar um tal ‘acordo’ com o grupo Golos. Que ninguém se deixe enganar a este respeito: o acordo deles será um acordo para proteger os liquidadores.”83
O próprio Stálin, em 1927, ao confrontar a oposição, citou as próprias palavras de Trótski contra Lênin para demonstrar que a hostilidade não era recente: “Me parece uma obsessão sem sentido a disputa miserável, sistematicamente provocada por Lenin, aquele veterano no jogo, aquele explorador profissional de tudo o que está atrasado no movimento operário russo’ (ver ‘Carta de Trotsky a Chkheidze’, abril de 1913).”
As primeiras divergências entre Lev Trótski e Vladímir Lênin, ocorridas entre 1901 e 1905, fundamentaram-se em visões conflitantes sobre a organização partidária e a estratégia da revolução russa. Durante o período inicial do jornal clandestino Iskra (1901-1903), Trótski foi um colaborador próximo de Lênin no ínicio, chegando a ser referido por Stálin como “a arma de Lênin”:
“A única justificativa que os ‘desertores de Tushino’ têm para alegar que estão acima das facções é o fato de ‘tomarem emprestadas’ suas ideias de uma facção hoje e de outra amanhã. Trotsky foi um fervoroso ‘iskrista’ entre 1901 e 1903, e Ryazanov descreveu seu papel no Congresso de 1903 como o de um ‘porrete de Lenin’. No final de 1903, Trotsky já era um menchevique inflamado, ou seja, havia passado dos iskristas para o lado dos ‘economistas’. Ele chegou a proclamar que ‘existe um abismo entre a velha e a nova Iskra’. Em 1904-1905, abandonou os mencheviques e passou a oscilar: ora cooperando com Martynov (um ‘economista’), ora proclamando sua teoria absurdamente esquerdista da ‘revolução permanente’.”84
No entanto, a historiografia registra que Trótski era visto como um “vacilante” que oscilava entre as diferentes facções, sendo apelidado por Lênin de “desertor de Tushino”85. Nas palavras de Lênin:
A única base que os ‘vira-latas de Tushino’ possuem para alegar que estão acima dos grupos é o fato de ‘tomarem emprestadas’ suas ideias de um grupo hoje e de outro amanhã. Trotsky foi um fervoroso iskrista entre 1901 e 1903, e Ryazanov descreveu seu papel no Congresso de 1903 como o de um ‘porrete de Lenin’. No final de 1903, Trotsky era um menchevique inflamado, ou seja, desertara dos iskristas para os economistas. Ele afirmava que ‘entre a velha Iskra e a nova existe um abismo’. Em 1904-1905, abandonou os mencheviques e ocupou uma posição vacilante, ora cooperando com Martynov (o economista), ora proclamando sua teoria absurdamente esquerdista da ‘revolução permanente’. Em 1906-1907, aproximou-se dos bolcheviques e, na primavera de 1907, declarou estar em pleno acordo com Rosa Luxemburgo. 86
Trótski, embora inicialmente apoiador da obra de Lênin Que Fazer? (1902), uniu-se a Mártov para defender uma organização mais ampla e menos restrita, na qual a participação direta em uma célula partidária não fosse. 87 No auge do embate de cisão do POSDR, Lenin publicou sua famosa obra sobre o programa e a organização do partido, Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás. Martov e Lênin mantiveram-se em lados diametralmente opostos. Trotsky ficou com o menchevismo nessa disputa:
Após a convenção, a luta fracionária intensificou-se e, em janeiro de 1905, o partido estava definitivamente cindido, com cada grupo possuindo seu próprio comitê central e sua própria imprensa. No auge desse embate, Lenin publicou sua famosa obra sobre o programa e a organização do partido, Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás. Ele liderou os bolcheviques, enquanto Martov — contando com o apoio crescente de Plekhanov e Trotsky — liderou os mencheviques.”88
Em 1904, Trótski intensificou seus ataques literários contra Lênin através da obra Nossas Tarefas Políticas. Ele acusou a concepção leninista de praticar o “substitucionismo” (zamestitel’stvo), afirmando que a organização do partido acabaria por se substituir à classe operária e um ditador substituir-se-ia ao Comitê Central. De acordo com Martens:
No seu livro As Nossas Tarefas Políticas, publicado em 1904, e na brochura Curso Novo, escrita em 1923, encontramos a mesma hostilidade aos princípios que Lénine tinha definido para a construção do Partido. Isto mostra bem a sua persistência em concepções pequeno-burguesas. Em 1904, Trótski combateu com particular virulência a concepção leninista do Partido. Apelidou Lénine de:
«divisionista fanático», «revolucionário democrata burguês», «fetichista da organização», partidário do «regime de caserna» e da «mesquinharia organizacional», de «ditador querendo substituir-se ao Comité Central», de «ditador querendo instaurar a ditadura sobre o proletariado», para quem «toda a intromissão de elementos que pensem de outro modo é um fenómeno patológico».89
O livro acima foi criado diretamente para rivalizar com a obra “Que Fazer?” de Lênin. O que está implícito nesse debate entre Lenin e Trotsky é uma disputa profunda sobre a natureza da autoridade e o sentido da representação política. O fato de Trotsky ter modelado seu livro explicitamente no Que Fazer? revela que, em 1904, já estava certo que Lenin havia definido as regras do jogo. Para derrotar Lenin, Trotsky sentiu que não bastava discordar dele; era preciso criar um “anti-Lenin” com a mesma força sistemática. Isso mostra que o modelo leninista de clareza teórica e agressividade polêmica já era o padrão de excelência dentro do POSDR.
O conceito de Substitutismo de Trotsky carrega uma implicação sociológica pesada: a ideia de que a intelligentsia (os intelectuais do partido) poderia acabar “sequestrando” a revolução. Trotsky temia que o partido deixasse de ser uma ferramenta do operário e passasse a ser seu “prefeito”. Para ele, o centralismo de Lenin pressupunha que a classe operária era politicamente “menor de idade” e precisava de um tutor permanente. Na realidade, o conceito de Martov é que representa va o perigo do autoritarismo conforme vimos anteriormente. Abaixo da superfície, o que está em jogo é a troca entre sobrevivência e participação. Está claro que a crítica de Trotsky não era científica, mas uma ferramenta de luta por poder pessoal. Ao tentar “destruir um rival na liderança”, Trotsky utilizava a teoria para deslegitimar a autoridade moral de Lenin, pintando-o não como um líder revolucionário, mas como um “ditador” em potencial.
“A obra de Trotsky, Nossas Tarefas Políticas, foi concebida de maneira consciente e explícita para ser o Que Fazer? [WITBD] menchevique, moldando-se a ele de diversas formas. Assim como Lenin cunhou um termo eficaz para o pecado capital da época (‘limitações artesanais’), Trotsky cunhou um termo para o que considerava a falha básica herdada do passado: o substitutismo [zamestitel’stvo]. Da mesma maneira que Lenin polemizou contra o Rabochee Delo, Trotsky polemizou contra Lenin. A polêmica de Trotsky visava tanto destruir um rival na liderança quanto expor diversos equívocos teóricos mais disseminados. Mas, assim como em Que Fazer?, essas polêmicas serviam para abrir caminho para a pergunta: o que fazer?
Trotsky, sem dúvida, esperava que Nossas Tarefas Políticas ocupasse seu lugar na história do partido ao lado de Sobre a Agitação e Que Fazer?, como uma produção literária que marcaria — e, em parte, causaria — uma transformação profunda na perspectiva partidária. Não teve essa sorte: o livro teve pouca ressonância até mesmo entre os mencheviques, não logrou converter os praktiki [militantes práticos] à posição menchevique e o termo ‘substitutismo’ não pegou na época.
Criei o termo ‘campanhismo‘ porque o cerne da nova tática menchevique é a insistência em um tipo específico de campanha organizada pelo partido. O que Akselrod entendia por samodeiatelnost [autoatividade] e o que Trotsky entendia por ‘substitutismo’ podem ser melhor compreendidos quando analisamos um exemplo concreto. No centro do panfleto de Trotsky, há o esboço de uma dessas campanhas, em uma seção apropriadamente intitulada ‘O que, então, deve ser feito? [Chto zhe delat’?]’. A ocasião para a campanha hipotética de Trotsky é um Congresso de Ativistas do Ensino Técnico que realmente ocorreu em São Petersburgo e gerou um embate entre o governo e a oposição liberal. Após criticar as ações do comitê social-democrata real de Petersburgo, Trotsky apresenta o seguinte cenário do que deveria ter sido feito. 90
Quando a notícia da divisão se espalhou, Lênin foi duramente denunciado. Em 1904, Rosa Luxemburgo, a revolucionária nascida na Polônia que não se encontraria com Lênin por mais três anos, chamou a concepção dele de organização de “ultracentralismo militar”. Trótski, que ficou do lado de Mártov, comparou Lênin com o jesuíta católico abade Emmanuel Joseph Sieyès — desconfiado em relação a outras pessoas, fanaticamente ligado à ideia, inclinado a ser ditador, ao mesmo tempo que alegava estar combatendo uma sedição supostamente onipresente. Em breve, Plekhánov chamaria Lênin de blanquista. Por sua vez, Lênin, instalado “vileza reptiliana” do Comitê Central do partido (seus adversários). Ele poderia ter sucesso: afinal, muitos membros da facção de Lênin haviam sido exilados da Rússia europeia para o Cáucaso, onde disseminaram a influência bolchevique. Em 1904, em Tíflis, o futuro Stálin, que não fora ao congresso de 1903 em Londres (estava numa prisão preventiva tsarista), travou contato com Liev Kámenev, adepto da facção de Lênin. Mas em janeiro de 1905, o líder dos marxistas georgianos, Noé Jordánia, voltou para a Geórgia do exílio europeu e conduziu a grande maioria dos marxistas caucasianos para o lado menchevique. Djugachvíli já entrara em choque com Jordánia em novembro de 1901 por defender um partido mais estreito, centrado na intelligentsia. Agora, contrariava Jordánia novamente, mantendo-se na facção bolchevique. Portanto, para ele, a divisão também era, em parte, pessoal. Doutrinariamente, a posição leninista de dar preeminência aos revolucionários profissionais também era adequada ao temperamento e à autoimagem de Djugachvíli. 91
A divergência tática aprofundou-se durante a Revolução de 1905, quando os mencheviques argumentaram que a hegemonia da revolução burguesa deveria pertencer à burguesia liberal. Os bolcheviques, por outro lado, sustentavam que o proletariado deveria ser a força dirigente em aliança com o campesinato.
“Valeu a pena detalhar essa divergência inicial, aparentemente trivial, devido à real diferença de perspectiva intrínseca à disputa sobre a organização partidária. Isso ficou evidente na prática durante a Revolução de 1905, quando os mencheviques argumentaram que, em uma revolução burguesa, a principal força motriz deveriam ser os liberais, e que os social-democratas deveriam apenas auxiliar os partidos liberais na conquista de reformas constitucionais, evitando qualquer ação que pudesse assustá-los e empurrá-los para a reação. Os bolcheviques, por outro lado, haviam herdado de Marx e Engels a concepção de que mesmo a revolução democrático-burguesa não seria concluída pela burguesia sem muita pressão e ‘empurrões’ dos ‘elementos plebeus’ da sociedade. Consequentemente, Lenin e seus apoiadores desejavam exercer uma liderança independente e convocar o campesinato como aliado.”92
Foi nesse contexto que Trótski formulou sua teoria da “revolução permanente”, baseada na premissa de que uma revolução vitoriosa na Rússia não poderia se sustentar sem o apoio direto do proletariado europeu e a vitória da revolução no Ocidente.
“Não há contradição entre o artigo ‘A Revolução de Outubro e a Tática dos Comunistas Russos’ (1924) e a ‘Carta à Redação da Proletarskaya Revolutsia’ (1931). Estes dois documentos tratam de aspectos distintos da questão, o que lhe pareceu ser uma ‘contradição’. Entretanto, não há ‘contradição’ alguma aqui. O artigo ‘A Revolução de Outubro’ afirma que, em 1905, não foi Rosa Luxemburgo, mas sim Parvus e Trotsky que propuseram a teoria da revolução ‘permanente’ em oposição a Lenin. Isso corresponde plenamente aos fatos históricos. Foi Parvus quem, em 1905, veio para a Rússia e editou um jornal específico no qual defendeu ativamente a revolução ‘permanente’ contra a ‘concepção’ de Lenin; foram Parvus e, depois — e junto a ele — Trotsky, essa dupla que na época bombardeou o plano revolucionário de Lenin, contrapondo a ele a teoria da revolução ‘permanente’. Quanto a Rosa Luxemburgo, ela manteve-se nos bastidores naqueles dias, abstendo-se da luta ativa contra Lenin sobre essa matéria, evidentemente preferindo não se envolver no embate naquele momento. 93
A crítica de V. I. Lênin ao conceito de revolução permanente de Trotsky é fundamentada na acusação de que tal teoria ignora as condições objetivas das forças de classe na Rússia, especificamente o papel revolucionário do campesinato. Lênin caracteriza as formulações de Trotsky como uma tentativa artificial de saltar etapas históricas necessárias, descrevendo a posição de Trotsky em 1905 como: “ora cooperando com Martynov (o economista), ora proclamando sua teoria da ‘revolução permanente’ absurdamente de esquerda”94.
Para o líder bolchevique, a falha central dessa tese reside em seu ecletismo político, que busca conciliar premissas mencheviques com conclusões bolcheviques. Lênin explicita essa contradição ao afirmar: “Da teoria original de Trotsky, os bolcheviques tomaram emprestado o seu apelo para uma luta revolucionária proletária decisiva e para a conquista do poder político pelo proletariado, enquanto dos mencheviques ele tomou emprestado o ‘repúdio’ ao papel do campesinato”95. E por quê essa teoria ruminava a classe de trabalhadores do campo, de camponeses etc.? Porque basicamente afirmava desde sempre que seria impossível desenvolver a russia agrária sem ajuda internacional, tornava a revolução dependente de outros países, vejamos de perto:
Foi precisamente durante o intervalo transcorrido entre 9 de janeiro e a greve de outubro de 1905 que esses pontos de vista, posteriormente conhecidos como a teoria da “Revolução Permanente”, amadureceram na mente do autor. Esta expressão um tanto presunçosa, revolução permanente, pretende indicar que a revolução russa, embora diretamente relacionada com propósitos burgueses, não podia deter-se em tais objetivos: a revolução não resolveria suas tarefas burguesas imediatas sem o acesso do proletariado ao poder, e o proletariado, uma vez que tivesse o poder em suas mãos, não poderia permanecer confinado dentro do modelo burguês da revolução. Pelo contrário, precisamente com o objetivo de garantir sua vitória a vanguarda proletária, nos primeiros estágios de seu governo, teria que fazer incursões extremamente profundas não apenas nas relações de propriedade feudal, como também nas da propriedade burguesa. Ao fazer isso não apenas estaria em conflito com todos aqueles grupos burgueses que a tinham apoiado durante as primeiras etapas da luta revolucionária, mas também com as grandes massas do campesinato, cuja colaboração teria levado o proletariado ao poder.
As contradições entre um governo dos trabalhadores e uma esmagadora maioria de camponeses num país atrasado só poderiam ser resolvidas em escala internacional, nos limites de uma revolução mundial. Uma vez superadas as estreitas fronteiras democrático-burguesas da revolução russa (em virtude da necessidade histórica) o proletariado vitorioso se veria obrigado a superar suas finalidades nacionais, de maneira tal que teria que lutar conscientemente para que a revolução russa se transformasse no prólogo de uma revolução mundial96.
Essa divergência sobre o papel das massas rurais é o que Lênin define como o “cruzamento” do trotskismo, resultando em slogans que ele considera desastrosos. Um exemplo citado é o slogan “Nenhum Czar, mas um governo operário”97, o qual Lênin identifica como um postulado fundamental do “trotskismo contrarrevolucionário”, por pregar uma revolução sem o apoio da maioria da população camponesa. De acordo com os escritos de Lênin, a revolução russa possui uma base socioeconômica burguesa que exige a conclusão das tarefas democráticas antes da transição plena ao socialismo. Vejamos o que Lênin diz:
“Uma década inteira — a grande década de 1905-1915 — demonstrou a existência de duas, e apenas duas, linhas de classe na revolução russa. A diferenciação social no campo intensificou a luta de classes entre os camponeses e despertou inúmeros elementos que, até então, permaneciam politicamente dormentes. Isso aproximou o proletariado rural do proletariado urbano (os bolcheviques insistem desde 1906 que o primeiro deve ser organizado separadamente, tendo inclusive incluído essa exigência na resolução do congresso menchevique em Estocolmo). No entanto, o antagonismo entre o campesinato, de um lado, e os Markov, Romanov e Khvostov, de outro, tornou-se ainda mais forte e agudo. Esta é uma verdade tão óbvia que nem mesmo os milhares de frases em dezenas de artigos de Trotsky em Paris conseguirão ‘refutá-la’. Na verdade, Trotsky está auxiliando os políticos liberais-trabalhistas na Rússia que, ao ‘repudiarem’ o papel do campesinato, entendem por isso uma recusa em convocar os camponeses para a revolução!” 98
Não era apenas a teoria de Trotsky que incomodava Lênin. Volodia em muitos aspectos não estava a debater teoria; ele está travando uma luta pelo controle do movimento e pela viabilidade da revolução na Rússia. Embora Lenin fale em “coalizão”, o que está subentendido é que o campesinato é um aliado subordinado. Como Lenin afirma que os camponeses não conseguem se organizar em um partido “poderoso e independente”, a conclusão lógica é que o partido do proletariado (os Bolcheviques) deve ser a cabeça dessa aliança. Ele não quer uma coalizão entre iguais; ele quer o proletariado dirigindo a massa camponesa como um general dirige seu exército. Lenin ataca a visão de Martov e Trotsky porque ela cria uma paralisia estratégica. Se a revolução precisa esperar por um partido camponês formal e por uma burguesia liberal disposta a agir, ela nunca sairá do papel. Lenin está dizendo, nas entrelinhas, que seus rivais são “escolásticos” que preferem a pureza dos manuais de direito à realidade da guerra civil. Ele está defendendo o voluntarismo político — a ideia de que a ação cria a estrutura, e não o contrário. Ao ridicularizar o conceito “notarial” e “jurídico” de coalizão, Lenin está desdenhando da democracia parlamentar clássica. Para ele, a legitimidade não vem de assinaturas ou de maiorias em congressos formais, mas da força das armas e da ocupação das ruas. O que está subentendido é que os Sovietes e os Comitês de Greve são instituições de poder paralelo que devem destruir o Estado legal, em vez de tentar se integrar a ele. Lenin trata a posição de Trotsky como “confusa” e “misturada” por Martov. Há uma pitada de desprezo pelo que Lenin considera o “radicalismo de frase” de Trotsky. O subentendido é que Trotsky, por estar no exílio e não ter uma organização sólida na Rússia naquela época (ele era um “não-fracionário”), criava teorias bonitas (como a Revolução Permanente), mas que eram perigosas por ignorarem as condições brutais e pragmáticas da luta no terreno russo. Lenin fala da transição para a revolução socialista como algo que deve ter uma “concepção clara”. Ele acredita que a história segue trilhos definidos. Ao acusar Trotsky de não entender a transição, ele está afirmando que possui o “mapa” científico do futuro. O subentendido é que qualquer um que divirja da sua análise de etapas (burguesa primeiro, socialista depois) está sabotando o processo histórico.
Quanto a Trotsky — a quem o camarada Martov envolveu na controvérsia que organizou com terceiros (controvérsia que envolve a todos, menos ao dissidente) —, é nos positivamente impossível realizar aqui um exame completo de suas opiniões. Para isso, seria necessário um artigo à parte, de fôlego considerável. Ao apenas roçar as visões equivocadas de Trotsky e citar fragmentos delas, o camarada Martov apenas semeia confusão na mente do leitor, pois retalhos de citações não explicam; confundem. O erro fundamental de Trotsky reside no fato de ignorar o caráter burguês da revolução e não possuir uma concepção clara sobre a transição desta para a revolução socialista. Esse erro capital leva àqueles equívocos em questões secundárias que o camarada Martov repete ao citar alguns deles com simpatia e aprovação.
Para não deixar os fatos no estado de confusão ao qual o camarada Martov os reduziu, exporemos ao menos a falácia dos argumentos de Trotsky que conquistaram a aprovação de Martov. Uma coalizão entre o proletariado e o campesinato ‘pressupõe ou que o campesinato caia sob o domínio de um dos partidos burgueses existentes, ou que ele forme um partido independente e poderoso’. Isso é obviamente falso, tanto do ponto de vista da teoria geral quanto da experiência da revolução russa. Uma ‘coalizão’ de classes não pressupõe, de modo algum, a existência de qualquer partido poderoso em particular, ou de partidos em geral. Isso é confundir classes com partidos. Teoricamente, isso é claro porque, primeiro, os camponeses não se prestam facilmente à organização partidária; e porque, segundo a formação de partidos camponeses é um processo extremamente difícil e demorado em uma revolução burguesa. A experiência da revolução russa mostra que ‘coalizões’ entre o proletariado e o campesinato formaram-se centenas de vezes, das formas mais diversas, sem qualquer ‘partido independente e poderoso’ do campesinato. Tal coalizão ocorria em ‘ações conjuntas’ entre, por exemplo, um Soviete de Deputados Operários e um Soviete de Deputados Soldados, ou um comitê de greve ferroviária. Todas essas organizações eram majoritariamente suprapartidárias; não obstante, cada ação conjunta entre elas representava, indubitavelmente, uma ‘coalizão’ de classes. Negar isso significa perder-se em formalismos jurídicos ou transformar o conceito científico e abrangente de ‘coalizão de classes’ em um conceito estreito e notarial. Negar que o chamado conjunto à insurreição e a participação conjunta em levantes locais impliquem a formação conjunta de um governo revolucionário provisório significa esquecer que o que é completo e formalmente constituído desenvolve-se a partir do que é incompleto e não constituído.”99
Lênin aponta que a recusa de Trotsky em aceitar a importância da etapa democrático-burguesa é um erro teórico crasso, como vimos acima. A vida real, segundo Lênin, demonstrou que o campesinato não é uma massa passiva, mas uma força capaz de formar organizações políticas independentes, como os Trudoviques. Lenin critica o que percebe como um “elitismo” subentendido em Trotsky. Enquanto Trotsky sugere que os camponeses podem apoiar o governo operário por mera passividade ou ignorância (como apoiam a burguesia), Lenin insiste que a revolução é um processo pedagógico. O subentendido é que, para Lenin, a aliança operário-camponesa deve ser consciente; caso contrário, ela colapsará. Quando Lenin diz que a ditadura não se resume a quem tem a “maioria” no gabinete, ele está subentendendo que o poder real reside nas massas armadas e nos órgãos de luta (sovietes), e não na contagem de cadeiras ministeriais. O conteúdo de classe do governo é definido pela política que ele executa, não apenas pela sua composição partidária. Ao usar a metáfora da “infância vs. idade adulta”, Lenin subentende que a revolução transforma a natureza das classes. Ele acredita que o processo revolucionário “amadurece” o camponês à força, transformando-o de um ser passivo em um sujeito político organizado.
A segunda afirmação de Trotsky citada pelo camarada Martov também está errada. Não é verdade que ‘toda a questão resida em quem determinará a política do governo, quem constituirá uma maioria homogênea nele’ e assim por diante. E é particularmente falso quando o camarada Martov utiliza isso como argumento contra a ditadura do proletariado e do campesinato. O próprio Trotsky, no curso de sua argumentação, admite que ‘representantes da população democrática participarão’ do ‘governo operário’, ou seja, admite que haverá um governo composto por representantes do proletariado e do campesinato. Em quais termos o proletariado participará do governo da revolução é uma questão inteiramente diferente, e é muito provável que, nesta questão, os bolcheviques discordem não apenas de Trotsky, mas também dos social-democratas poloneses. A questão da ditadura das classes revolucionárias, entretanto, não pode ser reduzida a uma questão de ‘maioria’ em um governo revolucionário específico, ou aos termos sob os quais a participação dos social-democratas em tal governo seria admissível.
Por fim, a mais falaciosa das opiniões de Trotsky que o camarada Martov cita e considera ‘justa’ é a terceira, a saber: ‘mesmo que eles [o campesinato] façam isso [“apoiem o regime da democracia operária”] com não mais compreensão política do que aquela com que costumam apoiar um regime burguês’. O proletariado não pode contar com a ignorância e os preconceitos do campesinato — como as potências de um regime burguês contam e dependem deles — nem pode assumir que, em tempos de revolução, o campesinato permanecerá em seu estado habitual de ignorância política e passividade. A história da revolução russa mostra que a primeiríssima onda de ascensão, ao final de 1905, estimulou imediatamente o campesinato a formar uma organização política (a União Camponesa de Toda a Rússia), que foi, sem dúvida, o embrião de um partido camponês distinto. Tanto na Primeira quanto na Segunda Dumas […] o campesinato lançou imediatamente as bases do grupo Trudovik. Se grupos políticos como estes puderam surgir no início da revolução, não há a menor dúvida de que uma revolução levada a tal ‘conclusão’ — ou melhor, a um estágio tão elevado de desenvolvimento quanto uma ditadura revolucionária — produzirá um partido camponês revolucionário mais definitivamente constituído e forte. Pensar o contrário seria como supor que os órgãos vitais de um adulto pudessem manter o tamanho e a forma da infância.” 100
Lenin sempre esteve em guerra contra o Liquidacionismo — a tendência de intelectuais socialistas que queriam abandonar a estrutura clandestina do Partido Bolchevique após a derrota da Revolução de 1905, focando apenas na política legal. Potresov tenta dizer que a democracia camponesa é algo “do futuro” para justificar que, no presente, o partido não deveria se arriscar em agitações camponesas radicais. Lenin subentende que Potresov está tentando apagar a memória de 1905 para tornar o movimento operário “domesticado” e aceitável para a legalidade czarista. Lenin reafirma que a burguesia liberal (Cadetes) nunca foi democrática. O subentendido aqui é uma crítica aos mencheviques, que frequentemente buscavam aliança com os liberais. Para Lenin, esperar democracia dos Cadetes é como esperar leite de pedra; a única força democrática real (burguesa no sentido econômico, mas radical no político) são os camponeses. Ao ridicularizar a ideia de que o campesinato “ainda não entrou na vida política”, Lenin está apontando para as revoltas agrárias de 1905. O subentendido é que o “liquidacionista” ignora o campo porque tem medo da violência revolucionária que vem de lá, preferindo o debate intelectual urbano.
Os argumentos do Sr. Potresov são ainda menos coerentes quando ele discute o Narodismo [Populismo]. Ele chama os Cadetes [Partido Constitucional Democrata] de ‘ex-democratas’ e até de ‘ex-liberais’; sobre o campesinato, ele afirma: ‘Ao entrar na vida política, o campesinato [na opinião de Potresov, eles ainda não entraram na vida política] inauguraria um capítulo inteiramente novo na história, o da democracia camponesa, o que significaria o fim da velha democracia intelectual e narodnik’.
Portanto, os Cadetes são ex-democratas e os camponeses são futuros democratas. Mas quem, então, são os democratas do presente? Não houve nenhum movimento democrático de massas na Rússia em 1905–07? Não houve nenhum em 1908-10? Potresov recorre a frases evasivas, que contornam a essência da questão, a fim de lançar um véu sobre o presente. O reconhecimento direto e claro do que indubitavelmente existe hoje confrontaria toda a filosofia liquidacionista dos Potresovs, pois significaria o reconhecimento direto do fato histórico inquestionável de que os Cadetes nunca representaram qualquer movimento democrático de massas na Rússia e nunca perseguiram uma política democrática, enquanto o campesinato — os mesmos ‘milhões de camponeses’ de quem o Sr. Potresov também fala — representou e representa este movimento democrático-burguês (com todas as suas limitações). O Sr. Potresov evita esta questão cardeal precisamente para salvar a filosofia liquidacionista. Mas ele não pode salvá-la! 101
Lênin ridiculariza a pretensão de Trotsky de que a sua teoria estaria em conformidade com o imperialismo, chamando-a de um “exemplo divertido de brincar com a palavra ‘imperialismo'”, pois se o proletariado induz as massas não proletárias a confiscar terras, ele está realizando a ditadura democrática e não o socialismo imediato. O autor argumenta que Trotsky se recusa a refletir sobre porque, no curso de dez anos, a realidade histórica ignorou sua “esplêndida teoria”.
Aqui temos um exemplo divertido de como se brinca com a palavra ‘imperialismo’. Se, na Rússia, o proletariado já se contrapõe à ‘nação burguesa’, então a Rússia estaria diante de uma revolução socialista (!), e o slogan ‘Confiscar os latifúndios’ (repetido por Trotsky em 1915, seguindo a Conferência de Janeiro de 1912) estaria incorreto; nesse caso, deveríamos falar não de um governo ‘operário revolucionário’, mas de um governo ‘operário socialista’! O nível de confusão mental de Trotsky fica evidente em sua frase de que, por sua resolutividade, o proletariado atrairá também as ‘massas populares não proletárias [!]’ (nº 217)! Trotsky não percebeu que, se o proletariado induz as massas não proletárias a confiscarem os latifúndios e a derrubarem a monarquia, isso será precisamente a consumação da ‘revolução burguesa nacional’ na Rússia; será a ditadura revolucionário-democrática do proletariado e do campesinato 102.
Este estado de coisas indica claramente a tarefa do proletariado. Tal tarefa consiste em travar uma luta revolucionária supremamente corajosa contra a monarquia (utilizando as palavras de ordem da Conferência de Janeiro de 1912, os ‘três pilares’), uma luta que arraste em seu rastro todas as massas democráticas, isto é, principalmente o campesinato. Ao mesmo tempo, o proletariado deve travar uma luta implacável contra o chauvinismo, uma luta em aliança com o proletariado europeu pela revolução socialista na Europa. A vacilação da pequena burguesia não é um acidente; é inevitável, pois decorre logicamente de sua posição de classe. A crise da guerra fortaleceu os fatores econômicos e políticos que estão impulsionando a pequena burguesia, incluindo o campesinato, para a esquerda. Aqui reside a base objetiva da plena possibilidade de vitória para a revolução democrática na Rússia. Não há necessidade de provarmos aqui que as condições objetivas na Europa Ocidental estão maduras para uma revolução socialista; isso foi admitido antes da guerra por todos os socialistas influentes em todos os países avançados. Trazer clareza ao alinhamento das classes na revolução iminente é a principal tarefa de um partido revolucionário. Esta tarefa está sendo negligenciada pelo Comitê de Organização, que na Rússia permanece um aliado fiel do Nashe Dyelo e, no exterior, profere frases de ‘esquerda’ sem sentido. Esta tarefa está sendo abordada de forma equivocada no Nashe Slovo por Trotsky, que repete sua teoria ‘original’ de 1905 e se recusa a refletir sobre a razão pela qual, no decorrer de dez anos, a vida tem ignorado essa esplêndida teoria. Da teoria original de Trotsky, ele tomou emprestado dos bolcheviques o chamado para uma luta revolucionária proletária decisiva e para a conquista do poder político pelo proletariado; enquanto dos mencheviques, tomou emprestado o ‘repúdio’ ao papel do campesinato. O campesinato, afirma ele, está dividido em estratos, diferenciou-se; seu papel revolucionário potencial diminuiu cada vez mais; na Rússia, uma revolução ‘nacional’ é impossível; ‘estamos vivendo na era do imperialismo’, diz Trotsky, e ‘o imperialismo não contrapõe a nação burguesa ao antigo regime, mas o proletariado à nação burguesa’. 103
As críticas de Lênin também se estendem à conduta organizativa de Trotsky, a quem ele chama de “representante dos piores remanescentes do faccionalismo” por usar o pretexto da “não-faccionalidade” para encobrir a falta de princípios claros.
“I. ‘FRACIONISMO’ Trotsky chama seu novo jornal de ‘não fracionário’. Ele coloca essa palavra na primeira linha de seus anúncios; essa palavra é enfatizada por ele em todos os tons, tanto nos editoriais da própria Borba quanto na liquidacionista Severnaya Rabochaya Gazeta, que publicou um artigo de Trotsky sobre a Borba antes mesmo de esta começar a circular.
O que é esse ‘não fracionismo’? O ‘jornal operário’ de Trotsky é, na verdade, um jornal de Trotsky para os operários, pois não há nele nem vestígio de iniciativa operária, nem qualquer conexão com organizações da classe trabalhadora. Desejando escrever em um estilo popular, Trotsky, em seu jornal para operários, explica em benefício de seus leitores o significado de palavras estrangeiras como ‘território’, ‘fator’ e assim por diante.”104
As divergências entre Lenin e Trotsky, que se estendem de 1903 a 1923, transcendem a mera conduta organizativa, incidindo sobre questões teóricas e táticas fundamentais. Até o presente momento, priorizamos a análise das críticas leninistas que vinculam Trotsky ao menchevismo. Em seguida, procederemos a uma análise cronológica detalhada, reconstruindo o histórico de conflitos entre ambos para evidenciar as nuances dessa relação dialética.
John Thomas Murphy, em sua obra Stalin (1945), descreve o declínio menchevique após 1907, apontando como o partido perdeu milhares de membros e mergulhou em uma crise de dissensão interna. Segundo ele:
“Os 150.000 membros com os quais começaram em 1907 reduziram-se a alguns milhares, enquanto o movimento igualmente desanimador entre os líderes gerou uma variedade de opiniões sobre a política — chegando até a condenar a revolução e a defender a liquidação do partido e uma revisão do marxismo. Aqui estava um teste para os novos filósofos que queriam mudar o mundo. Para todas as aparências superficiais, os 12 anos de esforço foram em vão, e os críticos foram implacáveis. Em toda grande crise, tais opiniões ressurgem. No entanto, Dan, um menchevique adversário dos bolcheviques, sentiu-se obrigado, anos depois, a escrever sobre os bolcheviques desse período de depressão mais sombria: enquanto a seção bolchevique do partido se transformava em uma falange de batalha mantida unida por disciplina férrea e resoluções orientadoras coesas, as fileiras da seção menchevique tornaram-se cada vez mais desorganizadas por dissidências e apatia.”
“Eram sempre os mencheviques de diferentes matizes que recebiam a máxima atenção de Stalin. Isso pode parecer uma obsessão de sua parte e dos bolcheviques em geral, a menos que se compreenda que os mencheviques eram seus maiores rivais pela confiança dos trabalhadores. Os bolcheviques os consideravam um perigo extraordinário porque davam coerência e certa racionalidade ao humor das massas.
Em certo momento, foram classificados como ‘brandos’ e os bolcheviques como ‘duros’; e havia muito de apropriado nessas caracterizações. Pois invariavelmente acontecia que os mencheviques expressavam todas as dúvidas, medos e fraquezas que afligiam os operários e camponeses.”105
A diferença central, portanto, não estava apenas na questão programática, mas também no nível de coesão interna. Enquanto os bolcheviques se consolidavam como uma vanguarda revolucionária disciplinada, os mencheviques eram corroídos por debates internos e pela incerteza sobre sua própria função na revolução. Essa falta de unidade e direção clara os enfraqueceu politicamente e os afastou das massas trabalhadoras, que buscavam uma liderança decisiva.
Essa observação revela um aspecto pouco explorado: o menchevismo, mesmo enfraquecido, representava um desafio ideológico real, pois articulava as dúvidas e hesitações das massas. O reformismo menchevique não era uma simples posição passiva, mas uma forma de influenciar setores da classe trabalhadora que temiam uma ruptura revolucionária. Isso explica a obstinação dos bolcheviques, especialmente de Stalin, em combater não apenas os oponentes burgueses, mas também os “centristas” e reformistas dentro do movimento socialista.
Henri Barbusse, em sua biografia sobre Stalin (Stalin, 1935), descreve a divisão entre bolcheviques e mencheviques como uma escolha fundamental entre dois caminhos irreconciliáveis:
“Stalin estava na prisão, em 1903, quando ouviu uma grande notícia. No Segundo Congresso do Partido Social-Democrata Russo, uma divisão começou a surgir, por iniciativa de Lenin, entre bolcheviques e mencheviques. Os bolcheviques eram os extremistas, os defensores da guerra de classes intransigente, os militantes de ferro. Os mencheviques eram os reformistas, os adaptadores, os arranjadores, os técnicos do compromisso e da combinação…
A divisão se ampliou. Houve uma separação definitiva… Stalin não hesitou. Escolheu o bolchevismo e decidiu-se por Lenin.
Chega sempre o momento em que um homem de ação deve tomar uma decisão desse tipo, destinada a afetar todo o curso futuro de sua vida. Lembra-se do antigo mito grego, impressionante por sua antiguidade, de Hércules sendo obrigado a escolher, no início de sua carreira divina e esportiva, entre o Vício e a Virtude. Mas não havia, neste caso, razões a favor e contra? A reforma é muito tentadora. Tem uma atmosfera de sabedoria e prudência e parece evitar o derramamento de sangue. Mas as pessoas visionárias, que entendem os grandes princípios da lógica e da aritmética social e, em grau cada vez maior, a experiência histórica, sabem que no caminho da resignação oportunista e da vassalagem reformista estão primeiro miragens, depois armadilhas e, finalmente, a traição — e que é o caminho da destruição e do massacre. Podem dizer que é apenas uma questão de grau. Mas não, é uma questão crucial, de vida ou morte, porque o minimalismo (também chamado de ‘mal menor’) é, na verdade, conservadorismo.” (…)
“Após sua sexta fuga, Koba conduziu uma campanha contra os mencheviques georgianos. ‘De 1904 a 1905’, escreve Ordjonikidze, ‘Koba era, para os mencheviques, o mais odiado dos bolcheviques caucasianos, cujo líder reconhecido ele se tornou.’
Um dia, um operário de Olibadze dirigiu-se a ele:
— Mas, droga, camarada Sosso, os mencheviques têm a maioria no partido, afinal!
E esse operário lembra-se muito bem hoje que Sosso respondeu:
— Maioria? Não quanto à qualidade. Espere alguns anos e verá quem estava certo e quem estava errado.”106
Essa caracterização coloca o menchevismo como um caminho de acomodação ao sistema, enquanto o bolchevismo aparece como a verdadeira opção revolucionária. Esse diálogo sintetiza uma concepção fundamental do bolchevismo: a revolução não é uma questão de maioria numérica imediata, mas de direção histórica e capacidade organizativa. Stalin prevê que a qualidade revolucionária superará a quantidade numérica dos mencheviques, algo que se confirmou histórica e pragmaticamente na Revolução de Outubro. As fontes analisadas demonstram que a superioridade bolchevique sobre os mencheviques não foi um acidente histórico, mas um resultado direto da disciplina organizativa, da clareza tática e da recusa em adotar soluções conciliadoras. Os bolcheviques compreenderam que a revolução exigia uma vanguarda determinada, capaz de superar as hesitações reformistas que poderiam paralisar o movimento. Os mencheviques, ao expressarem as dúvidas das massas, paradoxalmente minavam sua própria influência. A insistência bolchevique na luta de classes sem concessões mostrou-se não apenas mais coerente teoricamente, mas também mais eficaz na prática revolucionária. No final, a previsão de Stalin se confirmou: a história mostrou quem estava certo e quem estava errado.
A luta interna dentro do Partido Bolchevique durante a Revolução de Outubro e os anos subsequentes demonstrou que as divisões ideológicas entre seus membros não desapareceram após a cisão com os mencheviques. John Thomas Murphy ressalta que a revolução quase foi perdida devido à atuação de Trotsky e seus apoiadores, mas que Lenin, mais uma vez, conseguiu reverter a situação e consolidar o poder bolchevique.
Os eventos revelaram mais uma vez que o partido bolchevique estava longe de ser completamente unido. A velha luta que marcou a história do Partido Social-Democrata do Trabalho da Rússia até a cisão de 1912 agora ardia furiosamente dentro do próprio partido bolchevique. E, como antes, Lenin não apenas venceu a luta, mas elevou enormemente seu prestígio. Mais uma vez, em um momento decisivo, ele salvou a revolução, quando Trotsky e seus apoiadores quase a perderam.107
Isso revela que, apesar da imagem coesa do partido revolucionário, havia setores que flertavam com posições que ameaçavam sua estabilidade. Trotsky, embora tenha sido uma figura central na vitória militar da revolução, frequentemente expressava posturas que Lenin considerava prejudiciais, como sua tendência a posições vacilantes e aproximações conciliatórias com setores oposicionistas. Esse episódio ilustra uma característica essencial do leninismo: a necessidade de uma liderança coesa e disciplinada para enfrentar os desafios da luta de classes. Lenin não apenas derrotou Trotsky politicamente, mas, ao fazê-lo, reforçou a autoridade de sua linha política, algo que seria decisivo para a sobrevivência do poder soviético em meio à Guerra Civil e às intervenções estrangeiras. A vitória de Lenin sobre Trotsky dentro do partido refletia uma luta maior entre uma estratégia revolucionária firme e uma visão mais aberta a compromissos que, em momentos críticos, poderiam colocar em risco os avanços conquistados pela revolução.
A aversão de Lenin ao concilacionismo se manifestava na forma como ele combatia não apenas os adversários externos, mas também aqueles dentro do próprio partido que demonstravam tendências à acomodação política. Leon Trotsky, em sua obra sobre Stalin, reconhece que Lenin via o concilacionismo como um perigo mortal para a revolução e que, por isso, atacava com ainda mais vigor aqueles que tentavam formular um meio-termo entre as diferentes correntes do movimento revolucionário.
Como o concilacionismo se tornou epidêmico naqueles anos, Lenin o considerava a maior ameaça ao desenvolvimento de um partido revolucionário… Em sua cruzada contra essa tendência perigosa, ele sentia que tinha o direito de não distinguir suas fontes objetivas. Pelo contrário, ele atacava com ferocidade redobrada os conciliadores cujas posições básicas estavam mais próximas do bolchevismo. Evitando o conflito público com a ala conciliadora dentro da própria facção bolchevique, Lenin escolheu direcionar suas polêmicas contra o “trotskismo”, especialmente porque eu, como já foi dito, tentava fornecer uma “fundamentação teórica” para o concilacionismo. Citações dessa violenta polêmica mais tarde serviriam a Stalin, ainda que certamente não tivessem sido escritas com essa intenção.108
Isso demonstra que Lenin entendia a luta política dentro do partido como parte da luta de classes, e que um partido revolucionário não poderia se permitir oscilações teóricas ou concessões a tendências oportunistas. A ironia desse episódio é que as polêmicas de Lenin contra Trotsky seriam posteriormente continuadas por Stalin. A acusação de “trotskismo” tornou-se um sinônimo de desvio pequeno-burguês e fraqueza política, e as críticas de Lenin a Trotsky foram amplamente exploradas para consolidar a ideologia do partido. Isso demonstra como os embates teóricos dentro do bolchevismo não eram meros debates acadêmicos, mas elementos fundamentais para a definição da linha política dominante. Lenin combatia Trotsky porque via nele um perigo real para a unidade e a disciplina do partido, e esse combate ideológico foi fundamental para moldar a estrutura política da União Soviética nos anos seguintes.
A análise empreendida até o momento permitiu desvelar que a gênese do bolchevismo não se limitou a uma divergência administrativa ou estatutária, mas constituiu uma ruptura qualitativa na teoria da organização política do marxismo. Através do exame da estrutura da vanguarda e do papel pedagógico da imprensa clandestina, evidenciou-se que a proposta leninista de um “partido de novo tipo” foi a resposta objetiva às condições de repressão e ao desafio de converter a espontaneidade operária em consciência revolucionária.
A vitória da “qualidade” sobre a “quantidade” — manifesta na consolidação da ala bolchevique após o Segundo Congresso — demonstra que a coesão interna e a disciplina férrea não foram dogmas abstratos, mas pré-requisitos para a sobrevivência política. O embate com o menchevismo, e particularmente a crítica às tendências conciliatórias e ao “substitucionismo” de Trotsky, revelou que o partido não poderia ser uma agremiação heterogênea, sob o risco de tornar-se um espelho das hesitações e fraquezas das próprias massas. Pelo contrário, a falange de batalha forjada por Lênin, e operacionalizada por figuras como Stálin, estabeleceu a centralidade do revolucionário profissional como o eixo da ruptura histórica.
Contudo, a compreensão da vitória final em 1917 exige que não estagnemos na análise das estruturas organizativas. Embora o arcabouço do partido estivesse sólido, a história russa estava prestes a entrar em sua fase mais vulcânica. Portanto, continuaremos esta empreitada científica nos capítulos subsequentes, onde analisaremos como essa máquina de guerra política comportou-se diante do ensaio geral de 1905 e como a dialética entre a teoria da organização e a prática da luta armada moldou, definitivamente, o destino do século XX.
1 SMITH, Hedrick, The New Russians, Random House, New York, 1990, p. 132.
2 ROBERTS, Geoffrey. Stalin’s Wars: From World War to Cold War, 1939-1953. New Haven: Yale University Press, 2006. p. 3.
3 MANFRED, A. Z. História do mundo: volume II: o período moderno. Tradução de Maria Luisa Borges. Lisboa: Edições Sociais, 1977. Acesso em: 5 dez. 2025. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/portugues/manfred/historia/v02/17.htm#c1701.
4 Idem. Ibidem.
5 Idem. Ibidem.
6 Idem. Ibidem.
7 Idem. Ibidem.
8 Idem. Ibidem.
9 Idem. Ibidem.
10 Idem. Ibidem.
11 Idem. Ibidem.
12 CARR, E. H., A Revolução Russa de Lenin à Stalin (1917-1929), Zahar Editores S.A., Rio de Janeiro, 1981, p. 11.
13 MARTENS, Ludo. Um outro olhar sobre Stáline. Tradução de CN. [S. l.]: Para a História do Socialismo, 1994. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/martens/1994/olhar/index.htm. Acesso em: 31 jan. 2026. MARTENS, Ludo. A industrialização socialista. In: MARTENS, Ludo. Um outro olhar sobre Stáline. Tradução de CN. [S. l.]: Para a História do Socialismo, 1994. Cap. 8. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/martens/1994/olhar/05.htm. Acesso em: 31 jan. 2026.
14 ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS, Manual de Economia Política – Vol. I, Editorial Vitória Ltda, Rio de Janeiro, 1961, p. 79.
15 MARTENS, Ludo. OP CIT. Acesso em: 31 jan. 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/martens/1994/olhar/05.htm.
16 ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS, Manual de Economia Política – Vol. I, OP CIT.. Pag. 343.
17 Idem. Pag. 402-404. Depois da Primeira Guerra Mundial, com a enorme redução do poder aquisitivo da população, desencadeou-se na primavera de 1920 uma aguda crise agrária, que golpeou com força particular os países não-europeus (Estados Unidos, Canadá, Argentina, Austrália). A agricultura ainda não se havia recuperado desta crise quando, no fim de 1928, manifestaram-se evidentes sintomas de uma nova crise agrária que se iniciava no Canadá, nos Estados Unidos, no Brasil e na Austrália. Essa crise abarcou os países fundamentais do mundo capitalista que exportavam matérias-primas e gêneros alimentícios. A crise abrangeu todos os ramos da agricultura, entrelaçou-se com a crise industrial de 1929 a 1933 e prolongou-se até o começo da Segunda Guerra Mundial. Após a Segunda Guerra Mundial, iniciou-se novamente a crise agrária nos maiores países que exportam produtos agrícolas — Estados Unidos, Canadá, Argentina, Austrália, e numa série de ramos da agricultura dos países da Europa ocidental. Explica-se o caráter dilatado das crises agrárias pelas seguintes causas principais. Em primeiro lugar, os proprietários de terra, por força do monopólio da propriedade privada sobre a terra, também durante as crises agrárias obrigam os arrendatários a pagar, nas proporções anteriores, o arrendamento fixado no contrato. Em face da queda dos preços das mercadorias agrícolas, a renda agrária é paga às custas da redução posterior do salário dos operários agrícolas, as custas do lucro e, por vezes, até mesmo as custas do capital adiantado pelos arrendatários. Em consequência disso, torna-se muito difícil a saída da crise por meio da introdução de técnica aperfeiçoada e da redução do custo de produção.
18 STALIN, I. V., Obras Escolhidas, Raízes da América, São Paulo, 2021, p. 337
19 LENIN, Vladimir Ilyich. The Development of Capitalism in Russia: The Process of the Formation of a Home Market for Large-Scale Industry. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Lenin’s Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1964. v. 3, p. 91. Acesso em 1 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1899/dcr8ii/ii8ii.htm
20 CARR, E. H., OP CIT, p. 11.
21 HILL, Christopher. Lenin and the Russian Revolution. English Universities Press, Londres, 1947, p. 5, 6 e 7.
22 STÁLIN, J. V. OP CIT. Obras Escolhidas (1901-1952). P. 169.
23 MANFRED, A. Z. OP CIT.
24 Idem. Ibidem.
25 Idem. Ibidem.
26 CARR, E. H., OP CIT, p. 11.
27 ACADEMIA DE LAS CIENCIAS DE LA URSS. OP CIT p. 1100.
28 Idem. p. 404.
29 CARR, E. H., OP CIT. p. 11-13
30 ACADEMIA DE LAS CIENCIAS DE LA URSS, Historia de las ideas políticas, Ed. Cartago, B. Aires, 1957, p. 272.
31 STALIN, I. V., Works, Foreign Languages Publishing House, Moscou, 1972, v. 14, p. 58.
32 STALIN, I. V., Obras Escolhidas (1901-1953) OP CIT. p. 55.
33 ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS, OP CIT. Manual de Economia Política. p. 419.
34 Idem, p. 417
35 KOTKIN, Stephen, Stálin: Paradoxos do Poder 1878-1928, Companhia das Letras, São Paulo, 2015, p. 132.
36 ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS, OP CIT. Manual de Economia Política – Vol. I, p. 154.
37 KOTKIN, Stephen, OP CIT. p. 132
38 CARR, E. H., OP CIT. p. 12.
39 ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS, OP CIT Manual de Economia Política – Vol. I 1, p. 626
40 Idem. Pag. 153.
41 DURANTY, Walter. The Kremlin and the People. New York: Reynal & Hitchcock, 1941, p. 158
42 Idem. p. 164.
43 STALIN, Joseph. Stalin’s Kampf. New York: Howell, Soskin & Company, c1940, p. 19.
44 DAVIS, Jerome. Behind Soviet Power. New York: The Readers’ Press, 1946, p. 71.
45 DEUTSCHER, Isaac. Stalin; A Political Biography. New York: Oxford Univ. Press, 1967, p. 19.
46 OVERY, R. J. Russia’s War: Blood Upon the Snow. New York: TV Books, 1997, p. 16.
47 TROTSKY, Leon. Stalin. New York: Harper and Brothers Publishers, 1941, p. 81.
48 DAVIS, Jerome. Behind Soviet Power. New York: The Readers’ Press, 1946, p. 75
49 LENIN, Vladimir Ilyich. Political Parties in Russia. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Lenin Collected Works. Tradução de Stepan Apresyan. Moscou: Progress Publishers, 1975. v. 18, p. 48. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1912/may/10.htm. Acesso em: 31 jan. 2026.
50 LENIN, Vladimir Ilyich. To the Rural Poor: An Explanation for the Peasants of What the Social-Democrats Want. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Lenin Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1964. v. 6, p. 391-392. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1903/rp/4.htm. Acesso em: 31 jan. 2026.
51 MARTENS, Ludo. OP CIT.. Acesso em: 31 jan. 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/martens/1994/olhar/08.htm.
52 LENIN, Vladimir Ilyich. The Fiftieth Anniversary of the Fall of Serfdom. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Lenin Collected Works. Tradução de Dora Cox. Moscou: Progress Publishers, 1974. v. 17, p. 88. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1911/feb/08.htm. Acesso em: 31 jan. 2026.
53 HILL, Christopher. Lenin and the Russian Revolution. Londres: Hodder & Stoughton; English Universities Press, 1947. Pag. 7-8.
54 LENIN, Vladimir Ilyich. The Development of Capitalism in Russia: The Process of the Formation of a Home Market for Large-Scale Industry. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Lenin’s Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1964. v. 3, p. 246-247. Acesso em 1 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1899/dcr8iii/iii8x.htm.
55 ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS, Manual de Economia Política – Vol. I. OP CIT, , p. 215.
56 GETTY, J. Arch. Yezhov: The Iron Fist of Stalin. New Haven: Yale University Press, 2008. p. 14-15.
57 KOTKIN, S. Stálin: Paradoxos do Poder 1878-1928, Companhia das Letras, São Paulo, 2015, p. 132
58 ACADEMIA DE CIÊNCIAS DA URSS, OP CIT Manual de Economia Política – Vol. II, p. 191.
59 FOSTER, William Z., History of the Three Internationals, International Publishers, Nova York, 1956, p. 193, 256 e 257.
60 OSSADTCHI, I. P. Lénine sobre as condições da vitória da revolução e da construção do socialismo num só país. Tradução e edição de CN. [S. l.]: Para a História do Socialismo, 28 ago. 2013. Disponível em: http://www.hist-socialismo.net. Acesso em: 1 fev. 2026.
61 MANFRED, A. Z. OP CIT.
62 Idem. Ibidem.
63 Idem Ibidem.
64 MANFRED, A. Z. OP CIT.
MARX-ENGELS-LENIN INSTITUTE. Joseph Stalin: a short biography. Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1947. Cap. 1-2. Acesso em: 5 dez. 2025. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/biographies/1947/stalin/
65 Instituto Marx, Engels, Lenin, Stalin. Lenin sua vida e sua Obra. Editora Vitória, São Paulo. Ver primeiro e Segundo Capítulo: <https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/lenin/lenin.pdf]>; MANFRED, A, Z. OP CIT.
66 ROBERT, S. Lênin: Biografia Definitiva. Editora Record, São Paulo. 2021. Pag. 34-35.
67 Idem. Pag. 40.
68 Idem. Pag. 58-59.
69 Idem. Pag. 59-60.
70 Idem. Pag. 67-68.
71 VOLKOGONOV, Dimitri. Lenin: a new biography. Translated and edited by Harold Shukman. New York: The Free Press, 1994. Pag. 48.
72 MORAES, João Quartim de. Lênin: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2024. (Coleção Pontos de Partida). Pag. 12-13.
73 SERVICE, R. Op Cit. Pag. 92.
74 MANFRED, A, Z. Op Cit.
75 SERVICE, R. Op Cit. Pag. 105.
76 Idem. Pag. 114.
77 KRAUSZ, Tamás. Reconstruindo Lênin: uma biografia intelectual. São Paulo: Boitempo, 2017. Pag. 35-36.
78 Idem. Ibidem; Volkogonov. Lenin: A New Biography. THE FREE PRESS. New York London Toronto Sydney Tokyo Singapore. Pag. 59.
79 Idem. Ibidem.
80 Idem. Ibidem.
1 LÉNIN, V.I. Que Fazer? In: Obras Escolhidas em três tomos. Lisboa: Edições Avante!, 1977, Tomo 1. Pag. 129.
2 Idem. Pag. 96.
3 INSTTUTO MARX, ENGELS, LENIN, STALIN; Stálin a Shoort Biography. Op Cit.
4 KUROMIYA, H. Stalin, [S.l.], Routledge, 2005. Pag. 1.
5 KOTIKIN, S. Stálin: Paradoxos do Poder. Objetiva. São Paulo. 2017. Pag. 33
6 DEUTSCHER, I. Stalin: A Political Biography. [S.l.]. Vintage Books, 1949. Pag. 65.
7 GREY, I. Stalin (Volumen primero). Barcelona, Salvat Editores, 1986. Pag. 24.
8 KUROMIYA, H. OP CIT. Pag. 5.
9 MARCOU, L. A Vida Privada de Stálin, [S.l.], [s.n.], [s.d.], p. 7.
10 IDEM. Pag. 28.
11 INSTTUTO MARX, ENGELS, LENIN, STALIN; Stálin a Shoort Biography. Op cit.
12 Idem. Ibidem.
13 Idem. Ibidem.
14 MARCOU, L. Op Cit. Pag. 22-23.
15 Idem. Ibidem.
16 [INSTTUTO MARX, ENGELS, LENIN, STALIN; Stálin a Shoort Biography. Op Cit.
17 MARCOU, LYLLY. Op Cit. Pag. 22-23.
18 KOTKIN, Stephen. Op Cit. Pag. 66.
19 STÁLIN, J. V. Op Cit. Pag. 243.
20 INSTTUTO MARX, ENGELS, LENIN, STALIN; Stálin a Shoort Biography Op Cit.
MANFRED, A, Z,. Op Cit.
Instituto Marx, Engels, Lenin, Stalin. Lenin sua vida e sua Obra. Op Cit; A, Z, MANFRED. Op Cit.
21 Idem. Ibidem.
22 Idem. Ibidem.
23 Idem. Ibidem.
24 Instituto Marx, Engels, Lenin, Stalin. Lenin sua vida e sua Obra. Op Cit; MANFRED, A, Z. Op Cit.
25 Idem. Ibidem.
26 Idem. Ibidem.
27 A. I. Spiridovich. História do Bolchevismo na Rússia. Do surgimento à tomada do poder. 1883-1903-1917 . – M .: Zakharov, 2019. -. P 59 e 288..
28 MARTENS, L. Um Outro Olhar Sobre Stálin. Edições EPO, Antuérpia, 1994, p. 20
29 LENIN, V. I. Where to Begin? [1901]. In: LENIN, V. I. Collected Works: volume 5 (May 1901 – February 1902). Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1961. p. 21-22. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/may/04.htm. Acesso em: 28 jan. 2026.
30 Idem. Ibidem.
31 LENIN, V. I. What Is To Be Done? Burning Questions of our Movement [1902]. In: LENIN, V. I. Collected Works: volume 5 (May 1901 – February 1902). Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1961. p. 347-530. Acesso em 28 de janeiro de 2026. Disponível para consulta no seguinte endereço virtual: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/index.htm.
32 LENIN, V. I. To the Editor of Nevskaya Zvezda [1912]. In: LENIN, V. I. Collected Works: volume 35 (Letters, February 1912 – December 1922). Moscow: Progress Publishers, 1976. p. 43. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1912/jul/24.htm. Acesso em: 28 jan. 2026.
33 LENIN, V. I. What Is To Be Done? Burning Questions of our Movement [1902]. In: LENIN, V. I. Collected Works: volume 5 (May 1901 – February 1902). Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1961. Páginas: 409-410. Acesso em 28 de janeiro de 2026. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/index.htm.
34 LENIN, V. I. The Sixth (Prague) All-Russia Conference of the R.S.D.L.P. [5–17 (18–30) jan. 1912]. Tradução de Dora Cox. Moscow: Progress Publishers, 1974. (Lenin Collected Works, v. 17). p. 467-468. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1912/6thconf/2.htm#v17pp74-455. Acesso em: 29 jan. 2026.
35 LENIN, V. I. Tenth Congress of the R.C.P.(B.) [8-16 mar. 1921]. Tradução de Yuri Sdobnikov. Moscow: Progress Publishers, 1965. (Lenin’s Collected Works, v. 32). p. 165-271. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1921/10thcong/ch04.htm. Acesso em: 29 jan. 2026.
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37 LENIN, V. I. What Is To Be Done? Burning Questions of our Movement [1902]. In: LENIN, V. I. Collected Works: volume 5 (May 1901 – February 1902). Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1961. p. 409-410. Acesso em 28 de janeiro de 2026. Disponível para consulta no seguinte endereço: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/index.htm.
38 LENIN, V. I. Theses On Production Propaganda: Rough Draft. [18 nov. 1920]. Tradução de Julius Katzer. Moscow: Progress Publishers, 1965. (Lenin’s Collected Works, v. 31). p. 404-406. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1920/nov/18.htm. Acesso em: 29 jan. 2026.
39 LENIN, V. I. The Work Of The People’s Commissariat For Education [7 fev. 1921]. Tradução de Yuri Sdobnikov. Moscow: Progress Publishers, 1965. (Lenin’s Collected Works, v. 32). p. 130. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1921/feb/07.htm. Acesso em: 29 jan. 2026.
40 LENIN, V. I. What Is To Be Done?: burning questions of our movement. Tradução de Joe Fineberg e George Hanna. [S. l.]: Lenin Internet Archive, 1999. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/iii.htm. Acesso em: 30 jan. 2026. Originalmente publicado em: LENIN, V. I. Collected Works: volume 5. Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1961. p. 419-420.
41 LENIN, V. I. What Is To Be Done?: burning questions of our movement. Tradução de Joe Fineberg e George Hanna. [S. l.]: Lenin Internet Archive, 1999. Acesso em: 30 jan. 2026. Disponível em: <https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/iii.htm>. Originalmente publicado em: LENIN, V. I. Collected Works: volume 5. Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1961. p. 412.
42 MARX, Karl. The Poverty of Philosophy: answer to the Philosophy of Poverty by M. Proudhon. Tradução: Institute of Marxism Leninism. Moscow: Progress Publishers, 1955. Pag. 211/240 do PDF. Originalmente publicado em Paris e Bruxelas, 1847. Acesso em 30 de janeiro de 2026. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/archive/marx/works/1847/poverty-philosophy/ch02e.htm.
43 LENIN, V. I. The Bourgeois Intelligentsia’s Methods of Struggle Against the Workers [jun. 1914]. Tradução de Bernard Isaacs e Joe Fineberg. Moscow: Progress Publishers, 1972. (Lenin Collected Works, v. 20). p. 455-486. Acesso em 29 janeiro de 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1914/jun/x01.htm.
44 LENIN, V. I. Greetings to the Hungarian Workers [27 maio 1919]. Tradução de George Hanna. Moscow: Progress Publishers, 1972. (Lenin’s Collected Works, v. 29). p. 387-391. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1919/may/27.htm. Acesso em: 29 jan. 2026.
45 STALIN, J. V. The Foundations of Leninism. In: STALIN, J. V. Works. Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1953. Volume. 6 (1924). Pag. 71-196. Acesso em 30 janeiro de 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1924/foundations-leninism/ch03.htm.
46 LENIN, V. I. What Is To Be Done? Burning Questions of our Movement [1902]. In: LENIN, V. I. Collected Works: volume 5 (May 1901 – February 1902). Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1961. p. 375. Acesso em: 28 jan. 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/index.htm.
47 LENIN, V. I. Por onde começar? [1901]. In: LENIN, V. I. Obras Completas. 5. ed. Moscovo: Izdátelstvo Politítcheskoi Literaturi, 1967. Tomo 5, p. 9; LENIN, V. I. Declaração da Redacção do Iskra [1900]. In: LENIN, V. I. Obras Completas. 5. ed. Moscovo: Izdátelstvo Politítcheskoi Literaturi, 1967. Tomo 4, p. 358; LENIN, V. I. As tarefas urgentes do nosso movimento [1900]. In: LENIN, V. I. Obras Completas. 5. ed. Moscovo: Izdátelstvo Politítcheskoi Literaturi, 1967. Tomo 4, p. 371-380. Apud In: NABAIS, Carlos. Teórico genial, gigante revolucionário: Lênin. Avante!, Lisboa, n. 1899, 22 abr. 2010. Disponível em: http://www.avante.pt/noticia.asp?id=33289&area=5. Acesso em: 26 jan. 2026. [reproduzido em: www.hist-socialismo.net].
48 LENIN, V. I. What Is To Be Done? Burning Questions of our Movement [1902]. In: LENIN, V. I. Collected Works: volume 5 (May 1901 – February 1902). Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1961. p. 450-451. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1901/witbd/index.htm. Acesso em 28 de janeiro de 2026.
49 LIH, Lars T. Lenin Rediscovered: What Is to Be Done? in Context. Leiden: Brill, 2006. (Historical Materialism Book Series, v. 9). Pag. 225.
50 SPIRIDOVICH, A. I. História do Bolchevismo na Rússia: do surgimento à tomada do poder (1883-1903-1917). Moscou: Zakharov, 2019, p. 59-288; INSTITUTO MARX-ENGELS-LENIN-STALIN. Lenin: sua vida e sua obra. São Paulo: Vitória, [s.d.]. Cap. 1-2. Acesso em: 30 jan. 2026 Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/lenin/lenin.pdf; MANFRED, A. Z. História do mundo: o período moderno. Lisboa: Edições Sociais, 1977. v. 2. Acesso em: 5 dez. 2025 Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/manfred/historia/v02/17.htm#c1701.; INSTITUTO MARX-ENGELS-LENIN-STALIN. Joseph Stalin: a short biography. Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1947. Disponível em: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/biographies/1947/stalin/. Cap. 1-2. Acesso em: 5 de dezembro de 2025.
51 Idem. Ibidem.
52 Idem. Ibidem.
53 Idem. Ibidem.
54 LENIN, V.I. One Step Forward, Two Steps Back. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1961, Vol. 7, p. 396.
55 SPIRIDOVICH, A. I. História do Bolchevismo na Rússia: do surgimento à tomada do poder (1883-1903-1917). Moscou: Zakharov, 2019, p. 59-288; INSTITUTO MARX-ENGELS-LENIN-STALIN. Lenin: sua vida e sua obra. São Paulo: Vitória, [s.d.]. Cap. 1-2. Acesso em: 30 jan. 2026 Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/lenin/lenin.pdf; MANFRED, A. Z. História do mundo: o período moderno. Lisboa: Edições Sociais, 1977. v. 2. Acesso em: 5 dez. 2025 Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/manfred/historia/v02/17.htm#c1701.; INSTITUTO MARX-ENGELS-LENIN-STALIN. Joseph Stalin: a short biography. Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1947. Disponível em: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/biographies/1947/stalin/. Cap. 1-2. Acesso em: 5 de dezembro de 2025.
56 A votação foi de 28 a favor e 22 contra. Dos oito anti-iskristas, sete votaram com Martov e um votou comigo. Sem o auxílio dos oportunistas, o camarada Martov não teria conseguido aprovar sua redação oportunista. (No Congresso da Liga, Martov tentou, sem sucesso, refutar esse fato incontestável, mencionando apenas os votos do Bund e esquecendo-se de Akimov e seus amigos — ou melhor, lembrando-se deles apenas quando servia contra mim, como no caso da concordância do camarada Brouckère comigo). LENIN, V. I. One Step Forward, Two Steps Back: (the crisis in our party). Tradução de Abraham Fineberg e Naomi Jochel. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 7, p. 273, 274. Acesso em 25 janeiro de 2026. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1904/onestep/i.htm.
57 LENIN, V. I. Account of the Second Congress of the R.S.D.L.P. Tradução de Abraham Fineberg. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 7, p. 27-28. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1903/sep/15a.htm. Acesso em: 25 jan. 2026.
58 O primeiro deles, a concordância com o programa, constituiu exigência consensual básica de qualquer partido sério, portanto estava fora de discussão. Mas discordaram sobre o segundo critério: quem deve fazer pelo partido um militante? Lênin exigia, além do apoio financeiro, participação em uma de suas organizações. Para Martov, seria suficiente, além do apoio financeiro, prestar ajuda pessoal regular sob a direção de uma de suas organizações. A importância da diferença não aparece claramente pela mera leitura das duas fórmulas. Ela costuma ser apresentada pelas alternativas partido de revolucionários profissionais ou partido aberto. Lênin, embora defendesse firmemente o primeiro termo da alternativa, nunca perdeu de vista a decisiva conexão com a classe operária. Por isso mesmo, afirmou no Congresso que a controvérsia sobre o artigo 1º do Estatuto não configurava uma questão de princípio. Tanto assim que aceitou disciplinadamente a derrota de sua fórmula pela de Martov, aprovada por 28 delegados contra. MORAES, João Quartim de. Lênin: Uma Introdução. São Paulo: Boitempo, 2024. Pag. 38.
59 LIH, Lars T. Lenin Rediscovered: What Is to Be Done? in Context. Leiden: Brill, 2006. p. 495-496. (Historical Materialism Book Series, v. 9).
60 KOTKIN, Stephen. OP CIT. Pag. 89.
61 LENIN, V. I. One Step Forward, Two Steps Back: (the crisis in our party). Tradução de Abraham Fineberg e Naomi Jochel. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 7, p. 273, 274. Acesso em 25 de janeiro de 2026. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1904/onestep/i.htm.
62 VOLKOGONOV, Dmitri. Lenin: A New Biography. Tradução e edição de Harold Shukman. New York: The Free Press, 1994. Pag. 145.
63 KOTKIN, Stephen. Stálin: volume I: paradoxos do poder, 1878-1928. Tradução de Pedro Maia Soares. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017. p. 88 e 89.
64SERVICE, Robert. Lênin: A Biografia Definitiva. Rio de Janeiro: Record, 2021. Pag. 207.
65 LIH, Lars T. Lenin Rediscovered: What Is to Be Done? in Context. Leiden: Brill, 2006. p. 495-496. (Historical Materialism Book Series, v. 9).
66 LENIN, V. I. Account of the Second Congress of the R.S.D.L.P. Tradução de Abraham Fineberg. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 7, p. 29-30. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1903/sep/15a.htm. Acesso em: 25 jan. 2026.
67 LENIN, V. I. A Brief Outline of the Split in the R.S.D.L.P. Tradução de Bernard Isaacs e Isidor Lasker. Moscou: Foreign Languages Publishing House, 1962. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 8, p. 126-127. Originalmente publicado em 1905 como panfleto pelo Grupo de Apoio de Berna do POSDR. Transcrição de R. Cymbala. Acesso em 26 janeiro de 2026. Disponível para consulta em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1905/feb/00.htm.
68 LENIN, V. I. Second Congress of the League of Russian Revolutionary Social-Democracy Abroad. Moscou: Progress Publishers, 1964. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 7, p. 82. Publicado originalmente em jan. 1904 nas Atas do Segundo Congresso Regular da Liga da Social-Democracia Revolucionária Russa no Exterior, Genebra. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1904/jan/31a.htm. Acesso em: 26 jan. 2026.
69 LENIN, Vladimir Ilyich. One Step Forward, Two Steps Back (The Crisis in Our Party). Moscou: Progress Publishers, 1964. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 7, p. p. 203-425. Escrito entre fev.-mai. 1904. Publicado originalmente em livro, Genebra, mai. 1904. Texto cotejado com o manuscrito e com a coleção: IL YIN, Vl. Twelve Years, 1907 Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1904/onestep/j.htm. Acesso em: 26 janeiro 2026.
70 SERVICE, Robert. Lênin: A Biografia Definitiva. Rio de Janeiro: Record, 2021. Pag. 209.
71 NABAIS, Carlos. Teórico genial, gigante revolucionário: Lénine. Avante!, Lisboa, n. 1899, 22 abr. 2010. Disponível em: http://www.avante.pt/noticia.asp?id=33289&area=5. Acesso em: 26 jan. 2026. [reproduzido em: www.hist-socialismo.net].
72 LENIN, V. I. Time to Call a Halt! Moscou: Foreign Languages Publishing House, 1962. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 8, p. 37. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1905/jan/04c.htm. Acesso em: 26 jan. 2026.
73 LENIN, V. I. Account of the Second Congress of the R.S.D.L.P. Tradução de Abraham Fineberg. In: LENIN, V. I. Lenin Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1964. v. 7, p. 33. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1903/sep/15a.htm. Acesso em: 25 jan. 2026.
74 Idem. Ibidem.
75 HILL, Christopher. Lenin and the Russian Revolution. Londres: Hodder & Stoughton, 1947. (Teach Yourself History). p. 70, 71 e 72. [Referente ao capítulo VIII: A Party of a New Type].
76 NABAIS, Carlos. Teórico genial, gigante revolucionário: Lénine. Avante!, Lisboa, n. 1899, 22 abr. 2010. Disponível em: http://www.avante.pt/noticia.asp?id=33289&area=5. Acesso em: 26 jan. 2026. [reproduzido em: www.hist-socialismo.net].
77 LENIN, V. I. Second Congress of the R.S.D.L.P.: July 17 (30)-August 10 (23), 1903. In: LENIN, V. I. Collected Works: volume 6 (January 1902 – August 1903). Moscow: Progress Publishers, 1964. p. 467-509. Second Speech in the Discussion on the Party Rules. [S. l.]: Lenin Internet Archive, 2003. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1903/2ndcong/21.htm. Acesso em: 21 jan. 2026.
78 KOTKIN, Stephen. Stálin: Paradoxos do Poder, 1878-1928. Objetiva, São Paulo, 2017.
79V. I. Lenin. Judas Trotsky’s Blush of Shame. Written after January 2 (15), 1911 Published: First published on January 21, 1932, in Pravda, No. 21. Published according to the manuscript. Source: Lenin Collected Works, Progress Publishers, [1974], Moscow, Volume 17, Acesso para consulta em: page 45.https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1911/jan/02.htm
80 ROBERTS, G. STALIN’S Library a Dictator And His Books.Yale University Press, New Haven And London. Pag. 103-104.
81 KOTKIN, Stephen. Stálin: Paradoxos do Poder, 1878-1928. Objetiva, São Paulo, 2017, p. 486-487.
82 LENIN, V. I. Collected Works. Vol. 17. Progress Publishers, Moscou, 1968, p. 45. https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1911/jan/02.htm
83 LENIN, V. I. Collected Works. Vol. 17. Progress Publishers, Moscou, 1968, p. 244.
84 STALIN, Joseph. Joint Plenum of the Central Committee and Central Control Commission of the C.P.S.U.(B.): July 29 – August 9, 1927. In: STALIN, Joseph. Works: volume 10 (August – December, 1927). Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1954. Pag. 79. Disponível em: https://www.marxists.org/reference/archive/stalin/works/1927/07/29.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.
85 Idem. Ibidem.
86 LENIN, Vladimir Ilyich. Disruption of Unity Under Cover of Outcries for Unity. Tradução: Bernard Isaacs e Joe Fineberg. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 20. Moscow: Progress Publishers, 1972. p. 325-347. Originalmente publicado em: Prosveshcheniye, n. 5, maio 1914. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1914/may/x01.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.
87 LIH, Lars T., Lenin Rediscovered, Brill, Leiden, 2006, p. 490.
88 FOSTER, William Z. History of the Three Internationals: world socialist and communist movement from 1848 to the present. New York: International Publishers, 1955. p. 190.
89 MARTENS, Ludo, Stalin: Um Novo Olhar, EPO, Bruxelas, 1993, p. 103. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/martens/1994/olhar/06.htm. Acesso em 30 janeiro. 2026.
90 LIH, Lars T. Lenin rediscovered: what is to be done? in context. Chicago: Haymarket Books, 2008. (Historical Materialism). Pag. 530.
91 KOTKIN, Stephen, Stálin Paradoxos do Poder 1878-1928, Companhia das Letras, São Paulo, 2015, p. 89-90
92 HILL, Christopher. Lenin and the Russian Revolution. New York: Penguin Books, 1971. p. 71.
93 STALIN, Joseph. Works: volume 13 (July 1930 – January 1934). Moscow: Foreign Languages Publishing House, 1955. p. 86-104. (Refere-se à carta “Some Questions Concerning the History of Bolshevism”).
94 LENIN, Vladimir Ilyich. Disruption of Unity Under Cover of Outcries for Unity. Tradução: Bernard Isaacs e Joe Fineberg. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 20. Moscow: Progress Publishers, 1972. p. 346-347. Originalmente publicado em: Prosveshcheniye, n. 5, maio 1914. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1914/may/x01.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.
95 LENIN, Vladimir Ilyich. On the Two Lines in the Revolution. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 21. Moscow: Progress Publishers, 1964. p. 419. Originalmente publicado em: Sotsial-Demokrat, n. 48, 20 nov. 1915. Acesso em 30 de janeiro de 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1915/nov/20.htm.
96 TROTSKY, L. Prefácio a Revolução Russa de 1905. Acesso em abril de 2021. Disponível no seguinte site para consulta: <https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1907/rev_1905/prefacio.htm>.
97 LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 24 (April – June 1917). Tradução: Bernard Isaacs. Moscow: Progress Publishers, 1964. Pag. 582.
98 LENIN, Vladimir Ilyich. On the Two Lines in the Revolution. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 21. Moscow: Progress Publishers, 1964. p. 419. Originalmente publicado em: Sotsial-Demokrat, n. 48, 20 nov. 1915. Acesso em 30 de janeiro de 2026. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1915/nov/20.htm.
99 LENIN, Vladimir Ilyich. The Aim of the Proletarian Struggle in Our Revolution. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 15 (March 1908 – August 1909). Moscow: Progress Publishers, 1973. p. 370-371. Originalmente publicado em: Sotsial-Demokrat, n. 3-4, mar./abr. 1909. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1909/aim/iii.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.
100 Idem. p. 370-371. Originalmente publicado em: Sotsial-Demokrat, n. 3-4, mar./abr. 1909. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1909/aim/iii.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.
101 LENIN, Vladimir Ilyich. Those Who Would Liquidate Us: Re: Mr. Potresov and V. Bazarov. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 17 (December 1910 – April 1912). Tradução: Dora Cox. Moscow: Progress Publishers, 1974. p. 60-81. Originalmente publicado em: Mysl, n. 2-3, jan./fev. 1911. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1911/twlu/index.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.
102 LENIN, V. I. Collected Works: volume 21. Moscou: Progress Publishers, 1964. p. 419
103 LENIN, Vladimir Ilyich. On the Two Lines in the Revolution. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 21 (August 1914 – December 1915). Moscow: Progress Publishers, 1964. p. 415-420. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1915/nov/20.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.
104 LENIN, Vladimir Ilyich. Disruption of Unity Under Cover of Outcries for Unity. Tradução: Bernard Isaacs e Joe Fineberg. In: LENIN, Vladimir Ilyich. Collected Works: volume 20. Moscow: Progress Publishers, 1972. p. 327-328. Originalmente publicado em: Prosveshcheniye, n. 5, maio 1914. Disponível em: https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1914/may/x01.htm. Acesso em: 30 jan. 2026.
105 MURPHY, John Thomas. Stalin. London: John Lane, 1945. p. 62-67.
106 BARBUSSE, Henri. Stalin. New York: The Macmillan Company, 1935. p. 24-25.
107 Murphy, John Thomas. Stalin. Londres: John Lane, 1945, p. 119.