Assata Shakur: 90 Anos de Prejuízos ao Imperialismo
Por Carlos Magnum
Celebrar a trajetória de Assata Shakur em sua nona década de vida, é celebrar a emancipação da classe trabalhadora e do povo negro. Assata Shakur, consolidando-se como uma das figuras mais proeminentes da Tradição Radical Negra é um símbolo global de resistência contra a violência de Estado e o racismo estrutural. A obra e a vida de Shakur devem ser analisadas para além de uma biografia, sendo um compêndio de práxis revolucionária que informa e constrói movimentos contemporâneos e lutas internacionais pela libertação negra e africana.
I. IDENTIDADE E ORIGENS DA RESISTÊNCIA
Assata Shakur, nascida como JoAnne Deborah Byron, forjou sua consciência política em um contexto de segregação e repressão no Sul e no Norte dos Estados Unidos. Desde a infância, seus avós instilaram nela um senso de dignidade pessoal que rejeitava a subserviência perante a supremacia branca, ensinando-a a “manter a cabeça erguida” e a não aceitar maus-tratos de ninguém. Essa base familiar foi de suma importância para que ela, mais tarde, identificasse o sistema educacional e político americano não como um instrumento de progresso, mas como uma ferramenta de macedônia ideológica e controle social. Sua transição de JoAnne para Assata Olugbala Shakur simbolizou um renascimento revolucionário, onde “Assata” significa “aquela que luta” e “Olugbala” significa “amor pelo povo”. Shakur define sua própria condição histórica e política com uma clareza cortante, situando-se como uma herdeira direta da luta contra a escravidão:
“Meu nome é Assata Shakur e eu sou uma escrava fugitiva do século XX. Devido à perseguição governamental, não tive outra escolha senão fugir da repressão política, do racismo e da violência que dominam a política do governo dos EUA para com as pessoas de cor. Sou uma ex-presa política e vivo no exílio em Cuba desde 1984. Fui ativista política a maior parte da minha vida e, embora o governo dos EUA tenha feito tudo o que estava ao seu alcance para me criminalizar, não sou uma criminosa, nem nunca fui uma. Na década de 1960, participei de várias lutas: o movimento de libertação negra, o movimento pelos direitos estudantis e o movimento para acabar com a guerra no Vietnã. Entrei para o Partido dos Panteras Negras. Em 1969, o Partido dos Panteras Negras tinha se tornado a organização número um visada pelo programa COINTELPRO do FBI. Porque o Partido dos Panteras Negras exigia a libertação total do povo negro, J. Edgar Hoover chamou-o de ‘a maior ameaça à segurança interna do país’ e jurou destruí-lo e aos seus líderes e ativistas.”1
II. O PENSAMENTO REVOLUCIONÁRIO E O EXÍLIO COMO PRÁXIS
As principais ideias de Shakur baseiam-se na premissa de que a revolução é uma ciência que exige sofisticação política, unidade e uma análise rigorosa das condições objetivas. Ela rejeita o nacionalismo isolacionista e estreito em favor de um internacionalismo proletário, argumentando que a vitória dos povos oprimidos em qualquer lugar do mundo é uma vitória para o povo negro. Para Assata, a luta contra o racismo é indissociável da luta contra o capitalismo e o imperialismo, visto que o sistema de exploração internacional exige a desumanização de comunidades inteiras para manter o lucro das elites.
Durante seu encarceramento e posterior exílio em Cuba, Shakur refinou sua crítica ao sistema de “injustiça” criminal dos Estados Unidos, que ela descreve como uma continuação da escravidão legalizada sob a 13ª Emenda. Seu compromisso com a verdade levou-a a publicar sua mensagem mais famosa enquanto estava na prisão, intitulada “Para Meu Povo”, que ainda hoje serve como um grito de guerra para ativistas:
“Irmãos negros, irmãs negras, quero que saibam que amo vocês e espero que em algum lugar de seus corações vocês tenham amor por mim. Meu nome é Assata Shakur (escrava de JoAnne Chesimard) e sou uma revolucionária negra. Uma revolucionária negra de mente e coração. Isso significa que declarei guerra aos ricos que prosperam em nossa pobreza, aos políticos que mentem para nós com rostos sorridentes e a todos os robôs irracionais e sem coração que os protegem e às suas propriedades. Sou uma revolucionária negra e, por definição, isso faz de mim uma vítima de toda a ira, ódio e calúnia de que a América é capaz. Como todos os outros revolucionários negros, a América está tentando me linchar. […] É nosso dever lutar por nossa liberdade. É nosso dever vencer. Devemos amar uns aos outros e apoiar uns aos outros. Não temos nada a perder a não ser nossas correntes.” 2
III. CONQUISTAS E O LEGADO DE ASSATA
As conquistas de Assata Shakur transcendem os ganhos materiais imediatos, residindo na sua capacidade de sobreviver e resistir ao aparelho de inteligência mais poderoso do mundo, o COINTELPRO. Ela desmascarou o caráter político de sua perseguição, sendo absolvida ou tendo as acusações retiradas em seis casos criminais diferentes, o que evidenciava a falsidade das evidências fabricadas pelo Estado. Sua fuga da Prisão de Clinton em 1979 e o asilo político em Cuba representaram um golpe simbólico contra a invencibilidade do Estado carcerário americano.
Na contemporaneidade, o legado de Assata é central para o Movimento pelas Vidas Negras (Movement for Black Lives). A frase “Assata Taught Me” tornou-se um lema para uma nova geração de ativistas que veem nela a personificação de uma tradição radical negra que liga a autodefesa ao internacionalismo e ao feminismo negro. Donna Murch destaca que Shakur oferece uma “contra-história” ao discurso de conciliação, sendo a antítese de uma política de incorporação inócua no sistema burguês:
“Assata Shakur era uma prisioneira de guerra. Donna Murch entende isso profundamente, e é por isso que escreveu um livro sobre meio século de guerras domésticas sobrepostas nos Estados Unidos. Cada ensaio reforça vigorosamente o ponto de que ser negro na América — ser negro no mundo — é viver em estado de guerra sob um estado de guerra. Ela escreve história com fogo, queimando décadas de ofuscação liberal para revelar um mundo, não de ‘ativistas’ e ‘grupos de interesse’, mas de combatentes, danos colaterais, refugiados e prisioneiros de guerra. Assata ensinou a todos nós, e suas lições fundamentais são encontradas nestas páginas.”3
IV. ASSATA NO BRASIL E A LUTA GLOBAL
A influência de Shakur não conhece fronteiras geográficas, ecoando fortemente em comunidades periféricas no Brasil. Em 2017, durante as celebrações do centenário da Revolução Russa, sua obra foi discutida no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, onde jovens ativistas a identificaram como uma personificação da liberdade e um símbolo da resistência das mulheres negras contra a violência organizada e a negligência social do Estado. Para esses jovens, Assata representa uma alternativa de visão da feminilidade negra que exemplifica força e resiliência, servindo como um catalisador para a educação política e mobilização global contra o capitalismo racial.
V. CONCLUSÃO E HOMENAGEM
Ao completar 99 anos em nossa imaginação histórica, Assata Shakur permanece como um farol de esperança e um lembrete constante de que “as correntes que se emaranham no cinza da matéria cerebral” podem e devem ser quebradas. Sua vida é a prova de que “um muro é apenas um muro e nada mais… ele pode ser derrubado”. Sua existência continua a ensinar que a liberdade não é um presente concedido pelo opressor, mas uma conquista alcançada através da luta científica e do amor inabalável pelo povo.
“Acreditamos que nossa libertação exige a destruição dos sistemas políticos e econômicos do Capitalismo e do Imperialismo, bem como do Patriarcado. Acreditamos nas Pessoas acima dos lucros. […] Queremos o controle comunitário da terra, do pão, da habitação, da educação, da justiça, da paz e da tecnologia. Queremos mais. Merecemos mais. Vamos organizar, treinar, agir e vencer.” 4
Assata Shakur, sua luta é nossa luta, seu nome é nossa bandeira, e sua vitória é a promessa de um amanhã onde as crianças negras não terão mais que ter “sonhos maltrapilhos”, mas uma liberdade plena e absoluta. Venceremos.
1 REFERÊNCIA: SHAKUR, Assata. Open Letter From Assata Shakur. s.l.: s.ed., s.d. p. 1. [Passagem 1137].
2 REFERÊNCIA: SHAKUR, Assata. Assata: An Autobiography. To My People. Chicago: Lawrence Hill Books, 1987. p. 49-52. [Passagem 140, 141, 150].
3 MURCH, Donna. Assata Taught Me: State Violence, Mass Incarceration, and the Movement for Black Lives. Introduction. Chicago: Haymarket Books, 2022. p. 4.
4 MURCH, Donna. Assata Taught Me: State Violence, Mass Incarceration, and the Movement for Black Lives. Part III: Racial Capitalism and Black Lives. Chicago: Haymarket Books, 2022. p. 143-144. [Passagem 999, 1000].
Liga Comunista Brasileira – LCB
17 de julho de 2026