Por Amauri Soares
Acabou a Copa do Mundo, e a gente se depara já com esse gosto de nostalgia, essa sensação de que vai demorar para começar a próxima. Aquele mundo encantado, de quatro jogos de futebol por dia, reunindo os melhores do mundo, com velhos conhecidos, mas também com extraordinárias novidades, só daqui a quatro anos, se a humanidade resistir ao assédio crescente dos criadores de guerras e destruição.
Aí dirão que é um sentimento típico dos inocentes, dos ingênuos, dos que se deixaram engolir pela política do pão e do circo, dos que são presas fáceis dos interesses comerciais, dos monopólios econômicos, massa de manobra de regimes nefastos, das ideologias anti povo.
E cá, nós sabemos que prevalecem interesses comerciais, que alguns monopólios acumulam ainda mais com a Copa, que chefes de regimes infames se aproveitam para seu proselitismo com cheiro de enxofre.
Mas perguntamos: onde mesmo na sociedade capitalista não aparecem os parasitas do mercado atrás de sugar para si tudo que podem? Em que lugar da sociedade atual as regras não são aquelas dos monopólios cada vez mais poderosos. Onde no mundo não tem reaparecido o bafo envenenado do fascismo?
O futebol e os povos não têm culpa se a sociedade está submetida a tantos tipos de bichos peçonhentos. Nossa tarefa de revolucionários/as é também salvar o futebol e todos os outros esportes das iniquidades que têm nos assolado.
É repugnante ver Donald Trump entregando as medalhas e o troféu aos campeões, lisonjeado que foi em tudo ao longo desse ciclo pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino. Os usurpadores da glória alheia devem ser renegados, vaiados, e, quando possível, julgados e punidos.
Mas os povos e o futebol, a Copa do Mundo, não devem ser julgados pela nossa incapacidade de fazer justiça contra nossos algozes, os usurpadores e traficantes do suor alheio.
A Espanha é campeã da Copa do Mundo de 2026, com todo mérito. Engoliu quase todas as seleções que enfrentou, e só tomou um gol em todos os jogos da Copa. Nem a Argentina e nem a poderosa França conseguiram jogar contra a seleção espanhola, não porque seus jogadores estavam em dia ruim, mas sim porque a Espanha não os deixou jogar. Aqui também, como em tudo, dialética pura: tudo que é, o é em relação ao seu oposto. Então não foram a Argentina e a França que abdicaram de jogar; foi a Espanha que não as deixou jogar.
E esse texto é para dizer o que segue: a campeã do mundo não conseguiu vencer Cabo Verde, que lhe arrancou um empate em sua primeira partida em Copa do Mundo. E futebol é isso; o inesperado acontece!
Esse texto é para dizer que futebol, esporte em geral, e Copa do Mundo, é união de povos, é aprendizado, é troca de cultura, é humanização do mundo que o capitalismo e seus sicários tanto fazem para submeter, embrutecer e parasitar.
É fato que para nós a Copa de 2026 perdeu a graça logo cedo, quando, num jogo feio e pobre de espírito, nossa seleção foi eliminada lá longe, nas oitavas de final. E ficou mais chata ainda quando os outros latino-americanos e os africanos também ficaram pelo caminho. As semifinais com três seleções europeias e a Argentina já eram, para a maioria de nós brasileiros, um desalento. Mas fomos olhando porque o bom futebol não tem culpa nem dos governantes do passado e nem dos governantes do presente, embora seja sempre um bálsamo vingar as Malvinas.
O futebol e a Copa do Mundo é um enorme, talvez o maior, espaço de afirmação de identidades nacionais. Não falo do ufanismo dos ricos, e sim da visibilidade dos pobres, da raiz dos povos, lá do lugar de onde vieram os meninos pobres que não esqueceram seu passado e seus iguais. Curaçao e Cabo Verde hoje, assim como o Brasil na metade do século passado, se tornaram países e povos conhecidos para as maiorias do mundo através do futebol jogado nas copas do mundo.
A Copa do Mundo de 2026 foi absurdamente cara, acessível apenas para pessoas efetivamente ricas. É um fato lamentável! Mas é lamentável também que todos os dias o futebol em todos os lugares tem se tornado caro. Nos nossos estádios, cada vez mais, só a classe média tem acesso. A maioria dos torcedores, que são a maioria do povo, só consegue ir se abdicar de comer direito, de pagar a conta de luz ou o aluguel. O futebol se tornou caro para os meninos pobres da periferia, pois se extinguem os espaços públicos para jogar futebol, só se aprende em escolinhas pagas, falta dinheiro para comprar as chuteiras caras de hoje. Com 15 ou 16 anos, a sociedade e as famílias cobram que os adolescentes parem de jogar futebol para arrumar algum trabalho remunerado, invariavelmente, muito mal remunerado. A maioria dos que seriam nossos futuros craques não passam pela peneira da desigualdade social brasileira num tempo em que o futebol se tornou um ativo que requer retorno financeiro em curto prazo para seus gestores.
Mas apesar de tudo e apesar de tantos atravessadores, a Copa de 2026 valeu por muitos motivos, e cito especialmente dois: milhões de crianças, adolescentes, jovens e adultos agora sabem que Curaçao é um país de apenas 160 mil pessoas que é nosso vizinho ao norte, no mar do Caribe. Sabem também que Cabo Verde é um país menor que muitas das cidades brasileiras, um país da África composto por um arquipélago no meio do Oceano Atlântico, um país formado por um povo que fala português e tem muito de história e de cultura em comum com o povo do único país que já ganhou cinco copas do mundo.
E a próxima Copa já começou, em cada bairro, vila e favela, em cada rua onde um, dois ou três meninos brincam e sonham em torno de uma bola, mesmo sem chuteiras.
E no ano que vem tem Copa do Mundo Feminina, no Brasil. O desfile glorioso de mulheres quase todas vindas das periferias, a exaltar suas origens, a bradar contra o feminicídio, a exigir igualdade para as mulheres em geral.
Apesar dos nossos inimigos, que são os inimigos da igualdade entre os seres humanos, o futebol e a Copa do Mundo são também os nossos gritos de resistência. E um dia venceremos!
Liga Comunista Brasileira – LCB
21 de julho de 2026