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SOCIAL-DEMOCRACIA, FASCISMO E COMUNISMO

Uma breve avaliação das contradições do nosso movimento na conjuntura

Quando uma força policial rende um cidadão não-violento, o desarma e executa com dez tiros na nuca, estamos falando de um crime. Quando as instituições federais legitimam o crime, e recebem apoio de amplas massas, estamos falando de fascismo.

Quando um governador de estado encomenda um massacre policial, estamos falando de um crime institucionalizado. Quando amplas massas apoiam o massacre, e publicam fotos de cabeças decapitadas nas redes sociais, e riem e aplaudem, estamos falando de fascismo.

Quando um corno assassina os próprios filhos para “se vingar” da mulher, estamos falando de um crime, de infanticídio e misoginia. Quando amplas massas defendem que a “culpa” do crime é da mulher, e a perseguem e atacam, nas redes sociais e em público, na rua, defendendo “a honra” do assassino, estamos falando de fascismo.

Fascismo é um movimento de massas, de legitimação e institucionalização da intolerância e da violência política contra o “outro”, o inimigo político. É o auge da política identitária, no qual se essencializam metafisicamente identidades políticas e culturais (feminista, marxista, comunista, negro, LGBT, cristão, muçulmano, ateu, conservador, etc.), e, dentre elas, se impõem aquelas que tiverem maior adesão de amplas massas, pois a elas apela a demagogia fascista. Se impõe através da força, da violência direta, de preferência sem mediação alguma (jurídica, legal, social, etc.). A força bruta é a única coisa que o fascista respeita: razão, justiça, verdade, respeito, tolerância ou ciência não significam nada, pois todas essas coisas podem ser e são subordinadas ao poder estrito da força e da violência. Portanto, o cinismo e a mentira são ferramentas de uso diário do fascista: ele não pode engajar em discussões lógicas complexas, ele só pode debochar e humilhar e esmagar seus inimigos. Inimigos, não oponentes ou adversários políticos. O inimigo – interno ou externo, e, portanto, o imigrante é, hoje, sua principal e mais completa encarnação – é alguém contra quem se pode desatar uma guerra total. Por isso, o fascismo se refestela no culto de personalidade de grandes líderes, fortes e poderosos, que atropelam as instituições liberais para impor o domínio da força bruta. Não à toa o lema de Mussolini era “Me ne frego” (essencialmente, “Foda-se”). Sim, o fascismo é anti-liberal por essência, e, na base econômica capitalista, onde as superestruturas sociais são todas determinadas em última instância pelas relações do capital, aqueles que detêm maior poder sobre a circulação de capital (porque ninguém o controla em absoluto), detêm também maior poder de mobilização de força bruta e violência. O dinheiro compra a morte, compra revoltas, compra lawfare, compra estalido social.

É por isso que, diz o ditado, com fascista não se conversa. Não porque não gostemos de conversar com fascistas, mas porque a conformação fascista é fundamentalmente refratária ao diálogo. Você não vai sentar e razoar e convencer um homem que está culpando a mulher pelo assassinato dos próprios filhos de que, na verdade, a tragédia se trata de um crime de responsabilidade exclusiva do homem. Mesmo que a mulher o tivesse efetivamente traído (o que não parece ser o caso, e nem importa). Porque a identidade subjetiva desse homem se fundamenta na subordinação e consequente culpabilização da mulher por todos os problemas do relacionamento. “A verdade” não lhe interessa, pois essa é a “sua verdade”.

Então, qual é a identidade politicamente majoritária do brasileiro, que detém maior controle sobre as relações do capital? O cristianismo “ocidental”, legitimado pela autoridade patriarcal masculina, em especial suas correntes protestantes de matriz estadunidense. Isso significa que só homens cristãos são fascistas? Não, porque o fascismo não se apresenta honestamente dessa forma, mas como a integração dos interesses da classe dominante com os trabalhadores (corporativismo), para esmagar todos aqueles que engajem em articulações políticas contrárias ao “interesse nacional” (corporativista): mulheres antifeministas e tokenismo contra o movimento negro e LGBT são pilares auxiliares do fascismo brasileiro do século XXI. Isso quer dizer que todo homem e todo cristão é fascista? Obviamente não.

Por isso é preocupante e deletério o comentário de Ian Neves, entre muitos outros comunistas que com ele concordam, de que a social-democracia seria a “ala moderada do fascismo”. Primeiro porque, indo além de Stalin, que durante breve período defendeu que a social-democracia seria “a porta de entrada do fascismo” – o que se explica pela noção de que a social-democracia não teria as ferramentas políticas necessárias para combater a ascensão fascista –, Ian sugere que o fascismo e a social-democracia seriam uma coisa só, sendo uma ala mais moderada e outra mais radical ou extremista (como preferir). Isso é demonstravelmente falso, quando observamos com clareza que as políticas da social-democracia brasileira nos últimos dez anos têm sido explicitamente voltadas para o combate ao movimento fascista (bolsonarista) brasileiro. Ainda que seja recuada e engaje em conciliação de classes. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Ainda que se aceite que a social-democracia é demasiado “frouxa” para, em última instância, barrar o avanço do fascismo; e ainda que se aceite o outro argumento (que eu sou inclinado a aceitar), de que o petismo estaria melhor categorizado como social-liberalismo do que social-democracia; as diferenças entre uma coisa e outra (esquerda institucional e extrema-direita fascista) são patentes. Sim, porque, ao contrário do que apregoam alguns comunistas e anarquistas (só não marxistas), o petismo se trata da esquerda institucional do nosso país, na medida em que esquerda e direita são posições relativas a determinados pontos no espectro político, e não conformam identidades essenciais.

Além disso, qual é a diferença entre a tese comunista de que a social-democracia é “frouxa” demais para barrar o fascismo (e por isso deve ser combatida), e a tese fascista de que o liberalismo é “frouxo” demais para barrar o comunismo (e por isso deve ser combatido)? Os primeiros estão tão bem descritos como ultraesquerdistas (ou apenas “esquerdistas”, no jargão de Lenin) quanto os segundos o estão como extrema-direita.

A teoria serve para interferir na sociedade, e, por isso, teoria merda só pode dar em política merda. Nós não superaremos o capitalismo com esquerdismo infantil e revolucionarismo pueril.

Após demonstrar as insuficiências e vacilos da política social-democrata, que permitiram o avanço da ascensão fascista na Europa no século XX, o secretário-geral da Internacional Comunista, Georgi Dimitrov, nos exorta, desde 1935:

“Em nossas fileiras, existia um IMPERDOÁVEL MENOSPREZO do perigo fascista.”

E diz que “a necessidade de desenvolver a luta de massas contra o fascismo foi substituída em vários países pelos raciocínios estéreis sobre o caráter do fascismo em geral e por uma ESTREITEZA SECTÁRIA a respeito da posição e solução das tarefas políticas atuais do Partido.”

E prossegue a nos instruir explícita e especificamente a construir alianças e projetos conjuntos com os social-democratas e todos os grandes partidos que tenham ampla aderência das massas trabalhadoras e camponesas, chegando a elogiar a associação dos comunistas ingleses ao Partido Trabalhista (Labor Party) do Reino Unido.

Obviamente, acontecem diferenças significativas na conjuntura nos últimos 90 anos, mas o paralelo que permanece claramente são as relações de classe e posições relativas do fascismo, da social-democracia, social-liberalismo e comunismo no espectro político. Desses, o fascismo é o único que representa, em absoluto, o principal inimigo existencial da classe trabalhadora. E Dimitrov insiste:

“A implantação da unidade de ação de todos os setores da classe operária, qualquer que seja o partido ou organização a que pertençam, é necessária MESMO ANTES de se unificar a maioria da classe operária para a luta pela derrocada do capitalismo e pelo triunfo da revolução proletária”.

O que OBVIAMENTE não significa abdicar da independência do projeto revolucionário:

“Queremos a unidade de ação da classe operária para que o proletariado se fortaleça em sua luta contra a burguesia, para que, defendendo hoje seus interesses cotidianos contra os ataques do capital, contra o fascismo, esteja amanhã em condições de assentar os alicerces para sua definitiva emancipação [ou seja, a revolução proletária].”

O dirigente diz ainda que “não atacaremos ninguém, pessoas, organizações, nem partidos, que combatam pela frente única da classe operária contra o inimigo de classe.”, declaração essa que, infelizmente, o “partido do Jones Manoel” discorda.

Lamentavelmente, a hegemonia de pensamento pós-moderna suplantou o materialismo mesmo nas (e, na verdade, a partir das) esquerdas, o que faz do cinismo e subjetivismo absoluto uma praga entre as nossas fileiras também. Na última semana, tive que ouvir um suposto marxista dizer que precisávamos da análise de Carl Schmitt (ideólogo da estrutura política-jurídica nazista) para entender que o Estado não é neutro, e que a tese de Dimitrov era inocente por considerar uma suposta neutralidade do Estado, o que é bizarro desde que 1. o cidadão assume tamanha ingenuidade do secretário-geral da Internacional Comunista, e 2. – ainda mais grave – talvez o texto fundacional do marxismo, a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, trata exatamente da conformação de classe da estrutura de Estado. Infelizmente, a posição idiota desse cidadão não é exclusiva, mas tem se espalhado como incêndio selvagem entre comunistas nas redes sociais, em especial desde o acirramento das tensões contra o ministro social-democrata Guilherme Boulos e mesmo a política social-liberal do Presidente Lula. Por tudo isso, é patente que nós, enquanto marxistas e, portanto, portadores da ciência do materialismo dialético, afirmemos e assumamos as seguintes posições:

1. O mundo real existe independente das nossas consciências, e a verdade não se trata de uma construção discursiva intersubjetiva qualquer (como argumenta Lyotard), mas se encontra nas relações concretas da realidade.

2. Liberalismo e fascismo NÃO SÃO a mesma coisa; de fato, o fascismo é contrário ao liberalismo. Social-democracia e fascismo, tampouco: são opostos.

3. Estamos no meio de uma ascensão fascista mundial, os Estados Unidos da América JÁ SÃO um Estado fascista, o ICE é uma polícia política que responde unicamente ao supremo líder (Presidente Trump), que está em flagrantes vias de enterrar inteiramente a Constituição dos Pais Fundadores.

4. Essa internacional fascista tem braços muito claros e fortes no Brasil, fundamentalmente no bolsonarismo e seus movimentos adjacentes e propostos herdeiros (em especial Nikolas Ferreira), e, atualmente, já domina a câmara baixa do nosso Congresso Nacional.

5. Como comunistas, é nosso dever formar frentes de massas populares junto aos social-democratas e social-liberais (que sejam) em defesa dos direitos dos trabalhadores contra a ascensão fascista, e não tratá-los como inimigos. Divididos, seremos definitivamente esmagados pelos fascistas.

Fora disso, não há nada a ser feito. Plantar e/ou promover inimizades com a esquerda institucional é frontalmente contrário ao projeto revolucionário de superação do capitalismo.

Ou, para resumir, Breno Altman tem razão quando diz que a principal contradição política do Brasil hoje é entre o campo democrático popular e o fascismo.

Por Charles Lindberg

Liga Comunista Brasileira – LCB

16 de fevereiro de 2026