CIDADE DO MÉXICO, 22 DE JUNHO DE 1986. “LAS MALVINAS SON ARGENTINAS”
As Ilhas Malvinas foram exploradas por franceses e ingleses no século XVIII. Após a independência argentina, consolidada em 1816, o país passou a reivindicar e exercer administração sobre o arquipélago ao longo da década de 1820. Entretanto, com a invasão de 1833, o Império Britânico tomou posse e rebatizou a região de Ilhas Falklands.
Em 02 de abril de 1982, o ditador e general Leopoldo Galtieri autorizou a Operação Rosário para retomar o arquipélago. Reconhecer que as Malvinas, localizadas a 464 quilômetros do litoral argentino, fazem parte do país portenho é questionar um dos resquícios do imperialismo inglês sobre a América Latina. Contudo, a ditadura argentina iniciou um conflito, para o qual o país não estava preparado, a fim de resgatar as condições políticas para a sobrevivência do regime.
Como a luta anti-imperialista nunca ocorrerá com apoio de outra potência imperialista, os Estados Unidos – até então principal fiador da ditadura argentina – forneceram armamentos e apoio logístico aos ingleses. A derrota da Operação Rosário foi reconhecida em 14 de junho de 1982; o fracasso militar se somou ao isolamento nas relações internacionais e à queda da Ditadura.
O ocaso do regime militar não reparou os danos causados ao povo e deixou uma marca indelével na argentinidade – triste, é verdade – mas igualmente definidora da nacionalidade como o tango, o churrasco e o futebol.
Esse nó permaneceu na garganta por quatro anos e oito dias. Disse Maradona: “[…] como argentinos, não sabíamos o que os militares estavam fazendo. Eles nos disseram que nós estávamos vencendo a guerra. Mas, na realidade, a Inglaterra estava vencendo. Foi difícil. O clima da partida fez parecer que íamos jogar outra guerra.”
“Em 1986, vencer aquele jogo contra a Inglaterra era o suficiente. Vencer a Copa do Mundo era secundário para nós. Bater a Inglaterra era nosso verdadeiro objetivo” (Roberto Perfumo, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, em maio de 2002).
Aos seis minutos do segundo tempo, o primeiro milagre ocorreu: “Não era meu plano, mas a ação aconteceu tão rápido que o juiz de linha não me viu colocando a mão. O árbitro olhou para mim e disse: ‘Gol’. Foi uma sensação agradável, como uma espécie de vingança simbólica contra os ingleses”. Assim Maradona descreveu o lance eternizado como La mano de Dios.
Quatro minutos depois, o milagre mais bonito. Após arrancar do meio de campo e passar por seis adversários, Maradona fez 2 x 0 para a Argentina, com o chamado Gol do Século. Sobre essa beleza, Nery Pumpido testemunhou:
“[…] o Diego me pediu desculpas por não ter passado a bola para mim, que vinha acompanhando a jogada pelo outro lado. Tive de xingá-lo! Senti que estava me desrespeitando como futebolista. Além de ter feito tudo o que fez, ainda teve tempo de me ver?”
A Inglaterra descontou, mas a partida terminou em 2 a 1 para a Argentina. O nó estava desfeito.
O país que codificou as regras do futebol jamais produziu um jogador capaz de ocupar, no imaginário popular, o lugar alcançado por Maradona. Filho da periferia de Villa Fiorito, ele converteu um jogo de futebol em um episódio de afirmação nacional e redenção simbólica. Não se trata de atribuir às vitórias esportivas um poder político que elas não possuem, mas de reconhecer a capacidade do futebol de fortalecer identidades coletivas, produzir pertencimento e transformar memórias traumáticas em narrativas compartilhadas. Que nos digam a Fifa e os Estados Unidos ao censurar a camisa do Haiti.
Domingo, dia 14 de junho, perdemos Taty Almeida, dirigente das Madres da Plaza de Mayo- Linea Fundadora. Taty nasceu em 1930, oriunda de uma família de militares. Seu filho Alejandro, com 20 anos, foi sequestrado pela Triple A (Aliança Anticomunista Argentina), organização paramilitar que funcionava em instalações ministeriais argentinas.
Em 1979, Taty se junta às Madres da Plaza se Mayo. Em 1986, Taty se mantem na Linea Fundadora da organização. Desenvolveu, até o fim, a luta por Memória, Verdade e Justiça.
Para compreender a trajetória histórica da luta pelos direitos humanos na Argentina indicamos o documentário Madres de Plaza de Mayo – Memória, Verdade e Justiça, de Carlos Pronzato. O documentário foi premiado, em 2009, no Maiori Film Festival, da Itália: https://www.youtube.com/watch?v=QFFA0br9cks.
Taty Almeida, Presente!
Liga Comunista Brasileira – LCB
18 de junho de 2026