A poesia nas letras do trovador do Brasil - Parte 1
Chico Buarque em si é uma escola da música brasileira. Cada canção, cada letra, cada poema abre uma rede de possibilidades da interpretação. Como analisar versos como “uma andava tonta, grávida de lua/e outra andava nua, ávida de mar”, usando e abusando das rimas intercaladas? Ou o que dizer de Construção, as rimas em proparoxítonas, intercambiáveis entre todos os versos, em uma verdadeira máquina de produzir significados.
Chico compõe tanto melodias e harmonias, quanto faz letras. É um compositor completo, como são Caetano, Gil e Djavan, por exemplo. Domina a composição tanto no violão, instrumento da composição brasileira por execelência, quanto no piano.
Há um mito corrente que Chico não é bom cantor. Claro que sua voz não se iguala a de Milton Nascimento, reconhecida como uma das vozes mais completas do mundo, que registra do contra-tenor ao baixo. Não tem os recursos vocais de Caetano Veloso, que possui um registro único e inconfundível. Porém, Chico manda bem no canto e no violão e sua voz tem sua marca.
Mas Chico é sobretudo poeta. Um poeta da canção. Tão poeta que pode se arriscar na criação romanesca e na dramaturgia, não com a mesma grandeza de sua música. Seria exigir demais. Suas letras são parte da história da literatura brasileira. As letras buarquianas contam histórias, têm um poder imagético que imprime as cenas nas retinas dos ouvintes. Quem não enxerga a Geni do Zepelin ou o operário de Contrução, ou não vê os dois mascarados procurando os seus namorados no salão?
Chico letrista é antes de tudo um contador de estórias. Estórias de seu tempo, do seu país, do seu povo. Cada fase da obra de Chico reflete o momento histórico do país, na política e nos hábitos do cotidiano. Através das letras de Chico Buarque vemos a ascensão da ditadura, a passagem definitiva do país para o cenário urbano e a industrialização, as mudanças na vida familiar e amorosa. O período mais tenebroso da ditadura e a face mais generosa da resistência popular e democrática.
Chico desponta na cena musical com pouco mais de 20 anos, ainda estudante da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. A velocidade de seu sucesso é fruto de seu talento, mas também da consolidação da televisão como principal mídia. As empresas televisivas investiram em programas musicais na década de 60.
Uma modalidade dessa programação musical, os festivais, permitiu que se revelasse a geração mais brilhante da música brasileira.
Seu primeiro sucesso estrondoso, A Banda, de 1966, evoca um Brasil ingênuo, com um que de infância, como um último suspiro de uma inocência, com as pessoas assomando às ruas pra ver a Banda passar. Mas a perda da inocência já vem ao final da música, o que era doce acabou, cada um no seu canto, em cada canto uma dor.
Essa inocência descrita e perdida na mesma canção vai reaparecer em Olê Olá, também de 1966, onde o artista tentando com seu violão chamar a atenção dos passantes, que passam nem ligam, já vão trabalhar, se rende dizendo que sua amada já pode chorar. O tema é revisitado em toda sua obra pré-Construção. Mesmo após Construção a inocência perdida ressurge, como em Maninha, e João e Maria, essa última em parceria com Sivuca, ambas de 1977. Porém, o toque de amargura da perda da inocência é maior nas duas canções.
Mesmo nessa sua primeira fase da inocência perdida, onde Chico foi classificado por Millôr Fernandes como a única unanimidade nacional, já vemos o Chico rascante e intérprete da dura realidade. É o caso de Pedro Pedreiro, em um prenúncio da muito clássia Construção.
Essa inocência é por vezes enganosa. Uma simples canção de saudade, como em Sabiá, em parceria com Tom Jobim. Sabiá venceu o festival da TV Globo de 1968, suplantando o hino Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré. Nada mais falso do que a contraposição da politizada Caminhando de Vandré com a canção da saudade de Chico e Tom. Em uma ambiguidade que será uma constante na obra buarquiana, Sabiá será o prenúncio da fase mais dura da ditadura. Será a verdadeira canção do exílio.
Roda Viva é o ponto de inflexão. Do Chico que se recusa ao bussiness da cultura e que não nutre ilusões com o sistema. Um prenúncio do Chico da luta política dos anos 70.
Aqui os links das músicas citadas, em ordem de aparição no texto.
https://youtu.be/X2biTz5lLfk?si=PtInbJrXDsBcnmIy Mar e Lua
https://youtu.be/wBfVsucRe1w?si=kWsLx_g5Fgl_6OeB Construção
https://youtu.be/J64uv4z_fF0?si=w1TnHRITu7bOcMZR Geni e o Zepelin, em interpretação de Cida Moreira
https://youtu.be/aoc6G8mz2ag?si=0XRavt3-4ZqMLXL0 Noite dos Mascarados em interpretação de Emílio Santiago
https://youtu.be/mdm6Lys9Agg?si=UbsaH8lZbePy2AL6 A Banda
https://youtu.be/FNgLElSGGr8?si=abN7TCyvc2_c6LQc Olê Olá, ao vivo em dueto com Maria Bethânia
https://youtu.be/Si_ugqmpGNE?si=tSuznx2jqsxpxHTP Maninha em dueto com Miúcha
https://youtu.be/FvX-pfQvrjc?si=6FqY0SxcRq-wCGqg João e Maria em dueto com Nara Leão
https://youtu.be/ukyJzG9IePI?si=bHYgSZoOseOHYn2r Pedro Pedreiro
https://youtu.be/60G289qHuWc?si=0mX4tRyepUMv0xbW Sabiá, em interpretação de Quarteto em Cy
https://youtu.be/IpAR9DlQV6o?si=HgXzACVErW3z4B1F Roda Viva, Chico acompanhado por MPB4
Por Igor Grabois – Secretário-Geral da LCB
Liga Comunista Brasileira – LCB
14 de março de 2026