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Aposentadoria e trabalho tóxico

Por célula Vera Pinto Telles da LCB/Campinas

Uma conversa típica entre trabalhadores revela um sentimento cada vez mais comum: a descrença no futuro. “Meus filhos falam que não vão se aposentar.” “Desconfio que eu não vou me aposentar.” Essas frases, ditas com naturalidade, carregam o peso de uma geração que vê a aposentadoria não como um direito, mas como uma utopia distante. E não é para menos. O que se vê hoje é um cenário em que o trabalho formal, que antes era visto como passaporte para a cidadania, tornou-se sinônimo de jornadas exaustivas, salários de fome e ambientes tóxicos, onde o trabalhador é tratado como mera peça descartável.

A realidade do emprego formal, especialmente para os jovens, é marcada por relações de poder abusivas, assédio moral e uma sensação constante de insegurança. “Os patrões se sentem nossos donos”, dizem. “Se eles humilham pais e mães de família, imagina a molecada.” O ambiente de trabalho, que deveria ser espaço de realização e dignidade, transformou-se em fonte de adoecimento físico e mental. E, diante desse quadro, a legislação, que deveria proteger, muitas vezes parece letra morta.

É aqui que entra a NR-1, a Norma Regulamentadora que deveria ser o pilar da proteção à saúde e segurança do trabalhador. Ela estabelece que todo empregador tem o dever de garantir ambientes de trabalho seguros, promover a capacitação dos trabalhadores e respeitar seus direitos. Mas, na prática, o que se vê é o descumprimento sistemático dessas diretrizes. A NR-1, por si só, não basta: sem fiscalização, sem vontade política e sem a participação ativa dos trabalhadores, ela não consegue frear a precarização e o abuso.

O resultado é um ciclo vicioso: o jovem entra no mercado de trabalho já descrente, enfrenta um ambiente tóxico e percebe que, mesmo se “cumprir as regras”, não há garantia de futuro. A aposentadoria, que deveria ser o reconhecimento de uma vida de trabalho, torna-se uma piada amarga. E, enquanto isso, o Estado assiste, muitas vezes omisso, outras tantas como realização  de seus projetos, ao desmonte dos direitos e à degradação das relações de trabalho.

Se queremos reverter esse quadro, é preciso ir além do discurso. É preciso que a NR-1 e todas as normas de proteção ao trabalhador saiam do papel e se tornem realidade. É preciso que o trabalho volte a ser sinônimo de dignidade, e não de sofrimento. E, acima de tudo, é preciso que a aposentadoria deixe de ser uma promessa vazia e se torne, de fato, um direito de todos que trabalham.

Porque, enquanto o trabalhador for tratado como descartável e a legislação for ignorada, não haverá futuro imediato possível que não em uma sociedade socialista, nem para os jovens, nem para quem já caminha para o fim da vida laboral.

Liga Comunista Brasileira – LCB

6 de abril de 2026