LUIZ CARLOS PRESTES, A PERESTROIKA E A DISPUTA PELA RENOVAÇÃO DO SOCIALISMO (1985-1990)
Por Celso Fernandes Prestes
1. Introdução
Entre 1985 e 1990, Luiz Carlos Prestes viveu os últimos anos de sua trajetória em um contexto de crise do socialismo real e de redemocratização brasileira. Este texto parte de uma perspectiva de defesa crítica da experiência soviética: reconhece suas conquistas, defende seu legado histórico, mas sem transformar sua história em hagiografia.
A crítica desenvolvida aqui não pretende funcionar como acusação contra a experiência soviética, nem como defesa incondicional de todos os seus aspectos. Ao contrário, parte de sua defesa histórica: compreender as contradições que levaram à sua derrota e à restauração capitalista é condição para defender suas conquistas e pensar a renovação do socialismo. Somos advogados da experiência soviética, não seus promotores cegos.
A hipótese central é que Prestes recebeu a Perestroika como um conceito em disputa, a partir das informações disponíveis naquele momento. Seu apoio não foi adesão à restauração capitalista, mas uma tentativa, historicamente equivocada e ao mesmo tempo compreensível, de interpretar a reforma soviética a partir de sua própria concepção de renovação socialista.
É fundamental registrar as condições concretas em que Prestes acompanhava aqueles acontecimentos. Ele estava no Brasil, sem acesso aos documentos internos do PCUS e às disputas reservadas de sua direção. Suas principais fontes eram a imprensa soviética, especialmente a Pravda, seus contatos na União Soviética e as informações que chegavam publicamente ao Brasil. Prestes desconfiava da imprensa burguesa e não dispunha de fontes independentes equivalentes às que posteriormente permitiriam reconstruir o processo com maior distância histórica.
Um exemplo dessa limitação aparece quando, em uma intervenção pública, Prestes reconheceu não possuir informações próprias suficientes sobre a situação chinesa, afirmando que as informações que recebia sobre a China provinham dos soviéticos. Esse episódio ajuda a compreender as condições informacionais nas quais também interpretava os acontecimentos soviéticos.
Isso não elimina sua responsabilidade intelectual diante de suas avaliações. Mas impede que seu posicionamento seja analisado como se ele tivesse acesso, em 1986 ou 1987, ao conhecimento que hoje possuímos sobre o desfecho da Perestroika.
2. Prestes depois da ruptura com o PCB
A posição de Prestes nos anos 1980 deve ser compreendida a partir de sua ruptura com a direção do PCB, expressa na Carta aos Comunistas, de 1980. A ruptura organizativa não significou o abandono de sua concepção revolucionária do socialismo.
Prestes continuou defendendo a transformação socialista, a soberania nacional, a luta contra o imperialismo e a necessidade de uma política vinculada aos interesses dos trabalhadores.
Este trabalho não se filia a nenhum agrupamento que posteriormente reivindicou ser continuador de Prestes. Utiliza como fontes primárias as entrevistas e os documentos públicos de Prestes no período, reunidas em: ROLIM, Gustavo Koszeniewski (Org.). Herança, esperança e comunismo: Luiz Carlos Prestes e o movimento comunista brasileiro — documentos (1980–1995). Marília: Lutas Anticapital, 2020.
3. A União Soviética como referência, não como autoridade automática: o caso da Polônia
A relação de Prestes com a União Soviética não pode ser reduzida à ideia de obediência automática.
A URSS ocupava um lugar fundamental em sua concepção da revolução mundial. Entretanto, isso não significava considerar todas as experiências socialistas ou todas as decisões soviéticas como necessariamente corretas.
O exemplo da Polônia é significativo. Prestes formulava críticas importantes à experiência polonesa, especialmente em relação ao desenvolvimento econômico e à questão agrária. Ao mesmo tempo, diante da ofensiva do Solidariedade e das forças anticomunistas, defendia a continuidade do governo socialista.
Sua posição demonstrava que era possível criticar uma experiência socialista sem aderir às forças que pretendiam destruí-la.
A mesma questão aparece na relação com Cuba. Prestes defendeu simultaneamente a experiência soviética e a Revolução Cubana. Cuba desenvolveu, a partir de 1986, seu próprio Processo de Retificação de Erros, procurando corrigir problemas de sua experiência sem reproduzir integralmente o caminho que seria seguido pela União Soviética.
A defesa simultânea dessas experiências é importante porque demonstra que Prestes não compreendia o socialismo como uma fórmula única. Diferentes países enfrentavam condições históricas distintas e podiam desenvolver caminhos próprios.
4. O XX Congresso e a necessidade de uma análise histórica
Prestes foi impactado pelas resoluções do XX Congresso do PCUS, como aparece em sua entrevista ao programa Roda Viva, em 28 de outubro de 1986.
A crítica aos problemas ocorridos no processo de construção socialista não exige adotar uma leitura segundo a qual toda a história soviética anterior ao XX Congresso deveria ser simplesmente condenada.
A experiência soviética anterior a 1956 foi marcada por contradições profundas. Houve graves erros e deformações políticas que precisam ser estudados historicamente. Mas também houve transformações econômicas e sociais extraordinárias, a industrialização de um país atrasado, a derrota do nazifascismo e a construção de uma potência capaz de exercer enorme influência na luta anticolonial e anti-imperialista mundial.
Reconhecer esses aspectos não significa negar os problemas existentes. Da mesma maneira, reconhecer os problemas não exige praticar uma leitura autofóbica da própria história do movimento comunista.
O desafio consiste em compreender as condições históricas, os limites, as conquistas, os erros e as contradições daquela experiência.
5. A Perestroika como conceito em disputa
Quando Gorbachev assumiu a direção soviética, em 1985, a Perestroika apareceu como uma tentativa de enfrentar problemas acumulados e renovar o funcionamento do socialismo.
Para Prestes, essa interpretação fazia sentido.
Em sua entrevista de 1990, ele demonstrava acompanhar diretamente as intervenções de Gorbachev publicadas na Pravda e recomendava sua leitura e discussão aos militantes:
“Os movimentos de greve, inclusive, o apoiam, li, há poucos dias, uma extensa intervenção política de Gorbachev no Pravda que é muito boa e muito interessante. Eu recomendo aos companheiros a sua leitura e discussão.”
Em seguida, afirmava:
“Eu acredito que as atuais transformações na União Soviética buscam corrigir erros que vinham sendo cometidos há muito tempo naquele país. […] A perestroika é uma correção desses erros.”
O CPDOC-FGV registra que Prestes compreendia a Glasnost como uma tentativa de “restaurar a democracia socialista” e a Perestroika como um processo destinado a combater a burocracia e o centralismo econômico, ampliando mecanismos de autogestão.
É importante compreender essa posição dentro do contexto da época. A Perestroika ainda não possuía o significado que adquiriria posteriormente. Para muitos comunistas, tratava-se de uma tentativa da própria União Soviética de reconhecer problemas e procurar corrigi-los.
Prestes interpretou o processo a partir dessa perspectiva. Por isso, seu apoio não deve ser confundido com adesão automática a qualquer orientação da direção soviética. Ele estava atribuindo à Perestroika um conteúdo determinado: renovação socialista, combate à burocratização e recuperação da iniciativa das massas.
6. A virada de 1988–1989 e a restauração
A partir da XIX Conferência do PCUS, em 1988, o processo entrou em nova etapa.
Prestes percebia a existência de resistências dentro do próprio partido e interpretava parte delas como expressão de setores burocráticos e conservadores:
“Mas há ainda muita resistência, mesmo no próprio CC do PCUS. Efetivamente, há ainda muito oportunismo, pois pertencer ao Partido dá muitos privilégios.”
Sua expectativa era de que a mobilização das massas pudesse impulsionar a renovação socialista:
“Há uma revolução moral e ética. Agora, a classe operária e as massas têm que tomar iniciativas. Isso é socialismo.”
A evolução posterior demonstrou que essa expectativa estava equivocada.
A Perestroika passou a incorporar mudanças políticas e econômicas que ultrapassavam o sentido de correção e renovação socialista que Prestes lhe atribuía inicialmente. O processo avançou para uma transformação das próprias bases do sistema, até desembocar na crise final da União Soviética e na restauração capitalista.
Uma análise produzida ainda durante o próprio processo é especialmente importante para compreender essa mudança. Em A URSS e a Contra-Revolução de Veludo, publicado originalmente em 1991, Ludo Martens reuniu documentação sobre os acontecimentos de 1986 a 1990 e interpretou a evolução da Perestroika como um processo que ultrapassara a reforma do socialismo e avançava para a restauração capitalista.
Martens é uma fonte politicamente situada e sua interpretação não precisa ser aceita integralmente para que sua documentação seja utilizada. O interesse de sua obra, para esta análise, está também no fato de ter sido produzida no calor dos acontecimentos, quando a direção que o processo tomaria ainda estava sendo disputada.
A documentação posterior permite compreender que a restauração não foi simplesmente o resultado inevitável de qualquer tentativa de reforma. Ela resultou de um processo histórico concreto no qual determinadas alternativas foram derrotadas. Ver: KEERAN, Roger; KENNY, Thomas. Socialismo Traído: as causas da queda da União Soviética. São Paulo: Anita Garibaldi, 2010.
7. A renovação que Prestes esperava: Gramsci, Lukács, Mészáros e Florestan
A necessidade de renovação do marxismo não nasceu com Gorbachev.
Ao longo do século XX, diferentes autores procuraram enfrentar problemas colocados pelo desenvolvimento do capitalismo, pelas experiências revolucionárias e pelas próprias dificuldades da construção socialista.
Antonio Gramsci desenvolveu uma reflexão fundamental sobre hegemonia, Estado, partido e estratégia revolucionária. Georg Lukács procurou aprofundar a compreensão da totalidade social. István Mészáros aprofundou a crítica às estruturas do capital. Florestan Fernandes, a partir da realidade brasileira, desenvolveu uma interpretação marxista da formação social, das classes e da dependência.
Essas contribuições não formam uma escola homogênea. No caso de Florestan, a aproximação com Prestes aparece explicitamente reconhecida nas fontes reunidas por Rolim. Nos demais autores, trata-se de uma aproximação teórica, de afinidades e convergências no problema da renovação do marxismo.
A renovação que Prestes acreditava ver na Perestroika correspondia, em vários aspectos, a uma preocupação mais ampla da tradição marxista: superar formas dogmáticas, enfrentar a burocratização, recuperar a iniciativa das massas e desenvolver o pensamento socialista diante de novas condições históricas. O equívoco histórico esteve em atribuir esse conteúdo à Perestroika dirigida por Gorbachev.
8. Conclusão
Não há, nas fontes analisadas, indicação de que Prestes pretendesse apoiar a restauração capitalista na URSS. O que aparece é o apoio, historicamente equivocado, ao que ele acreditava ser a vitória de uma renovação marxista e socialista dentro da União Soviética.
Sua posição não deve ser julgada como adesão consciente ao processo restauracionista, mas tampouco deve ser transformada em acerto histórico.
Prestes defendia uma renovação real do socialismo. O erro foi identificar essa renovação com a Perestroika de Gorbachev, cujo desenvolvimento acabaria contribuindo decisivamente para a restauração capitalista.
Defender criticamente a experiência soviética significa recusar tanto a hagiografia quanto a autofobia. A crítica só cumpre uma função revolucionária quando serve para compreender a derrota, preservar as conquistas e pensar as condições de renovação do socialismo.
Defender a União Soviética criticando-a não é uma contradição. É tomar a sério sua experiência histórica.
REFERÊNCIAS
CPDOC-FGV. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro: Prestes, Luís Carlos. Disponível em: https://www.fgv.br/cpdoc. Acesso em: 16 ago. 2026.
KEERAN, Roger; KENNY, Thomas. Socialismo Traído: as causas da queda da União Soviética. São Paulo: Anita Garibaldi, 2010.
MARTENS, Ludo. A URSS e a Contra-Revolução de Veludo. Bruxelas: EPO, 1991. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/martens/1991/ussr/index.htm. Acesso em: 16 ago. 2026.
PRESTES, Luiz Carlos. Carta aos Comunistas. Março de 1980.
PRESTES, Luiz Carlos. Entrevista ao programa Roda Viva. TV Cultura, 28 out. 1986.
PRESTES, Luiz Carlos. Entrevista à Revista Trilha Socialista. 22 jan. 1990.
ROLIM, Gustavo Koszeniewski (Org.). Herança, esperança e comunismo: Luiz Carlos Prestes e o movimento comunista brasileiro — documentos (1980–1995). Marília: Lutas Anticapital, 2020.
Liga Comunista Brasileira – LCB
17 de agosto de 2026