A História e a Atualidade do Conceito Leninista de Imperialismo - Parte 1
Por Carlos Magnum e Igor Grabois
A análise do sistema imperialista formulada por teóricos e líderes revolucionários como Lênin, Stálin, Mao Zedong, Ho Chi Minh, Nkrumah, Raúl Castro, Samir Amin fundamenta-se na premissa de que o imperialismo não constitui uma escolha conjuntural de política externa, mas a fase superior, orgânica e estrutural do desenvolvimento capitalista. Partindo do método materialista histórico, esses autores demonstram que a transição do capitalismo de livre concorrência para o capitalismo dos monopólios e do capital financeiro impõe a necessidade de expansão global para a exportação de capitais e o controle de matérias-primas. Assim, o fenômeno é compreendido como uma totalidade que integra a dominação econômica à dominação política e militar, transformando as contradições entre as grandes potências e as lutas de libertação nacional nos eixos centrais da dinâmica histórica contemporânea.
Vladimir Lênin fornece a definição econômica e teórica clássica do imperialismo, concebendo-o como o estágio monopolista, decadente e moribundo do capitalismo. Para ele, o imperialismo é a “véspera da revolução social do proletariado”. Em suas próprias palavras, Lênin estabelece cinco características fundamentais do sistema imperialista:
“1) a concentração da produção e do capital desenvolveu-se a um grau tão elevado que criou monopólios que desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, com base nesse ‘capital financeiro’, de uma oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire um significado excepcional; 4) a formação de associações capitalistas monopolistas internacionais que partilham o mundo entre si; e 5) a partilha territorial de todo o globo entre as maiores potências capitalistas está concluída”1.
Lênin demonstra ainda que o mundo se dividiu rigidamente em duas partes: um punhado de nações opressoras e extremamente ricas (que lucram parasitariamente e “cortam cupons”), e a imensa maioria de nações oprimidas formadas por colônias e nações dependentes. Por ter concluído a partilha do mundo, o imperialismo gera, inevitavelmente, guerras mundiais inter-imperialistas voltadas para a redivisão de territórios, mercados e zonas de influência.
Stálin, fundamenta-se em Lênin para demonstrar que o imperialismo exacerba as contradições do capitalismo a um ponto de ruptura. Segundo ele, “o imperialismo leva as contradições do capitalismo à última fronteira, aos extremos, além dos quais começa a revolução”. Stálin pontua três contradições insustentáveis.
1) O conflito direto entre o Trabalho e o Capital nos países industrializados, onde os métodos sindicais e parlamentares normais já não bastam frente à onipotência dos trustes monopolistas; 2) A contradição e conflito armado entre os próprios grupos financeiros e potências imperialistas pela redivisão dos mercados; 3) O conflito entre o punhado de nações “civilizadas” dominantes e as centenas de milhões de pessoas nas colônias e países dependentes, cuja exploração impiedosa visa a obtenção de superlucros.
Stálin sistematiza ainda a “lei do desenvolvimento desigual” na fase imperialista. Para ele, no imperialismo os países não se desenvolvem paralelamente; ocorrem saltos onde nações emergentes superam e desbancam antigas potências dos mercados, provocando, consequentemente, choques militares constantes para redividir um mundo que já não possui “terras livres”.2
Mao Zedong analisa as características do imperialismo através da lente de um país invadido e transformado em semicolônia. Ele adverte que o propósito do imperialismo não é desenvolver o capitalismo nas nações invadidas, mas subjugá-las. Para atingir esse fim, as potências usam métodos militares, econômicos e de agressão cultural, aliando-se ativamente com as classes mais retrógradas do país ocupado: as forças feudais e a burguesia compradora, que atuam como cães de guarda do capital estrangeiro.
Apesar dessa opressão implacável, Mao formula a famosa tese da dupla natureza estrutural do sistema imperialista:
“Assim como não há uma única coisa no mundo sem uma dupla natureza […] o imperialismo e todos os reacionários têm uma dupla natureza — são tigres de verdade e tigres de papel ao mesmo tempo”. Estrategicamente e a longo prazo, o imperialismo é um “tigre de papel” (decadente, reacionário, odiado pelas massas populares e fadado a ser derrubado). Porém, taticamente, eles são “tigres de ferro e de verdade”, equipados com exércitos e armas mortais, com capacidade de “comer milhões de pessoas”, o que obriga os revolucionários a lutar e isolar o inimigo meticulosamente. A lógica imutável do imperialismo é “provocar distúrbios, fracassar, provocar de novo… até a sua ruína”, enquanto a do povo é a revolução contínua3.
Ho Chi Minh foca nas manifestações práticas do domínio colonial, expondo a violência e a pilhagem contínuas praticadas em nome das “missões civilizatórias”. Para descrever o sistema, ele utiliza uma excelente imagem analítica: “O capitalismo é uma sanguessuga com uma ventosa sugando o proletariado na metrópole e outra ventosa sugando o proletariado nas colônias”. Logo, para matar a fera imperialista, não basta lutar no centro do sistema; é necessário cortar ambas as ventosas coordenando as revoltas globais. Ele também evidencia a hipocrisia estrutural dos Estados imperialistas em sua fase neocolonial que, por trás de tratados de “paz” e blocos militares agressivos como a SEATO, perpetuam um “princípio de agressão” com o fito de impedir a libertação e submeter a Ásia e o mundo à hegemonia militar, intervindo e sustentando governos fantoches4.
Nkrumah introduz ao debate as engrenagens do “neocolonialismo”, o qual ele qualifica como a “pior forma de imperialismo” e sua última etapa. A principal característica do neocolonialismo é garantir uma dominação invisível:
“O Estado que está sujeito a ele é, em teoria, independente e possui todos os aparatos externos da soberania internacional. Na realidade, seu sistema econômico e, portanto, sua política política, é dirigida de fora”.
Nkrumah lista três elementos vitais pelos quais esse novo imperialismo sobrevive: 1) Exploração econômica através do controle de monopólios internacionais e bancos; 2) Governos-fantoches / Estados clientes administrados por reacionários locais; e 3) Assistência militar e as ditas “ajudas” financeiras, que na verdade constituem o grande capital investido retornando ampliado aos lucros monopolistas. Além disso, como artimanha imperialista, Nkrumah condena a contínua “balcanização” (a quebra proposital de grandes territórios coloniais em pequenos Estados não viáveis e rivais) para facilitar o saque neocolonial5.
Raúl Castro descreve a evolução da submissão imposta pelos Estados Unidos à América Latina, assinalando a transição da ocupação física para a dependência financeira. Raúl pondera: “antigamente […] se invadia um país e se invadia com tropas […] Mas quando o invadem com dólares, o adormecem, é como uma anestesia. O controlam tudo, a imprensa, os governantes, as universidades e até a história”. Desmascarando os discursos burgueses que associam capitalismo ao bem-estar e civilidade, Raúl expõe que a “filosofia do despojo, leva inevitavelmente à filosofia da guerra”. Mais contemporaneamente, Castro define que a característica espoliativa do sistema não desapareceu, mas metamorfoseou-se em dominações financeiras estruturais, de modo que “a dívida externa converteu-se atualmente no principal obstáculo ao desenvolvimento, o mais importante instrumento de saque financeiro e a mais moderna forma de dependência neocolonial dos nossos países”. Raúl ratifica a visão marxista de que a arrogância e os cercos econômicos (como o bloqueio genocida a Cuba imposto num modelo mundial unipolar sob controle dos EUA) provam que o imperialismo jamais mudará sua natureza irracional, predadora e intervencionista1
Sobre o imperialismo atualmente, Raul Comenta: “Puseram em prática os métodos de guerra não convencional para impedir a continuidade ou obstaculizar o sucesso de governos progressistas, orquestraram golpes de Estado, primeiro um militar para derrubar o presidente Zelaya em Honduras, e depois parlamentar-judiciais contra Lugo no Paraguai e Dilma Rousseff no Brasil. Desdobraram o controle monopolista dos meios de imprensa no interesse de promover processos judiciais manipulados e politicamente motivados, assim como campanhas de tergiversação e desprestígio contra figuras e organizações de esquerda”2.
Samir Amin demonstra que o imperialismo, como parte do desenvolvimento desigual do capitalismo monopolista, não busca desenvolver plenamente o capitalismo na periferia, mas sim associar-se a classes pretéritas (como a oligarquia agrária) para realizar uma acumulação primitiva violenta. Essa dinâmica aprofunda as desigualdades regionais e a marginalização social. A obra cita Samir Amin diretamente para ilustrar esse mecanismo:
“Estes objetivos são alcançados através de uma série de medidas econômicas e políticas aplicadas de acordo com as circunstâncias. Muitas vezes, eles são alcançados através de uma aliança de classes entre o capital estrangeiro dominante e as classes dominantes da sociedade pré-capitalista. Neste ponto, devemos mencionar a posição arraigada dos latifundiários, comuns na América Latina, no Oriente Médio Árabe e na Ásia. Isto leva a um agravamento das formas de exploração pré-capitalistas, particularmente a renda do solo, que por um lado fornece um mercado para o novo capital (um mercado de consumo de luxo) e, por outro, empobrece os camponeses e as unidades da terra, que então fornecem a mão de obra barata necessária”3.
Samir Amin também explicar a formação dos “Senhores da Guerra”, que são frações de classes compradoras ou oligárquicas que, ao disputarem o poder e a renda sob os estreitos limites permitidos pelo capital mundial (imperialismo), convertem-se em milícias criminosas que usam símbolos étnicos ou religiosos para dominar territórios4.
No Brasil, a Operação Lava Jato foi a materialização desse instrumento imperialista e neocolonial. A Lava Jato serviu para romper o antigo pacto de classes que vigorava nos governos do PT (uma aliança frágil entre financistas, burguesia industrial primária e trabalhadores). A operação causou a “destruição de grande parte do capital funcionante”, aniquilando a indústria de óleo, gás e a engenharia pesada nacional para abrir espaço para o capital financeiro global.
Enquanto no ano de 1900 o imperialismo submetia as nações através do canhoneio naval e da ocupação militar direta da burocracia metropolitana, no ano de 2020 a dominação no Brasil é internalizada e operacionalizada através da destruição tecnológica da indústria nacional, da ditadura dos juros mantida pela burguesia financeira associada, da lawfare exercida pela burocracia estatal entreguista (“farda-toga-fisco”) e da violência extraeconômica terceirizada para milícias paramilitares (Senhores da Guerra) que atuam como cães de guarda da nova submissão semicolonial do país. Atualmente, só a OTAN monopoliza as características definidas pelos autores acima, e realiza o que Lênin denominou de fusão do capital bancário com o capital industrial. Sendo, portanto, o principal inimigo do povo brasileiro e dos povos de todo o mundo.
1LENIN, V. I. Imperialism, the Highest Stage of Capitalism. In: LENIN, V. I. Collected Works. v. 22. Moscou: Progress Publishers, 1964.
2 STALIN, J. V. The Foundations of Leninism. In: STALIN, J. V. Works. v. 6. Moscou: Foreign Languages Publishing House, 1953. p. 155-175:
https://www.marxists.org/portugues/stalin/1924/leninismo/cap01.htm
3 MAO, Tse-Tung. Talk with the American Correspondent Anna Louise Strong. In: MAO, Tse-Tung. Selected Works of Mao Tse-tung. v. 4. Pequim: Foreign Languages Press, 1961. p. 98-99. https://www.marxists.org/portugues/mao/1966/citas/cap06.htm
4 Formato ABNT: Hồ Chí Minh Toàn tập. v. 1. Hanói: Nhà xuất bản Chính trị quốc gia, 2011. p. 320.
5 NKRUMAH, Kwame. Neo-Colonialism. In: NKRUMAH, Kwame. Axioms of Kwame Nkrumah. Freedom Fighters’ Edition. Londres: Panaf Books Ltd., 1969. p. ix.
6 CASTRO RUZ, Raúl. Conferencia en el programa La Universidad Popular. In: CASTRO RUZ, Raúl. Obras Escogidas. Tomo 2 (1959-1960). Havana: Ediciones Celia, 2024. p. 409.
7 CASTRO RUZ, Raúl. Discurso en la segunda sesión extraordinaria de la IX Legislatura. In: CASTRO RUZ, Raúl. Obras Escogidas. Tomo 9 (2012-2014). Havana: Ediciones Celia, 2024. p. 442.
8 AMIN, Samir. Imperialism and Unequal Development. Nova Iorque: Monthly Review Press, 1977.
9Referência ABNT na obra: AMIN, Samir. Maldevelopment: Anatomy of a Global Failure. Cidade do Cabo: Pambazuka Press, 2011.
Liga Comunista Brasileira – LCB
23 de maio de 2026