Caso Master, sistema financeiro e Estado: uma ultrassonografia do Brasil
Por Igor Grabois e Jefferson F. do Nascimento
Da última vez que escrevemos juntos, produzimos um artigo acadêmico sobre as disputas entre as frações da burguesia e os impactos econômicos da Operação Lava Jato (OLJ).i Agora, a nossa proposta é tratar do caso Master, não porque gostamos de analisar casos de corrupção ou assuntos da moda. Nosso esforço aqui é enfatizar que a aparente crise das ditas instituições democráticas não decorre de uma excepcionalidade (nem nas práticas reveladas nem nas ações de agentes do Estado) e, dessa vez, nossa opção não foi um artigo acadêmico. O motivo é a emergência da crise e seus impactos instantâneos sobre a disputa eleitoral.
Nas seções seguintes, trataremos do caso Banco Master e citaremos frequentemente a figura de Daniel Vorcaro. Não ignoramos o debate sobre a existência de sócios ocultos. Um deles é o investidor Nelson Tanure, mencionado na investigação da PF. Porém, Vorcaro se tornou (ou foi alçado à) face pública do Master, cujas investigações o apontam, por enquanto, como o dono.
Daniel Vorcaro: quando a história se repete (como farsa?!)
Como tratamos no artigo sobre a OLJ: “A alteração na fração dominante da burguesia também marcou a ascensão de grupos e setores emergentes do mercado financeiro […] em um cenário antes protagonizado pelos grandes e tradicionais bancos brasileiros, como o Itaú e o Bradesco.”ii
Daniel Vorcaro é produto do governo bolsonarista. Ele cresceu durante o mandato de seis anos de Roberto Campos Neto no Banco Central. Esse mandato foi marcado por uma onda de desregulamentação do sistema financeiro, que favoreceu a ascensão de fintechs e de instituições financeiras com pouco ou nenhum lastro. Não somos os primeiros a destacar a leniência e a omissão regulatória do BC neste períodoiii, que permitiram o que hoje ganha ares de escândalo.
As práticas de Vorcaro para ampliar sua rede de influência nos três poderes não foram inéditas. O dono do Banco Master seguiu o caminho de André Esteves (BTG Pactual). Esteves promoveu diversos eventos com palestrantes remunerados, especialmente do Judiciário, patrocina e é presença frequente no Gilmarpalooza (em Lisboa), em fóruns internacionais em Londres e Nova Iorque com autoridades brasileiras e costuma ser anfitrião de jantares e reuniões privadasiv com ministros do STF – não se pode esquecer que Esteves estampou uma das imagens icônicas que publicizou a sociedade Dias Toffoli-Vorcaro no Tayayá Resort.v Embora seja possível questionar a diferença de sofisticação e comedimento entre os banqueiros, a estratégia se repete.
Vorcaro conseguiu espraiar suas relações. Patrocinou eventos e extrapolou a via Esteves com festas badaladas e embaraçosas para os conversadores reais e moralistas de goela. Notícias dão conta de relações – com mais ou menos provas: com os senadores Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Jaques Wagner e Davi Alcolumbre; os deputados Hugo Motta e Filipe Barros; o presidente do União Brasil Antônio Rueda; os ex-governadores Ibaneis Rocha (DF) e Cláudio Castro (RJ); bem como os ministros do STF André Mendonça (com visitas secretas, fora da agenda e fora do STF em seu instituto, menção a um suposto terno do alfaiate Vasco Vasconcellos), Alexandre de Moraes (cujo escritório da esposa firmou contrato de R$ 130 milhões), Dias Toffoli (dentre outros possíveis vínculos, destaca-se a sociedade no Tayayá Resort); Kássio Nunes Marques (cujo filho recém formado possui contrato de cerca de R$ 6,6 milhões com o Master) e Luiz Fux (cujo filho manteve contato com Vorcaro e as investigações até agora não avançaram).
Um dos pontos decisivos para a queda (ao menos temporária) de Vorcaro é a famigerada reunião fora da agenda com Lula. A reunião ocorreu como resultado da ampliação da rede de influência de Vorcaro. Guido Mantega intermediou o encontro, mas Lula – por sorte ou expertise política – transformou o encontro em uma assembleia e convocou diversos ministros para participar, dentre eles, Fernando Haddad. O desfecho foi aquele retratado pela imprensa: Lula avisou que a investigação seria técnica.vi
Como um case de sucesso dos tempos bolsonaristas, Vorcaro cresceu muito e rapidamente, realizando triangulação por meio de fundos, esquema de pirâmide, uso de empresas de fachada e carteiras fictícias para simular capacidade de pagar credores. É comum associar suas práticas ao esquema Ponzi. O nome vem do golpe praticado por Charles Ponzi nos Estados Unidos, na década de 1920. Outra associação é às práticas de Bernard Lawrence “Bernie” Madoff, evidentes na crise de 2008 e confessadas em dezembro do mesmo ano após denúncia dos filhos. Abro, a seguir, um parêntese para resumir a trajetória de Vorcaro.
Um parêntese: o nepobaby alimentando delírios meritocráticos
Para viabilizar o esquema fraudulento, Daniel Vorcaro conseguiu uma base muito diversa. Suas relações no mercado advêm do pai, Henrique, empresário do setor imobiliário que, supostamente, abdicou da boêmia e se tornou mais ascético graças ao Pastor Márcio Valadão da Igreja Lagoinha. Segundo suas convicções, foi por isso que seus negócios evoluíram das empresas Vorcaro Imóveis e Centro Sul Empreendimentos para a holding Multipar, diversificando sua atuação para muitos outros setores. A rica família Vorcaro realizou doações generosas, viabilizando a compra para a igreja, em 1997, de uma emissora de tevê, a Rede Super e realizou o “sonho” do jovem – hoje pastor – André Valadão de ter uma BMW. Daniel foi iniciado pelo pai nos negócios, na Igreja Lagoinha e na Rede Super, onde apresentou o programa musical Supersônica.vii
Em 2016, ingressou no mercado financeiro. Aproveitando-se das relações do Banco Máxima com as empresas da sua família e da crise que levou à inabilitação do banco, Daniel se aproxima de Paul Saul Sabbá, o proprietário. A partir de 2017, fechou o controle do banco, comprometendo-se a realizar um aporte total de R$ 75 milhões. Apesar do negócio fechado, enfrentou entraves para se regularizar como banqueiro.viii
As vistas grossas que permitiram a megafraude
Em fevereiro de 2019, na gestão de Ilan Goldfajn, a compra do então Banco Máxima por Daniel Vorcaro foi barrada devido a dúvidas sobre a origem dos recursos, mas foi autorizada a mesma operação oito meses depois, em 14 de outubro de 2019, sob a presidência de Roberto Campos Neto.ix
Em 2021, rebatizou seu banco como Banco Master e iniciou captação de CDB com taxas muito acima do mercado. Para manter a aparência de liquidez, era parte importante do esquema a relação do Master com a REAG Investimentos – investigada pelas operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, deflagradas pela Polícia Federal, por movimentar cerca de dez fundos para lavar dinheiro para empresas ligadas ao PCC. A relação com a REAG era importante porque os mecanismos para inflar artificialmente o patrimônio dos fundos e criar lastros serviam para alavancar negócios do Banco Master. Não teria sido possível entupir o mercado com CDBs sem utilizar a REAG.x
Jamais deve ser esquecido que o Banco Master participou do esquema de corrupção que lesou aposentados e pensionistas do INSS. O banco movimentou cerca de R$ 700 milhões por meio de empréstimos consignados convencionais e, principalmente, pelos lesivos RCC (Reserva de Cartão Consignado) e RMC (Reserva de Margem para Cartão de Crédito).xi Para estas modalidades, a margem consignável de servidores públicos e aposentados foi ampliada duas vezes durante o governo Bolsonaro: de 35% para 40% (Lei 14.131/2021)xii; e de 40% para 45% da remuneração líquida (Lei 14.509/2022), ficou definido 35% como limite para o consignado convencional e 5% para cada uma das duas modalidades (RCC e RMC).
Embora o Banco Master e suas empresas tenham sido excluídos pelo governo Lula do rol de instituições credenciadas a ofertar consignados para servidores federais, aposentados e pensionistas do INSS após uma série de denúncias, foi justamente a atuação do Master e de sua CredCesta no escândalo do INSS, por meio de RCC e RMC, que deu causa às acusações de envolvimento do PT da Bahia com Vorcaro.xiii
Ou seja, o falso lastro via REAG e a oferta de créditos lesivos a servidores e aposentados e pensionistas do INSS, permitiu ao Banco Master uma postura agressiva de aquisições: entre 2021 e 2024, adquiriu o Will Bank, a seguradora Kovr, 50% da Itaminas Comércio de Minérios e, visando capital social e político, investiu na SAF do Clube Atlético Mineiro.xiv
Como nos casos Ponzi e Madoff, a inércia fiscalizatória e regulatória favoreceu o criminoso, pois denúncias e indícios de irregularidades foram ignorados. O Ministério Público (MP) afirma que a Comissão de Valores Mobiliários fez uma série de acordos, contrariando orientações técnicas do próprio órgão, livrando Vorcaro e o Grupo Master da denúncia de práticas criminosas aos órgãos competentes.xv Não se pode esquecer ainda que Vorcaro apostou na omissão do BC sob Campos Neto, vendida com o eufemismo de flexibilização regulatória visando o aumento da concorrência no sistema bancário.xvi O paraíso ultraliberal de Guedes/Bolsonaro foi o ninho do Escândalo Master.
A queda
A queda também foi rápida – e barulhenta como suas festas. O crescimento rápido e fraudulento do Banco Master colocou em risco o funcionamento do sistema financeiro brasileiro. Daí que bancos tradicionais, como Itaú e Bradesco, que perderam proeminência na política brasileira a partir dos deslocamentos do bloco de poder causados pela OLJ, voltaram à cena. Dessa vez, com apoio de bancos relativamente mais novos, como BTG, por meio de suas associações (ABBC, Acrefi, Febraban e Zetta), pressionaram o BC devido ao risco de colapso do sistema financeiro. Tanto é que, imediatamente, apoiaram o BC contra a proteção ao Master ensaiada por setores do judiciário, principalmente pelo STF com Dias Toffoli, e os ataques promovidos pela extensa rede de influenciadores digitais e portais bancados por Vorcaro.xvii Ou seja, a sanha do Master colocava em risco todo o sistema financeiro, foi necessário pará-lo e amenizar os impactos por meio do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que custou metade dos recursos do fundo (que não seria suficiente caso a Emenda Master do senador Ciro Nogueira, apresentada na Câmara pelo deptutado Filipe Barros, alterasse a garantia de R$ 250 mil para R$ 1 milhão).
Os tempos mudaram e os sinais dessas mudanças vieram pela postura de Lula e seus ministros na reunião fora da agenda no Planalto e pela retomada de alguns critérios fiscalizatórios e regulatórios do BC sob Galípolo – claro, com a sustentação de parte importante da própria burguesia financeira brasileira.
A quebra do espírito de corpo do STF
Antes de prosseguir, não custa lembrar Gramsci: “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer; nesse interregno, surge uma grande variedade de sintomas mórbidos.”. No Brasil atual, o processo de morte do “velho” não é irreversível e agônico; o “novo” não é inteiramente “novo” nem sua gestação é segura e saudável.
O “velho” Jair Bolsonaro levou a cabo uma estratégia de confronto com as chamadas instituições democráticas, especialmente contra o STF. Uma das táticas foi produzir um racha no espírito de corpo da Corte.
Neste intento, aproveitou da aproximação de Dias Toffoli com os militares. O ministro nomeou o general da reserva Fernando Azevedo e Silva como assessor, o militar depois foi nomeado ministro da Defesa por Bolsonaro, e estreitou os laços com o então presidente.xviii O mesmo ministro concedeu a liminar que suspendeu as investigações contra o filho e atual candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, e era presença frequentes em reuniões no Palácio do Planalto.xix
Outra aproximação ocorreu com Fux. Outrora punitivista na OLJ e contrário a revisão de penas da Operação pelo STF, sua relação com Bolsonaro ficou evidente em 2020, com direito à condecoração: recebeu o grau de Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco. Terminado o governo, Fux reiterou sua proximidade votando conforme os interesses bolsonaristas na maioria das ações sobre os atos golpistas.xx
Além disso, as nomeações de Bolsonaro demonstram até hoje alinhamento. Kássio Nunes Marques e André Mendonça votam reiteradamente em favor de interesses bolsonaristas e de aliados e não titubeiam em enfrentar os demais ministros. Ambos, estão à frente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na eleição que promete ser tensa, pelos desafios da regulação das redes sociais, do uso de IA e de medidas preventivas ao risco de intervenção estrangeira.
Pode-se, portanto, questionar Jair Bolsonaro por quaisquer óticas, mas é difícil negar que a gigante crise vivida pelo STF tem relação com sua estratégia política. O “velho” não morreu!
André Mendonça: quando a síndrome do justiceiro encontra o sonho pueril do herói brasileiro (a história repetida frequentemente como tragédia e farsa)
Primeiro, é necessário pontuar: Mendonça é mais próximo de Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas do que de Flávio Bolsonaro. Por isso, é importante estabelecer um marco. Por coincidência ou não, a pior crise da campanha de Flávio em relação aos seus negócios com Vorcaro ocorreu durante a briga pública entre ele e a madrasta. A normalização das relações entre ambos, por coincidência ou não, marcou a entrada mais clara de Tarcísio na campanha de Flávio e o início dos vazamentos seletivos sobre Lulinha e as investigações de tráfico de influência (nas mãos de Mendonça há mais de 7 meses) e, por fim, o relatório bombástico sobre Alexandre de Moraes ocorreu minutos após a reportagem da Piauí contando que Flavio Bolsonaro mentiu novamente e que recebeu repasses de Vorcaro/Master após maio de 2025.
Segundo, é necessário enfatizar que este texto não pretende defender Alexandre de Moraes nem qualquer outro citado. Mas destacar os fatos relacionados à cruzada de André Mendonça. Os movimentos Mendonça não podem ser analisados deslocados das ocorrências políticas. O relatório contra Moraes foi definido em uma reunião surpresa, qualificada por policiais federais como “reunião cilada”, convocada no final de semana, realizada no dia 24 de agosto, sem indicar Moraes na pauta.xxi
A ação de Mendonça antecipou os movimentos ensaiados pela PF e por Flávio Dino. A deputada Tabata Amaral fez uma representação junto ao STF que resultou na investigação de desvio de finalidade no envio de emendas parlamentares do deputado Mário Frias ao Instituto Conhecer Brasil, ONG ligada a Karina Ferreira, registrada como dona da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse e, em agosto, a PF pediu acesso aos documentos originais da investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre a ONG, a produtora e desvios de verbas públicas da Prefeitura de São Paulo. Dino respondeu em 24 de agosto, mesmo dia da fatídica reunião.xxii
O acesso da PF às investigações da Polícia Civil paulista pode colocar no centro dos escândalos Ricardo Nunes e membros de sua gestão na prefeitura de São Paulo pelo contrato de internet com a ONG de Karina Ferreira; Mário Frias e outros deputados podem ser implicados pelo desvio de finalidade ao enviar recursos para a ONG e pode revelar o real papel de Karina Ferreira (acusada de ser “laranja”). Além, é claro, de ter o potencial para desmentir a versão de Tarcísio: o governador dizia (a exemplo de outros políticos de direita) que era necessário esclarecer os áudios entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro e, por coincidência ou não, após a reconciliação entre Flávio e a madrasta Michelle, passou a dizer que tudo tinha sido esclarecido pelo candidato à presidênciaxxiii e que a Polícia Civil havia cumprido seu papel.
O requerimento da PF a Dino ocorreu em um claro contexto de ampliação dos vazamentos seletivos em relação a Lulinha e ao suposto tráfico de influência e ao silêncio acerca das investigações do caso Master e dos políticos citados, inclusive Flávio Bolsonaro. Além disso, jornalistas repetiam que haveria mais informações vazadas sobre o caso, como o que veio à tona dia 01/09 informando novos repasses de Vorcaro ao filme/família Bolsonaro.
A ação de Mendonça abriu o precedente de nulidade ao avançar sobre Alexandre de Moraes em fase pré-processual, usando a PF, sem ser provocado pelo MP e sem autorização do STF, argumento registrado no posicionamento da Procuradoria-geral da República (PGR)xxiv. Além desse argumento que, em tese, preserva o sistema acusatório, existe outro definido pelo artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura (LOMAN)xxv: ao encontrar indícios de irregularidades envolvendo um ministro do STF, o relator deveria ter interrompido o ato e submetido o caso ao Plenário da Corte, que é o órgão competente para autorizar ou não investigações contra seus membros. Alguns portais chegaram a dizer que a ADI 5331, votada em 2015 sobre o TJ de Minas Gerais, derrubava o entendimento. Contudo, a referida ADI dispensou a obrigatoriedade de votações em conselhos ou plenários estaduais para investigações comuns, respeitando a supervisão de um magistrado (juiz natural ou relator), mas fixou o STF como exceção. Quando envolve ministros da Suprema Corte, o relator deve enviar os novos elementos ao plenário, que autoriza ou não a continuidade das investigações sem a presença do ministro suspeito. Caso o plenário decida pela continuidade, deve ser realizado novo sorteio para relatoria do caso. Não é trivial lembrar que o relatório de Mendonça tratou de Alexandre de Moraes em 188 das 218 páginas.xxvi
O precedente da nulidade existe e há quem questione se apenas as menções a Alexandre de Moraes seriam nulas, se incluiriam outros citados, como Andrei Rodrigues (diretor-geral da PF), Paulo Gonet (PGR) e Fábio Faria (ex-ministro de Bolsonaro, que apresentou Moraes a Vorcaro) ou se contaminariam toda a investigação contra Vorcaro/Banco Master. Insensível ao risco, Mendonça apostou na via lavajatista, utilizando a imprensa para gerar um clima favorável à sua tese na opinião pública e para ampliar os constrangimentos às decisões contrárias. Por essa razão, demonstrou pressa para uma eventual discussão no Plenário. Assim, os ministros ficariam pressionados entre a decisão técnica (autorização do plenário e novo sorteio) e atender à opinião pública, uma vez que as denúncias sobre Moraes são gravíssimas e precisam de resposta.
Mendonça decidiu que o risco vale a pena. Cabe a pergunta: a razão para essa decisão é a síndrome do justiceiro e a busca por atender interesses pessoais e/ou de seu grupo ou a ingenuidade quixotesca na luta contra os gigantes (os moinhos de ventos).
As reações e contrarreações:
No dia 02 de setembro, uma reportagem de Paulo Motoryn acordou o Brasil com gravações que mostram que Mendonça se reuniu com Vorcaro e com o advogado do banqueiro em encontro secreto realizado em São Paulo – na sede do Iter, instituto do ministro. Os áudios falam da empolgação do ministro relativo às acusações, de um terno de alta costura de Vasco Vasconcellos dado pelo banqueiro ao ministro e outras coisas. De fato, em termos de possível corrupção, não se compara aos indícios que implicam Alexandre de Moraes e o escritório de sua esposa. Mas, sendo bem direto, ainda que o ministro afirme que os encontros antecederam sua posse como relator do caso, é forte para gerar suspeição do ministro na relatoria.xxvii
Foi curioso notar a demora das empresas tradicionais em noticiar os áudios revelados por Motoryn. Com mais de duas horas de atraso, o Globo.com decidiu priorizar nas manchetes a versão do ministro: primeiro enfatizou que o encontro tratou de precatórios; logo alterou a manchete dizendo que Mendonça encontrou Vorcaro, reconhece que o caso Master foi mencionado e que se limitou a ouvir. O portal Metrópoles, denunciado por receber dinheiro de Vorcaroxxviii, deu uma manchete afirmando “Exclusivo: documento reforça versão de Mendonça sobre reunião com Vorcaro”. O problema: o documento citado na reportagem tratava de uma reunião posterior, realizada no STF, com um dos advogados de Vorcaro; Motoyn denunciou e divulgou áudios sobre o encontro realizado em São Paulo, na sede do Iter, e sobre a alfaiataria de Vasco Vasconcellos.
Devemos reconhecer: o que chamamos de imprensa lavajatista não nasceu nem morreu com a OLJ. Se a motivação é dinheiro, patrocínio ou interesse político, cabe investigar melhor cada empresa de comunicação.
Mendonça assimilou o golpe e foi ao ataque. A partir da informação de que ele realizou uma reunião com Vorcaro e sua defesa sem a PF, órgãos de imprensa passaram a “vazar” que Vorcaro agora alegava tortura, que sua delação não havia sido aceita porque a PF exigia que o banqueiro poupasse o diretor-geral Andrei Rodrigues e membros do atual governo. Tudo sem qualquer prova. Mas, lembremos, para o espírito lavajatista provas podem ser substituídas por convicções (ou interesses). Outra notícia que circulou no mesmo dia 02 foi o interesse de Vorcaro em fechar um acordo de delação premiada com Mendonça, excluindo a PF, para supostamente entregar Andrei Rodrigues e membros do atual governo.
A escalada de Mendonça deixa claro que ele não se constrange em rasgar a toga e partir para a ação eleitoral direta. No dia 01/09, enquanto o país acompanhava a repercussão do caso Moraes, André Mendonça suspendia a propaganda com o jingle “Rap do Silva”, de Lula, alegando irregularidade ao não citar o vice, Geraldo Alckminxxix. Hoje, em levantamento de Bela Megale, veio a matéria de que ele é o ministro que menos vota favoravelmente às demandas da campanha de Lula.xxx E esse empenho tende a continuar com a condução seletiva do caso Master.
Apenas fogo de encontro (fogo contra fogo ou contrafogo) pode ter efeito
Brigadas de combate a incêndios usam a técnica de fogo contra fogo para barrar o avanço de grandes incêndios. A técnica funciona com fogo controlado em uma faixa de vegetação no caminho do incêndio. O objetivo é eliminar o material combustível que permitiria o incêndio avançar. Recorrendo à analogia, essa é a única estratégia de contenção imediata ao empreendimento eleitoral de Mendonça.
Uma das formas já pode ter sido anunciada no mesmo dia 02. A PGR anunciou que fechou delação premiada de João Carlos Mansur, ex-dono da REAG Investimentos. A empresa foi denunciada nas operações Quasar, Tank e Carbono Oculto, deflagradas pela PF, por lavar dinheiro para empresas ligadas ao PCC. Além disso, era um dos pilares para a liquidez artificial anunciada pelo Master, que permitiu avançar na emissão de CDBs. Mansur pode revelar muito sobre Vorcaro e sobre investigações relacionadas ao crime organizado no país.
Também no dia 02, deputados federais da base governista pediram ao presidente do STF, Edson Fachin, que o plenário derrubasse o sigilo das investigações sobre o filme “Dark Horse”. Pedido minimalista com intuito único (não menos legítimo) de equilibrar o jogo eleitoral.
Outra forma, maior e mais definitiva, de acionar o contrafogo seria o STF realizar o mais rápido possível a discussão no plenário. Dar à opinião pública o que ela demanda: afastamento temporário de Moraes, Gonet e, se for o caso, de Andrei Rodrigues. Em contrapartida, condicionar esse afastamento à derrubada total do sigilo das investigações do caso Master (incluindo o caso “Dark Horse”). A derrubada do sigilo tiraria de Mendonça o controle seletivo de etapas e vazamentos. O plenário teria ainda a possibilidade de realizar um novo sorteio de relatoria, conforme determina a LOMAN.
As linhas finais
Vorcaro é uma criatura do projeto bolsonarista. Suas conexões envolvem importantes círculos religiosos, políticos, juízes e uma tropa de choque que incluía desde Sicário (in memoriam) até membros da PF. Sua ascensão meteórica só foi possível pela implementação da distopia ultraliberal de Guedes/Bolsonaro, que contou com a adesão de Roberto Campos Neto, visando desregulamentar o mercado financeiro e desmontar estruturas de fiscalização. O bonito discurso de ampliar a concorrência no sistema bancário brasileiro resultou, na prática, em mais liberdade para o crime organizado lavar dinheiro e em oportunidade para o esquema tipo pirâmide do Banco Master. Não parou por aí; os tentáculos atingiram consignados de servidores municipais, estaduais e federais, regimes próprios de previdência de servidores municipais e estaduais e consignados de aposentados e pensionistas do INSS. Sem fiscalização, algo com que a CVM colaborou, o único obstáculo de Vorcaro era a imprensa, com a qual Sicário tentou se ocupar.
Ser uma criatura bolsonarista não significa que seus alicerces se limitaram às autoridades e aos políticos da mesma ideologia. A rede de relações cresceu, alcançando Alexandre de Moraes no STF (embora apresentado por Fábio Faria, não se trata de um bolsonarista) e respingou no PT da Bahia. A rede de sustentação do Master teve ação destacada de Ciro Nogueira e Antônio Rueda, ambos líderes de partidos do Centrão, além do deputado bolsonarista Filipe Barros.
Mas ser uma criatura bolsonarista é também uma evidência revelada no manejo das investigações. A blindagem a Flávio Bolsonaro, ao filme “Dark Horse” e ao fundo Havengate ganhou impulso, coincidentemente (ou não) após a trégua entre o candidato à presidência e a madrasta Michelle. A trégua coincidiu com acenos públicos de Tarcísio, a continuidade do silêncio da Polícia Civil sobre as investigações ligadas ao filme (sobre Karina Ferreira, sua ONG e a produtora Go Up) e a incansável militância de André Mendonça. O ministro do STF foi assessor especial do Ministro da Controladoria-Geral da União no governo Temer; e, no governo Jair Bolsonaro, foi Advogado-Geral da União, ministro da Justiça e anunciado para a Suprema Corte como “terrivelmente evangélico”. O ministro advém de círculos religiosos, políticos e jurídicos parecidos com os de Vorcaro. Um truísmo, pois é a base bolsonarista.
Contudo, há também outra filiação: a Operação Lava Jato. A OLJ provocou deslocamentos no bloco de poder, dando força a bancos e corretoras emergentes no mercado financeiro em vez dos bancos tradicionais, o que abriu espaço para a emergência de Vorcaro no Banco Máxima e depois no Master. Também tem origem na OLJ, apesar de Bolsonaro se orgulhar de destruí-la, as estratégias de Mendonça para definir eleições, como Moro, Dallagnol e companhia limitada, ajudaram a decidir em 2018.
As estratégias criminosas e a base de sustentação não foram construídas com ações inéditas. Muito do que Vorcaro realizou já havia sido feito; seus golpes remetem a Ponzi e Madoff, e o cortejo de autoridades seguiu práticas de outros figurões do mercado financeiro brasileiro, como André Esteves. E, por ironia, ele – que muito deve à OLJ – enfrentou sua derrocada (ao menos até aqui) por reação ou desconfiança de derrotados ou prejudicados pela Operação: coube aos bancos tradicionais pressionar o BC a reagir contra o Master, para evitar a quebra do sistema financeiro nacional; do mesmo modo, a posição de Lula e Haddad parece ter selado o destino de Vorcaro ao defender uma ação técnica do BC, sob Galípolo; e, por fim, as entidades de representação e defesa dos bancos (lideradas pelos bancos tradicionais e o BTG) correu para proteger o BC de ataques do STF, por meio de Toffoli, e do exército de influencers e de páginas e jornais contratados por Vorcaro.
Resta saber se ocorrerá e terá efetividade um contrafogo a André Mendonça. Aguardemos!
i NASCIMENTO, Jefferson Ferreira do; GRABOIS, Igor. Operação Lava Jato: impactos econômicos e deslocamentos no bloco no poder. Tempo da Ciência, v.30, n.59, 2023. DOI: 10.48075/5egcsg34. Disponível em: https://e-revista.unioeste.br/index.php/tempodaciencia/article/view/31403
ii Nascimento & Grabois (2023). Op Cit. p.10.
iii Na matéria do link a seguir, Haddad fala de falha regulatória, enquanto o professor de Economia Dr. José Carlos Oreiro (UnB) destaca a omissão/negligência do BC durante a gestão de Roberto Campos Neto. Cf.: https://www.brasildefato.com.br/2026/02/11/fraude-do-master-foi-negligencia-do-bc-de-campos-neto-nao-falha-regulatoria-avalia-economista/
iv Ver exemplo em: https://noticias.uol.com.br/colunas/thais-bilenky/2026/06/09/andre-esteves-alexandre-de-moraes-gilmar-mendes-gilmarpalooza.htm
v Ver mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/economia/video-mostra-toffoli-recebendo-banqueiro-do-btg-e-empresario-que-o-levou-ao-peru/
vi Ver mais em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/02/lula-diz-que-recebeu-vorcaro-a-pedido-de-mantega-e-que-avisou-a-banqueiro-que-investigacao-seria-tecnica.shtml
viii Ver mais em: https://jornalggn.com.br/coluna-economica/vorcaro-a-expressao-maior-do-crime-organizado-por-luis-nassif/
ix Ver mais em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/05/19/senadores-questionam-como-bc-negou-e-depois-aprovou-venda-do-master-a-vorcaro
xi Ver mais em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/macroeconomia/alvo-da-cpmi-master-movimentou-r-700-mi-em-consignado-para-aposentados/#goog_rewarded
xii Ver mais em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/seu-bolso/meu-dinheiro/bolsonaro-sanciona-lei-que-amplia-para-40-limite-de-consignado-para-aposentados/
xiii https://www.poder360.com.br/poder-justica/entenda-como-o-pt-na-bahia-vendeu-o-credcesta-e-negocio-favoreceu-o-master/
xiv Ver mais em: https://jornalggn.com.br/coluna-economica/vorcaro-a-expressao-maior-do-crime-organizado-por-luis-nassif/
xv Ver mais em: https://noticias.uol.com.br/colunas/daniela-lima/2026/03/12/ministerio-publico-acordos-com-cvm-livraram-vorcaro-da-apuracao-de-crimes.htm
xvi Ver mais em: https://www.dw.com/pt-br/como-funcionava-o-esquema-do-banco-master-segundo-a-investiga%C3%A7%C3%A3o/a-75736225
xvii Ver mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/economia/caso-master-bancos-saem-em-defesa-do-bc-e-alertam-contra-reversao-de-decisoes/
xviii Ver mais em: https://www1.folha.uol.com.br/blogs/frederico-vasconcelos/2025/02/toffoli-defendeu-bolsonaro-e-abriu-o-judiciario-a-militares.shtml
xix Ver mais em: https://blogs.oglobo.globo.com/bernardo-mello-franco/post/toffoli-o-ministro-que-colabora.html
xx Ver mais em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/fux-que-foi-juiz-rigido-no-mensalao-conquistou-bolsonaro-antes-da-trama-golpista-chegar-ao-stf,08647b6ad82a09276840b2672a3a8b88wxdydg6u.html
xxi Ver mais em: https://noticias.uol.com.br/colunas/fabio-serapiao/2026/09/02/mendonca-fez-reuniao-cilada-para-mandar-pf-fazer-relatorio-sobre-moraes.htm
xxii Ver mais em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/dino-autoriza-pf-acessar-dados-de-operacao-contra-produtora-de-dark-horse/
xxiii Ver mais em: https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/26/tarcisio-diz-que-flavio-bolsonaro-ja-deu-todas-as-explicacoes-sobre-suas-relacoes-com-daniel-vorcaro-esta-tudo-esclarecido.ghtml
xxiv Ver mais em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2026/09/01/pgr-critica-mendonca-e-pede-nulidade-de-investigacao-em-que-moraes-e-citado-pela-policia-federal.ghtml
xxvi Ver mais em: https://www.cnnbrasil.com.br/noticias/investigacao-contra-moraes-depende-de-autorizacao-do-stf-entenda/
xxvii Ver mais em: https://paulomotoryn.substack.com/p/urgente-mensagens-e-audios-ineditos?r=2mnt7&utm_campaign=post&utm_medium=email
xxviii Ver mais: https://www.estadao.com.br/politica/master-pagou-metropoles-e-escritorio-barci-de-moraes-no-mesmo-dia-mostram-mensagens-de-vorcaro/?srsltid=AfmBOoojdrGQM7uTy3DFj7ZgtHk4yWkGd4eE0MianCeygZFivDdl9a2a
xxix Ver mais em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/09/01/mendonca-suspende-propaganda-de-lula-com-rap-do-silva-por-nao-apresentar-alckmin-como-vice.htm
xxx Ver mais em: https://oglobo.globo.com/blogs/bela-megale/post/2026/08/mendonca-e-o-ministro-que-menos-vota-a-favor-da-campanha-de-lula-no-tse-aponta-levantamento.ghtml
Liga Comunista Brasileira – LCB
03 de setembro de 2026