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Estratégia e Tática: Um Ensaio Introdutório


Estratégia e Tática: Um Breve Ensaio Introdutório

 

Por Carlos Magnum


A tradição do materialismo histórico e dialético é absolutamente avessa à simplificação grosseira de tratar as forças de oposição ao proletariado como um bloco monolítico, uniforme e indistinto. A famosa tese de que todas as classes, à exceção da operária, formariam uma única frente compacta foi ferozmente combatida como um desvio teórico oportunista que cegava as táticas de alianças do partido. Karl Marx e Friedrich Engels, em sua análise madura, rejeitaram abertamente esse erro metodológico, apontando que tal premissa não passava de uma frase de efeito retórico, pois eles próprios alertaram aos construtores do partido que adotar a máxima grandiloquente e historicamente falsa de Ferdinand Lassalle de que, em relação à classe operária, todas as outras classes são apenas uma massa reacionária, seria verdadeiro tão somente em instâncias excepcionais e muito específicas da revolução.

No que diz respeito à astúcia política; mais uma vez, os “homens honestos” foram cruelmente passados para trás pelos desonestos.

Para começar, eles adotam o lema lassalliano, de tom pomposo mas historicamente falso: em relação à classe operária, todas as outras classes constituem apenas uma massa reacionária. Essa proposição só é verdadeira em certos casos excepcionais; por exemplo, no caso de uma revolução do proletariado, como a Comuna, ou num país em que não apenas a burguesia moldou o Estado e a sociedade à sua imagem, mas a pequena burguesia democrática, na sua esteira, já levou essa reconstrução à sua conclusão lógica.

Se, por exemplo, na Alemanha, a pequena burguesia democrática fizesse parte dessa massa reacionária, como poderia o Partido Operário Social-Democrata ter caminhado de mãos dadas com ela, com o Partido Popular, durante anos a fio? Como poderia o Volksstaat derivar praticamente todo o seu conteúdo político do jornal democrático pequeno-burguês Frankfurter Zeitung? E como se explica a adoção, neste mesmo programa, de nada menos que sete demandas que coincidem exata e palavra por palavra com o programa do Partido Popular e da democracia pequeno-burguesa? Refiro-me às sete demandas políticas, de 1 a 5 e de 1 a 2, das quais não há uma sequer que não seja burguesa-democrática.[1]

Longe de formar um bloco coeso, os proprietários dos meios de produção, os pequenos burgueses e os burocratas feudais vivem em constantes e sangrentas contradições internas, impulsionadas pela concorrência capitalista predatória e pela herança pesada das velhas estruturas monárquicas. Engels explicaria magistralmente anos mais tarde que o bordão da “massa reacionária única” era geralmente apropriado apenas para declamação em discursos inflamados, visto que o capricho da história operava justamente na mecânica material de que os diferentes elementos dessa mesma massa feudal e burguesa se corroem, combatem e devoram uns aos outros em benefício prático do movimento operário, constituindo exatamente o reverso e a antítese de uma massa uniforme.

Importa o fim do chavão sobre “uma massa reacionária”, um jargão geralmente apropriado apenas para fins de declamação (ou, repito, para uma situação verdadeiramente revolucionária). Pois é nisto que consiste o capricho da história — que opera a nosso favor —, a saber: que os diferentes elementos dessa massa feudal e burguesa se desgastam, lutam entre si e devoram-se uns aos outros, para nossa vantagem, sendo, portanto, o exato oposto daquela massa uniforme que o seu grosseirão imagina que pode descartar rotulando o conjunto todo de “reacionário”.

Pelo contrário. Todos esses diversos canalhas devem primeiro destruir-se mutuamente, arruinar-se e desacreditar-se completamente uns aos outros, abrindo caminho para nós ao provarem a sua ineptidão, cada bando por sua vez. Foi um dos maiores erros de Lassalle, quando engajado na agitação, perder totalmente de vista a pouca dialética que havia aprendido com Hegel. Assim, exatamente como Liebknecht, ele nunca via mais do que um lado e, como este último, por certas razões, por acaso viu o lado certo, acabou demonstrando-se superior ao grande Lassalle, afinal de contas.[2]

Lênin, resgatando de imediato essa correção histórica basilar para usá-la contra os desvios dogmáticos russos, relembrou como a crítica marxista original foi cirúrgica ao expor a natureza antirrevolucionária, paralisante e abstrata dessa tese que havia sido incluída de forma equivocada no próprio programa fundacional da social-democracia alemã, no célebre Congresso de Gotha.

Lênin critica a conhecida tese lassalliana de que todas as outras classes constituem uma massa reacionária em relação à classe operária. Essa tese foi incluída no programa dos social-democratas alemães adotado no Congresso de Gotha em 1875, o congresso que unificou os dois partidos socialistas alemães que até então existiam separadamente, os eisenachianos e os lassallianos. Marx expôs a natureza antirrevolutionária dessa tese em sua Crítica do Programa de Gotha. [3]

A definição de estratégia e tática em Marx e Engels parte da premissa de que a luta de classes, desde o fim do comunismo primitivo, é o motor da história. No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels estabeleceram que “a história de toda a sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes”[4]. Com base nessa premissa, o objetivo central é a constituição, se possível, do proletariado como classe independente. Engels reforçou essa visão ao afirmar que “para que o proletariado seja forte o suficiente para vencer no dia crucial, é essencial — e Marx e eu temos defendido isso desde 1847 — que ele se constitua em um partido por direito próprio, distinto e oposto a todos os outros”[5].

No campo da tática militar e insurrecional, Engels formulou regras precisas, fundamentais para a ação armada no século XIX. Ele sustentou que “a insurreição é uma arte tanto quanto a guerra ou qualquer outra, e sujeita a certas regras de procedimento”[6]. Entre essas regras, ele afirmou a necessidade da ofensiva constante: “a defensiva é a morte de toda insurreição armada; ela está perdida antes mesmo de se medir com o inimigo”[7]. Além disso, ele advertia que “nunca se deve brincar com a insurreição a menos que se esteja preparado para enfrentar as consequências do jogo”[8].

A tática revolucionária, contudo, não era estática e deveria adaptar-se ao desenvolvimento das forças produtivas e da burguesia. Conforme Engels explica “a burguesia, portanto, também é uma condição prévia necessária para a revolução socialista, assim como o próprio proletariado”[9]. Ele prossegue argumentando que a abolição das classes só é possível quando a produção atinge um nível em que “a abolição das distinções de classe possa constituir um progresso real, ser duradoura sem levar a um estancamento ou mesmo declínio no modo de produção social”[10].

Ao final de sua vida, Engels realizou uma importante flexibilização tática sobre a eficácia dos métodos de 1848. Em 1895, ele admitiu que “a história foi problemática a nós e a todos os que pensavam de maneira análoga”[11]. Ele observou que o caráter das lutas de rua havia mudado e que “passou o tempo dos ataques surpresa, das revoluções executadas por pequenas minorias conscientes à frente de massas inconscientes”[12].

Nesse novo cenário, o uso do sufrágio universal emergiu como uma tática poderosa para medir as forças e organizar o povo. Marx já havia definido que o sufrágio universal deveria ser transformado de “meio de fraude, que tem sido até agora, em instrumento de luta”[13]. Engels complementou essa ideia, notando que, sob a legalidade, o partido operário crescia mais rápido do que sob a repressão: “a ironia da história mundial vira tudo de cabeça para baixo. Nós, os ‘revolucionários’, os ‘subversores’, prosperamos muito melhor com métodos legais do que com métodos ilegais e com a subversão”[14].

Entretanto, essa flexibilidade tática nunca significou a renúncia à estratégia revolucionária final. Engels foi enfático ao declarar que “nenhum partido pode abdicar do direito à resistência armada contra a ilegalidade”[15]. Para Marx, a transição política exigia uma forma específica de poder: “entre a sociedade capitalista e a comunista fica o período da transformação revolucionária de uma na outra. A este período corresponde também um período político de transição em que o Estado não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado”[16].

Essa ditadura tinha, para eles, um exemplo prático. Engels escreveu em 1891: “querem saber como é essa ditadura? Olhem para a Comuna de Paris. Isso foi a Ditadura do Proletariado”[17]. Assim, a tática marxista equilibrava-se entre a paciência do crescimento orgânico e a audácia da interrupção violenta do processo histórico quando a base material estivesse madura. Como sintetizou Engels, o proletariado deve avançar “lentamente de posição em posição”, mas mantendo sempre o objetivo da “transformação completa da organização social”[18].

A estratégia e tática eleitoral de Karl Marx e Friedrich Engels fundamentaram-se, ao longo de décadas, na dialética entre a manutenção da independência política do proletariado e a necessidade de alianças temporárias com setores não comunistas para remover obstáculos ao desenvolvimento histórico. Essa flexibilidade permitia o apoio a forças liberais ou democráticas quando o objetivo imediato era a destruição do absolutismo ou do feudalismo, preparando o terreno para a luta direta entre trabalho e capital.

  1. Revolução na Alemanha: 1848-1849

Durante o processo revolucionário alemão, Marx defendeu que a classe operária deveria marchar junto à burguesia liberal enquanto esta agisse de forma revolucionária contra a monarquia absoluta. Em uma reunião da Associação Operária de Colônia em 15 de fevereiro de 1849, Marx justificou a união tática com os democratas burgueses para fins eleitorais. Ele argumentou que “o bom senso mais elementar exige que, ao percebermos que não conseguiremos eleger nossos próprios princípios, devemos nos unir a outro partido de oposição para evitar a vitória do inimigo comum: a monarquia absoluta”[19]. Engels corroborou essa visão ao analisar a campanha pela Constituição Imperial, notando que, em situações de crise, os partidos operários precisam por vezes “manobrar dentro da legalidade para evitar tanto o perigo de uma revolução prematura quanto o risco de uma restauração conservadora”[20].

  1. O Cenário Inglês e os Cartistas: 1852-1854

Na Inglaterra, a colaboração de Marx e Engels com os setores não comunistas da ala esquerda do cartismo, liderada por Ernest Jones, visava a criação de um partido operário de massas. Em 1852, Marx observou que a classe trabalhadora deveria apoiar as reformas parlamentares radicais, pois o sufrágio universal na Grã-Bretanha, onde o proletariado constituía a maioria, seria “uma medida muito mais socialista do que qualquer outra que tenha sido honrada com esse nome no Continente”[21]. Engels relatou o esforço para formar o “Labor Parliament” em 1854 como um passo para a unificação de forças operárias e reformistas contra a oligarquia,. Contudo, a recomendação tática era sempre acompanhada do alerta de que os trabalhadores não deveriam formar a “cauda do ‘Grande Partido Liberal'”, servindo de massa de manobra para os fabricantes liberais[22].

  1. O Voto de Protesto nos Conservadores: 1874-1886

Uma das táticas mais controversas de Engels, adotada no final do século XIX, foi a recomendação do voto nos Conservadores (Tories) em distritos onde não houvesse candidatos operários. Essa aliança negativa tinha o propósito de punir os Liberais (Whigs) e forçá-los a reconhecer a força eleitoral dos trabalhadores. Nas eleições inglesas de 1874, Engels celebrou que o voto secreto permitiu aos operários votar “impunemente contra seus exploradores e contra o partido no qual veem, com razão, o dos grandes barões da indústria, a saber, o Partido Liberal”[23]. Engels defendeu que, na ausência de um partido operário forte, deveria-se “votar no opositor do governo, quem quer que ele fosse’, como forma de desestabilizar a hegemonia burguesa liberal”[24].

  1. A Aliança Operário-Camponesa e o Sufrágio: 1890-1895

Ao final de sua vida, Engels enfatizou a necessidade de ganhar o apoio do pequeno campesinato, mesmo que este setor não fosse puramente comunista, para garantir a vitória eleitoral da social-democracia. Em 1894, ele alertou os socialistas alemães e franceses de que, sem essa base agrária, a classe trabalhadora urbana permaneceria isolada em suas fortalezas industriais.

Engels explicou que a social-democracia, ao utilizar o sufrágio universal, estava transformando um meio de fraude em instrumento de emancipação. Ele observou que a ironia da história mundial colocava os “subversivos” prosperando melhor com métodos legais do que com métodos ilegais. Marx, antecipando essa visão, escreveu que o proletariado deve usar “todas as ferramentas, a mais violenta, mas também a mais moderada, que levem aos fins desejados”[25]. A participação em eleições e a constituição do proletariado em partido político eram consideradas “indispensáveis para assegurar o triunfo da revolução social”[26].

Lênin e Stálin

Na Rússia, o menchevismo tentou frequentemente encurralar a tática dos bolcheviques acusando-a de um sectarismo cego, alegando falsamente que Lênin nivelava liberais constitucionais, cadetes, camponeses ricos e ultrarreacionários num mesmo patamar de isolamento político absoluto. Lênin demoliu essa calúnia intelectual provando que a sua linha tática sempre separava de forma rigorosa os partidos da “oposição cadete” dos brutais partidos de “Direita”, sublinhando enfaticamente que a tentativa do sr. Plekhánov de atribuir ao autor a esdrúxula ideia de “uma só massa reacionária” não era apenas flagrantemente injusta, mas positivamente indigna de um socialista que deseja de fato discutir uma questão real.

Mas vamos direto ao ponto. Qual é, afinal, a objeção do camarada Plekhanov sobre o que está em jogo? Ele diz: “O autor retrata todos os outros* partidos burgueses como uma única massa reacionária”.

Isso não é verdade. Não há o menor vestígio disso no trecho que citamos. Inclusive, nas linhas seguintes, que o próprio Plekhanov cita, o autor diferencia claramente dois tipos de partidos burgueses: (1) os partidos da “oposição cadete” e (2) os partidos de “direita”. A tentativa do camarada Plekhanov de atribuir ao autor essa ideia de “uma única massa reacionária” não é apenas injusta, mas totalmente indigna de um socialista que queira debater um assunto sério. [27]

A anatomia política leninista exigia o reconhecimento de que, embora todos os setores dominantes fossem confessos defensores do capital e da brutal exploração do trabalho assalariado, o nível de comprometimento político de cada fração com a autocracia czarista ou com as almejadas reformas parlamentares variava de modo estrutural. A clareza irretocável dessa premissa impunha aceitar que os liberais se diferenciam dos conservadores declarados (as chamadas Centenas Negras) pelo simples fato material de que representam historicamente os interesses de uma burguesia que necessita imperiosamente de progresso, de um sistema jurídico razoavelmente organizado, da estrita observância da legalidade, da fundação de uma constituição e da garantia de algum grau mensurável de liberdade política para que a indústria possa florescer. Apesar de Lênin dizer com todas as letras que acusar os liberais ou os conciliadores seria acusar ainda mais os setores a direita deles, ele nunca se negou a ajudar os liberais a vencer a direita, e o fazia constantemente, mas antes vejamos o que ele diz sobre a questão de combater os reformistas, conciliadores ser um combate ainda maior a direita e seus setores consequentemente:

Nós acusamos os liberais de “nacionalismo” e “imperialismo”. Mostre-nos uma única acusação nossa desse tipo que não seja direcionada com ainda mais força contra a direita.

Nós acusamos os liberais de terem medo do movimento de massas. Agora, você consegue encontrar em nossos jornais uma formulação dessa acusação que também não sirva para a direita?

Nós acusamos os liberais de defenderem “certas” instituições medievais capazes de ser usadas contra os trabalhadores. Acusar os liberais disso significa, por consequência, acusar toda a direita da mesma coisa, e em um grau ainda maior.

Esses exemplos poderiam ser multiplicados indefinidamente. Vocês verão que, sempre e em toda parte, sem nenhuma exceção, os democratas da classe operária acusam os liberais exclusivamente por estarem próximos da direita, pelo caráter vacilante e artificial de sua luta contra a direita, por sua tibieza — acusando a direita, com isso, não apenas de um “meio pecado”, mas de um “pecado inteiro”.

“A luta contra os liberais” travada pelos democratas e pelos marxistas é mais profunda, mais consistente, tem mais conteúdo e faz muito mais para conscientizar e mobilizar as massas do que a luta contra a direita. É assim que as coisas são, senhores!

E para não deixar dúvidas sobre isso, para evitar qualquer distorção absurda do sentido e da importância da nossa luta contra os liberais — como, por exemplo, a teoria absurda da “massa reacionária única” (ou seja, colocar os liberais e a direita no mesmo saco em um único conceito político de bloco reacionário) —, nós sempre tomamos o cuidado, em nossas declarações oficiais, de falar da luta contra a direita em termos diferentes daqueles que usamos para falar da nossa luta contra os liberais.

O Sr. Prokopovich sabe disso muito bem, assim como qualquer liberal instruído. Ele sabe, por exemplo, que na nossa definição da natureza social e de classe dos vários partidos, nós sempre enfatizamos o caráter medieval da direita e a natureza burguesa dos liberais. E há um abismo de diferença entre essas duas coisas. O medievalismo pode (e deve) ser destruído, mesmo permanecendo dentro dos limites do capitalismo. Já a natureza burguesa não pode ser destruída dentro desses limites; no entanto, nós podemos (e devemos) “recorrer” do proprietário de terras burguês ao camponês burguês, do liberal burguês ao democrata burguês, da meia-liberdade burguesa para a liberdade burguesa plena. É nesses apelos, e apenas neles, que consiste a nossa crítica aos liberais durante o período pelo qual a Rússia está passando, isto é, a crítica que fazemos do ponto de vista das tarefas imediatas e urgentes deste período.[28]

A formulação da tática eleitoral no seio do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), sob a pena e a liderança de Vladimir Lenin, estruturou-se historicamente sobre a premissa inquebrantável de que a abstenção parlamentar — o chamado boicote ativo — não consiste, em hipótese alguma, num princípio moral absoluto, tampouco numa aversão anarquista dogmática às instituições do Estado burguês. Para o materialismo histórico e dialético, a defesa do voto nulo e do rechaço integral aos pleitos legislativos apenas ganha legitimidade política e materialidade orgânica quando está intrínseca e inseparavelmente acoplada a um contexto de levante armado e ascensão revolucionária das massas oprimidas, ou seja, dentro do que Lênin denominava de situação revolucionária. Em períodos históricos em que o regime estabelecido, acuado pela força do proletariado, tenta desviar o ímpeto insurrecional das ruas para os canais estreitos e asfixiantes de um simulacro constitucional, a recusa peremptória em participar do processo eleitoral funciona como um imperativo de classe fundamental. Seu propósito é impedir que a energia revolucionária seja canalizada, diluída e derrotada na arena estéril do cretinismo parlamentar. A decisão do comitê central bolchevique de boicotar as urnas decorre, portanto, de uma avaliação rigorosa, fria e científica da correlação objetiva de forças na sociedade civil e do estágio de maturidade da luta direta, rejeitando qualquer fetiche de purismo ideológico descolado da práxis das barricadas.

“O social-democrata que se coloca num ponto de vista marxista tira as suas conclusões sobre o boicote não do grau de reacionarismo desta ou daquela instituição, mas da existência daquelas condições especiais de luta que, como a experiência da revolução russa agora demonstrou, tornam possível aplicar o método específico conhecido como boicote. Se alguém se pusesse a discutir o boicote sem levar em conta a experiência de dois anos de nossa revolução, sem estudar essa experiência, teríamos de dizer dele que esqueceu muito e não aprendeu nada.”[29]

Nesse sentido prático, a histórica campanha desencadeada pelo bolchevismo pelo boicote à chamada Duma de Bulygin (projeto de parlamento consultivo) no outono de 1905 representou uma aplicação vitoriosa, cirúrgica e magistral da referida tática de não conciliação. Diante da manobra da autocracia czarista, que acenava com a criação de uma assembleia imperial sem poder deliberativo real para aplacar a cólera popular, a vanguarda revolucionária russa compreendeu de imediato que o engajamento eleitoral ou a mera submissão ao calendário monárquico significaria capitular à iniciativa política do inimigo, arrefecendo o poder imenso dos recém-formados conselhos de trabalhadores (os sovietes) e das insurreições no campo. O boicote, naquele grandioso cenário de efervescência que desaguaria na greve geral de outubro, operou não como uma esquiva apolítica ou alienação da esfera pública, mas como uma política militar e civil de ataque frontal. O partido comunista propunha a via do confronto aberto como alternativa estruturalmente superior ao desvio legalista que a monarquia tentava impor como tábua de salvação de seus próprios privilégios.

“A palavra de ordem de boicotar a Duma de Bulygin era, portanto, uma palavra de ordem de luta pelo caminho da luta revolucionária direta e contra o caminho constitucional-monárquico. Mesmo neste último caminho, é claro, uma luta era possível, e não apenas possível, mas inevitável. Mesmo na base de uma constituição monárquica era possível continuar a revolução e preparar o seu novo ascenso; mesmo na base de uma constituição monárquica era possível e obrigatório para a social-democracia prosseguir a luta. […] A defesa do boicote ativo por parte da social-democracia foi em si uma forma de colocar a questão, uma forma de levantá-la conscientemente pelo partido do proletariado, uma palavra de ordem da luta pela escolha de um caminho de luta.[30]

A teoria leninista sublinha de modo categórico que o boicote proletário deve ser intrinsecamente ativo; ele exige e pressupõe o impulsionamento de uma força motriz popular capaz de desarticular e solapar as fundações do regime vigente antes mesmo que as urnas sejam abertas. Longe de se confundir com a atitude passiva de intelectuais céticos que meramente cruzam os braços em suas redações, a tática radical se justificava plenamente na Rússia porque o povo contava com um contrapoder palpável nas fábricas e frotas amotinadas, o que tornava a câmara legislativa burguesa uma instituição obsoleta já no seu nascedouro. Na ausência de tal “turbilhão” social formidável que marche diretamente rumo ao assalto do aparelho de Estado, a defesa do voto nulo transfigura-se inexoravelmente numa fraseologia oca, inofensiva e sectária que condena o proletariado a figurar nas margens invisíveis do debate político do país. A vanguarda, dessa maneira, condicionou a tática de recusa eleitoral à obrigação militante de substituir o palco da Duma pelo pavimento insurreto das grandes capitais.

O boicote à Duma, como a experiência da revolução russa demonstrou, é a única decisão correta por parte da social-democracia revolucionária sob condições históricas tais que façam dele um boicote realmente ativo, isto é, que represente a força de um ascenso revolucionário amplo e universal que marcha diretamente para um assalto direto contra o velho regime (consequentemente, para um levante armado). O boicote cumpre uma grande tarefa histórica quando serve como um aviso pelo proletariado a todo o povo contra o fascínio cego da pequena burguesia pelas ilusões constitucionais e pelas primeiras instituições quase-constitucionais concedidas pelo velho regime.[31]

Em oposição absolutamente frontal a essa combatividade do proletariado de vanguarda, a burguesia liberal russa — liderada de forma influente pelos chamados democratas-constitucionalistas (os Cadetes) — enxergava no parlamento uma instituição providencial, senão a única aceitável, para extinguir as fogueiras da revolução democrática. Os intelectuais e proprietários liberais ansiavam patologicamente pela normalidade institucional e temiam a atividade independente, armada e impetuosa das massas trabalhadoras infinitamente mais do que repudiavam os abusos diários dos ministros do czar e da repressão oficial. Como resultado lógico de seus interesses de classe patrimoniais, a burguesia brandia a retórica da representação parlamentar e da modernização do Estado não como uma lança para a emancipação agrária e civil do povo, mas estritamente como um dique de contenção visando desarmar as fileiras operárias, trocando as barricadas por acordos conciliatórios sorrateiros firmados nos corredores palacianos. O instinto conservador ditava o seu desdém visceral pelos métodos de choque propostos por Lenin.

“A mente burguesa foge de todos os métodos não parlamentares de luta, de todas as ações de massas abertas, de qualquer revolução no sentido direto do termo. O burguês instintivamente apressa-se em declarar, proclamar e aceitar todo o simulacro de parlamentarismo como verdadeiro parlamentarismo a fim de pôr um fim ao ‘turbilhão vertiginoso’ (que pode ser perigoso não apenas para as cabeças de muitos burgueses de cabeça fraca, mas também para seus bolsos). É por isso que os senhores Cadetes são totalmente incapazes até de entender a questão científica e realmente importante de saber se o método parlamentar de luta pode ser reconhecido como tendo algum significado real para a Rússia, e se o movimento na forma de ‘turbilhão’ se esgotou.”[32]

Para justificar a sua completa subordinação e reboquismo a esse jogo de cartas marcadas do liberalismo de Estado, os reformistas russos — capitaneados fundamentalmente pelos mencheviques de direita — recorriam de forma perene a um subterfúgio clássico e rasteiro do oportunismo eleitoral: a iminente ameaça fatal das Centúrias Negras (esquadrões da morte do extremismo direitista) e dos latifundiários defensores do absolutismo mais obscuro. Nas conferências do partido e nas páginas dos jornais legais, a ala direita da social-democracia promovia uma campanha histérica afirmando que, caso os operários se recusassem a compor amplos blocos eleitorais conjuntos com a burguesia Cadete e optassem pela linha bolchevique de independência política absoluta, a pulverização dos votos de oposição entregaria as cadeiras da Duma de forma irremediável às forças absolutistas. O bolchevismo dissecou minuciosamente essa política abjeta do “mal menor”, evidenciando que essa barganha servia unicamente para camuflar o pavor da própria intelectualidade moderada diante da polarização de classes, compelindo o partido marxista a arriar as suas próprias bandeiras.

A característica central daquela parte do projeto era uma afirmação de que o enfraquecido partido de ‘Centro’, ou seja, o Partido Constitucional-Democrata liberal-burguês, se esforçava por deter a revolução mediante concessões aceitáveis aos latifundiários das Centúrias Negras e à autocracia. Foi apenas ontem, por assim dizer, que Plekhanov e seus seguidores da ala direita do POSDR afirmaram que esta ideia bolchevique, que defendemos persistentemente ao longo de 1906 […] era uma conjetura semideliante nascida de visões rebeldes sobre o papel de nossa burguesia, ou que era, no mínimo, um alerta inoportuno, etc.[33]

Contudo, a imensa plasticidade histórica da dialética leninista jamais se deixou engessar por dogmas voluntaristas ou permitiu o aprisionamento da vanguarda num sectarismo cego para as mutações da paisagem nacional. Quando a realidade empírica, a força esmagadora dos canhões reais e a debandada das insurreições indicaram sem sombra de dúvida que a primeira grande revolução russa havia sido derrotada, inaugurando a terrível época de banhos de sangue, reveses e execuções comandadas pelo ministro Stolypin, Lenin teve a honradez teórica de ordenar um recuo tático imediato e sepultar a validade da palavra de ordem do boicote. Repudiar os muros do parlamento imperial quando as fileiras populares se encontravam dispersas, deprimidas e desarmadas constituiria um gesto fútil de orgulho pequeno-burguês, isolando o núcleo partidário da única plataforma de agitação de massas legada pela derrota. Tornava-se obrigatório ingressar no covil legislativo reacionário e nele combater, suportando as leis enviesadas, com o propósito solitário de preparar pedagogicamente a classe para a retomada futura das posições perdidas.

“No entanto, ao mesmo tempo em que rejeitamos absolutamente os discursos medrosos e míopes de arrependimento, bem como a explicação tola do boicote como ‘impetuosidade juvenil’, de forma alguma rejeitamos as novas lições da Duma Cadete. Seria obstinação pedante ter medo de admitir francamente essas novas lições e de levá-las em consideração. A história tem mostrado que, quando a Duma se reúne, surgem oportunidades para a realização de agitação útil tanto dentro da Duma como ao seu redor; que a tática de unir forças com os camponeses revolucionários contra os Cadetes pode ser aplicada na Duma. Isto pode parecer paradoxal, mas essa é, sem dúvida, a ironia da história: foi a Duma Cadete que demonstrou claramente às massas a justeza do que poderíamos descrever resumidamente como táticas ‘anti-Cadete’.”[34]

A superioridade teórica do método marxista frente às vulgarizações de época evidenciou-se de forma acachapante no fato de Lenin ter realizado, quinze anos depois daqueles duros embates no império eslavo, um rigoroso escrutínio e uma impiedosa autocrítica de alcance global em seu tratado clássico Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo. Ao fornecer as coordenadas históricas para vacinar as seções recém-formadas da Internacional Comunista (especialmente na Alemanha e na Holanda) contra o romantismo abstencionista antiparlamentar que então grassava, ele sentenciou definitivamente que o sucesso do boicote não decorre da pureza da intenção, mas da precisão do cálculo de retaguarda. Avaliando o crivo de sua própria biografia e liderança, sublinhou categoricamente que, enquanto o abstencionismo insurrecional de 1905 marcou uma página gloriosa e certeira de lucidez revolucionária por abortar manobras da ditadura vacilante, a teimosia das facções esquerdistas do seu próprio partido em tentar transpor mecanicamente a política de não comparecimento para os pleitos eleitorais de 1906 constituiu um flagrante erro de avaliação sobre as condições de refluxo instauradas.

“Não posso tentar formular aqui as condições em que um boicote é útil, visto que o objectivo desta brochura é muito mais modesto, nomeadamente, estudar a experiência russa em ligação com certas questões atuais da tática comunista internacional. A experiência russa forneceu-nos um exemplo bem-sucedido e correto (1905), e outro que foi incorreto (1906), do uso de um boicote pelos bolcheviques. Analisando o primeiro caso, vemos que conseguimos evitar que um governo reacionário convocasse um parlamento reacionário em uma situação na qual a ação revolucionária extraparlamentar de massas (greves em particular) se desenvolvia em grande velocidade.”[35]

A consagração incontestável da maleabilidade política bolchevique no manejo das ferramentas representativas desdobrou-se nas cruciais votações para a Assembleia Constituinte de 1917, tida como a joia sagrada da doutrina constitucionalista liberal. Ao contrário de proclamar uma cruzada verbal contra os resquícios das eleições universais burguesas no fragor da conquista soviética, a liderança de Lenin arrastou o Partido para o duro teste nas urnas em vastos distritos onde elementos rurais, soldados atrasados e estratos inferiores da pequena-burguesia ainda nutriam fé e ilusões desmedidas num parlamento redentor de todos os partidos. Expor publicamente o bloco entre a ala direita dos social-revolucionários e o patronato reacionário no interior do plenário constituinte representou a etapa fulcral de educação democrática antes que aquele maquinário contrarrevolucionário fosse defenestrado pela legitimidade pujante e armada da recém-fundada República dos Sovietes. Destroçar uma ilusão no plano material revelou-se imensuravelmente mais produtivo do que desdenhá-la através de panfletos anarquistas de salão.

“[…] os bolcheviques não boicotaram a Assembleia Constituinte, mas participaram nas eleições tanto antes como depois da conquista do poder político pelo proletariado. Que essas eleições produziram resultados políticos extremamente valiosos (e para o proletariado, altamente úteis) foi, atrevo-me a esperar, provado por mim no artigo acima mencionado, que analisa em detalhe os resultados das eleições para a Assembleia Constituinte na Rússia. […] Os autores das teses incorrem num pensamento confuso; esqueceram a experiência de muitas, se não de todas, as revoluções, a qual mostra a grande utilidade, durante uma revolução, de uma combinação de ações de massa fora de um parlamento reacionário com uma oposição simpatizante (ou, melhor ainda, apoiando diretamente) a revolução no seu interior.”[36]

Como balanço monumental e conclusivo da dinâmica tática legada aos herdeiros do comunismo internacional, evidencia-se que a conversão apriorística do boicote parlamentar numa norma infalível serve não à audácia libertadora, mas tão somente à esterilidade professoral e dogmática da militância isolada em suas próprias cartilhas. Negar aos oprimidos a possibilidade de extraírem aprendizado de seus embates — vitórias parciais ou traições espúrias orquestradas pela burguesia — no palco cínico das campanhas eleitorais e da disputa pelo sufrágio em momentos em que a guerra de aniquilação física entre as classes ainda não extinguiu outras modalidades de confronto, significa efetivamente ceder o controle hegemônico do espaço civil aos reformistas de carreira e às raposas da retórica do “mal menor”. O marxismo exige categoricamente que a luta dentro das esferas institucionais atue como um instrumento incisivo de desgaste e desmascaramento pedagógico do sistema capitalista, demonstrando cabalmente, sob todos os rigores dos fatos, que a emancipação genuína habita nas ruas armadas e nos instrumentos do poder proletário em conselho, jamais no ilusionismo condescendente das cédulas eleitorais que avalizam a ordem da propriedade.

“Mostra como as diversas classes estão inclinadas a resolver os seus problemas. A solução real desses problemas não é proporcionada pela votação, mas pela luta de classes em todas as suas formas, incluindo a guerra civil. […] O partido do proletariado revolucionário deve participar nos parlamentos burgueses a fim de esclarecer as massas; isto pode ser feito durante as eleições e na luta entre os partidos no parlamento. Mas limitar a luta de classes à luta parlamentar, ou considerar esta última como a forma mais elevada e decisiva, à qual todas as outras formas de luta estão subordinadas, é na verdade a deserção para o lado da burguesia contra o proletariado.” [37]

Os democratas representam a grande massa da população. Um democrata não tem medo do movimento de massas; ele acredita nele. Na Rússia, os democratas são representados pelos Trudoviks e pelos “narodniks” (populistas) de esquerda em geral. Os marxistas os chamam de democratas burgueses não porque queiram “ofendê-los”, mas porque nenhuma redistribuição de terras e nenhuma mudança democrática no Estado são capazes de eliminar o domínio do capital, isto é, o sistema burguês. [38]

Desde 1905, defendíamos sistematicamente uma aliança entre a classe operária e o campesinato contra a burguesia liberal e o czarismo, sem nunca, contudo, recusar apoio à burguesia contra o czarismo (por exemplo, durante os segundos turnos ou as segundas votações das eleições) e sem jamais interromper sua implacável luta ideológica e política contra os Socialistas-Revolucionários — o partido camponês burguês-revolucionário —, denunciando-os como democratas pequeno-burgueses que se autointitulavam falsamente como socialistas. [39]

Ao adentrarmos a complexa seara do debate eleitoral na Rússia czarista, especialmente no que tange ao famigerado apoio ao Partido Constitucional-Democrata (os Cadetes), faz-se mister analisar detalhadamente a relativização da regra de atuação isolada do partido operário. Como diretriz geral de agitação e propaganda no chamado “primeiro turno” (a primeira fase das intrincadas eleições nas cúrias e assembleias russas), o bolchevismo sustentava a mais rigorosa e implacável independência do proletariado, a fim de evitar a subordinação política e mental da vanguarda à retórica vazia e conciliatória do liberalismo. Lênin exigia que a classe trabalhadora apresentasse seu próprio programa de ruptura para não diluir o escrutínio e confundir o eleitorado, rechaçando com veemência a tática menchevique de fusão imediata nas listas liberais sob a pífia justificativa de conter a extrema-direita. No entanto, Lênin não elevava essa recusa independente a um dogma fixo e inquebrantável; a teoria revolucionária reconhecia categoricamente que a independência eleitoral absoluta comportava exceções ditadas por condições objetivas limítrofes, permitindo o afastamento deliberado deste princípio fundamental apenas diante de uma extrema necessidade tática em que a sobrevivência do próprio movimento frente à violência reacionária impusesse manobras drásticas e arranjos atípicos de sobrevivência. “Em resumo: em sua tática eleitoral geral, os social-democratas devem tomar como ponto de partida a completa independência do partido de classe do proletariado revolucionário. Desvios em relação a esse princípio geral só serão admitidos em casos de extrema necessidade e sob condições especificamente limitadas”[40].

A resistência inicial inclemente de Lênin a votar nos Cadetes na primeira etapa das eleições baseava-se em uma análise estatística e materialista rigorosa, que desmascarava a chantagem ideológica perversa orquestrada pela burguesia liberal. Os proeminentes líderes cadetes, apoiados avidamente pelos intelectuais mencheviques oportunistas, propagandeavam nos jornais e nos sindicatos o pânico iminente e histerizante de uma vitória esmagadora da extrema-direita (as Centenas Negras) caso os marxistas e os democratas não se submetessem de forma submissa e passiva à hegemonia eleitoral da oposição moderada desde a abertura das urnas. O leninismo expôs essa ruidosa manobra de bastidores argumentando cientificamente que o propalado “perigo reacionário” era frequentemente um espantalho inflado para coagir o proletariado a não defender seu programa máximo de derrubada do czarismo. Dividir os votos entre Cadetes e Social-Democratas nas capitais industriais, durante o escrutínio inicial de agitadores, não entregaria matematicamente o poder à direita feudal, mas forçaria a própria burguesia liberal a revelar sua verdadeira face covarde perante as massas, impedindo de forma contundente que os trabalhadores e camponeses empobrecidos fossem seduzidos pela fraude pacífica do constitucionalismo de gabinete.

Portanto, aqueles que tentam assustar os eleitores com a possibilidade de uma vitória das Centúrias Negras caso os Cadetes e os social-democratas dividam os votos, estão enganando o povo. As Centúrias Negras não têm como vencer em decorrência de uma divisão de votos entre os Cadetes e os social-democratas. Os Cadetes espalham deliberadamente boatos falsos sobre o “perigo das Centúrias Negras” para dissuadir os eleitores de votarem nos socialistas[41].

Em vez de ceder ao pavor paralisante imposto pelo monopólio da imprensa burguesa, a tática proletária autêntica demandava audácia cívica e coragem militar para enfrentar os liberais e a extrema-direita simultaneamente, forçando assim a agudização e a radicalização inevitável da disputa de classes. Ao assumir os altíssimos riscos de um combate eleitoral “triangular” e inclemente na primeira etapa, o partido organizado da classe operária educava politicamente as vastas massas oprimidas para não confiarem na vã estabilidade oferecida pelos doutores constitucionais. Lênin advertia categoricamente que a política lastreada no pavor institucional — a qual preconizava a entrega precoce da liderança intelectual e eleitoral aos liberais sem que um único golpe fosse sequer desferido nas urnas de votação — constituía uma rendição vergonhosa e suicida. O autêntico marxista não deve de modo algum se deixar intimidar pelos gritos dos liberais reformistas; ele deve calcular materialmente que, a divisão independente de votos no primeiro turno resulte esporádica e infelizmente na eleição de um candidato da nobreza pogromista e reacionária num ou noutro distrito, tal revés aritmético é amplamente neutralizado e compensado pelo grandioso despertar da consciência democrática e socialista das massas camponesas nas demais províncias, consolidando irrevogavelmente a estatura inabalável do proletariado como força dirigente autônoma.

[Existem duas linhas na política da classe operária: a linha liberal — que teme acima de tudo a eleição de um reacionário e, por isso, entrega a liderança ao liberal sem lutar! E a linha marxista — que não se deixa abater pelos gritos liberais sobre o perigo de uma vitória das Centúrias Negras, mas mergulha audaciosamente em uma disputa triangular, “de três lados” (para usar a expressão inglesa “three-cornered”). Como regra geral, não há perigo de as Centúrias Negras saírem vitoriosas. E se, em casos excepcionais, um candidato das Centúrias Negras for eleito, isso será compensado pelo fato de que, aqui e ali, democratas também serão eleitos!…[42]

A recusa inflexível e audaz do primeiro turno, contudo, converte-se de maneira estritamente dialética e tática na necessidade inelutável e pragmática do compromisso no segundo turno (nas rodadas de segundo escrutínio ou nas complexas assembleias de delegados eleitorais para a Duma). Quando o severo filtro matemático das eleições afunilava dramaticamente a disputa e a concreta correlação de forças impunha uma opção direta, binária e inescapável entre os representantes cruéis da extrema-direita pogromista (facções octobristas e Centenas Negras aliadas ao governo) e os liberais burgueses (partido Cadete), o leninismo prescrevia de forma pragmática a relativização da independência partidária em prol da derrota física e política da autocracia instalada. Neste cenário adverso e de gravidade extrema, o boicote puro, o sectarismo ideológico ou a abstenção vaidosa constituiriam atitudes criminosas que materialmente favoreceriam de forma imediata o esmagamento institucional de todas as incipientes forças de oposição democrática. A orientação estrutural exigia que os marxistas esgotassem primeiramente qualquer possibilidade de alianças com os grupos democrático-radicais e camponeses (Trudoviques); mas, falhando estas em deter os conservadores, o proletariado tinha o rigoroso dever histórico de firmar arranjos eleitorais pontuais, compartilhar assentos e transferir ativamente seus votos para os próprios liberais vacilantes, assegurando pelos meios disponíveis nas urnas que o mal absolutista mais perigoso e sufocante fosse concretamente extirpado da máquina do Estado.

(6) No segundo estágio das eleições (nas assembleias de delegados de uyezd, nas assembleias de eleitores de gubernia, etc.), onde quer que se mostre fundamental para garantir a derrota de uma lista outubrista-Centúrias Negras ou de uma lista governista em geral, deve-se firmar um acordo para a divisão de cadeiras, prioritariamente com os democratas burgueses (Trudoviks, Socialistas Populares, etc.) e, em seguida, com os liberais (Cadetes), independentes, progressistas, etc.] [43]

A extensão lógica e orgânica dessa mesma disciplina dialética era rigorosamente aplicada na condução diária e exaustiva da pequena bancada bolchevique dentro do reacionário parlamento do Império (Duma). Uma vez que as condições objetivas de refluxo obrigassem os deputados a cruzar as pesadas portas do edifício legislativo burguês, os eleitos pela classe operária perdiam instantaneamente o direito ao isolacionismo romântico e à indignação meramente verbal, panfletária ou estética contra os conluios dos liberais com a coroa. O parlamento censurado representava, na realidade, um agudo microcosmo da guerra implacável de classes, no qual jogar ativamente uma fração da classe dominante exploradora contra a outra convertia-se em um dever tático irrenunciável e vital da minoria socialista ali entrincheirada. Caso uma pauta ou votação de mesa crucial opusesse um liberal moderado, cínico e temeroso, ou até um político aristocrata vira-casaca, contra um pilar reacionário e pogromista convicto do czarismo, Lênin instruía seus quadros com a máxima clareza que a bancada operária era obrigada pelas duras circunstâncias a engolir as próprias críticas por um momento e sustentar ativamente o representante do mal menor. O revolucionário submete-se ao jogo do parlamento burguês não para glorificá-lo, mas para manobrar implacavelmente as regras inimigas em defesa das liberdades civis mínimas necessárias à sobrevivência e à expansão subterrânea da agitação das ruas.

As formidáveis e custosas lições teóricas auferidas de toda essa colossal sucessão de acertos táticos e correções programáticas na imensidão russa forjaram e moldaram integralmente as definitivas diretrizes de intervenção dos partidos da jovem Terceira Internacional (Comintern) nos explosivos anos europeus que se seguiram à carnificina da Primeira Guerra Mundial. Defrontando-se ativamente com a brutal escalada repressiva do grande capital financeiro monopolista e com o acelerado surgimento das hostes protofascistas (ou ditaduras de direita) que agora ameaçavam aniquilar fisicamente a integridade e as conquistas históricas elementares do movimento sindical operário internacional, o movimento comunista foi guiado e advertido incansavelmente por Lênin a superar os sectarismos pueris rumo à vital política de Frentes Únicas. Esta tática engenhosa e complexa prescrevia com rigor a elaboração de apelos insistentes, e a proposição firme e contínua de amplas alianças práticas, marchas e ações conjuntas, até mesmo com os líderes recalcitrantes, traidores e reformistas da Segunda Internacional que haviam renegado os dogmas marxistas para sustentar as oligarquias em 1914. A urgência material, tática e defensiva de unificar por completo a base do tecido social da classe trabalhadora contra as metralhadoras do fascismo e contra a espoliação cruenta da alta burguesia desbancava e fulminava por completo quaisquer vaidades e escrúpulos pseudorrevolucionários isolacionistas; afinal, exigir que a vanguarda comunista lutasse heroica e separadamente até o fim para preservar sua identidade orgânica imaculada diante de um adversário armado que pretendia varrer com a mesma fúria a liberdade civil e os operários de todos os tons políticos representava nada menos do que um desastre irresponsável e uma cumplicidade objetiva gravíssima com o morticínio patrocinado pelas fileiras do capital.  “O propósito e o sentido da tática da frente única consistem em atrair cada vez mais massas de trabalhadores para a luta contra o capital, mesmo que isso signifique fazer propostas repetidas aos líderes das Internacionais II e II ½ para travarem essa luta juntos”[44].

A paciente e sistemática edificação dessas frentes práticas de combate, incluindo o doloroso e pragmático apoio tolerante e crítico a certos governos parlamentares reformistas ou social-democratas acovardados que porventura emergissem da instabilidade política de uma democracia burguesa ameaçada, encontrava a sua insubstituível e mais profunda justificação dialética no imenso e contínuo valor pedagógico atrelado à experiência política própria das grandes e hesitantes massas operárias urbanas e camponesas. A ciência da política leninista ensinava imperativamente que os milhões de trabalhadores na base e os pequenos proprietários rurais não se curam repentina ou milagrosamente de suas antigas e enraizadas ilusões em relação aos mecanismos do Estado parlamentar civil apenas por conta das contundentes exortações literárias extremistas disparadas em editoriais ou por intermédio de denúncias panfletárias raivosas redigidas pela intelectualidade da vanguarda clandestina. Pelo contrário, Lênin demonstrava de maneira inexorável que, se as vastas camadas dos trabalhadores dos grandes centros industriais das nações mais ricas ainda depositam ilusoriamente a sua sincera esperança e total confiança em determinados líderes moderados, liberais reformistas ou oportunistas de carreira eleitoral, os quadros dirigentes e disciplinados do Partido Comunista encontram-se rigorosamente obrigados pela lei do materialismo prático a compor uma tática elástica com o inimigo oculto, forjando uma aliança temporal que englobe a dura tolerância e implique a rigorosa renúncia à tentativa imediata e intempestiva de derrubada golpista ou violenta de tais gabinetes burgueses supostamente aliados. Este angustiante e calculado recuo estratégico fornece e garante, dentro do complexo tabuleiro da correlação das classes em conflito, o tempo histórico irrevogável e o palco político indispensável para que essas mesmíssimas massas oprimidas testemunhem ocularmente e sofram na própria pele e nas restrições de suas rações econômicas cotidianas a inevitável covardia sistêmica, a inépcia governamental, as promessas irreais e a irrefutável falência administrativa e policial de seus falsos e aclamados ídolos burgueses no trato rotineiro da máquina opressora do poder de Estado. Apenas e tão somente por meio do esmagador peso corrosivo dessa experiência prática direta e desastrosa com as vacilações de um governo supostamente “progressista” e reformista é que as multidões se convencerão integralmente de sua cegueira pregressa, livrando-se das teias enganosas lançadas pela imprensa e rompendo de modo violento, explosivo e definitivo com os resquícios dogmáticos remanescentes de qualquer espécie de menchevismo, liberalismo de fachada ou da pacífica escola do kautskismo europeu.

Isso constitui terreno suficiente para um compromisso, que é realmente necessário e deve consistir em renunciar, por um determinado período, a qualquer tentativa de derrubada violenta de um governo que goze da confiança da maioria dos operários urbanos. No entanto, na agitação cotidiana de massas, onde não se está atado às formalidades parlamentares oficiais, pode-se, naturalmente, acrescentar: “Deixem que canalhas como os Scheidemanns e filisteus como os Kautskys e Crispiens revelem por meio de suas ações como foram feitos de bobos e como estão fazendo os operários de bobos…”[45]

Conclui-se, de forma resoluta e fundamentada em todo o vasto cabedal do arcabouço sociológico, de que a formidável odisseia do movimento operário internacional, que viaja impetuosamente do glorioso chamamento ao boicote das barricadas nos períodos de conflagração revolucionária febril até às complexas, intrincadas e minuciosas manobras operadas nas urnas com o famigerado, sujo e polêmico voto útil a favor de supostos adversários, ratifica que a indômita flexibilidade tática da classe operária é um corolário irrevogável da lei material e dialética de combate à opressão. Manobrar pelos vales estreitos da lei formal, promover severos mas ordenados recuos institucionais diante do terror das tropas autocráticas, travar difíceis e indigestos arranjos partidários calculados rigorosamente sobre os espólios obtidos nas sobras perigosas de um segundo escrutínio burguês fraudado pelo Estado para não ver reacender das cinzas a besta latifundiária da direita e firmar o gigantesco pacto político de ação cívica voltado intrinsecamente para amparar a constituição ampla e coesa de frentes únicas antifascistas de proporção internacional não consubstanciam e nunca representarão uma covardia moral, o rebaixamento intelectual ou uma vil e ignominiosa profanação vergonhosa dos elevados e perenes princípios sagrados estabelecidos pelo alicerce do farol orientador comunista. Toda essa vasta gama de dolorosos contorcionismos partidários expressa, ao revés, o mais esplêndido e superior grau orgânico e dialético de adaptação bélica, sociológica, intelectual e militar empregada pelos teóricos em nome unicamente do resguardo físico e da imperativa salvação contábil e tática do duramente castigado movimento global das grandes massas assalariadas contra as baionetas impiedosas de classes agoniadas. O imperativo de estabelecer rigidamente a blindagem e defender de corpo e alma e de maneira constante a inestimável independência orgânica, eleitoral e de redação partidária no primeiro impacto não pode e nunca deverá se transfigurar patologicamente no centro místico e gravitacional estanque, dogmático e puritano absoluto dos trabalhadores atados a ilusões anarquistas, devendo este pilar analítico subordinar-se inflexivelmente unicamente ao foco motor primário, estrutural e imorredouro de todo e qualquer materialismo contemporâneo: o alcance implacável, tático e sem tréguas da ditadura revolucionária final do amplo e avassalador operariado produtivo da fábrica e da lavoura que inevitavelmente destronará as opressivas velhas instituições civis em sua totalidade de domínio histórico inegável de castas sociais. A cega e altiva renúncia verbal e apriorística por parte de teóricos pseudorrevolucionários isolacionistas e moralistas inoperantes à participação em conturbadas e repugnantes alianças institucionais provisórias do cenário oficial da política das instituições e parlamentos tolerados e concedidos pelas burocracias sob crises agudas ou a ruidosa e irredutível oposição sectária estéril dirigida enfática e sistematicamente contra todos os vitais e imprescindíveis incômodos acordos cívicos e parlamentares sujos forjados nas tensões extremas de um agudo e crucial momento social emergencial de guerra cujo objetivo único e restrito seja esmagar matematicamente a ascensão sanguinária e destrutiva de cruéis forças predatórias de uma brutal nobreza ou a violência bestial dos camisas negras das tropas do fascismo incipiente revelam incontestavelmente nos seus propagadores extremistas uma infantil, imperdoável e deplorável ausência e lacuna crônica generalizada do básico instinto vital de pragmatismo, manobra civil, inteligência dialética combativa e sobrevivência orgânica, um divórcio cego e estapafúrdio irremediável totalmente distanciado, oposto e alheio à verdadeira sabedoria analítica encarnada e legada pela complexa, brilhante e inesgotável matriz e essência profunda da vigorosa doutrina científica proletária emancipatória para a qual o compromisso circunstancial não mata o ideal, e onde o voto no oponente brando atua muitas vezes não como aceitação dócil dos fundamentos daquele programa burguês reformista que é defendido pelos liberais moderados e hipócritas coniventes com o czar, mas como uma pesada âncora provisoriamente acoplada para amarrar, neutralizar de imediato as forças da direita e viabilizar em seguida a livre rota tática agressiva e a tempestade de fogo iminente na longa jornada e engrenagem preparatória de propaganda rumo ao domínio inconteste das armas e ideias revolucionárias pelas esquinas e mentes populares das cidades submetidas e campos de produção em vasta rebelião organizada pelo comitê diretivo do partido de vanguarda e de aço indestrutível. “Portanto, para o proletário consciente de sua classe, a tática eleitoral só pode ser uma adaptação da sua tática geral a uma luta específica, a saber, a luta eleitoral; sob nenhuma circunstância isso implica uma mudança nos princípios de sua tática ou o deslocamento do “centro” dessa tática”[46].

A formulação da política de alianças e a flexibilidade tática no seio do materialismo histórico e dialético representam, indubitavelmente, a antítese do purismo sectário e dogmático. Na tradição marxista-leninista, a independência política e ideológica da classe operária é o vetor central e inegociável da revolução. Todavia, essa mesma independência jamais deve ser confundida com um isolacionismo estéril e imutável. Quando o proletariado se defronta com um inimigo de classe formidável e de brutalidade letal — como a autocracia feudal, a extrema-direita sanguinária ou o fascismo emergente —, a recusa apriorística em estabelecer acordos com frações menos reacionárias constitui uma traição aos interesses das massas. O Partido Bolchevique forjou a sua hegemonia justamente ao compreender que o distanciamento da “pureza” do programa socialista, em momentos de encruzilhada institucional, não implicava a dissolução da sua organização. A regra magna era a atuação autônoma, mas que, diante de assimetrias violentas e forças desproporcionais de repressão, permitia à vanguarda curvar temporariamente suas exigências. “Em suas táticas eleitorais gerais, os social-democratas devem tomar como ponto de partida a completa independência do partido de classe do proletariado revolucionário. Este princípio geral só pode ser abandonado em casos de extrema necessidade e sob condições especialmente limitadas.”[47]

Apesar da rigidez dessa regra, o materialismo repudia a fixação em dogmas; a teoria previu as raríssimas, porém possíveis, exceções onde até mesmo no primeiro turno o voto em aliados temporários era imperativo. A primeira hipótese excepcional elencada por Lênin de uma frente eleitoral inicial residia na possibilidade de uma radicalização objetiva da própria burguesia ou das alas camponesas. Se correntes liberais ou democratas abandonassem os limites da legalidade e se alinhassem com um programa revolucionário contra as fundações da ditadura czarista (como os Socialistas-Revolucionários propunham na época), a frente política tornava-se justificada imediatamente. Nesse contexto, a prioridade máxima da destruição do regime escravocrata permitia a formulação de blocos pragmáticos no estágio inicial das eleições.

Ademais, suponhamos um caso em que as ‘tendências liberais ou liberal-democráticas’ declarem clara e inequivocamente que, em sua luta contra a autocracia, se alinharão resolutamente com os Socialistas-Revolucionários. Tal suposição é muito menos improvável do que a do camarada Starover… Acordos temporários são permissíveis com os Socialistas-Revolucionários… e, consequentemente, com os liberais que se aliam aos Socialistas-Revolucionários.”[48]

A segunda exceção estrita que justificava abolir a independência no primeiro turno ocorria em sistemas que não possuíam segundo turno ou repescagem e onde o perigo reacionário era matematicamente esmagador. Estas situações são particularmente parecidas com a conjuntura brasileira. Nas assembleias onde a votação era decidida em etapa única e a aristocracia feudal gozava de alto poder de mobilização nos distritos, a divisão entre os votos do partido da classe operária e os votos liberais entregaria o poder automaticamente às Centenas Negras. Lênin não fechava os olhos para essa armadilha institucional: admitia francamente que a ausência do segundo escrutínio transformava a multiplicidade de candidaturas em uma ferramenta letal que devolvia as rédeas do Estado para as facções mais retrógradas da coroa, exigindo manobras imediatas.

Nas cidades, em cada área eleitoral (distrito, etc.), enfrentamos uma grande massa de eleitores. Existe, indubitavelmente, o perigo de dividir os votos. Não se pode negar que, nas cidades, os eleitores das Centúrias Negras podem ser eleitos em alguns lugares exclusivamente devido à ausência de um ‘bloco das Esquerdas’, exclusivamente porque, digamos, os social-democratas podem desviar parte dos votos dos cadetes. [49]

Para evitar o aniquilamento do campo democrático nessa conjuntura institucional sem segundo turno, o mecanismo marxista aplicável e obrigatório não era a abstenção vaidosa, mas a negociação explícita de uma chapa comum desde o princípio. Sentar-se à mesa com os representantes do liberalismo para forjar uma distribuição proporcional dos assentos em uma lista mista de delegados tornava-se o único método defensivo exequível. Em vez de concorrer à toa, o partido revolucionário se comprometeria a convocar seus militantes a endossar também os nomes cadetes, sob o acordo prático e de sobrevivência mútua desenhado antes do pleito para esmagar os candidatos fiéis do absolutismo monárquico.

Foi justamente o conjunto monumental dessas retificações e constatações históricas que serviu de alicerce para que Lênin instruísse a Internacional Comunista a edificar a inadiável tática de Frentes Únicas Operárias no Ocidente. Ante as matilhas fascistas nascentes na Europa, que ameaçavam trucidar indistintamente tanto os comunistas quanto os operários de correntes moderadas, o isolacionismo virou um passaporte para a cova. Lênin exortou os partidos da Terceira Internacional a forjarem urgentes pactos de ação mútua, acordos e alianças de combate, engolindo o sectarismo para atrair até mesmo os traidores contumazes da social-democracia (da Segunda Internacional) com o intuito de salvar os alicerces físicos do movimento trabalhador do aniquilamento pela grande burguesia e pelo militarismo direitista.  “O propósito e o sentido das táticas da frente única consistem em atrair cada vez mais massas de trabalhadores para a luta contra o capital, mesmo que isso signifique fazer ofertas repetidas aos líderes da II e II 1/2 Internacionais para travar essa luta juntos.”[50]

Evidencia-se, assim, pela força demolidora de todo esse acervo literário e documental do socialismo científico, que a política proletária exige da vanguarda não uma inflexibilidade passiva diante de abismos e eleições injustas, mas um manuseio frio e arguto da institucionalidade a fim de fracionar e devorar os inimigos um a um. Frentes únicas provisórias, votos utilitários e a submissão momentânea a chapas conjuntas com liberais burgueses não indicam o arrefecimento das metas anticapitalistas, mas tão somente a engenhosa e complexa instrumentalização tática adotada pelos operários em cenários hostis para pavimentar material e indubitavelmente a estrada até a dominação definitiva do Estado. “Portanto, para o proletário com consciência de classe, a tática eleitoral só pode ser uma adaptação da sua tática geral a uma luta particular, a saber, a luta eleitoral; sob nenhuma circunstância isso implica uma mudança nos princípios de sua tática, ou a mudança do ‘centro’ dessas táticas.”[51]

O entendimento estratégico passava pela constatação de que a influência dos cadetes não repousava na força física ou no engajamento militar violento em barricadas, mas essencialmente no parasitismo intelectual urbano. A teoria revolucionária russa constatou que a dita “força” dos cadetes não é de modo algum a força material de combate das massas burguesas ou do vasto campesinato, e muito menos a opressiva força econômica e financeira da classe dos grandes proprietários de terras ligada às Centenas Negras, mas tão somente a engenhosa força ideológica e parlamentar da intelectualidade burguesa atuando como líder usurpador.

Em uma revolução burguesa, os social-democratas não podem deixar de apoiar a democracia burguesa: essa é a premissa principal de Plekhanov e seus semelhantes; e dessa premissa eles tiram a conclusão direta e imediata da necessidade de apoiar os Cadetes [Partido Constitucional Democrata]. Mas nós dizemos: a premissa está certa, mas a conclusão não vale nada, pois ainda temos que apurar quais partidos ou tendências agora representam a força da democracia burguesa que é realmente capaz de lutar. Os Cadetes, os Trudoviques, os Socialistas-Revolucionários são todos “democratas burgueses” do ponto de vista marxista, isto é, da única análise científica. A “força” os Cadetes não é a força de luta das massas burguesas (o campesinato, a pequena burguesia urbana), não é a força econômica e monetária da classe latifundiária (as Centúrias Negras) ou da classe capitalista (os Outubristas): é a “force” da intelectualidade burguesa, que não é uma classe econômica independente e, portanto, não é uma força política independente; consequentemente, é uma “força” usurpada, que depende da influência da intelectualidade burguesa sobre outras classes que ainda não elaboraram uma ideologia política clara e independente própria, e que se submetem à liderança ideológica da intelectualidade burguesa; é fundamentalmente a “força” daquelas opiniões errôneas sobre a natureza da democracia e os métodos de luta por ela que a intelectualidade burguesa propaga e cultiva entre as massas burguesas.[52]

A famosa competição eleitoral e legalista que travavam contra as classes puramente latifundiárias era apenas uma disputa burocrática superficial por espaço de poder dentro do mesmo Estado burguês-monárquico. A hostilidade institucional dos Direitistas reacionários e dos Outubristas acomodados em relação aos Cadetes é de uma natureza sociológica toda peculiar, visto que, enquanto os democratas verdadeiros buscam aniquilar as elites opressoras, os Cadetes desejam docilmente apenas forçá-las a descer um único degrau na escada política, convertendo o embate social em uma mera luta civilizada pelos cargos mais altos e em uma rivalidade burocrática quanto aos melhores métodos de conquistar, governar e domesticar a mesma velha maioria burguesa e latifundiária já estabelecida.

Tudo o que os Cadetes buscam é se adaptar ao mesmo regime, mas de uma forma ligeiramente diferente; essa é a substância de sua política, a política da burguesia liberal. E é essa competição com os Outubristas, a luta para ocupar o lugar deles, que confere à luta dos Cadetes sua “mordacidade” peculiar. Isso explica a hostilidade especial da direita e dos Outubristas em relação aos Cadetes; é uma hostilidade de um tipo especial: “aqueles sujeitos” (los democratas) querem aniquilá-los, enquanto “estes sujeitos” (os Cadetes) querem empurrá-los um degrau abaixo na escada; a primeira perspectiva exige uma luta de princípios irreconciliável, exige uma luta de vida ou morte; a segunda perspectiva implica uma disputa pelos cargos mais altos, um combate na esfera da intriga, uma rivalidade quanto aos métodos de conquistar a mesmíssima maioria latifundiária e burguesa, ou de ganhar a confiança do mesmíssimo velho regime.[53]

A análise lúcida dessas vastas superestruturas revelava o gigantesco abismo de civilização entre um constitucional-democrata de gabinete e as hostes militarizadas, assassinas e pogromistas do regime dos czares. A essência de classe dessa constatação decreta, na literatura do próprio partido proletário, que a diferença vital entre os Senhores Constitucionalistas-Democratas e o movimento real dos Social-Democratas consiste precisamente na monumental distinção pragmática entre os nacional-liberais puramente verbais e os democratas revolucionários e consistentes.

Esse é o cerne da questão, o ponto crucial do problema! Alguns exemplos vão deixar nossa ideia bem clara. Nós acusamos os liberais, os Cadetes, de serem contrarrevolucionários. Mostre-nos uma única de nossas acusações desse tipo que não recaia com força ainda maior sobre a direita. Nós acusamos os libelines de “nacionalismo” e “imperialismo”. Mostre-nos uma única de nossas acusações desse tipo que não seja direcionada com força ainda maior contra a direita. [54]

A ilusão pacífica reformista de forjar um enorme bloco acrítico de todas as forças de oposição baseava-se numa miopia teórica verdadeiramente deplorável. Os ideólogos mencheviques da conciliação acreditavam ingenuamente na utopia de que bastava agrupar rótulos parlamentares anti-czaristas, o que levou a liderança bolchevique a advertir que o simples ato de imaginar passivamente que todas as classes e inúmeros partidos que lutam no papel pela liberdade política têm pura e simplesmente de trabalhar de mãos dadas para alcançá-la, na verdade significa confessar uma tremenda cegueira, enxergando apenas a reluzente superfície política dos acontecimentos e varrendo para debaixo do tapete o abismo econômico subjacente das classes.

Esta política é oportunismo. A vitória da social-democracia na presente revolução russa é perfeitamente possível. É nosso dever inspirar todos os partidários do partido operário com confiança nesta vitória; é impossível lutar com sucesso se renunciamos à vitória de antemão.

Estas verdades simples e óbvias, que foram obscurecidas pelo sofisma e pelo escolasticismo de Plekhanov, devem ser ponderadas e dominadas por todo o nosso Partido.

(3) Imaginar que “todas as classes e partidos que lutam pela liberdade política têm simplesmente que trabalhar juntos para alcançá-la” significa “ver apenas a superfície política dos acontecimentos”. Esta é a terceira justificativa do bolchevismo. A mera referência ao fato de que os Cadetes “estão lutando pela liberdade à sua própria maneira” não é suficiente para justificar uma ação conjunta com eles. Este é o ABC do marxismo, que Plekhanov, Axelrod e seus admiradores obscureceram temporariamente.[55]

Para a impiedosa ala revolucionária, todo esse tortuoso discurso que brandia a ameaça imediata do triunfo reacionário absoluto como falso pretexto moralista para a unificação forçada das listas eleitorais da oposição não passava de uma cortina de fumaça indigna de um operário. Ficava translúcido para os analistas perspicazes que todo aquele surrado argumento escudado no perigo reacionário não passava, no fim das contas, de uma peça de escandalosa hipocrisia, arquitetada de cima a baixo estritamente com a lamentável intenção de ocultar aos olhos do povo a sórdida barganha oportunista por cadeiras parlamentares que, às escondidas, estava ocorrendo entre os intelectuais mencheviques e os próprios representantes liberais cadetes.

Todo esse argumento é uma pura hipocrisia que visa encobrir a barganha por cadeiras que está ocorrendo entre os mencheviques e os cadetes.

De fato, basta pensar no que os mencheviques estão dizendo: um acordo entre os social-democratas e os trudoviques aumentará o perigo das Centúrias Negras, pois desviará muitos votos dos cadetes! Muito bem, meus caros camaradas! Mas quando, na opinião de vocês, o perigo de uma vitória das Centúrias Negras é maior — quando todos os votos que não são das Centúrias Negras estão divididos entre duas listas eleitorais ou quando estão divididos entre três? Suponhamos que as Centúrias Negras tenham 1.000 votos e o restante tenha 2.100. Quando o perigo de uma vitória das Centúrias Negras é maior: quando esses 2.100 votos estão divididos entre duas listas ou quando estão divididos entre três?

Os trinta e um mencheviques podem recorrer a qualquer estudante de escola para ajudá-los a resolver esse problema tão quebra-cabeça.

Mas vamos prosseguir. Os trinta e um mencheviques não estão apenas dizendo um absurdo completo quando fingem não entender que, se os social-democratas e os trudoviques chegarem a um acordo, haverá apenas duas listas contra as Centúrias Negras em São Petersburgo, enquanto, se não houver tal acordo, poderá haver três. Mas isso não é tudo.

Além disso, os trinta e um mencheviques são tão ignorantes a respeito da história das primeiras eleições que não conhecem a proporção relativa de votos das Centúrias Negras e dos cadetes nas eleições de São Petersburgo para a Primeira Duma. Nós não tiramos ao acaso esses 1.000 votos para as Centúrias Negras e 2.100 para os demais. Esse exemplo foi típico de nove dos doze distritos de São Petersburgo nas eleições para a Primeira Duma!

Nesses nove distritos, que juntos elegeram 114 eleitores de um total de 160, a votação mais baixa dos cadetes foi mais do que o dobro da votação mais alta recebida pelas Centúrias Negras, ou pelo chamado bloco da Direita.

O que isso mostra? Mostra que, se houver duas listas eleitorais de “Esquerda” (isto é, que não sejam das Centúrias Negras) em São Petersburgo, nenhuma divisão imaginável de votos entre as esquerdas poderá dar a vitória às Centúrias Negras. [56]

O abandono dessa precisão cirúrgica na formulação de qualquer acordo temporário resultava inquestionavelmente na morte prematura da crítica materialista e na diluição vergonhosa da independência partidária. O marxista possuía a missão vitalícia de desmascarar as forças materiais objetivas que financiavam e guiavam cada rótulo partidário, sob o aviso terrível de que, se o partido não se propusesse a demonstrar quais interesses vis de classes específicas eram dominantes no exato momento histórico em ditar a natureza dos vários agrupamentos liberais e de suas políticas de estado, então ele não estaria de fato aplicando o marxismo em parte alguma da realidade concreta e, em suma, teria já rejeitado e esquecido por inteiro a própria teoria da luta de classes que jurava defender.

Se você não demonstra os interesses de quais classes e quais interesses particulares são dominantes no momento para determinar a natureza dos vários partidos e de suas políticas, você não está aplicando realmente o marxismo e, de fato, rejeitou a teoria da luta de classes. Portanto, o termo “democrático-burguês”, da forma como você o utiliza, não passa de uma declaração platônica de respeito ao marxismo, já que o seu uso do termo não vem acompanhado da associação de tal tipo de liberalismo ou democracia com tais interesses próprios de camadas definidas da burguesia. Não é de admirar que os nossos liberais — a começar pelo Partido da Reforma Democrática e os Cadetes, e terminando com o grupo sem partido Bez Zaglaviya do jornal Tovarishch —, vendo que os mencheviques aplicam o marxismo dessa maneira, agarrem-se entusiasticamente à “ideia” da nocividade dos extremos do oportunismo e do revolucionarismo na democracia — agarrem-se a ela porque não se trata de forma alguma de uma ideia, mas sim de um clichê banal. É claro que não é o termo “democracia burguesa” que assusta o liberal. O que o assusta é a exposição, diante do povo, de a quais interesses materiais de quais classes ricas precisamente os programas e frases liberais se reduzem. Isso, e não o termo “democracia burguesa”, é o cerne da questão. Não é aquele que usa persistentemente o termo “democracia burguesa” para se proteger, como se estivesse fazendo o sinal da cruz, que está aplicando a teoria da luta de classes, mas sim aquele que mostra, na prática, como o caráter burguês de um partido se manifesta.[57]

Esta compreensão estrutural descia muito mais a fundo nas categorias econômicas ao exigir a separação sociológica categórica até mesmo na diferenciação entre a alta burguesia manufatureira cosmopolita e as alas da burguesia agrário-feudal conservadora do interior. Ao dissecar impiedosamente as graves falhas contidas nas formulações das teses reformistas — as quais empacotavam preguiçosamente toda a elite em uma única rubrica simplista de progresso burguês contra a autocracia —, observou-se claramente a olho nu que, ao discursarem levianamente sobre a classe inteira dos grandes fabricantes como bloco, os rascunhos de congressos mencheviques invariavelmente confundiam e aglutinavam as vitais subdivisões e os diversos grupos de interesse formados dentro da burguesia com o conjunto inteiro da classe operando em total uníssono.

A classe dos grandes industriais e comerciantes, que é mais reacionária do que em qualquer outro lugar”, lemos no rascunho, “necessita cada vez mais da proteção da autocracia contra o proletariado”…. Isso é falso; pois em nenhum lugar da Europa a indiferença da burguesia avançada em relação à forma autocrática de governo é tão evidente quanto em nosso país. O descontentamento com o regime autocrático está crescendo entre a burguesia, independentemente do seu medo do proletariado, em parte simplesmente porque a polícia, apesar de todos os seus poderes ilimitados, não consegue esmagar o movimento da classe operária. Ao falar de “uma classe” de grandes industriais, o rascunho confunde as subdivisões e grupos dentro da burguesia com toda a burguesia como uma classe. A incorreção é ainda mais patente pelo fato de que é precisamente a média e a pequena burguesia que a autocracia é menos capaz de satisfazer. [58]

Para coroar a validade imorredoura dessas diferenciações, Josef Stalin viria a ratificar firmemente essa exata e sábia postura tática leninista, defendendo nos anos de poder o legado colossal do pragmatismo dialético de sua formação partidária, que jamais enxergou o inimigo burguês como uma couraça inquebrável. A própria história provava empiricamente o acerto monumental dessa divisão estrita, cética e científica, pois, como o próprio Stálin sublinhou de forma pedagógica em seus textos de justificação da Nova Política Econômica, era um fato prático e de uma clareza inegável que Vladimir Lênin fazia ativamente e no terreno material a profunda diferença entre a velha escória, a nova burguesia e as alas de mencheviques e cadetes, chegando ao espantoso grau tático de admitir, contratar e utilizar economicamente os primeiros especialistas burgueses para alavancar a transição do país, tudo isso ao mesmo exato tempo e com a mesma firmeza com que propunha abertamente prender, punir e silenciar os últimos.

Não é um fato que Lênin fazia uma distinção entre a nova burguesia e os mencheviques e cadetes, permitindo e utilizando a primeira e propondo prender os segundos? Eis o que escreveu o camarada Lênin a esse respeito em seu ‘Imposto em Espécie’ (Prodnalog):

‘Não se deve ter medo do “aprendizado” dos comunistas com os especialistas burgueses, inclusive com os comerciantes, os capitalistas cooperadores e os capitalistas. Aprender com eles na forma de modo diferente, mas na essência da mesma maneira que aprendemos com os especialistas militares. Os resultados da “ciência” devem ser verificados apenas pela experiência prática: faça melhor do que os especialistas burgueses fizeram ao seu lado, saiba como alcançar de um jeito ou de outro o desenvolvimento da agricultura, da indústria e o desenvolvimento da circulação entre agricultura e indústria. Não poupe no pagamento “pela ciência”: não é uma pena pagar caro pela ciência, desde que o aprendizado seja proveitoso’ (Lênin, vol. XXVI, p. 352).” [59]

Em suma, toda essa tradição analítica colossal, inaugurada na recusa categórica e histórica de Marx e Engels às generalizações pueris de Lassalle, comprovada pela ciência política de Lênin e aplicada aos mecanismos da NEP por Stalin, demonstra como uma lei natural que o autêntico materialismo dialético não comporta fraseologias vulgares ou nivelamentos como “uma só massa reacionária”. Dissecá-los, mapeá-los e, apenas caso necessário, derrotar o maior mal com a sombra frouxa do menor, são lições táticas em que o revolucionário joga de cabeça fria os parasitas uns contra os outros.

Lênin argumentava que acusar os liberais cadetes de “meio pecado” (vacilação e covardia) era, por consequência, acusar a Direita de um “pecado inteiro” (reação brutal). E é aqui que reside a essência de uma crítica bem construída. Transportadas ao Brasil, significaria que toda crítica parcial ao petismo, por exemplo, seria uma crítica inteira ao bolsonarismo. Assim, apoiar o liberal contra o reacionário seria uma forma de “recorrer” da “meia-liberdade burguesa” para a “liberdade burguesa plena”, um estágio necessário para a luta final pelo socialismo. A recusa em apoiar os liberais durante as revoluções de 1905 e 1917 não se devia apenas à traição intrínseca da burguesia, mas ao fato de que, em uma situação revolucionária, os Cadetes atuavam materialmente como o freio de emergência da autocracia, tentando desviar a energia das massas das ruas para um parlamentarismo oco. Entretanto, Lênin admitia categoricamente que, uma vez esgotada a força do levante e consolidada a arena parlamentar como o único campo de manobra possível, o apoio ao liberal contra o reacionário absolutista (as Centenas Negras) tornava-se não apenas admissível, mas um dever tático para preservar as liberdades mínimas de organização proletária.

Nas cidades, em cada zona eleitoral, enfrentamos uma grande massa de votantes. Há, sem dúvida, o risco de fragmentação dos votos. Não se pode negar que eleitores das “Centúrias Negras” (extrema-direita) possam ser eleitos em alguns lugares exclusivamente pela ausência de um “bloco das esquerdas” — ou seja, porque os sociais-democratas podem desviar parte dos votos que iriam para os Cadetes. Recorde-se que, em Moscou, Guchkov recebeu cerca de 900 votos e os Cadetes cerca de 1.400. Se um social-democrata tivesse tirado 501 votos do Cadete, Guchkov teria vencido. É indubitável que o público levará esse cálculo simples em conta; terão medo de dividir o voto e, por isso, tenderão a votar apenas no candidato da oposição mais moderado. Teremos o que se chama na Inglaterra de uma luta “triangular” (three-cornered fight), na qual a pequena burguesia urbana teme votar em um candidato socialista para não tirar votos do liberal e permitir a vitória do conservador.[60]

É precisamente na mecânica dessa exceção apontada por Lenin que a conjuntura brasileira contemporânea se assenta. Onde o perigo das “Centúrias Negras” (Flavio Bolsonaro) deixa de ser um fantasma retórico liberal e torna-se um dado matemático real de vitória iminente da extrema-direita, o pragmatismo tático impõe-se. O poder de Fake News do bolsonarismo somado a ajuda internacional de Trump, mais a possibilidade ofensivas contra países como Cuba, podem elevar os votos da extrema direita no Brasil, e tornar arriscado demais uma candidatura independente. Num cenário de refluxo das massas e impossibilidade de vitória isolada contra forças fascistas baseadas nos setores mais reacionários do capital financeiro, a constituição de frentes deixa de ser uma opção e passa a ser o único meio inconteste de salvaguarda republicana. Sobretudo num cenário onde se sabe da existência de um plano da extrema direita da realização de campos de concetração. No Brasil atual, subestimar a dispersão de forças no primeiro turno contra figuras como Flávio Bolsonaro desconsidera o alerta leninista sobre os riscos da não fragmentação conservadora. Dar fôlego à extrema-direita por preciosismo ideológico, nessas condições, significa entregar posições-chave ao inimigo exatamente nos termos do desastre eleitoral que as massas urbanas russas tanto temiam.

Se na Rússia de 1906 Lenin identificava nesse cálculo um pânico liberal exagerado para sufocar a independência operária em meio a uma maré ainda revolucionária, a transposição dessa lógica para o Brasil contemporâneo exige uma calibração rigorosa da conjuntura. Diante de um cenário de refluxo das massas e defensiva estratégica, a tática se inverte. Quando a vitória é impossível sem a articulação com setores de centro contra um inimigo entrincheirado na extrema-direita — seja para salvaguardar as instituições republicanas, seja para barrar a ofensiva fascista dos setores mais reacionários do capital financeiro —, as frentes impõem-se como ferramentas de sobrevivência incontornáveis. Na atual conjuntura brasileira, subestimar a dispersão de forças no primeiro turno contra figuras como Flávio Bolsonaro não é apenas um erro tático; é dar fôlego ao golpismo, permitindo que a extrema-direita capture posições-chave por pura fragmentação da esquerda, materializando o exato perigo que as massas urbanas russas temiam nas eleições triangulares descritas por Lenin. A Superação do petismo virá conforme vitórias consecutivas da classe trabalhadora, como o fim da escala 6 x 1, permitirem um ascenso revolucionário que configure a chamada situação revolucionária.

A justificativa sistêmica para esse comportamento sempre residiu na distinção entre a “democracia revolucionária” (camponeses e operários) e a “democracia liberal” (burguesia), sendo que a segunda apenas busca reformas para evitar a revolução, enquanto a primeira busca a destruição total das bases do antigo regime. “Derrotar um adversário mais poderoso só é possível com a maior tensão de forças e com a obrigatória… utilização… de toda e qualquer oportunidade, mesmo a menor, de obter um aliado de massas, ainda que temporário, vacilante, instável, pouco confiável e condicional.”[61]

Referências

[1] ENGELS, Friedrich. Carta a August Bebel de 18-28 de março de 1875. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1991. v. 45, p. 61.

[2] ENGELS, Friedrich. Carta a Eduard Bernstein de 12-13 de junho de 1883. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1995. v. 47, p. 35.

[3] ver Marx e Engels, Obras Escolhidas, Vol. II, Moscou, 1958, pp. 25-26). p. 177. LENIN, V. I. A Retrograde Trend in Russian Social-Democracy. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1960. v. 4, p. 177.

[4] MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto of the Communist Party. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 6, p. 477-519.

[5] ENGELS, Friedrich. Letter to Gerson Trier, 18 December 1889. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 48, p. 423-426.

[6] ENGELS, Frederick. Revolution and Counter-Revolution in Germany In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 11, p. 85

[7] Idem. p. 86.

[8] Idem. p. 85.

[9] ENGELS, Frederick. Refugee Literature. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 24, p. 39

[10] Idem. Ibidem.

[11] ENGELS, Frederick. Introduction to Karl Marx’s ‘The Class Struggles in France, 1848 to 1850’ In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 27, p. 512

[12] Idem. p. 520.

[13] MARX, Karl. Preamble to the Programme of the French Workers’ Party. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 24, p. 340.

[14] Idem. P. 522.

[15] Idem, p. 523.

[16] MARX, Karl. Critique of the Gotha Programme. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 24, p. 95

[17] ENGELS, Frederick. OP CIT. v. 27, p. 191.

[18] ENGELS, Frederick. Introduction to Karl Marx’s ‘The Class Struggles in France, 1848 to 1850’. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 27, p. 513, 520.

[19] MARX, Karl. Minutes of the Committee Meeting of the Cologne Workers’ Association, February 15, 1849. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 8, p. 525.

[20] ENGELS, Friedrich. The Peasant War in Germany. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 10, p. 418.

[21] MARX, Karl. The Chartists. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 11, p. 335.

[22] ENGELS, Frederick. A Working Men’s Party. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010. v. 24, p. 404.

[23] ENGELS, Frederick. The English Elections. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Marx & Engels Collected Works. London: Lawrence & Wishart, 2010., v. 23, p. 612.

[24] ENGELS, Frederick. Letter to Friedrich Adolph Sorge, 14 February 1874. In: Marx & Engels Collected Works. Lawrence & Wishart. London, 2010, v. 45, p. 7..

[25] ENGELS, Frederick. Letter to Gerson Trier, 18 December 1889. IN: Marx & Engels Collected Works. Lawrence & Wishart. London, 2010, v. 48, p. 424.

[26] MARX, Karl. General Rules and Administrative Regulations of the International Working Men’s Association. In: Marx & Engels Collected Works. Lawrence & Wishart. London, 2010, v. 23, p. 3.

[27] LENIN, V. I. How Plekhanov Argues About Soc.-Dem. Tactics. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 10, p. 461.

[28] LENIN, V. I. Our Polemics Against the Liberals. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1963. v. 18, p. 125.

[29] LENIN, V. I. Against Boycott. In: Collected Works: Volume 13. Moscow: Progress Publishers, 1973. v. 13, p. 18.

[30] LENIN, V. I. Against Boycott. In: Collected Works: Volume 13. Moscow: Progress Publishers, 1973. v. 13, p. 20).

[31] LENIN, V. I. Theses of a Report Made at the St. Petersburg City Conference of July 8 on the Attitude of the Social-Democratic Labour Party to the Third Duma. In: Collected Works: Volume 13. Moscow: Progress Publishers, 1973. v. 13, p. 58.

[32] LENIN, V. I. The Victory of the Cadets and the Tasks of the Workers’ Party. In: Collected Works: Volume 10. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 10, p. 256.

[33] LENIN, V. I. The Second Duma and the Second Stage of the Revolution. In: Collected Works: Volume 12. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 12, p. 214.

[34] LENIN, V. I. The Boycott. In: Collected Works: Volume 11. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 11, p. 145.

[35] LENIN, V. I. “Left-Wing” Communism—An Infantile Disorder. In: Collected Works: Volume 31. Moscow: Progress Publishers, 1966. v. 31, p. 62.

[36] LENIN, V. I. “Left-Wing” Communism—An Infantile Disorder. In: Collected Works: Volume 31. Moscow: Progress Publishers, 1966. v. 31, p. 60-62.

[37] LENIN, V. I. Theses on the Fundamental Tasks of the Second Congress of the Communist International. In: Collected Works: Volume 30. Moscow: Progress Publishers, 1965. v. 30, p. 272.

[38] LENIN, V. I. Political Parties in Russia. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1963. v. 18, p. 230.

[39] LÊNIN, V. I. Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1966. v. 31, p. 72.

[40] LÊNIN, V. I. Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1962. v. 11, p. 296.

[41]LÊNIN, V. I. Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1962. v. 11, p. 50.

[42] LÊNIN, V. I. Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1963. v. 19, p. 560.

[43] LÊNIN, V. I. Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1963. v. 19, p. 470.

[44] LÊNIN, V. I. Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1970. v. 42, p. 411.

[45] LÊNIN, V. I. Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1966. v. 31, p. 110.

[46] LÊNIN, V. I. Collected Works. Moscou: Progress Publishers, 1962. v. 11, p. 458.

[47] LENIN, V. I. Draft Election Address. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 11, p. 296

[48] LENIN, V. I. One Step Forward, Two Steps Back. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1961. v. 7, p. 329.

[49] LENIN, V. I. Social-Democrats and Electoral Agreements. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 11, p. 284.

[50] LENIN, V. I. Proposal to the Draft Resolution for the Eleventh Party Congress on the Report of the R.C.P.(B.) Delegation in the Comintern. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1970. v. 42, p. 411.

[51] LENIN, V. I. Social-Democrats and the Duma Election. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 11, p. 458.

[52] LENIN, V. I. The Victory of the Cadets and the Tasks of the Workers’ Party. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 10, p. 380.

[53] LENIN, V. I. The Social-Democratic Group in the Second Duma. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1963. v. 17, p. 136.

[54]  LENIN, V. I. A Letter to the Editor. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1963. v. 19, p. 66.

[55] LENIN, V. I. The Victory of the Cadets and the Tasks of the Workers’ Party. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 10, p. 374.

[56] LENIN, V. I. The St. Petersburg Elections and the Hypocrisy of the Thirty-One Mensheviks. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 12, p. 38.

[57] LENIN, V. I. Fundamental Problems of the Election Campaign. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1963. v. 17, p. 498.

[58] LENIN, V. I. Draft Resolutions for the Third Congress of the R.S.D.L.P. In: Collected Works. Moscow: Progress Publishers, 1962. v. 8, p. 88.

[59] STALIN, J. V. Продналог (The Tax in Kind). In: Сочинения (Works). Moscow: Gospolitizdat, 1948. v. 9, p. 352.

[60] LENIN, V. I. Social-democratas e Acordos Eleitorais. Moscou: Editora Progresso, 1962. v. 11, p. 285).

[61] STALIN, I. V. Сочинения. Москва: ОГИЗ, 1948. v. 9, p. 210.