MAO ZEDONG: O CLAUSEWITZ DO SÉCULO XX
MAO ZEDONG: O CLAUSEWITZ DO SÉCULO XXMAO ZEDONG: O CLAUSEWITZ DO SÉCULO XXMAO ZEDONG: O CLAUSEWITZ DO SÉCULO XX
No texto de Luiz Eduardo Motta*, fica evidente como Mao Zedong e Clausewitz enxergam a guerra não como algo isolado, mas como parte da política. Clausewitz dizia que a guerra era uma continuação da política por outros meios, sempre subordinada ao Estado. Mao compreende essa ideia, mas muda o foco: para ele, a guerra é parte da luta de classes, não só uma ferramenta estatal. A diferença aparece logo em quem faz a guerra. Clausewitz pensava no Estado, com seus exércitos regulares. Mao coloca o povo no centro, principalmente os camponeses organizados pelo partido. Isso muda tudo: a guerra deixa de ser coisa de profissionais e vira um processo social, envolvendo as massas. Também muda a forma da guerra. Clausewitz imaginava batalhas convencionais, rápidas e decisivas. Mao aposta na guerra prolongada, na guerrilha e na mobilidade. O tempo vira arma: quanto mais longa a guerra, mais o inimigo se desgasta, e a fraqueza inicial pode virar força. O espaço ganha outro sentido. Para Clausewitz, o terreno é detalhe tático. Para Mao, o campo é estratégico e político: é ali que se criam bases revolucionárias e se organiza o apoio popular. O território deixa de ser cenário e passa a ser parte ativa da luta. Na relação entre política e guerra, Clausewitz ainda separava um pouco as duas esferas. Mao não: o exército está sob controle direto do partido, e cada ação militar deve refletir os objetivos da revolução. A guerra é política em movimento. Outro ponto é a moral e a ideologia. Clausewitz já falava da importância do ânimo das tropas, mas Mao vai além: coloca a consciência política como fator central. Disciplina e motivação ideológica são o que sustentam uma guerra longa.
Mao também pensa em cenários de desigualdade, em que forças fracas enfrentam inimigos muito mais fortes. Clausewitz partia de potências mais equilibradas. Mao transforma a assimetria em estratégia: a fraqueza inicial pode ser revertida com mobilização popular e flexibilidade. Por fim, os objetivos da guerra são diferentes. Clausewitz pensava em impor a vontade de um Estado sobre outro. Mao via a guerra como parte de um processo revolucionário, para mudar a própria estrutura social. Mao não rompe com Clausewitz, mas o adapta. Mantém a ideia de que guerra e política são inseparáveis, mas muda os fundamentos e coloca o povo como sujeito, transforma tempo e espaço em armas e redefine o objetivo como transformação social. É uma releitura criativa, feita para as condições das revoluções do século XX.
I – Mao Zedong e a teoria da guerra
O título deste artigo foi extraído de uma citação cujo autor é conhecido devido às suas posições políticas, notadamente alinhadas ao campo da direita: Carl Schmitt. No entanto, Schmitt ao escrever o seu texto -hoje um clássico –Teoria do partisan, introduziu no campo da filosofia e da ciência política uma nova problemática, até então pouco refletida, sobre o papel político do guerrilheiro. Além disso, Schmitt reconheceu a contribuição de Mao Zedong à teoria da guerra e de um novo olhar sobre a guerra de guerrilhas e da guerra popular. E essa contribuição de Mao Zedong à problemática da guerra foi um dos seus principais aspectos de sua obra que abordou desde temas filosóficos até questões concernentes às classes sociais da China, o papel do partidorevolucionário, a transição socialista, etc.
Raymond Aron chama a nossa atenção pelo desconhecimento de Mao Zedong sobre a obra de Clausewitz, pelo menos de maneira direta, possivelmente o tendo conhecido por meio das citações de Lenin (ARON, 1986: 98). Embora Aron sugira que Mao Zedong tivesse uma intimidade maior com os preceitos estabelecidos por Sun Tzu (ARON, 1986: 99), o próprio Mao Zedong afirmou que o seu conhecimento da obra do estrategista chinês era superficial, o conhecendo de modo indireto (MAO ZEDONG: 2015: 164). Isso nos leva a deduzir que boa parte da sua contribuição teórica e estratégica da guerra popular adveio da sua experiência na guerra contra o Kuomitang e os invasores japoneses. De qualquer forma, há aspectos das teses de Clausewitz presentes na obra de Mao Zedong, ainda que o líder chinês trouxesse novas contribuições à teoria da guerra.
Para Clausewitz, a arte da guerra é composta de três elementos articulados entre si: a violência, o acaso e a política. Como afirma Clausewitz “a violência constitui, portanto, o meio; o fim será impor a nossa vontade ao inimigo (CLAUSEWITZ, 1979: 73)”. Mais adiante ele destaca “a guerra é um ato de violência e não há nenhum limite para a manifestação desta violência (CLAUSEWITZ, 1979: 75)”. O acaso é para Clausewitz um dos elementos centrais da problemática da guerra. “A guerra é o domínio do acaso (CLAUSEWITZ, 1979: 107)”. A natureza pode jogar a favor ou contra determinado exército, como também a fortuna resultante de uma tomada de decisão precipitada, ou da chegada de um novo elemento imprevisível (a morte de um comandante, a exemplo do Imperador Constâncio II, no que resultou na indicação para a sua sucessão o seu primo Juliano que estava travando uma guerra contra ele pela liderança do Império romano durante o século IV). Como ele diz “nenhuma atividade humana depende tão completamente e universalmente do acaso como a guerra. O acidental e a sorte desempenham, pois, com o acaso, um grande papel na guerra (CLAUSEWITZ, 1979: 85)”.
Já o elemento político é o motor da guerra. Nenhuma guerra –seja interna ou externa-é materializada sem uma motivação política, seja de caráter geopolítico ou ideológico. Há, portanto, o primado da política sobre a arte (ou prática) da guerra. Como ele observa em Da guerra: “a guerra duma comunidade –de nações inteiras e, particularmente de nações civilizadas –surge sempre de uma situação política, e só resulta de um motivo político. Aí está por que razão a guerra é um ato político (CLAUSEWITZ, 1979: 86)”.
Mais adiante, Clausewitz enuncia a sua máxima de que a guerra é a continuação da política: “a guerra não é somente um ato político, mas um verdadeiro instrumento político, uma continuação das relações políticas, uma realização destas por outros meios (CLAUSEWITZ, 1979: 87)”.Dos três elementos centrais da guerra, é a política que Clausewitz mais destaca ao longo de sua obra. Ao abordar que a guerra é a continuação da política por outros meios no livro I (A natureza da guerra), Clausewitz retoma essa definição no livro VIII (O plano de guerra), e lhe dá destaque em várias passagens como essa que vemos a seguir: “as guerras só são, como já o dissemos, manifestações da própria política. A subordinação do ponto de vista político ao da guerra seria absurdo, visto que foi a políticaque preparou a guerra; a política é a faculdade intelectual, a guerra só é o instrumento, e não o inverso. Subordinar o ponto de vista militar ao ponto de vista político é, portanto, a única coisa que se pode fazer (CLAUSEWITZ, 1979: 739)”.
O conceito de guerra, portanto, atinge outro patamar se comparado às contribuições precedentes à obra de Clausewitz como Aarte da guerrade Sun Tzu e a A arte da guerrade Maquiavel, mais centradas nas questões estratégicas e de formação militar, ainda que os elementos implicantes da natureza na guerra estejam presentes em Sun Tzu. Mas o diferencial, a descontinuidade epistemológica de Clausewitz em relação a essas obras, é a centralidade e o primado da política sobre a guerra, o que oferece um novo campo conceitual para a problemática da guerra. Como observa precisamente André Gluksmann “em Clausewitz o campo de batalha se converte em um lugar teórico elevado (Gluksmann, 1969:33)”. Retomando a contribuição de Mao Zedong à teoria da guerra, a problemática da política ultrapassa a de Clausewitz quando aponta que o exército também exerce uma função política na prática da guerra. Raymond Aron demarca essa contribuição original de Mao Zedong em seu estudo sobre a obra de Clausewitz:
A unidade da política e da guerra, na teoria maoísta da revolução armada ou da guerra civil, ultrapassa amplamente o que Clausewitz escreveu e mesmo pensou. O exército empreende a transformação social –essência do projeto revolucionário –durante as próprias hostilidades.
A ação política e a militar se completam, se multiplicam uma pela outra, ainda que o pêndulo se arrisque sempre a tender mais para um lado do que para o outro. Quanto à dualidade, equívoca em Clausewitz, entre o objetivo militar e o fim político –inevitavelmente equívoca já que varia segundo as guerras-esta dá lugar a unidade. O aniquilamento das forças inimigas permanece sendo o fim –pela primeira vez nos dois sentidos da palavra –da guerra. Mas este aniquilamento equivale à tomada do poder pelo povo em armas ou pelas classes operárias camponesas unidas no partido comunista (ARON, 1986: 102).
Aron tem razão em sua observação quanto à contribuição original da teoria da guerra ao incorporar o papel do partido político e do exército popular como um sujeito político no processo de politização das grandes massas, algo inexistente nos exércitos modernos analisados por Clausewitz (notadamente o exército francês a despeito da sua base popular), e mesmo no campo do marxismo.
Mao Zedong introduz o princípio leninista do Partido ao exército revolucionário como centro mobilizador das massas desorganizadas em meio ao processo revolucionário.Mas antes de tratar da questão do partido e do exército revolucionário, e de sua distinção à teoria foquista guevarista, é necessário tratar das contribuições de Mao Zedong ao significado do conceito de guerra, e da relação deste com a política.
A contribuição de Mao Zedong à teoria da guerra encontra-se nos seguintes textos: “Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China (1936)”, “Problemas estratégicos da guerra de guerrilhas contra o Japão (1938)”, “Sobre a guerra prolongada (1938)”, “Problemas da guerra e da estratégia (1938)”. Há uma clara interligação entre esses quatro textos, sendo que três foram escrito no mesmo ano, em 1938. Em “Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China” é o texto em que mais fundamenta o sentido conceitual da guerra, e que nos oferece um diálogo direto com Clausewitz em seus aspectos teóricos. E, para isso, parte do ponto de vista do marxismo para analisar a problemática da guerra, pois, como ele afirma “o método marxista é ao mesmo tempo, um binóculo e um microscópio quer no plano político, quer no domínio militar (MAO ZEDONG, 2011: 371)”. Isso significa que a guerra tem de ser entendida noseu todo, e não como um aspecto meramente isolado. As leis da guerra revolucionária estão inseridas nas leis da guerra num plano geral. Como ele afirma “devemos estudar não só as leis da guerra em geral, mas também as leis específicas da guerra revolucionária e ainda as leis particularmente específicas da guerra revolucionária na China (MAO ZEDONG, 2011: 296)”.
A guerra é definida desde o surgimento da propriedade privada e das classes sociais, e assim é a forma suprema de luta para resolver as contradições, em determinada etapa do seu desenvolvimento, entre classes, nações, Estados ou grupos políticos. Esse texto embora anteceda o clássico ensaio filosófico de Mao Zedong, “Sobre a contradição” de 19372, podemos perceber a sua aplicabilidade no entendimento da sua teoria sobre a problemática da guerra. A guerra envolve um conjunto de contradições internas e externas, e esse é o ponto de partida para a compreensão do todo que envolve a guerra. Como observa Mao Zedong “a guerra revolucionária, seja uma guerra revolucionária de classe ou uma guerra revolucionária nacional, além das condições e natureza da guerra em geral tem as suas condições e natureza próprias, estando, por isso, submetida às leis da guerra em geral e, igualmente, as leis específicas (MAO ZEDONG, 2011: 297)”.
Portanto, a guerra revolucionária tem como ponto de partida uma matriz conceitual, o que vem a ser a guerra em geral que contém os conceitos de estratégia, tática, guerra de movimento,guerra de posição, etc. Todavia, esses conceitos têm de ser vistos à luz da guerra revolucionária, e na particularidade da formação social chinesa. Assim sendo, a guerra revolucionária travada na China não poderia se espelhar mecanicamente em outras experiências pretéritas, a exemplo da Revolução Russa.
Mao Zedong faz uma crítica a toda concepção mecanicista na questão da guerra na seguinte passagem:
Se encararmos o lugar onde se desenrola a guerra, cada país, cada nação, e em particular um grande país, uma grande nação, e em particular um grande país, uma grande nação, tem as suas particularidades e, por consequência, as leis da guerra em cada país, em cada nação, têm também as suas particularidades e, por consequência, as leis da guerra em cada país, em cada nação, têm também as suas particularidades, não podendo ser transpostas mecanicamente dum país para outro (MAO ZEDONG, 2011: 300)3.
Há, para Mao Zedong, em relação aos revolucionários, como também para os seus adversários, uma mudança no que concerne as técnicas, táticas e estratégias, haja vista que as condições próprias de cada guerra variam dum estágio para outro. Todas as lei decondução da guerra mudam segundo o desenvolver da História e segundo a transformação da própria guerra. Como ele próprio afirma “nada é imutável no mundo (Cf. MAO ZEDONG, 2011: 301)”.
Em sua contribuição à teoria da guerra, Mao Zedong estabelece uma distinção fundamental no conceito de guerra ao demarcar a oposição entre o que vem a ser uma guerra justa de uma guerra injusta. Como ele afirma “a guerra, esse monstro que faz com queos homens se matem, acabará por ser eliminada pelo próprio desenvolvimento da sociedade humana. (…) A História só registrou duas espécies de guerras: as guerras justas e as guerras injustas. (…) Todas as guerras contra-revolucionárias são injustas, todas as guerras revolucionárias são justas. (…) O estandarte da guerra justa da humanidade é o estandarte da salvação da humanidade (MAO ZEDONG, 2011: 302)”.
De acordo com Mao Zedong, somente com a supressão das classes e do Estado, as diversas sociedade encontrariam o caminho da paz sem as guerras. De acordo com essa passagem “ao estudarmos as leis da guerra revolucionária, nós partimos da aspiração de suprimir todas as guerras. Nisso reside a diferença entre nós, os comunistas, e os representantes de todas as classes exploradoras (MAO ZEDONG, 2011: 303)”. Essa afirmação entre as guerras justas e injustas é uma contribuição inovadora de Mao Zedong à problemática da guerra constituída por Clausewitz.
Em Clausewitz, esse conceito adquire uma neutralidade axiológica, o que inexista na teoria da guerra de Mao Zedong, já que se a guerra é a continuação da política por outros meios, isso abarca a guerra como uma luta de opressores e oprimidos, a exemplo das guerras anticoloniais de libertação nacional, como as travadas na Ásia e na África, como também a resistência às ditaduras militares na América Latina, ou contra o nazifascismo. A guerra tem uma acepção política, e também ideológica, em sua materialidade, e isso aponta o seu caráter progressista, ou não progressista.
Mao Zedong retoma a fórmula de Clausewitz de que a guerra é a continuação da política por outros meios. Como era um autor realista, Mao Zedong não exclui a violência da prática política. Como ele afirma em seu texto “A guerra prolongada”, desde os temposmais antigos, nunca houve guerra que não tivesse caráter político. É o que nos diz na seguinte passagem desse texto: Quando a política se desenvolve até uma certa etapa para além da qual já não pode prosseguir segundo os meios habituais, a guerra estala para remover da estrada política os obstáculos. (…) Quando os obstáculos são removidos e o objetivo político atingido, a guerra termina. (…) Pode portanto dizer-se que a política é guerra sem derramamento de sangue, e a guerra, a política sangrenta (MAO ZEDONG, 2011b: 242-243). Em “Relatório sobre uma investigação feita no Hunan a respeito do movimento camponês” Mao Zedong demarca claramente o papel da violência na prática política revolucionária: “uma revolução não é o convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura dum quadro ou a confecção dum bordado; ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável, tão cortês, comedida e generosa. Uma revolução é uma insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba outra (MAO ZEDONG, 2011:28)”.A política revolucionária, portanto, incorpora dentro de si a violência. A guerra revolucionária expressa materialmente a violência política. Quando se encerra o diálogo entre duas partes adversas, o recurso da violência toma o primado da prática política. E essa lição de Mao Zedong vai ser incorporada por diversas organizações revolucionárias dos chamados países do Terceiro Mundo nos anos 1960/70, principalmente a partir da perspectiva da guerra prolongada. Isso será visto a seguir na próxima parte deste texto.
Se encararmos o lugar onde se desenrola a guerra, cada país, cada nação, e em particular um grande país, uma grande nação, e em particular um grande país, uma grande nação, tem as suas particularidades e, por consequência, as leis da guerra em cada país, em cada nação, têm também as suas particularidades e, por consequência, as leis da guerra em cada país, em cada nação, têm também as suas particularidades, não podendo ser transpostas mecanicamente dum país para outro (MAO ZEDONG, 2011: 300)3. Há, para Mao Zedong, em relação aos revolucionários, como também para os seus adversários, uma mudança no que concerne as técnicas, táticas e estratégias, haja vista que as condições próprias de cada guerra variam dum estágio para outro. Todas as lei decondução da guerra mudam segundo o desenvolver da História e segundo a transformação da própria guerra. Como ele próprio afirma “nada é imutável no mundo (Cf. MAO ZEDONG, 2011: 301)”.Em sua contribuição à teoria da guerra, Mao Zedong estabelece uma distinção fundamental no conceito de guerra ao demarcar a oposição entre o que vem a ser uma guerra justa de uma guerra injusta. Como ele afirma “a guerra, esse monstro que faz com queos homens se matem, acabará por ser eliminada pelo próprio desenvolvimento da sociedade humana. (…) A História só registrou duas espécies de guerras: as guerras justas e as guerras injustas. (…) Todas as guerras contra–revolucionárias são injustas, todas as guerras revolucionárias são justas. (…) O estandarte da guerra justa da humanidade é o estandarte da salvação da humanidade (MAO ZEDONG, 2011: 302)”. De acordo com Mao Zedong, somente com a supressão das classes e do Estado, as diversas sociedade encontrariam o caminho da paz sem as guerras. De acordo com essa passagem “ao estudarmos as leis da guerra revolucionária, nós partimos da aspiração de suprimir todas as guerras. Nisso reside a diferença entre nós, os comunistas, e os representantes de todas as classes exploradoras (MAO ZEDONG, 2011: 303)”. Essa afirmação entre as guerras justas e injustas é uma contribuição inovadora de Mao Zedong à problemática da guerra constituída por Clausewitz. Em Clausewitz, esse conceito adquire uma neutralidade axiológica, o que inexista na teoria da guerra de Mao Zedong, já que se a guerra é a continuação da política por outros meios, isso abarca a guerra como uma luta de opressores e oprimidos, a exemplo das guerras anticoloniais de libertação nacional, como as travadas na Ásia e na África, como também a resistência às ditaduras militares na América Latina, ou contra o nazifascismo. A guerra tem uma acepção política, e também ideológica, em sua materialidade, e isso aponta o seu caráter progressista, ou não progressista. Mao Zedong retoma a fórmula de Clausewitz de que a guerra é a continuação da política por outros meios. Como era um autor realista, Mao Zedong não exclui a violência da prática política. Como ele afirma em seu texto “A guerra prolongada”, desde os temposmais antigos, nunca houve guerra que não tivesse caráter político. É o que nos diz na seguinte passagem desse texto: Quando a política se desenvolve até uma certa etapa para além da qual já não pode prosseguir segundo os meios habituais, a guerra estala para remover da estrada política os obstáculos. (…) Quando os obstáculos são removidos e o objetivo político atingido, a guerra termina. (…) Pode portanto dizer–se que a política é guerra sem derramamento de sangue, e a guerra, a política sangrenta (MAO ZEDONG, 2011b: 242–243). Em “Relatório sobre uma investigação feita no Hunan a respeito do movimento camponês” Mao Zedong demarca claramente o papel da violência na prática política revolucionária: “uma revolução não é o convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura dum quadro ou a
I –Mao Zedong e a teoria da guerraO título deste artigo foi extraído de uma citação cujo autor é conhecido devido às suas posições políticas, notadamente alinhadas ao campo da direita: Carl Schmitt. No entanto, Schmitt ao escrever o seu texto –hoje um clássico –Teoria do partisan, introduziu no campo da filosofia e da ciência política uma nova problemática, até então pouco refletida, sobre o papel político do guerrilheiro. Além disso, Schmitt reconheceu a contribuição de Mao Zedong à teoria da guerra e de um novo olhar sobre a guerra de guerrilhas e da guerra popular. E essa contribuição de Mao Zedong à problemática da guerra foi um dos seus principais aspectos de sua obra que abordou desde temas filosóficos até questões concernentes às classes sociais da China, o papel do partidorevolucionário, a transição socialista, etc.Raymond Aron chama a nossa atenção pelo desconhecimento de Mao Zedong sobre a obra de Clausewitz, pelo menos de maneira direta, possivelmente o tendo conhecido por meio das citações de Lenin (ARON, 1986: 98). Embora Aron sugira que Mao Zedong tivesse uma intimidade maior com os preceitos estabelecidos por Sun Tzu (ARON, 1986: 99), o próprio Mao Zedong afirmou que o seu conhecimento da obra do estrategista chinês era superficial, o conhecendo de modo indireto (MAO ZEDONG: 2015: 164). Isso nos leva a deduzir que boa parte da sua contribuição teórica e estratégica da guerra popular adveio da sua experiência na guerra contra o Kuomitang e os invasores japoneses. De qualquer forma, há aspectos das teses de Clausewitz presentes na obra de Mao Zedong, ainda que o líder chinês trouxesse novas contribuições à teoria da guerra.
II) Guerra popular prolongada e sua divergência com o foquismo
Os anos 1960 foram marcados por vários acontecimentos no campo da esquerda marxista como a vitoriosa Revolução Cubana, as lutas de libertação na África e a ruptura sino-soviética. Esses fatos incidiram num debate interno nas organizações comunistas já quegerou divergências quanto à via pacífica ao socialismo que era defendida pela União Soviética.
Tanto o sucesso da Revolução Cubana, quanto a oposição da China ao caminho pacifista defendido pela URSS, gerou uma série de rachas nos partidos comunistas em escala mundial.
A resultante disso foi a opção por dois caminhos pela via da luta armada: o foquismo inspirado na Revolução Cubana e a guerra popular prolongada de inspiração chinesa. Tomando a América Latina como exemplo, vimos o surgimento de diversas organizações reivindicando o legado dessas duas experiências revolucionárias.
Na Argentina o Partido Comunista Revolucionário (PCR) e a Vanguarda Comunista (VC) defendiam a via chinesa, enquanto os agrupamentos peronistas revolucionários como os Montoneros, Forças Armadas Peronistas (FAP) e Forças Armadas Revolucionárias (FAR), juntamente com o Exército Revolucionário do Povo (ERP), de origem trotskista, a despeito e suas diferenças, tinham como inspiração o modelo revolucionário cubano.
Já na Colômbia, o Partido Comunista-ML (marxista leninista) e o Exército Popular de Libertação (EPL) adotaram a via chinesa, enquanto o Exército de Libertação Nacional (ELN) se baseou na revolução cubana.
Já no Peru, a tendência maoísta foi constituída pela dissidência do Partido Comunista Peruano denominado de Partido Comunista do Peru (depois Peruano)-Bandera Roja (PCP-ML) e, que por sua vez, teve como dissidência o Partido Comunista do Peru-Sendero Luminoso (PCP-SL)4.
Já no Brasil, sobretudo a partir de 1964, aconteceram várias evasões no interior do Partido Comunista Brasileiro (PCB). A primeira, e que precedeu ao golpe de março de 1964, foi a do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), e que em 1965 se aproximou do Partido Comunista Chinês e começou a defender a via da guerra popular prolongada, inspirada na Revolução Chinesa.
Depois de 1964 sucederam várias dissidências no interior do PCB e as mais significativas foram a Ação de Libertação Nacional (ALN), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Essas organizações, sobretudos a ALN e o MR-8 se inspiraram no foquismo cubano. Somando a essas organizações, embora não oriunda do PCB, mas sim da Organização Revolucionária Marxista Política Operária(Polop) a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e a Vanguarda Armada Revolucionária -Palmares (VAR-Palmares) também defendiam a via foquista5.
O maoismo6, como o guevarismo, tornou-se uma referência teórica de peso para essas novas organizações. É importante destacar que o termo “maoísmo” é oriundo dessas dissidências dos Partidos Comunistas tradicionais, visto que na China o termo que se empregava (e ainda se emprega) é “Pensamento Mao Zedong”. O conceito de maoísmo tornou-se um suporte teórico e político para essas organizações que se opunham as diretrizes dos partidos comunistas vinculados ao Partido Comunista Soviético. Ademais, além da defesa da via armada inspirada na guerra popular prolongada, a emergência da Revolução Cultural na China em 1966 tornou-se um modelo de transição revolucionária a ser adotado como referência de uma experiência socialista concreta. No Brasil, além do PCdoB, outras organizações adotaram o maoismo como principal referência teórica e política. Oriundas do PCdoB vieram a Ala Vermelha (PCdoB-AV) e o Partido Comunista Revolucionário (PCR).
Contudo, a absorção do maoísmo por essas duas organizações foi de forma eclética, haja vista que a Ala Vermelha tentou fundir a guerra popular prolongada com o foquismo guevarista, enquanto o PCR se limitou a região do Nordeste brasileiro em ações de queimadas a canaviais e não adotou na prática a guerra popular prolongada.
Já a Ação Popular, de origem cristã e, posteriormente, ao incorporar o maoísmo como sua principal referência, e a despeito de apoiar a guerra popular prolongada em seu programa, não realizou nenhuma ação militar e acabou por enfatizar como sua principal prática política, inspirada na Revolução Cultura Chinesa, a de encaminhar a sua militância para as fábricas e para o campo, e, dessa forma, constituir ações políticas com o operariado e com os camponeses. Posteriormente, a maior parte da militância da AP-ML vai ser incorporada ao PCdoB. Com efeito, o PCdoB foi a única organização brasileira de inspiração maoísta que levou a cabo a estratégia da guerra popular prolongada7, ainda que não tenha sido plenamente desenvolvida durante a Guerrilha do Araguaia.
O fato é que tanto no Brasil, como em diversas formações sociais, especialmente da América Latina, travaram um debate interno de qual seria a melhor forma de estratégia de luta armada. Seria o foquismo defendido por Che Guevara (e sistematizado por Régis Debray, em seu clássico livro Revolução na revolução?), ou a guerra popular prolongada defendida por Mao Zedong em sua experiência chinesa? A tese foquista de Ernesto Che Guevara8encontra-se, sobretudo, em seu livro A guerra de guerrilhas de 1960, e em textos esparsos dos quais tratou de estratégia militar. Já o livro Revolução na revolução?de Régis Debray, publicado em 1967, sistematizou e popularizou a estratégia do foquismo, e causou bastante impacto em diversas organizações guerrilheiras na América Latina.
A tese do foquismo se baseia na afirmativa de que um foco de guerrilheiros estabelecido no campo levaria a conflagração da luta armada e, assim, a massa camponesa iria aderir à guerrilha. Desse modo, outros focos iriam se constituir nesse processo até a formação de um exército popular. Para o entendimento dessa catalisação do foco guerrilheiro atrair as massas exploradas do campesinato, temos de partir da premissa que o guerrilheiro é um ator político, o que não o confundiria com um bandoleiro9. Como observa Che Guevara “nem sempre há que se esperar que se deem todas as condições para a revolução: o foco insurrecional pode criá-las (GUEVARA, 1980: 13)”. Noutra passagem, Guevara define o caráter de vanguarda política da guerrilha: “é importante destacar que a luta guerrilheira é uma luta de massas, é uma luta popular: a guerrilha como núcleo armado, é a vanguarda combatente do mesmo, sua grande força reside na massa da população (GUEVARA, 1980: 15)”.
Mais adiante, Guevara define o papel político do guerrilheiro: “teremos que chegar à conclusão inevitável de que o guerrilheiro é um reformador social que empunha as armas respondendo ao protesto irado do povo contra os seus opressores e que luta para mudar o regime social que mantém todos seus irmãos desarmados na ignonímia e na miséria. (…) o guerrilheiro é antes de tudo um revolucionário agrário, interpreta os desejos da grande massa camponesa de ser dona da terra, dona de seus meios de produção (GUEVARA, 1980: 16)”. A guerra de guerrilhas, para Guevara, é a vanguarda política por excelência. Ela é quem cria as condições subjetivas de cunho revolucionário para a massa camponesa, e com o objetivo da tomada de poder. Nesse aspecto, encontramos em Guevara o primado das ações guerrilheiras na formação de uma consciência revolucionária nas massas, e substituindo o partido revolucionário.
E é em Debray que encontramos uma crítica mais contundente às organizações partidárias revolucionárias. Para Debray, a organização guerrilheira tem de ser desvinculada do partido político para garantir a autonomia de suas ações no campo. Como ele adverte nessa passagem: “situar a guerrilha sob a dependência estratégica e tática de um partido que não transforma radicalmente a sua organização normal em tempos de paz, ou situar a guerrilha como uma ramificação da ação do Partido, traz como consequência uma série de erros militares mortais (DEBRAY, s/d: 80)”. Com efeito, Debray radicaliza a identidade da guerrilha com a política. A guerra de guerrilhas é a própria materialidade da política em ações armadas. Há o primado da ação militar sobre a ação política no sentido estrito do conceito.
Daí ser problemática, no seu entender, a subordinação da luta armada guerrilheira ao partido político externo à ação guerrilheira, pelo menos no caso da América Latina. Podemos perceber isso nas seguintes passagens de seu opúsculo: A guerra de guerrilhas é a essência política e que, não se pode, pois, opor o político ao militar. (…) na América Latina de hoje, não se concebe como uma direção política possa ser estranha aos problemas técnicos de guerra, e como se possa conceber um quadro político que não seja ao mesmo tempo um quadro militar. (…) está provado que a experiência da guerrilha popular é mais decisiva que uma experiência política sem contato com a guerrilha para a formação de quadros revolucionários. (…) É ridículo continuar opondo “quadros políticos” e “quadros militares”, “direção política” e “direção militar”. “Políticos” puros – que querem continuar a sê-lo –não servem para dirigir a luta armada do povo, os “militares puros” que dirijam uma guerrilha e que vivam convertem-se em “políticos” também. (DEBRAY, s/d: 69-71).
Para a perspectiva do foquismo é por meio da guerrilha que se formará o partido revolucionário, uma posição oposta ao leninismo na qual dá o primado do partido político, como também da guerra popular prolongada de Mao Zedong. Como afirma peremptoriamente Debray: Não há opção entre partido de vanguarda e exército popular. Mas, de imediato, há uma hierarquia de tarefas, historicamente fundamentada. A guerrilha é a vanguarda política “in nuce”, e apenas do seu desenvolvimento pode surgir o Partido. Por isso é precisodesenvolver a vanguarda política. Por isso, a conjuntura, a tônica principal deve recair no desenvolvimento da guerra de guerrilhas e não no fortalecimento dos partidos e nem na criação de outros (DEBRAY, s/d: 94-95).
A tese da guerra popular prolongada é completamente adversa à tese foquista no tocante ao primado do partido político revolucionário sobre a guerrilha. Ainda que haja concordâncias entre ambas as perspectivas quanto ao papel da violência política10, há diferenças no entendimento do comando da guerrilha e da guerra popular. Se para Guevara a guerrilha é o núcleo formador do exército revolucionário, para Mao Zedong há uma articulação das ações guerrilheiras com o Exército Vermelho, e o escopo é o crescimento deste num exército regular embora não dispense às ações da guerrilha11.
Ademais, para Mao Zedong é o partido revolucionário quem dirige a guerra popular. A guerrilha é, de fato, uma vanguarda política, mas dirigida por outra vanguarda política com maior peso em termos de dimensão nacional, que é o partido comunista.O partido comunista, obviamente, tem várias formas de ação, sejam legais ou ilegais. Mas no caso chinês não havia outra alternativa desde a reviravolta do Kuomitang sobre o PCCh seguido pela invasão japonesa12.
Como destaca Mao Zedong em Problemas da guerra e da estratégia: A tarefa fundamental do Partido Comunista não é a de passar por um longo período de lutas legais antes de desencadear a insurreição e a guerra, nem a de ocupar primeiro as cidades e depois o campo, mas sim proceder da maneira inversa. (…) Na China, a forma principal de luta é a guerra e a forma principal de organização é o exército. Todas as outras formas, tais como organização de massas e luta de massas, são extremamente importantes e absolutamente indispensáveis e em nenhuma circunstância devem ser descuradas, mas todas estão subordinadas aos interesses da guerra. (MAO ZEDONG, 2011b: 359-360).
O partido revolucionário não se restringe apenas na direção da guerra popular prolongada, mas também em tecer -de acordo com a conjuntura –o maior conjunto de alianças políticas para o apoio da luta armada. Esse tipo de função nem sempre foi bem sucedido pela guerrilha foquista (salvo o caso cubano) mediante a dificuldade de conto com o exterior (vide o caso da guerrilha boliviana executada por Che Guevara). De qualquer forma, a luta armada era o centro das ações do PCCh nesse contexto e a sua prática política principal. Como observa Mao Zedong “sem luta armada não haveria lugar na China para o proletariado e para o Partido Comunista e seria impossível cumprir-se qualquer tarefa revolucionária (MAO ZEDONG, 2011b: 362)”.
Os limites do foquismo, como vistos em suas experiências não bem-sucedidas, além de negligenciar o papel do partido político revolucionário tinha como uma “crença” a adesão espontânea do campesinato a partir das suas ações militares de cunho político revolucionário. Numa carta dirigida a seu ex-alunoRégis Debray, LouisAlthusser concorda com a justa crítica de Debray ao que ele denomina de “metafísica trotskista”, pois estes estão continuamente “fora de toda e qualquer história”, já que o conceito de revolução permanente considera que “qualquer camponês e qualquer operário como socialistas por essência, o fato de crer que bastará uma greve geral insurrecional para tomar o poder”, completamente fora da história (in DEBRAY, 1974: p. 263).
A tese do foquismo se baseia na afirmativa de que um foco de guerrilheiros estabelecido no campo levaria a conflagração da luta armada e, assim, a massa camponesa iria aderir à guerrilha. Desse modo, outros focos iriam se constituir nesse processo até a formação de um exército popular. Para o entendimento dessa catalisação do foco guerrilheiro atrair as massas exploradas do campesinato, temos de partir da premissa que o guerrilheiro é um ator político, o que não o confundiria com um bandoleiro9. Como observa Che Guevara “nem sempre há que se esperar que se deem todas as condições para a revolução: o foco insurrecional pode criá–las (GUEVARA, 1980: 13)”. Noutra passagem, Guevara define o caráter de vanguarda política da guerrilha: “é importante destacar que a luta guerrilheira é uma luta de massas, é uma luta popular: a guerrilha como núcleo armado, é a vanguarda combatente do mesmo, sua grande força reside na massa da população (GUEVARA, 1980: 15)”. Mais adiante, Guevara define o papel político do guerrilheiro: “teremos que chegar à conclusão inevitável de que o guerrilheiro é um reformador social que empunha as armas respondendo ao protesto irado do povo contra os seus opressores e que luta para mudar o regime social que mantém todos seus irmãos desarmados na ignonímia e na miséria. (…) o guerrilheiro é antes de tudo um revolucionário agrário, interpreta os desejos da grande massa camponesa de ser dona da terra, dona de seus meios de produção (GUEVARA, 1980: 16)”. A guerra de guerrilhas, para Guevara, é a vanguarda política por excelência. Ela é quem cria as condições subjetivas de cunho revolucionário para a massa camponesa, e com o objetivo da tomada de poder. Nesse aspecto, encontramos em Guevara o primado das ações guerrilheiras na formação de uma consciência revolucionária nas massas, e substituindo o partido revolucionário.E é em Debray que encontramos uma crítica mais contundente às organizações partidárias revolucionárias. Para Debray, a organização guerrilheira tem de ser desvinculada do partido político para garantir a autonomia de suas ações no campo. Como ele adverte nessa passagem: “situar a guerrilha sob a dependência estratégica e tática de um partido que não transforma radicalmente a sua organização normal em tempos de paz, ou situar a guerrilha como uma ramificação da ação do Partido, traz como consequência uma série de erros militares mortais (DEBRAY, s/d: 80)”. Com efeito, Debray radicaliza a identidade da guerrilha com a política. A guerra de guerrilhas é a própria materialidade da política em ações armadas. Há o primado da ação militar sobre a ação política no sentido estrito do conceito. Daí ser problemática, no seu entender, a subordinação da luta armada guerrilheira ao partido político externo à ação guerrilheira, pelo menos no caso da América Latina. Podemos perceber isso nas seguintes passagens de seu opúsculo: A guerra de guerrilhas é a essência política e que, não se pode, pois, opor o político ao militar. (…) na América Latina de hoje, não se concebe como uma direção política possa ser estranha aos problemas técnicos de guerra, e como se possa conceber um quadro político que não seja ao mesmo tempo um quadro militar. (…) está provado que a experiência da guerrilha popular é mais decisiva que uma experiência política sem contato com a guerrilha para a formação de quadros revolucionários. (…) É ridículo continuar opondo “quadros políticos” e “quadros militares”, “direção política” e “direção militar”. “Políticos” puros –que querem continuar a sê–lo –não servem para dirigir a luta armada d