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Por Celso Fernandes Prestes 

📚 Crise estrutural e transformação do sistema soviético

Uma análise para além das explicações simplificadoras — entre formação revolucionária, contradições internas e reconfiguração do poder

🧱 PARTE I — Duas apostas e uma reelaboração

Partíamos de duas apostas sobre as experiências socialistas do século XX, especialmente a União Soviética e o Leste europeu.

A primeira: que eram experiências socialistas — isso mantemos.

A segunda: que seriam duradouras — essa não se confirmou.

Esse ponto é decisivo. O fato de não terem durado não nos leva automaticamente a negar seu caráter socialista, nem a recorrer a explicações simplistas como “traição” ou “revisionismo”.

Diferentemente de correntes que partem de uma tese fechada e buscam apenas confirmá-la na realidade, nosso ponto de partida era distinto. Tratava-se de uma aposta — e foi a própria experiência histórica que nos obrigou a reelaborar.

Essa reelaboração, no entanto, não se reduz a uma explicação definitiva sobre o colapso. A questão, embora relevante, não constitui o centro da elaboração estratégica. A construção de uma perspectiva socialista no presente não pode depender de uma resposta única e conclusiva sobre o passado.

É nesse sentido que se coloca a necessidade de retomar a atualidade do marxismo. Isso implica voltar a Karl Marx e Friedrich Engels, ao mesmo tempo em que se estabelece um diálogo crítico com autores contemporâneos — com destaque para István Mészáros.

O objetivo não é encerrar o debate sobre o passado, mas construir instrumentos teóricos e políticos para a compreensão do presente.

Nesse processo, o rigor é fundamental. A experiência recente — como o uso de uma suposta entrevista final de Luís Carlos Prestes que posteriormente se revelou não confirmada — evidencia a importância de não ajustar a realidade a esquemas prévios, mas de submeter constantemente as interpretações à crítica e à verificação.

🔗 Transição — Do problema teórico ao caso histórico

É a partir desses elementos que se torna possível avançar da formulação teórica para a análise concreta. A experiência soviética não aparece, nesse sentido, como um objeto isolado, mas como um campo privilegiado para compreender como uma tentativa histórica de transição ao socialismo se desenvolve, se transforma e, em determinado momento, entra em crise.

🧱 PARTE II — Crise estrutural e transformação do sistema soviético

A dissolução da União Soviética costuma ser explicada por meio de interpretações simplificadoras. Em muitos casos, destaca-se o peso dos fatores externos — a pressão econômica, política e militar exercida pelos Estados Unidos e pelo bloco ocidental — como elemento decisivo para o desfecho do processo. Essa dimensão é real e não pode ser ignorada: a experiência soviética se desenvolveu sob permanente tensão com o sistema capitalista internacional.

No entanto, há também leituras que reduzem esse processo a uma suposta “traição” de suas próprias lideranças. Essa abordagem desloca a explicação para o plano moral e individual, como se o desfecho pudesse ser compreendido a partir de desvios pessoais ou decisões isoladas. É justamente essa interpretação que precisa ser recusada.

Compreender esse processo exige situá-lo em uma perspectiva histórica mais ampla. O poder que emerge da Revolução possui caráter revolucionário e institui um Estado socialista em condições de transição, marcado pelas exigências da guerra civil, do atraso econômico e da necessidade de centralização.

A União Soviética não nasce como forma acabada, mas como processo histórico aberto, atravessado por tensões entre objetivos socialistas e condições concretas de realização.

Ao longo de seu desenvolvimento, essas tensões se acumulam e passam a estruturar o funcionamento do sistema. A consolidação de uma camada dirigente — a nomenklatura — estabelece uma forma específica de controle sobre a produção e o excedente social. Ainda que não constitua uma burguesia no sentido clássico, essa camada exerce funções análogas no interior do processo produtivo, mediadas pelo Estado.

É nesse contexto que se configura aquilo que pode ser compreendido, nos termos de István Mészáros, como uma forma de capital de tipo soviético.

A partir da década de 1970, essas contradições passam a se manifestar de forma mais aguda. A economia entra em um processo de desaceleração, a produtividade estagna e o modelo de crescimento extensivo atinge seus limites. O esgotamento econômico se combina com dificuldades políticas crescentes, afetando não apenas a União Soviética, mas o conjunto do bloco socialista europeu.

Em países como a Polônia, a crise assume a forma de ruptura social aberta. A combinação de industrialização acelerada com desequilíbrios estruturais leva à deterioração das condições de vida e à emergência de movimentos de massa. Nesse contexto, o Solidariedade expressa essas tensões, ao mesmo tempo em que sua direção canaliza parte do descontentamento para uma orientação que ultrapassa os limites do próprio sistema.

Na Alemanha Oriental, a crise assume caráter estratégico. A questão nacional, marcada desde a rejeição da Nota de Stalin de 1952, reaparece como fator de desestabilização em um contexto de crescente pressão externa e disparidades econômicas.

Ao mesmo tempo, o envolvimento no Guerra do Afeganistão (1979–1989) intensifica o desgaste do sistema. Inicialmente apresentado como apoio à Revolução de Saur, o conflito transforma-se em guerra prolongada, ampliando custos e tensões.

Diante desse quadro, a crise deixa de ser administrável nos marcos existentes. Ela se expressa simultaneamente nos planos econômico, político e estratégico, aprofundando divisões no interior da própria estrutura de poder.

É nesse contexto que se desenvolve a Perestroika, sob Mikhail Gorbachev. As reformas emergem como tentativa interna de reorganização, mas acabam por deslocar o eixo do sistema.

O desfecho, consolidado nos anos 1990 sob Boris Yeltsin, não representa uma simples queda, mas uma reconfiguração: a antiga nomenklatura converte seu poder político em poder econômico, dando origem às oligarquias.

Na fase seguinte, sob Vladimir Putin, observa-se uma recomposição desse arranjo, com recentralização estatal e incorporação seletiva de elementos do passado soviético dentro de um novo quadro nacional.

O resultado desse longo processo não é a substituição simples de um sistema por outro completamente distinto, mas a emergência de uma nova configuração na qual persistem, sob formas transformadas, elementos estruturais do período anterior.

A chamada “queda” da União Soviética deve, portanto, ser compreendida menos como ruptura e mais como transição: o ponto de chegada de um processo de crise estrutural e o ponto de partida de uma nova forma de organização do poder.

A contradição central desse sistema não reside em sua origem, mas em seu desenvolvimento. É nesse percurso que se revelam tanto sua potência histórica quanto seus limites, permitindo compreender sua trajetória como um processo real, contraditório e historicamente determinado.