Vamos falar de preços e de carros?
Por Yuri Faria
Recentemente, tenho mergulhado em entender e ler sobre carros, especialmente os elétricos chineses chegando no país. E com isso, vi um padrão interessante, mas não surpreendente para nenhum marxista.
Com a chegada e popularização dos carros elétricos, vide BYD Dolphin Mini vendendo 7053 (autoesporte) carros só até março deste ano, outras empresas se viram obrigadas a tocar no próprio lucro. Fiat Mobi recebeu um desconto de cerca de 12 mil reais, e o Onix, de cerca de 17 mil. Mostrando assim que existe sim um espaço de lucro enorme comparado a outros países.
Sobre os impostos: “A mas os impostos são os maiores culpados”, alguns dizem. E realmente são relativamente altos. “As empresas são prejudicadas pelos juros altos”, outros falam. E realmente os juros estão altíssimos.
Porém, sobre o primeiro: o problema não são os impostos em si, que seguem uma porcentagem do valor nominal. Mas sim o fato de que governadores e prefeitos preferem usar a receita advinda desses impostos para pagar empresas de familiares, ou próprias, para fazerem serviços superfaturados. O problema é a corrupção inerente do capitalismo e perpetuada primariamente pela direita, os cãezinhos do capitalismo.
Sobre o segundo ponto: as empresas não são prejudicadas pelos juros altos. Isso é balela. Essas empresas e suas holdings têm influência e ações em toda sua cadeia de produção. Mas, para além disso, são donas de bancos que emprestam para si mesmas. Indo ainda mais a fundo, elas participam do mercado financeiro, se beneficiando direta e indiretamente dos altos juros.
“Mas as empresas não têm acesso ao crédito barato que a BYD tem”. Novamente, uma declaração falsa. Elas têm acesso ao mesmo e ainda mais fundos. Isso é iniciativa governamental de produção para atrair as fábricas para cá. Na minha opinião, medidas brandas, pois deveria ser exigida a transferência tecnológica para criação de uma indústria interna.
Agora, sobre o elefante na sala: “A BYD usou trabalho escravo”. Sim, foi condenada por isso inclusive, e estava completamente errada. Porém, a Renault tem acusações similares em outros países. Essa ação da BYD requer uma punição mais severa, na minha opinião. E é um ponto de crítica extremamente importante e contundente sobre as condições de trabalho em geral no nosso país.
Não nos enganemos: a China não é nossa amiga, muito menos o seu setor mais à direita, responsável pelas políticas externas. E suas empresas vão usar o que for factível por lei para se beneficiar. Isso mostra que devemos ter leis, fiscalização e punição mais severas para esse tipo de crime, que é cometido corriqueiramente por grandes empresas estrangeiras e brasileiras.
Mesmo antes da chegada das empresas chinesas, e especialmente depois, o lobby triplicou, querendo dificultar ainda mais a importação de veículos. Também aumentou o lobby para que não houvesse incentivos para compra de carros elétricos.
Falo isso para deixar claro que as empresas já existentes estariam indo contra a própria lógica do “livre mercado” que os liberais gostam de falar. Mesmo sob ideologia liberal, não faz sentido defendê-los.
Proponho algo mais ativo e sinceramente ainda muito mais dentro da lógica capitalista do que eu gostaria: uma lei em 3 partes.
Incentivo de 50% de desconto em impostos diversos para empresas que não repassem os impostos no preço do carro. Já existem iniciativas similares, mas as empresas estão usando isso como lucro e aumentando a própria margem. Para os liberais que vão perguntar de onde compensariam isso, é simples: taxando as grandes fortunas.
Multa de 150% sobre a empresa que for pega manipulando números e repassando o valor ao cliente final. Inegociável, e com base na lei chinesa. Novamente, já existe uma lei para isso, mas o STF se acovarda frente às empresas sempre.
As empresas precisam divulgar, juntamente ao preço total do veículo, de forma clara e aberta, os valores em impostos (e para onde eles vão), assim como seu custo e lucro. Aqui, elas esperneiam que seria injusto, pois abriria para mais concorrentes. Então volto a repetir que, mesmo seguindo a lógica liberal, eles deveriam apoiar uma medida como essa para que então sim exista uma livre concorrência. Mas eles serão contra, pois são hipócritas. E a lei atual não funciona pelos motivos citados anteriormente e a posteriori, mas resumo em: lobby. (LEI Nº 12.741, DE 8 DE DEZEMBRO DE 2012.)
Para além disso, os sindicatos podem e devem fazer uma luta pela transparência completa na minha opinião. Pois isso permitiria um salto qualitativo em suas lutas salariais e por melhores condições de trabalho.
Hoje, os sindicatos são muito mal vistos no geral. Porém, com as ferramentas certas e lutas populares de ampla aceitação e popularidade, conseguiriam reverter essa imagem. Porém, para isso, não podem ter medo de ir à rua e fazer ação direta.
Adiciono também que a aprovação de uma lei como essa, ou mais provavelmente emendas à lei existente, seria resistida no Senado e Congresso. E para sua aprovação, os representantes de esquerda teriam que deixar seu acovardamento de lado e incentivar o mesmo que falei acima sobre sindicatos: mobilização popular, greves, atos e etc.
Por que estou falando disso? Porque isso é um padrão no capitalismo. E talvez, falando de algo que uma grande parte da população sente ser uma necessidade (pela falta de acesso a transporte coletivo de qualidade e barato), seja uma forma de chamar atenção para esse padrão.
E que padrão é esse?
Empresas mentem, e são pegas na mentira o tempo todo. Até temos uma lei para isso, porém que não é aplicada na prática pelo aparelhamento do Estado.
Os preços abusivos que temos hoje no Brasil fazem parte de um projeto político sim. Mas esse projeto é sobre a manutenção do capitalismo. Cada imposto que temos sofre lobby pesado para existir da forma que existe, salve os que conseguimos por via da mobilização popular. Mas é só verificar como os lobistas conseguiram barrar a taxação das grandes fortunas.
Os preços são inflados sim no nosso país, mas não pelas razões amplamente propagandeadas pelas empresas e seus fantoches de direita. Na realidade, a razão dos preços inflados é, entre principalmente, o oligopólio. Na realidade, monopólio via holdings e investimentos, que faz com que o cartel consiga manter os preços e regras do jogo sempre a seu favor. Permitindo assim que façam um lobby pesado na política brasileira.
Para dialogar com uma parcela da população que falamos pouco e sair um pouco da teoria, e mostrar na prática mazelas simples do capitalismo através de exemplos claros e diários. Afinal, quem no Brasil nunca sonhou em ter seu carrinho?
O impedimento do sonho acima é justamente por essas razões discutidas acima. E também, é claro, pela desigualdade social causada pelo capitalismo, onde a exploração do trabalho – onde quem realmente faz acontecer fica com um salário fixo e quem faz uma parcela muito menor ou até nada do trabalho recebe todo lucro – fica sem condições de até ter o produto de seu próprio trabalho.
Como vemos de novo e de novo, mesmo com medidas apaziguadoras que devem ser pontuadas com sua crítica positiva e negativa, o capitalismo não permite a ascensão real ou erradicação da pobreza. Então, carros se tornam objetos de desejo tanto por sua necessidade quanto por sua inacessibilidade.
Pontuar ainda mais explicitamente que, mesmo sob dinâmicas capitalistas, a análise da realidade sob a lente do materialismo histórico dialético vai conseguir análises mais acertadas e que se mostram mais verdadeiras. Mas, para além disso, afirmar e reafirmar que, com uma revolução socialista, podemos tomar medidas como as explanadas, assim como que vão ainda além.
Novamente, usando a China como exemplo: eles limitam os preços dos carros para que sejam acessíveis à população e mantenham também uma competição real e “justa” para evitar oligopólios ou monopólios. Uma solução muito mais simples que a proposta aqui, mas só possível pois tem a história de uma revolução socialista que coloca seu povo como elemento central.
Podemos demonstrar também com a Coreia Popular, com seu sistema de construção de casas rurais de alta qualidade para incentivar o cultivo. Em Cuba, seu investimento e cuidado com o ensino para garantir a qualificação de seus cidadãos. As reformas agrárias no Vietnã e no Laos, onde se criam usinas que hoje são eficientes o bastante para suprir o país e exportam energia para o resto da Ásia. Isso para citar apenas exemplos atuais.
Posso também fazer menção à medida de Burkina Faso para troca de tecnologia e produção interna de carros elétricos. No fim, apenas uma revolução, na minha concepção, socialista pode romper com o imperialismo e focar na construção de um país livre e soberano com o foco em seus trabalhadores.
Referências de análise:
https://autoesporte.globo.com/setor-automotivo/mercado-automotivo/noticia/2026/04/byd-dolphin-mini-primeiro-carro-eletrico-mais-vendidos-brasil.ghtml
https://autoesporte.globo.com/setor-automotivo/mercado-automotivo/noticia/2026/03/fiat-mobi-carro-mais-barato-brasil-desconto-r-12-mil.ghtml
https://autoesporte.globo.com/setor-automotivo/mercado-automotivo/noticia/2026/02/chevrolet-onix-vendido-descontos-ate-r-17-mil.ghtml
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2019/09/27/sec-multa-fiat-chrysler-em-us-40-milhes-por-dados-falsos-de-vendas-nos-eua.ghtml
https://www.uol.com.br/carros/colunas/paula-gama/2025/07/01/carga-tributaria-de-automoveis-vai-mudar-mas-vai-melhorar.htm
https://galego.lavozdegalicia.es/noticia/economia/2025/08/28/polonia-multa-volkswagen-176-millones-euros-dieselgate/00031756376707319187506.htm
https://revistaipc.com.br/byd-da-lucro-ranking-revela-se-renault-toyota-fiat-volkswagen-e-outras-estao-entre-as-montadoras-mais-rentaveis-do-brasil/
https://www.autodata.com.br/noticias/2026/02/23/credito-para-a-compra-de-veiculos-cresce-3-5-em-2025-diz-anef/100051/
https://www.brasildefato.com.br/2025/11/18/conheca-os-carros-100-eletricos-produzidos-em-burkina-faso-com-tecnologia-solar-e-apoio-da-china/
https://www.terra.com.br/mobilidade/carros/o-fim-dos-carros-baratos-por-que-a-china-interveio-na-guerra-de-precos-das-montadoras,4f286307d6af60ec8f8e4185ab14dd10q64dwga6.html
https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/stf-reconhece-omissao-do-congresso-na-criacao-do-imposto-sobre-grandes-fortunas/
https://insideevs.uol.com.br/news/782992/importacao-eletricos-mais-cara-brasil/
https://veja.abril.com.br/coluna/radar-economico/financeiras-de-montadoras-liberaram-r-127-bi-em-financiamentos-ate-julho/
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12741.htm
https://noticias.stf.jus.br/postsnoticias/ministro-lewandowski-extingue-acao-sobre-informacao-de-tributos-em-postos-de-combustiveis/
https://jornalrpdc.com/trabalhadores-da-fazenda-avicola-de-kwangchon-se-mudam-para-novas-casas/
https://clickpetroleoegas.com.br/o-pais-que-cortou-a-pobreza-de-quase-60-para-5-em-tres-decadas-com-reforma-agraria-fabricas-e-exportacao-virou-tigre-em-ascensao-afch/
https://clickpetroleoegas.com.br/laos-bateria-do-sudeste-asiatico-barragens-exportacao-energia-dsca00/
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10 de abril de 2026