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81 Anos da Revolução de Agosto

Este período foi caracterizado por uma insurreição geral meticulosamente planejada pelo Partido Comunista da Indochina e pela Liga para a Independência do Vietnã (Viet Minh), sob a liderança inconteste e sagaz de Ho Chi Minh. A conjuntura internacional do final da Segunda Guerra Mundial, marcada pela iminente derrota do fascismo japonês diante das forças Aliadas e do avanço do Exército Vermelho da União Soviética na Manchúria, gerou um vácuo de poder ímpar. Além do cenário bélico internacional, a terrível crise de fome de 1944 e 1945, resultante das nefastas políticas de requisição de arroz e agricultura forçada instauradas pelos franceses e japoneses, exterminou mais de dois milhões de vietnamitas, elevando a tensão social a um ponto de ruptura revolucionária intolerável. Foi exatamente neste momento histórico e trágico que o povo vietnamita se levantou contra quase um século de jugo colonial francês e meia década de atroz ocupação nipônica, transformando uma nação subjugada no primeiro Estado de democracia popular do Sudeste Asiático.

  1. A OPORTUNIDADE ESTRATÉGICA E O CONTEXTO DE AGOSTO

O estopim para a deflagração da insurreição geral ocorreu em meados de agosto de 1945, logo após os bombardeios atômicos e a entrada soviética na guerra do Pacífico forçarem a capitulação japonesa no dia 15 de agosto. Desde o golpe de 9 de março de 1945, quando os japoneses haviam desarmado os franceses e ocupado inteiramente a Indochina, o Viet Minh vinha operando na clandestinidade e organizando táticas de guerrilha, resgatando inclusive prisioneiros franceses das mãos nipônicas. Com a rendição iminente do Japão, as tropas de ocupação no Vietnã entraram em colapso moral e tático, criando uma conjuntura na qual os nacionalistas e comunistas sabiam que precisavam agir ativamente antes da chegada das forças britânicas e chinesas determinadas pelo Acordo de Potsdam. Percebendo que esta era a oportunidade estratégica única de retomar a soberania, a liderança partidária não hesitou em avançar. A análise dos estrategistas vietnamitas demonstra que a decisão de não atacar de frente e diretamente o gigantesco exército japonês, mas sim focar na tomada do poder político local e na apreensão do maquinário estatal através da colossal agitação de massas, provou ser o elemento vital para o êxito.

  1. A CONFERÊNCIA DE TAN TRAO E A MOBILIZAÇÃO DAS MASSAS (14 A 18 DE AGOSTO)

Entre os dias 14 e 18 de agosto, a rebelião popular foi muito além das manobras militares pontuais, alastrou-se organicamente e de forma irresistível por inúmeras comunas e distritos do delta e das montanhas. Enquanto a insurreição já eclodia fervorosamente nas ruas e nos campos, as lideranças políticas consolidavam as bases jurídicas e governamentais do novo Estado independente durante o Congresso Nacional do Povo, realizado na inexpugnável fortaleza de Tan Trao. A historiografia marxista-leninista vietnamita e os relatórios oficiais registram funcionalmente este momento da seguinte maneira:

“No começo de agosto, a Segunda Conferência Nacional do Partido foi convocada em Tan Trao com o propósito fundamental de deliberar sobre a plataforma de ação e a integração na Assembleia dos Delegados da Nação, a qual foi organizada pela Frente Viet Minh no mesmo mês e localidade. Durante as sessões, a Assembleia dos Delegados ratificou integralmente o programa político proposto pelo Viet Minh, endossou a diretriz estratégica para a insurreição geral e procedeu à eleição do Comitê Central de Libertação Nacional, órgão que assumiria as funções de governo provisório do Vietnã em um momento posterior. Graças à formulação de uma política partidária correta e à sua execução tática caracterizada pela flexibilidade e pelo senso de oportunidade, a insurreição geral desencadeada em agosto culminou em um sucesso absoluto.”1

Foi nesta grande conferência que a Liga Viet Minh definiu seu programa político revolucionário e ratificou as diretrizes absolutas para a sublevação total. A mensagem incisiva e mobilizadora de Ho Chi Minh, conhecida como “Apelo à Insurreição Geral”, serviu como o catalisador máximo daqueles dias incandescentes de agosto. Ele conclamava todas as classes sociais, trabalhadores, camponeses, intelectuais, mercadores, além de soldados, nacionalidades oprimidas e religiões diversas, a cerrarem fileiras ombro a ombro sob a bandeira vermelha do Viet Minh. Ho proclama:

“A Liga reuniu recentemente o Congresso Nacional do Povo, fórum este que elegeu o Comitê de Libertação Nacional com o mandato de conduzir toda a nação em sua inabalável batalha pela independência. Tal fato representa um avanço monumental na trajetória de quase cem anos de lutas emancipatórias travadas pelo nosso povo. Isto atua como um vigoroso incentivo para os nossos concidadãos e proporciona a mim uma alegria imensurável. No entanto, não podemos estagnar neste ponto. O nosso combate continuará sendo árduo e prolongado. A simples derrota dos japoneses não nos confere automaticamente a liberdade e a independência. Precisamos multiplicar os nossos esforços. Será exclusivamente por meio da unidade e do combate ativo e irrestrito que a nossa pátria conseguirá reaver a sua soberania.”.2

  1. O TRIUNFO DE 19 DE AGOSTO NA CAPITA

A emblemática data de 19 de agosto de 1945 imortalizou-se como o clímax absoluto da Revolução de Agosto, o momento histórico exato em que a insurreição popular tomou com força avassaladora as largas ruas da capital central do norte, Hanói. Os comitês militares e os agitadores revolucionários clandestinos, operando com precisão tática e explorando o imenso vácuo político deixado pelo desespero do exército japonês, incitaram uma formidável manifestação de massas. A audácia ímpar das lideranças comunistas locais, atuando sob as ordens do Comitê Revolucionário do Povo de Hanói, garantiu a tomada segura dos aparatos burocráticos e estatais sem o derramamento excessivo e catastrófico de sangue. As rigorosas negociações diretas entre as lideranças patrióticas e os comandantes militares nipônicos forçaram estes últimos a aceitarem a transição factual de autoridade, permitindo que a capital ficasse absolutamente assegurada para o retorno triunfal de Ho Chi Minh, recém-chegado das bases seguras de Tan Trao.

  1. A EXPANSÃO DA VITÓRIA E A QUEDA DO IMPÉRIO (23 A 28 DE AGOSTO)

Consolidada a base política e militar em Hanói, a onda revolucionária irradiou-se de forma irreversível e torrencial para as províncias do Centro e do Sul do Vietnã. No dia 23 de agosto, o Comitê Popular Revolucionário emitiu um ultimato enérgico exigindo a deposição do Imperador Bao Dai, último monarca da secular dinastia Nguyen, sediado na milenar capital de Hué. Compreendemos os trâmites burocráticos da abdicação da seguinte forma:

“Em 23 de agosto, uma manifestação massiva composta por cem mil indivíduos em sua própria capital imperial, Hué, exigiu que ele abandonasse o poder monárquico. Bao Dai recebeu, então, um telegrama do novo Comitê de Libertação Nacional de Ho, sediado em Hanói, reiterando categoricamente a exigência de sua abdicação. Cumprindo a demanda histórica que lhe fora imposta, em 24 de agosto, Bao Dai renunciou formalmente ao título de Imperador, decisão esta que assinalou o encerramento definitivo da Dinastia Nguyen. O ex-monarca solicitou ao Comitê de Libertação Nacional o envio de uma delegação a Hué para formalizar a transição de autoridade, a qual chegou no dia 28 de agosto. Este evento marcou a primeira ocasião na história em que Bao Dai cumprimentou comunistas em uma audiência de caráter privado. No dia subsequente, o documento legal e oficial de Abdicação foi entregue à delegação.”3.

Simultaneamente à rendição da milenar coroa imperial em Hué, a efervescente e estratégica cidade de Saigon rendeu-se à vontade suprema das massas insurgentes em 25 de agosto de 1945, firmando o domínio do Viet Minh sobre a vital região meridional da Cochinchina. Apesar das ameaças de sabotagem constantes dos contingentes coloniais franceses e da iminente ocupação pelas tropas britânicas comandadas pelo General Gracey, a disciplina férrea do povo e do partido manteve a coesão do novo governo democrático. A análise estaunidense do magno evento de fundação republicana naquele final de agosto, de modo a destacar o pragmatismo da tomada do Estado, diz:

“No dia 25 de agosto, o imperador Bao Dai abdicou oficialmente de seu trono e transferiu todas as prerrogativas de governo para a coalizão soberana do Vietminh. Ato contínuo, Ho autoproclamou-se presidente de uma administração provisória de resistência, entidade política que passaria a ser internacionalmente reconhecida como a República Democrática do Vietnã. Nguyen Hai Than, um líder nacionalista de grande prestígio, foi designado por aliança para o cargo de vice-presidente. No entanto, logo em seguida, as tropas militares estrangeiras, cuja presença fora deliberada pelo Acordo de Potsdam, começaram a desembarcar perigosamente no território nacional.”4

  1. A CONSOLIDAÇÃO DO ESTADO REVOLUCIONÁRIO

Finalmente, na data de 28 de agosto de 1945, o comando supremo das forças patrióticas pôde considerar formalmente que a Revolução de Agosto havia saído totalmente vitoriosa em quase toda a extensão do sagrado território vietnamita, neutralizando reações e resistências internas da burguesia compradora. O balanço histórico, materialista e institucional deste feito extraordinário foi consolidado anos mais tarde nas palavras do próprio Ho Chi Minh, a fim de evocar seu irrevogável caráter de emancipação de classe e de nação, declarou:

“A Revolução de Agosto aniquilou a monarquia de tradição mais do que milenar, despedaçou de vez as antigas correntes do colonialismo que duraram cerca de um século, transferiu a soberania real para as mãos do povo e estabeleceu de maneira firme os alicerces da República Democrática do Vietnã, cujo lema orientador inegociável é Independência-Liberdade-Felicidade. Este evento representou uma reestruturação social imensurável na evolução histórica de nossa pátria. Em virtude do triunfo da Revolução de Agosto, nós fomos integrados com orgulho como membros na vasta família democrática em âmbito global. Além disso, a Revolução de Agosto projetou uma influência ideológica formidável e direta sobre as nações vizinhas e aliadas que lutavam na mesma trincheira: o Camboja e o Laos.”5

Os formidáveis quinze dias compreendidos entre 13 e 28 de agosto de 1945 não apenas desarticularam de forma sistêmica o aparato de ocupação internacional que asfixiava a economia e a sociedade, mas converteram o Vietnã de um território ultrajado e colonizado em uma pátria incontestavelmente livre, soberana e dotada de brilhante autodeterminação operário-camponesa. Esse admirável e inquebrantável encadeamento de sublevações populares integradas, perfeitamente alinhadas à precisão das milícias revolucionárias e à sagacidade diplomática do partido, propiciou o surgimento político e jurídico indestrutível de uma nova república popular asiática. Consequentemente, forjou-se em definitivo a conjuntura áurea ideal para que, no inesquecível dia 2 de setembro de 1945, o presidente Ho Chi Minh pudesse proclamar imponentemente a Declaração de Independência perante um milhão de compatriotas jubilosos na Praça Ba Dinh, ratificando a ruptura histórica insofismável com os impérios mundiais da opressão capitalista.

1 MINH, Ho Chi. Ho Chi Minh Vida e Obra do Líder da Libertação Nacional do Vietnã. Relatório Político entregue ao II Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores do Vietnã. v. 1. São Paulo: Anita Garibaldi, 2020. p. 146-147.

2 MINH, Ho Chi. Escritos VOLUME ÚNICO. Apelo à Insurreição Geral. v. 1. São Paulo: Editora Raízes da América, 2018. p. 89-90.

3 NEVILLE, Peter. Ho Chi Minh. The August Revolution. v. 1. Abingdon: Routledge, 2019. p. 78.

4 LLOYD, Dana Ohlmeyer. Ho Chi Minh. The August Revolution. v. 1. Nova York: Chelsea House Publishers, 1986. p. 78.

5 MINH, Ho Chi. Ho Chi Minh Vida e Obra do Líder da Libertação Nacional do Vietnã. Relatório Político entregue ao II Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores do Vietnã. v. 1. São Paulo: Anita Garibaldi, 2020. p. 147.

Liga Comunista Brasileira – LCB

03 de agosto de 2026